VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE LEÃO XIV
À ARGÉLIA, CAMARÕES, ANGOLA E GUINÉ EQUATORIAL
(13 – 23 de abril de 2026)
1º DIA
Segunda-feira, 13 de abril de 2026
SAUDAÇÃO DO SANTO PADRE
AOS JORNALISTAS DURANTE O VOO ROMA-ARGEL

Segunda-feira, 13 de abril de 2026
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Bom dia a todos!
Bem-vindos a bordo! Estou feliz por dar as boas-vindas a todos esta manhã!

Gostaria de dizer já uma palavra. Esta viagem, que é muito especial por várias razões, deveria ter sido a primeira do pontificado. Já no mês de maio do ano passado, eu tinha dito: como primeira viagem, gostaria de fazer uma visita à África. Outros sugeriram imediatamente a Argélia – por causa de Santo Agostinho, como sabeis – e, realmente, estou muito contente por visitar novamente a terra dele. Santo Agostinho constitui, além disso, uma ponte muito importante no diálogo inter-religioso. Ele é muito amado na sua terra, como veremos. Assim, a oportunidade de visitar os locais da vida deste santo, onde ele foi bispo na cidade de Hipona – hoje Annaba – é verdadeiramente uma bênção para mim, pessoalmente, mas creio que também para a Igreja e para o mundo, porque devemos procurar sempre pontes para construir a paz e a reconciliação. Por isso, esta viagem representa efetivamente uma oportunidade muito preciosa para continuarmos com a mesma voz, com a mesma mensagem que pretendemos transmitir: promover a paz, a reconciliação, o respeito e a consideração por todos os povos. Sejam todos bem-vindos! Estou contente por vos saudar! Boa viagem e obrigado pelo serviço que prestais a todos. Obrigado!
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VISITA AO MEMORIAL DO MÁRTIR MAQAM ECHAHID
SAUDAÇÃO DO SANTO PADRE
AO POVO ARGELINO

Argel
Seguna-feira, 13 de abril de 2026
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Queridos irmãos e irmãs da Argélia,
a paz esteja convosco! As-salamu alaykom!
Dou graças a Deus por me conceder a possibilidade de visitar, como sucessor do apóstolo Pedro, o vosso país, depois de o ter feito já duas vezes no passado, como religioso agostiniano. No entanto, é sobretudo um irmão que se apresenta diante de vós, feliz por poder renovar, neste encontro, os laços de afeto que aproximam os nossos corações.
Ao olhar para todos vós, vejo o rosto de um povo forte e jovem, cuja hospitalidade e fraternidade pude experimentar repetidamente. No coração argelino, a amizade, a confiança e a solidariedade não são meras palavras, mas valores que contam e tornam calorosa e sólida a vida em comum.
A Argélia é um país amplo, com uma longa história rica em tradições, que remonta aos tempos de Santo Agostinho e muito antes ainda. Uma história também dolorosa, marcada por períodos de violência; no entanto, soubestes superá-la com coragem e honestidade, graças precisamente à nobreza de espírito que vos caracteriza e que aqui sinto viva agora.
Visitar este Monumento é uma homenagem a esta história, e à alma de um povo que lutou pela independência, dignidade e soberania desta nação.
Neste lugar, recordamos que Deus deseja a paz para todas as nações: uma paz que não é apenas ausência de conflito, mas expressão de justiça e dignidade. E esta paz, que permite enfrentar o futuro com o coração reconciliado, só é possível através do perdão. A verdadeira luta pela libertação só será definitivamente vencida quando se tiver finalmente conquistado a paz dos corações. Sei como é difícil perdoar. Todavia, enquanto os conflitos continuam a multiplicar-se em todo o mundo, não se pode acrescentar ressentimento ao ressentimento, de geração em geração.
O futuro pertence aos homens e às mulheres de paz. Por fim, a justiça triunfará sempre sobre a injustiça, e a violência, apesar das aparências, nunca terá a última palavra.
Nesta terra, ponto de encontro de culturas e religiões, o respeito mútuo constitui o caminho por onde os povos podem caminhar juntos. Possa a Argélia, com a força das suas raízes e a esperança dos seus jovens, continuar a oferecer um contributo de estabilidade e diálogo na comunidade das nações e nas margens do Mediterrâneo.
Cada povo conserva um património único de história, cultura e fé. Também a Argélia possui esta riqueza, que sustentou o seu caminho nos momentos difíceis e continua a orientar o futuro. Neste património, a fé em Deus ocupa um lugar central: ela ilumina a vida das pessoas, sustenta as famílias e inspira o sentido de fraternidade. Um povo que ama a Deus possui a riqueza mais verdadeira e o povo argelino conserva esta joia no seu tesouro. O nosso mundo precisa de fiéis assim, de homens e mulheres de fé, sedentos de justiça e unidade. Por isso, perante uma humanidade ansiosa de fraternidade e reconciliação, é um grande dom e um abençoado compromisso declarar com força e ser sempre, juntos, irmãos entre nós e filhos de Deus!
A quem vai à procura de riquezas que desvanecem, que iludem e desiludem e que, infelizmente, muitas vezes acabam por corromper o coração humano e gerar invejas, rivalidades e conflitos, Jesus continua a repetir a pergunta que formulou há dois mil anos: «Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?» (Mt 16, 26). É para todos uma questão fundamental, à qual os mortos que aqui se honram deram a sua resposta: perderam a vida, mas num outro sentido, entregando-a por amor ao seu povo. A sua história sustente o povo argelino e todos nós no nosso caminho, pois a verdadeira liberdade não se herda simplesmente, mas escolhe-se todos os dias.
Permiti-me, pois, concluir repetindo as palavras de Jesus aos seus discípulos, aquelas que nós chamamos Sermão da Montanha ou Bem-aventuranças:
«Felizes os pobres em espírito,
porque deles é o Reino do Céu.
Felizes os que choram,
porque serão consolados.
Felizes os mansos,
porque possuirão a terra.
Felizes os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Felizes os puros de coração,
porque verão a Deus.
Felizes os pacificadores,
porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça,
porque deles é o Reino do Céu» (Mt 5, 3-10).
Obrigado pelo vosso acolhimento! Deus vos abençoe!
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ENCONTRO COM AS AUTORIDADES, A SOCIEDADE CIVIL E O CORPO DIPLOMÁTICO
DISCURSO DO SANTO PADRE
Centro de Congressos “Djamaa el Djazair” (Argel)
Segunda-feira, 13 de abril de 2026

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Senhor Presidente,
Distintas Autoridades e membros do Corpo Diplomático,
Senhoras e Senhores,
Manifesto a minha profunda gratidão pelo convite para visitar a Argélia, feito precisamente no início do meu Ministério Petrino. E obrigado pelo vosso acolhimento! Sabeis que, como filho espiritual de Santo Agostinho, já vim duas vezes a Annaba – em 2001 e 2013 – e sou grato à Providência divina, porque, segundo o seu misterioso desígnio, dispôs que eu regressasse aqui como Sucessor de Pedro. Venho até vós como peregrino da paz, desejoso de encontrar o nobre povo argelino. Somos irmãos e irmãs, pois temos o mesmo Pai nos céus: o profundo sentido religioso do povo argelino é o segredo de uma cultura do encontro e da reconciliação, da qual quer ser sinal também esta minha visita. Em um mundo cheio de confrontos e incompreensões, encontramo-nos e procuramos compreender-nos, reconhecendo que somos uma única família! Hoje, a simplicidade desta consciência é a chave para abrir muitas portas fechadas.
Queridos irmãos e irmãs, venho até vós como testemunha da paz e esperança que o mundo anseia ardentemente e que o vosso povo sempre procurou: um povo que nunca foi derrotado pelas suas provações, porque está enraizado naquele sentido de solidariedade, acolhimento e comunidade que tece o quotidiano de milhões de pessoas humildes e justas. São eles os fortes, são eles o futuro: aqueles que não se deixam cegar pelo poder e pela riqueza, aqueles que não sacrificam a dignidade dos seus concidadãos em prol da sua fortuna ou de seu grupo. Em particular, recebi de várias partes testemunhos de como o povo argelino demonstra grande generosidade, tanto para com os seus compatriotas quanto para com os estrangeiros. Esta atitude reflete uma hospitalidade profundamente enraizada nas comunidades árabes e berberes, aquele dever sagrado que gostaríamos de encontrar em todo o lado como valor social fundamental. Da mesma forma, a esmola (sadaka) é uma prática comum e natural entre vós, mesmo para quem dispõe de meios limitados. Na sua origem, a palavra sadaka significa justiça: efetivamente, não guardar para si, mas partilhar o que se tem, é uma questão de justiça. O injusto é aquele que acumula riquezas e permanece indiferente aos outros. Esta visão da justiça é simples e radical: reconhece no outro a imagem de Deus. Uma religião sem compaixão e uma vida social sem solidariedade são um escândalo aos olhos de Deus. No entanto, muitas sociedades que se consideram avançadas precipitam-se cada vez mais na desigualdade e na exclusão. As pessoas e as organizações que dominam os outros – isto a África sabe-o bem – destroem o mundo que o Altíssimo criou para que vivêssemos juntos.
Os dramáticos acontecimentos históricos do passado oferecem ao vosso país um particular olhar crítico sobre os equilíbrios mundiais. Se souberdes dialogar com as necessidades de todos e solidarizar-vos com o sofrimento de tantos países próximos e distantes, a vossa experiência poderá contribuir para imaginar e concretizar uma maior justiça entre os povos. Não multiplicando incompreensões e conflitos, mas respeitando a dignidade de cada um e deixando-vos tocar pela dor alheia, podereis tornar-vos verdadeiros protagonistas de um novo curso da história – hoje mais urgente do que nunca – face às tentativas neocoloniais e às contínuas violações do direito internacional.
Os meus antecessores já tinham percebido com lucidez o alcance epocal deste desafio. Bento XVI observou que, «adequadamente concebidos e geridos, os processos de globalização oferecem a possibilidade duma grande redistribuição da riqueza a nível mundial, como antes nunca tinha acontecido; se mal geridos, podem, pelo contrário, fazer crescer pobreza e desigualdade, bem como contagiar com uma crise o mundo inteiro» (Carta Enc. Caritas in veritate, 42). O Papa Francisco, por sua vez, com base na sua longa experiência entre as contradições do Sul global, destacou a importância daquilo que só pode ser compreendido na periferia dos grandes centros de poder e decisão: «É necessário pensar a participação social, política e económica segundo modalidades tais que incluam os movimentos populares e animem as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com aquela torrente de energia moral que nasce da integração dos excluídos na construção do destino comum» (Carta Enc. Fratelli tutti, 169).
Exorto, portanto, a todos os que detendes autoridade neste país a não temer essa perspectiva e a promover uma sociedade civil viva, dinâmica e livre, na qual, especialmente aos jovens, seja reconhecida a capacidade de contribuir para alargar o horizonte da esperança para todos. A verdadeira força de um país reside na cooperação de todos para a realização do bem comum. As autoridades não são chamadas a dominar, mas a servir o povo e o seu desenvolvimento. Assim, a ação política encontra o seu critério na justiça, sem a qual não há paz autêntica, e expressa-se na promoção de condições equitativas e dignas para todos. Também a Igreja Católica, com as suas comunidades e iniciativas, deseja contribuir para o bem comum da Argélia, reforçando a sua particular identidade de ponte entre o Norte e o Sul, entre o Oriente e o Ocidente.
Realmente, o Mediterrâneo, por um lado, e o Saara, por outro, representam pontos de encontro geográficos e espirituais de enorme importância. Se aprofundarmos a sua história, sem simplificações nem ideologias, encontraremos ali escondidos imensos tesouros de humanidade, porque há milénios o mar e o deserto são locais de enriquecimento mútuo entre os povos e as culturas. Ai de nós, se os transformarmos em cemitérios onde morre a esperança! Libertemos do mal estas imensas bacias de história e futuro! Multipliquemos os oásis de paz, denunciemos e eliminemos as causas do desespero, combatamos quem lucra com a desgraça alheia! Com efeito, são ganhos ilícitos os daqueles que especulam com a vida humana, cuja dignidade é inviolável. Unamos, então, as nossas forças, as nossas energias espirituais, toda inteligência e recurso que tornem a terra e o mar lugares de vida, encontro e encanto. Que a sua majestosa beleza nos toque o coração e que a sua imensidão nos interrogue sobre a transcendência. O Mediterrâneo, o Saara e o céu imenso que os cobre sussurram-nos que a realidade nos supera por todos os lados, que Deus é verdadeiramente grande e que vivemos tudo sob a sua misteriosa presença.
Esta reflexão tem enormes consequências sobre a realidade. Atualmente, são muitos os que subestimam o seu alcance. Se bem olharmos, também a sociedade argelina conhece a tensão entre o sentido religioso e a vida moderna. Aqui, tal como no resto do mundo, tendem a manifestar-se dinâmicas opostas, de fundamentalismo ou secularização, pelas quais muitos perdem o sentido autêntico de Deus e da dignidade de todas as suas criaturas. Por isso, os símbolos e as palavras religiosas podem tornar-se, por um lado, linguagens blasfemas de violência e opressão e, por outro, sinais já sem significado, no grande mercado de bens de consumo que não saciam.
Estas absurdas polarizações, todavia, não devem assustar-nos. Devem ser enfrentadas com inteligência. São o sinal de que vivemos uma época extraordinária, de grande renovação, na qual quem mantém o coração livre e a consciência desperta, pode obter das grandes tradições espirituais e religiosas novas visões da realidade e motivações inabaláveis para o compromisso. É necessário educar para o espírito crítico e a liberdade, para a escuta e o diálogo, para a confiança que nos faz reconhecer no diferente um companheiro de viagem, e não uma ameaça. Temos de trabalhar pela cura da memória e pela reconciliação entre antigos adversários. É este o dom que peço para vós, para a Argélia e para o seu inteiro povo, sobre o qual invoco abundantes bênçãos do Altíssimo.
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VISITA À GRANDE MESQUITA DE ARGEL
DISCURSO IMPROVISADO DO SANTO PADRE
Grande Mesquita de Argel
Segunda-feira, 13 de abril de 2026
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O Santo Padre responde em italiano às palavras de boas-vindas de Mohamed Mamoun Al Qasimi, Reitor da Grande Mesquita.
Agradeço por esta reflexão e por estas palavras, tão importantes nesta visita, proferidas num local que representa o espaço que pertence a Deus, um espaço divino e sagrado, onde tantas pessoas vêm para rezar, para encontrar a presença do Altíssimo, de Deus, nas suas vidas.
Como o senhor sabe, venho com grande alegria à Argélia, pois esta é também a terra do meu pai espiritual, Santo Agostinho, que desejou ensinar tanto ao mundo, sobretudo através da busca da verdade, da busca de Deus, reconhecendo a dignidade de cada ser humano e a importância de construir a paz.
Procurar Deus é também reconhecer a sua imagem em cada criatura, nos seus filhos, em cada homem e mulher criados à imagem e semelhança de Deus. Para nós, isto significa que é muito importante aprender a viver juntos, respeitando a dignidade de cada pessoa humana.
Há outro valor que vós quisestes incluir neste belíssimo centro: exatamente com um lugar de oração, a mesquita, existe também um centro de estudos. Como é importante que o ser humano desenvolva a capacidade intelectual que Deus lhe concedeu, para que possamos descobrir quão grandiosa é a criação, quão grandioso é o que Deus nos deixou em toda a criação e, especialmente, no ser humano!
Com o espírito, com este lugar de oração, com a busca da verdade, também através do estudo, e com a capacidade de reconhecer a dignidade de cada ser humano, sabemos – e este encontro de hoje é a prova disso – que podemos aprender a respeitar-nos mutuamente, a viver em harmonia e a construir um mundo de paz.
Nesta tarde, rezo por vós, pelo povo da Argélia, por todos os povos da terra, para que a paz e a justiça do Reino de Deus se tornem presentes também entre nós, e para que todos nós estejamos cada vez mais convencidos da necessidade de sermos promotores da paz, da reconciliação, do perdão e daquilo que é verdadeiramente a vontade de Deus para toda a sua criação.
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ENCONTRO COM A COMUNIDADE ARGELINA
DISCURSO DO SANTO PADRE
Basílica de Nossa Senhora de África (Argel)
Segunda-feira, 13 de abril de 2026

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Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
A paz esteja convosco!
Queridos irmãos no episcopado,
Caros sacerdotes e diáconos, religiosos e religiosas,
amados filhos da Igreja na Argélia!
É com grande alegria e carinho paternal que me encontro hoje convosco, que sois uma presença discreta e preciosa, enraizada nesta terra, marcada por uma história antiga e por luminosos testemunhos de fé.
A vossa comunidade tem raízes muito profundas. Sois herdeiros de uma série de testemunhas que deram a vida, movidas pelo amor a Deus e ao próximo. Penso, em particular, nos dezenove religiosos e religiosas mártires da Argélia, que escolheram estar ao lado deste povo nas suas alegrias e nas suas dores. O sangue deles é uma semente viva que nunca deixa de dar fruto.
Vós sois também herdeiros de uma tradição ainda mais antiga, que remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Nesta terra, ressoou a voz fervorosa de Agostinho de Hipona, precedida pelo testemunho da sua mãe, Santa Mónica, e de outros santos. A sua memória é um apelo luminoso para que sejamos, hoje, sinais credíveis de comunhão, diálogo e paz.
A todos vós, caríssimos, e aos que, não podendo estar presentes, acompanham à distância este encontro, expresso a minha gratidão pelo empenho diário com que tornais visível o rosto materno da Igreja. Agradeço a Sua Eminência pelas palavras que me dirigiu, e também a Rakel, Ali, Monia e à Irmã Bernadette pelo que partilharam. À luz do que ouvimos, gostaria que parássemos para refletir juntos sobre três aspetos da vida cristã que considero muito importantes, em particular para a vossa presença aqui: a oração, a caridade e a unidade.
Em primeiro lugar, a oração. Todos nós somos necessitados da oração. Ao dirigir-se aos jovens, São João Paulo II sublinhava-o assim: «O homem – dizia ele – não pode viver sem rezar, do mesmo modo que não pode viver sem respirar» (Encontro com jovens muçulmanos em Casablanca, Marrocos, 19 de agosto de 1985, 4). Apresentava assim o diálogo com Deus como um elemento indispensável não só para a vida da Igreja, mas para a vida de cada pessoa. Também São Charles de Foucauld o compreendera, tendo reconhecido a sua vocação na presença orante. Assim escreveu: «Estou feliz, feliz por estar aos pés do Santíssimo Sacramento em todas as horas» (Carta a Raymond de Blic, 9 de dezembro de 1907). E recomendava: «Rezai muito pelos outros. Consagrai-vos à salvação do próximo com todos os meios ao vosso alcance: oração, bondade, exemplo» (Carta a Louis Massignon, 1 de agosto de 1916).
A este respeito, Ali, referindo-se à sua experiência de serviço em Nossa Senhora de África, contou-nos que muita gente vem aqui para se recolher em silêncio, para apresentar e confiar as suas preocupações e as pessoas que amam, e para encontrar alguém disposto a ouvi-los e a partilhar os fardos que carregam no coração; e observou que muitos partem serenos e felizes por terem vindo. A oração une e humaniza, fortalece e purifica o coração, e a Igreja argelina, graças à oração, semeia humanidade, unidade, força e pureza à sua volta, alcançando lugares e contextos que só o Senhor conhece.

Um segundo aspecto da vida eclesial sobre o qual gostaria de me deter é o da caridade. Falou-nos disso, em particular, a Irmã Bernadette, partilhando a sua experiência de ajuda às crianças com necessidades especiais e aos seus pais. Neste testemunho, percebemos o valor da misericórdia e do serviço, não só como apoio aos mais frágeis, mas sobretudo como um espaço de graça, no qual quem se deixa envolver cresce e se enriquece. A Irmã Bernadette contou-nos como, a partir de um simples e inicial gesto de proximidade – a visita aos doentes –, nasceram, como rebentos, primeiro um sistema de acolhimento e depois uma organização assistencial cada vez mais articulada, uma verdadeira comunidade na qual inúmeras pessoas participam tanto nos acontecimentos alegres como nos dolorosos, unidas por laços de confiança, amizade e familiaridade. Um ambiente assim é saudável e revigorante, e não surpreende que, nele, quem sofre encontre os recursos necessários para melhorar a sua saúde, levando ao mesmo tempo alegria aos outros, como no caso de Fátima.
Aliás, foi precisamente o amor pelos irmãos que animou o testemunho dos mártires que recordámos. Perante o ódio e a violência, permaneceram fiéis à caridade até ao sacrifício da vida, juntamente com tantos outros homens e mulheres, cristãos e muçulmanos. Fizeram-no sem pretensões e alarde, com a serenidade e firmeza de quem não presume nem se desespera, porque sabe em Quem depositou a sua confiança (cf. 2 Tm 1, 12). Para todos, citamos as palavras simples do Irmão Luc, o velho monge e médico da comunidade de Nossa Senhora do Atlas. Perante a possibilidade de partir e pôr-se a salvo de potenciais perigos, mas à custa de abandonar os seus doentes e amigos, ele respondia: «Eu quero permanecer com eles» (C. Henning – T. Georgeon, Fratel Luc di Tibhirine. Monaco, medico e martire, Cidade do Vaticano 2025, Introdução). E assim o fez. Por ocasião da Beatificação, Papa Francisco, ao recordar-se dele e dos outros mártires, afirmou: «O seu testemunho corajoso é fonte de esperança para a comunidade católica argelina e semente de diálogo para a sociedade inteira. Esta Beatificação seja para todos um estímulo a construir juntos um mundo de fraternidade e de solidariedade» (Angelus, 8 de dezembro de 2018).
Chegamos assim ao terceiro ponto da nossa reflexão: o compromisso de promover a paz e a unidade. O lema desta visita são as palavras de Jesus ressuscitado: «A paz seja convosco!» (Jo 20, 21). Numa imagem retirada dos mosaicos de Tipasa, lê-se: «In Deo, pax et concordia sit convivio nostro», que poderíamos traduzir da seguinte forma: «Em Deus, que a paz e a harmonia reinem no nosso modo de viver juntos». A paz e a harmonia têm sido características fundamentais da comunidade cristã desde as suas origens (cf. At 2, 42-47), por desejo do próprio Jesus (cf. Jo 17, 23), que disse: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.» (Jo 13, 35). A este respeito, Santo Agostinho afirmava que a Igreja «dá à luz povos, mas estes são membros de um só» (Sermão 192, 2) e São Cipriano escreve: «O maior sacrifício que se pode oferecer a Deus é a paz que reina entre nós, a nossa concórdia fraterna e o ser um povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (A Oração do Senhor, 23). É maravilhoso, hoje, sentir que tanta riqueza de palavras e de exemplos encontra eco naquilo que acabámos de ouvir.
Sinal disso, como nos recordou o senhor Cardeal, é esta mesma basílica, símbolo de uma Igreja de pedras vivas, na qual, sob o manto de Nossa Senhora de África, se constrói a comunhão entre cristãos e muçulmanos. Aqui, o amor materno de Lalla Meryem acolhe todos como filhos, cada um rico na sua diversidade, unidos pela mesma aspiração à dignidade, ao amor, à justiça e à paz. Filhos desejosos de caminhar juntos, de viver, rezar, trabalhar e sonhar, porque a fé não isola, mas abre, une, mas não confunde, aproxima sem uniformizar e faz crescer uma verdadeira fraternidade, como nos disse Monia, e como testemunhou Rakel, partilhando a sua experiência na Tlemcen Fellowship. Num mundo onde as divisões e as guerras semeiam dor e morte entre as nações, nas comunidades e até mesmo nas famílias, o vosso viver unidos e em paz é um grande sinal. Unidos, difundis a fraternidade, inspirando nos que vos rodeiam desejos e sentimentos de comunhão e reconciliação, com uma mensagem tanto mais forte e clara quanto testemunhada na simplicidade e na humildade.
Uma parte considerável do território deste país está ocupada pelo deserto, e no deserto não se sobrevive sozinho. As adversidades da natureza relativizam qualquer presunção de autossuficiência e recordam a todos que precisamos uns dos outros e que precisamos de Deus. É o reconhecimento da fragilidade que abre o coração ao apoio mútuo e à invocação d’Aquele que pode dar o que nenhum poder humano é capaz de garantir: a reconciliação profunda dos corações e, com ela, a verdadeira paz.
Por isso, queridos irmãos e irmãs, encorajo-vos a prosseguir o vosso trabalho na terra argelina, como comunidade de fé coesa e aberta, presença da Igreja, «sacramento universal de salvação» (cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Lumen gentium, 48). Obrigado por tudo o que fazeis, pela vossa oração, pela vossa caridade, pelo vosso testemunho de unidade. Asseguro-vos a minha lembrança diante do Senhor e, confiando-vos a Maria Notre Dame d’Afrique, de coração vos abençoo.

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