VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE LEÃO XIV
À ARGÉLIA, CAMARÕES, ANGOLA E GUINÉ EQUATORIAL
(13 – 23 de abril de 2026)

6º DIA

Sábado, 18 de abril de 2026

SANTA MISSA

HOMILIA DO SANTO PADRE

Aeroporto de Yaoundé-Ville
Sábado, 18 de abril de 2026

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Queridos irmãos e irmãs, que a paz esteja convosco! A paz de Cristo, cuja presença ilumina o nosso caminho e acalma as tempestades da vida.

Celebramos esta Santa Missa ao final da minha visita aos Camarões, e agradeço-vos muito pela forma como me acolhestes e pelos momentos de alegria e de fé que vivemos juntos.

Como ouvimos no Evangelho, a fé não nos poupa de agitações e tribulações e, em certos momentos, pode parecer que o medo prevalece. Sabemos, porém, que mesmo nessas circunstâncias, tal como aconteceu aos discípulos no mar da Galileia, Jesus não nos abandona.

Três evangelistas relatam o episódio que acabámos de ouvir, cada um à sua maneira, com uma mensagem diferente, de acordo com os leitores a quem se dirigem. São Marcos (cf. 6, 45-52) apresenta o Senhor que se junta aos discípulos, enquanto estes remam com dificuldade devido ao vento contrário, que, no entanto, se acalma assim que Ele entra com eles no barco. São Mateus (cf. 14, 22-33) acrescenta um pormenor: Pedro quer ir ter com o Mestre caminhando sobre as ondas. Contudo, assim que desce do barco, deixa-se dominar pelo medo e começa a afundar. Cristo agarra-o pela mão, salva-o e repreende-o pela sua incredulidade.

Na versão de São João, que hoje foi proclamada (cf. Jo 6, 16-21), o Salvador, caminhando sobre as águas, aproxima-se dos discípulos e diz: «Sou Eu, não tenhais medo!» (v. 20), e o Evangelista sublinha que «já tinha escurecido» (v. 18). Para a tradição judaica, as “águas”, com a sua profundidade e o seu mistério, evocam frequentemente o mundo dos infernos, o caos, o perigo, a morte. Evocam, a par das trevas, as forças do mal, que o homem, por si só, não pode dominar. Ao mesmo tempo, porém, na memória dos prodígios do Êxodo, são também percebidas como um lugar de passagem, uma travessia através da qual Deus, com poder, liberta o seu povo da escravidão.

No seu navegar ao longo dos séculos, a Igreja enfrentou, tantas vezes, tempestades e “ventos contrários”; e também nós podemos identificar-nos com os sentimentos de medo e dúvida que os discípulos experimentaram durante a travessia do lago de Tiberíades. É o que sentimos nos momentos em que, oprimidos por forças adversas, nos parece que estamos a submergir, quando tudo parece ser sombrio e nos sentimos sozinhos e fracos. Mas não é assim. Jesus está sempre conosco, mais forte do que qualquer poder do mal; em cada tormenta, Ele chega até nós e repete: “Eu estou aqui contigo: não tenhas medo”. Por isso, levantamo-nos após cada queda e não nos deixamos deter por nenhuma tempestade, mas seguimos em frente, com coragem e confiança, sempre. E é graças a Ele que, como dizia o Papa Francisco, tantos «homens e mulheres […] honram o nosso povo, honram a nossa Igreja […]: fortes ao levar em frente a própria vida, a própria família, o seu trabalho, a sua fé» (Catequese, 14 de maio de 2014, 2).

Jesus aproxima-se de nós: não acalma imediatamente as tempestades, mas vem ao nosso encontro no meio dos perigos, convidando-nos também a permanecermos juntos e solidários, nas alegrias e nas dores, como os discípulos, na mesma barca; a não olhar de longe para quem sofre, mas a aproximar-nos e a unir-nos uns aos outros. Ninguém deve ser deixado sozinho a enfrentar as adversidades da vida, e, para tal, cada comunidade tem a tarefa de criar e apoiar estruturas de solidariedade e de ajuda mútua nas quais, perante as crises – sejam elas sociais, políticas, sanitárias ou económicas – todos possam dar e receber ajuda, de acordo com as suas capacidades e segundo as suas necessidades. As palavras de Jesus, “sou Eu”, recordam-nos que, numa sociedade fundada no respeito pela dignidade da pessoa, a contribuição de todos é importante e tem um valor único, independentemente do status ou da posição de cada um aos olhos do mundo.

A exortação “não tenhais medo” assume, assim, uma dimensão ampla, também a nível social e político, como encorajamento para enfrentar problemas e desafios – particularmente aqueles ligados à pobreza e à justiça – em conjunto, com sentido cívico e responsabilidade civil. A fé não separa o espiritual do social; pelo contrário, dá ao cristão a força para interagir com o mundo, a fim de responder às necessidades dos outros, especialmente dos mais fracos. Para a salvação de uma comunidade, não bastam os esforços individuais e isolados dos indivíduos: é necessária uma decisão comum, que integre a dimensão espiritual e ética do Evangelho no coração das instituições e das estruturas, tornando-as instrumentos para o bem comum, e não locais de conflito, de interesse ou palco de lutas estéreis.

Fala-nos disso a primeira leitura (cf. Act 6, 1-7), na qual vemos como a Igreja enfrenta a sua primeira crise de crescimento. O rápido aumento do número de discípulos (v. 1) implica novos desafios para a comunidade no exercício da caridade, aos quais os Apóstolos já não conseguem fazer face sozinhos. Alguns são negligenciados no serviço das mesas, e por isso o murmúrio cresce e um sentimento de injustiça ameaça a unidade. O serviço diário aos pobres era uma prática essencial na Igreja primitiva e visava apoiar os mais frágeis, em particular os órfãos e as viúvas. Porém, era preciso completá-lo às necessidades do anúncio e do ensino, que também eram prementes, e a solução não era simples. Os Apóstolos, então, reuniram-se, partilharam as preocupações, confrontaram-se à luz dos ensinamentos de Jesus e rezaram juntos, conseguindo superar obstáculos e incompreensões que, à primeira vista, pareciam insuperáveis. Deste modo, deram vida a algo novo, escolhendo homens de «boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria» (v. 3), e destinando-os, mediante a imposição das mãos, a um serviço prático que era também uma missão espiritual. Ao escutarem a voz do Espírito Santo e ao estarem atentos ao clamor dos que sofrem, não só evitaram uma divisão interna na comunidade, como também a dotaram, por inspiração divina, de novos e adequados instrumentos para o seu crescimento, transformando um momento de crise numa oportunidade de enriquecimento e desenvolvimento para todos.

Por vezes, também a vida de uma família e de uma sociedade exige isto: a coragem de mudar hábitos e estruturas, para que a dignidade da pessoa permaneça sempre no centro e se superem as desigualdades e a marginalização. Afinal, ao tornar-se homem, Deus identificou-se com os últimos, e isto torna a atenção preferencial aos pobres uma opção fundamental para a nossa identidade cristã (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 198; Exort. ap. Dilexi te, 16-17).

Irmãos e irmãs, despedimo-nos hoje. Cada um regressa às suas ocupações habituais e a barca da Igreja prossegue, pela graça de Deus e com o empenho de todos, o seu percurso rumo ao destino. Conservemos viva no coração a recordação dos lindos momentos que vivemos juntos; mesmo no meio das dificuldades, continuemos a dar espaço a Jesus, deixando-nos iluminar e recriar cada dia pela sua presença. A Igreja camaronense é viva, jovem, rica de dons e entusiasmo, vibrante na sua diversidade e maravilhosa na sua harmonia. Com a ajuda da Virgem Maria, nossa Mãe, fazei florescer cada vez mais a vossa presença festiva; e fazei com que mesmo os ventos contrários, que nunca faltam na vida, se tornem oportunidades de crescimento no serviço alegre a Deus e aos irmãos, na partilha, na escuta, na oração e no desejo de crescer juntos.

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Agradecimento do Santo Padre no final da Santa Missa

Caríssimos irmãos e irmãs, com esta celebração conclui-se a minha visita aos Camarões. Agradeço de coração ao senhor Arcebispo e a todos os Pastores da Igreja deste país.

Renovo a minha gratidão às autoridades civis e a todos aqueles que colaboraram na preparação e organização de tudo.

Obrigado a todos, de modo especial aos doentes e aos idosos, bem como às monjas, que ofereceram as suas orações.

Povo de Deus que viveis e caminhais nos Camarões, não temais! Permanecei firmemente unidos a Cristo Senhor! Com a força do seu Espírito, sereis sal e luz desta terra! Muito obrigado!

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PALAVRAS DO SANTO PADRE
AOS JORNALISTAS DURANTE O VOO COM DESTINO A LUANDA

Sábado, 18 de abril de 2026

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Papa Leão XIV:

BuongiornoBonjour. Bom dia a todos. Ou melhor, boa tarde. Espero que tenhais tido uma boa estadia nos Camarões. Como bem sabeis, estamos agora a caminho de Angola.

Por um lado, a visita aos Camarões foi muito significativa, pois, sob muitos aspetos e de várias formas, este país representa o coração de África, é tanto anglófono como francófono e conta com cerca de 250 línguas locais e etnias. Ao mesmo tempo, ele possui uma grande riqueza, grandes oportunidades, mas também a dificuldade que tantas vezes encontramos em toda a África de uma distribuição desigual da riqueza. Pessoalmente, fiquei muito satisfeito: como sabeis, iniciámos a viagem na Argélia com o tema de Santo Agostinho e, ontem, na Universidade Católica, teve lugar a bênção do bonito monumento que tinham preparado com o mapa de África e Santo Agostinho no centro. E isso, de certa forma, expressa parte do que esta viagem significa.

Venho à África, em primeiro lugar, como pastor, como responsável pela Igreja Católica, para estar próximo aos católicos de toda a África, para celebrar com eles, para os encorajar e acompanhar. No entanto, há, evidentemente, outras dimensões nesta visita. Tive um encontro muito agradável com um grupo de Imãs nos Camarões para promover – continuar a promover, tal como já fizemos noutros lugares e tal como o Papa Francisco fez durante o seu pontificado – o diálogo, a fraternidade, através da compreensão, da aceitação e da construção da paz com pessoas de todas as religiões.

Ao mesmo tempo, tem havido uma certa narrativa que não tem sido rigorosa em todos os seus aspetos, e que surgiu devido à situação política criada quando, no primeiro dia da viagem, o Presidente dos Estados Unidos fez algumas observações a meu respeito. Muito do que tem sido escrito desde então tem consistido numa série de comentários sobre comentários, tentando interpretar o que foi dito.

Apenas um pequeno exemplo: o discurso que proferi no encontro de oração pela paz há alguns dias foi preparado duas semanas antes, muito antes de qualquer comentário do Presidente sobre mim e sobre a mensagem de paz que estou a promover. No entanto, acabou por ser interpretado como se eu estivesse a tentar polemizar com o Presidente, o que não é minimamente do meu interesse. Assim, avançamos com a nossa viagem, continuamos a proclamar a mensagem evangélica, e o texto do Evangelho que temos vindo a utilizar nas liturgias apresenta uma série de aspetos diferentes, fantásticos e maravilhosos sobre o que significa ser cristão, sobre o que significa seguir Cristo, sobre o que significa promover a fraternidade, o ser irmãos, a confiança no Senhor, mas também procurar formas de promover a justiça e a paz no nosso mundo.

Com isso, tenho o gosto de saudar-vos e agradecer-vos pelo trabalho que estais a realizar, e espero que o Senhor continue a abençoar-nos a todos nesta viagem. Muito obrigado.

Um jornalista dos Camarões [em francês]:

Algumas palavras em francês? Sim, obrigado, muito obrigado, Vossa Santidade. Gostaria de ouvir algumas palavras suas em francês, uma vez que os Camarões são um país onde se fala duas línguas. Eu trabalho para a televisão nacional dos Camarões.

Papa Leão XIV:

Gostaria apenas de agradecer às pessoas dos Camarões pelo maravilhoso acolhimento, pelo grande entusiasmo e pela alegria do povo. Foi absolutamente fantástico. A experiência de uma comunidade de fé que realmente descobriu, no entusiasmo partilhado, por assim dizer, como é maravilhoso viver o que significa ser discípulos de Jesus Cristo e celebrar em conjunto a nossa fé. E esse entusiasmo esteve muito presente nos Camarões. Estou muito feliz por ter feito esta experiência e por ter acompanhado todo o vosso povo durante estes dias.

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ENCONTRO COM AS AUTORIDADES, A SOCIEDADE CIVIL E O CORPO DIPLOMÁTICO

DISCURSO DO SANTO PADRE

Palácio Presidencial, Luanda
Sábado, 18 de abril de 2026

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Senhor Presidente,
Distintas Autoridades e membros do Corpo Diplomático,
Senhoras e Senhores!

É para mim motivo de grande alegria estar entre vós. Obrigado, Senhor Presidente, pelo convite para visitar Angola e pelas palavras de boas-vindas. Venho até vós para encontrar o vosso povo, como um peregrino que procura os sinais da passagem de Deus por esta terra que Ele ama.

Antes de prosseguir, gostaria de assegurar a minha oração pelas vítimas das fortes chuvas e inundações que atingiram a província de Benguela, bem como expressar a minha proximidade com as famílias que perderam suas casas. Sei também que vós, angolanos, estais unidos em uma grande corrente de solidariedade em favor dos atingidos.

Desejo encontrar-vos na gratuidade da paz e constatar que o vosso povo possui tesouros que não se vendem nem se roubam. Em particular, possui em si uma alegria que nem mesmo as circunstâncias mais adversas conseguiram extinguir. Essa alegria, que também conhece a dor, a indignação, as desilusões e as derrotas, resiste e regenera-se entre aqueles que mantiveram o coração e a mente livres do engano da riqueza. Vós sabeis bem que, demasiadas vezes, se olhou e se olha às vossas terras para dar ou, mais frequentemente, para tirar algo. É necessário quebrar esta cadeia de interesses que reduz a realidade e a própria vida a uma mera mercadoria.

A África é, para o mundo inteiro, uma reserva de alegria e esperança, que eu não hesitaria em definir como virtudes “políticas”, porque os seus jovens e os seus pobres ainda sonham, ainda esperam, não se contentam com o que já existe, desejam reerguer-se, preparar-se para grandes responsabilidades, empenhar-se em primeira pessoa. Com efeito, a sabedoria de um povo não se deixa esmorecer por nenhuma ideologia e, realmente, o desejo de infinito que habita o coração humano é um princípio de transformação social mais profundo do que qualquer programa político ou cultural. Estou aqui, entre vós, ao serviço das melhores forças que animam as pessoas e as comunidades de que Angola é um mosaico muito colorido. Desejo ouvir e encorajar aqueles que já escolheram o bem, a justiça, a paz, a tolerância e a reconciliação. Ao mesmo tempo, com milhões de homens e mulheres de boa vontade que constituem a principal riqueza deste país, pretendo também invocar a conversão dos que, escolhendo caminhos opostos, impedem o seu desenvolvimento harmonioso e fraterno.

Caríssimos, referia-me às riquezas materiais nas quais, inclusivamente no vosso país, interesses prepotentes põem as mãos. Quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarreta esta lógica extrativista! Em todas as partes do mundo, vemos como ela, no fundo, alimenta um modelo de desenvolvimento que discrimina e exclui, mas que ainda pretende impor-se como o único possível. O santo Papa Paulo VI, interpretando de forma penetrante as inquietudes do mundo juvenil, denunciava já há sessenta anos «o aspeto senil – totalmente anacrónico – de uma civilização comercial, hedonista, materialista, que ainda tenta passar por portadora do futuro». E observava: «Contra esta ilusão, a reação instintiva de numerosos jovens, apesar dos seus excessos, expressa um valor real. Esta geração aguarda outra coisa» (Exort. ap. Gaudete in Domino, VI). Graças a sabedorias muito antigas que alimentam o vosso pensar e o vosso sentir, vós sois testemunhas de que a criação é harmonia na riqueza da diversidade. Sempre que essa harmonia foi violada pela prepotência de alguns, o vosso povo sofreu. Ele traz as cicatrizes tanto da exploração material como da pretensão de impor uma ideia sobre outras. A África tem uma necessidade urgente de superar situações e fenómenos de conflitualidade e inimizade, que dilaceram o tecido social e político de tantos países, fomentando a pobreza e a exclusão. Somente no encontro a vida floresce. No princípio, está o diálogo. Ele não exclui a divergência, que contudo pode tornar-se conflito.

O meu venerado predecessor, Papa Francisco, ofereceu-nos uma interpretação inolvidável: «Perante o conflito, alguns limitam-se a olhá-lo e passam adiante como se nada fosse, lavam-se as mãos para poder continuar com a sua vida. Outros entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte, projectam nas instituições as suas próprias confusões e insatisfações e, assim, a unidade torna-se impossível. Mas há uma terceira forma, a mais adequada, de enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo. «Felizes os pacificadores» (Mt 5, 9)» (Exort. ap. Evangelii gaudium227). Angola pode crescer muito, se, em primeiro lugar, vós, que detendes autoridade no país, acreditardes na multiformidade da sua riqueza. Não temais as divergências, nem extingais as visões dos jovens e os sonhos dos idosos. Sabei, sim, gerir conflitos, transformando-os em caminhos de renovação. Colocai o bem comum acima do das partes, não confundindo nunca a vossa parte com o todo. Então, a história dar-vos-á razão, mesmo que, no imediato, alguns vos sejam hostis.

Referi-me à alegria e à esperança como características da vossa jovem sociedade. Normalmente, consideram-se sentimentos pessoais, privados. No entanto, elas são uma força intensa e expansiva, que contraria toda a resignação e a tentação de se fechar. Os déspotas e os tiranos do corpo e do espírito pretendem tornar as almas passivas e os ânimos tristes, propensos à inércia, dóceis e subjugados ao poder. Na tristeza, com efeito, ficamos à mercê dos nossos medos e fantasmas, refugiamo-nos no fanatismo, na submissão, no ruído mediático, na miragem do ouro, no mito identitário. O descontentamento, o sentimento de impotência e de desenraizamento separam-nos, em vez de nos colocarem em relação, difundindo um clima de estraneidade em relação aos assuntos públicos, desprezo perante a desgraça alheia e a negação de todo o tipo de fraternidade. Tal incongruência desagrega as relações fundamentais que cada um mantém consigo mesmo, com os outros e com a realidade. Como também observou o Papa Francisco: «A melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores. Usa-se hoje, em muitos países, o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar» (Carta enc. Fratelli tutti, 15).

Desta alienação, liberta-nos a verdadeira alegria, que não por acaso a fé reconhece ser um dom do Espírito Santo. Como escreveu São Paulo, «onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade» (2 Cor 3, 17). A alegria é, efetivamente, o que intensifica a vida e impulsiona para o campo aberto da socialidade: cada um se alegra fazendo frutificar as suas capacidades relacionais, percebendo que contribui para o bem comum e vendo-se reconhecido como pessoa única e digna, numa comunidade de encontros que se multiplicam e ampliam o espírito. A alegria sabe traçar trajetórias mesmo nas regiões mais sombrias de estagnação e angústia. Caríssimos, examinemos, pois, o nosso coração, porque sem alegria não há renovação; sem interioridade não há libertação; sem encontro não há política; sem o outro não há justiça.

Juntos, podeis fazer de Angola um projeto de esperança. A Igreja Católica, cuja obra de serviço ao país sei o quanto estimais, deseja ser fermento na massa e promover o crescimento de um modelo justo de convivência, livre das escravidões impostas por elites com muito dinheiro e falsas alegrias. Só juntos poderemos multiplicar os talentos deste povo maravilhoso, mesmo nas periferias urbanas e nas regiões rurais mais remotas, onde pulsa a sua vida e se prepara o seu futuro. Eliminemos os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, lutando e esperando com aqueles que o mundo rejeitou, mas que Deus escolheu. Foi assim, na verdade, que surgiu a nossa esperança: «A pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular» (Sl 118, 22), Jesus Cristo, plenitude do homem e da história.

Que Deus abençoe Angola! 

Obrigado.

Copyright © Dicastério para a Comunicação – Libreria Editrice Vaticana

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