QUINTA ÉPOCA
Desde os princípios da reforma de Lutero no ano 1517, até a morte de Pio VI no ano 1799. (abrange um período de 282 anos.)
CAPÍTULO I
Quinta época – Lutero – Calvino – Cisma Anglicano. 

Quinta época – Nesta época foi a Igreja tão fortemente combatida, que parecia já tivesse chegado o tempo do Anticristo; porém, não obstan­te isto, conseguiu novos triunfos. Acomete-a um dilúvio de hereges, e muitos de seus ministros, em vez de defendê-la, se rebelam contra ela e abrem-lhe profundas feridas. Unem-se a estes os Príncipes seculares que a oprimem com o ferro, com a devastação e o sangue. O demônio se esconde debaixo do manto de sociedades secretas e de uma filosofia mundana e sedutora, mas falsa e corruptora: excita rebeliões, e suscita perseguições sanguinolentas. Deus porem, desvanece os esforços do inferno e os faz servir para sua glória. Novas ordens religiosas, missionários incansáveis, pontífices grandes pela santidade, zelo e sabedoria,  unidos todos em um só coração e em uma só mente, e fortalecidos pelo braço do Todo Poderoso defendem heroicamente a verdade e levam a luz do Evangelho até os últimos limites da terra, conseguindo a Igreja novas conquistas e ainda mais gloriosas vitórias.

Lutero – Lutero foi o primeiro a levantar a bandeira da rebelião contra a fé católica, e foi o principal autor dos males que amarguraram a Igreja neste tempo. Com seu sistema perverso de submeter a palavra de Deus ao exame e juízo de cada um, causou mais dano à religião católica, do que todos os hereges da idade passada; de maneira que, com justiça, se pode chamar este apóstata, o primeiro precursor do Anticristo. Nascido em Eisleben Saxônia, e filho de um pobre mineiro manifestou desde sua mais tenra idade, um gênio muito atrevido. A morte de um condiscípulo, que caiu a seu lado fulminado por um raio, induziu-o a entrar na ordem de santo Agostinho. Por algum tempo pareceu mergulhado em profundas meditações, e agitado por escrúpulos e temores; porém, descobriu finalmente o orgulho que se abrigava em seu coração; declarando-se contra a autoridade do pontífice romano, saiu do claustro e já não houve meio de dominá-lo. Oprimir aos outros com calunias e tiranias, ridicularizar e desprezar das coisas mais augustas e santas; soberba, desregramento, ambição, petulância, cinismo grosseiro e brutal, crápula, intemperança, desonestidade, eis os dotes característicos deste corifeu do protestantismo. (Nat. A. Gott, etc.). No ano de 1869 levantaram-lhe na Alemanha uma estátua qual insígne benfeitor da humanidade!!! No ano 1517, começou a pregar contra as indulgências, portanto, contra o Papa e progredindo na impiedade, formulou uma doutrina que, quer se considere em si mesma, quer em suas consequências lógicas e práticas, contamina tudo o que é sagrado, destrói a liberdade do homem, faz a Deus autor do pecado, e reduz ao homem ao estado dos brutos. Entre suas impiedades, é bastante lembrar que, conforme ele afirmava, o homem mais virtuoso, se não acredita firmemente achar-se entre os eleitos, é condenado; e que pelo contrário, o homem mais miserável, irá diretamente ao paraíso, se acredita unicamente que há de salvar-se pelos merecimentos de Jesus Cristo. Tão abominável doutrina foi condenada logo pelo Papa Leão X; todavia Lutero mandou atirar ao fogo publicamente a bula. As Universidades católicas e todos os doutores clamaram contra aquela impiedade e heresia; mas Lutero desprezou-os, e persistiu em sua revolta. Ainda que ligado por votos solenes, casou-se com Catarina de Bore, religiosa de um mosteiro de Mísnia. Teve desgraçadamente muitos sectários, que, sob o nome de protestantes, tomaram armas e devastaram todas as regiões onde lhes foi dado penetrar. Levavam escrito em seus estandartes: Antes turcos que papistas. Ao pensar algumas vezes nos grandes males que causava a nova reforma exclamava: “Só tu serás douto? Todos os que te precederam enganaram-se? Tantos séculos teem ignorado que tu sabes? Que acontecerá se te enganas arrastas contigo a tantos para a condenação?” Eram estes os gritos de sua consciência que, a seu pesar, protestava contra suas impiedades; contudo não bastavam para fazê-lo voltar ao bom caminho. 

Calvino – Foi Calvino um célebre sectário de Lutero, natural da Picardia; mas, antes de se associar a ele, preferiu fazer-se chefe de outro protestantismo. Filho de pobre seleiro e falto de recursos, foi socorrido por um bispo, que compadecido dele, o fez seguir a suas expensas a carreira dos estudos. Esperava conseguir um benefício eclesiástico; como, porém, lho negassem por seus desenfreados costumes protestou que tomaria vingança e que daria que falar por quinhentos anos. Seguindo as pegadas de Lutero adotou completamente suas máximas perversas. Não queria Papa nem bispos, nem sacerdotes, nem festas, nem funções de igreja. Na cidade de Noyon foi condenado por ter cometido um delito nefando, e somente graças à intercessão do bispo, comutaram essa pena na de ser marcado com um ferro ardente. Acumulando depois delitos sobre delitos, devia ser levado preso, porém descendo por uma janela, trocou sua roupa com a de um camponês, e fugiu. Enquanto fugia, encontrou-se com um sacerdote que o exortou a que reparasse o dano que causara a si mesmo e voltasse ao seio da Igreja católica; ele respondeu-lhe: “Se tivesse de recomeçar não deixaria a religião dos meus pais, porém agora já estou empenhado e quero continuar até a morte.” Estabeleceu residência especialmente em Genebra, que foi o centro da sua seita, e ali procedeu como verdadeiro tirano. Negando aos outros o direito que se arrogara de alterar e corromper a doutrina católica, fez morrer nas chamas a Miguel Servet, porque tinha ensinado uns erros contrários ao mistério da SS. Trindade. Por suas tiranias foi expulso de Genebra, mas à força de enredos, conseguiu voltar e mandar a seu bel prazer. Como avassalasse todas as categorias de cidadãos, governou a cidade despoticamente e prorrompeu em impiedades contra a religião, até que chegou também para ele o tempo de apresentar-se ante o juiz supremo. Surpreendido por uma enfermidade ulcerosa, exalavam seus membros um mau cheiro insuportável. Frenético e enraivecido contra sua doença invocava os demônios para virem livrá-lo. Mas aumentando cada vez mais suas angústias, detestava a vida passada e amaldiçoava sua doutrina e seus escritos. Em semelhante estado de desespero, compareceu a presença de Jesus Cristo juiz, para dar-lhe contas dos milhões de almas que por sua causa já se tinham perdido eternamente e das que ainda se iam perder. Ano 1564.  

Cisma Anglicano – O cisma anglicano foi motivado por Henrique VIII, rei da Inglaterra. Esse infeliz príncipe, depois de vinte anos de matrimônio com Catarina de Aragão, queria repudiá-la para contrair segundas núpcias com Ana Bolena. Opôs-se a isto o Sumo Pontífice, afirmando que não podia contrair um segundo matrimônio por ser válido o primeiro contraído com Catarina, ainda viva. Henrique, cego pela paixão, subtrai­se à autoridade do Papa, e proclama-se chefe da Igreja da Inglaterra. Desprezou as admoestações de Roma e perseguiu o clero despojando-o de seus bens, saqueando as igrejas, destruindo todos os mosteiros e finalmente casou-se com a intrigante Ana Bolena. Isto deu-se no ano 1532. Deste modo a Inglaterra, que na história é conhecida com o nome de terra dos santos, vários dos seus príncipes são venerados nos altares, tornou-se desde então inimiga do catolicismo. Henrique, casado com Ana, não tardou em enfastiar-se dela, e mandou cortar-lhe a cabeça. Casou-se sucessivamente com outras quatro; uma delas morreu, outra foi repudiada, a terceira condenada ao cadafalso e a quarta correu grande perigo de sofrer o mesmo gênero de morte, porém foi bastante sagaz para salvar-se com um engano. Ainda que muitos nobres prelados se submetessem à sua tirania, houve, todavia, corações generosos, que para se oporem a ele fizeram-se mártires da santa fé. Sobe a 460 o número de eclesiásticos que condenou ao suplício. Célebres entre os outros, são o cardeal João Fisher, bispo de Rochester e mestre de Henrique, e o ilustre Tomas Moore, chanceler e ministro de Estado. Este último, privado do seu emprego, despojado de todos os seus bens, e encerrado em uma prisão, foi condenado ao atroz suplício dos traidores do Estado, que foi comutado pelo de decapitação. Sua esposa, para induzi-lo a ceder à vontade do soberano, foi visitá-lo no cárcere, e pôs em campo toda indústria possível para convencê-lo a que se salvasse a si mesmo e a sua família. Ele, porém, lhe falou intrepidamente desta maneira: “Dize-me, mulher, se renunciando à minha fé, eu recuperasse juntamente com minhas riquezas minha primeira dignidade, quantos anos poderia eu gozar delas? “Talvez vinte anos”, respondeu sua tímida consorte. “Pois bem!” Acrescentou o magnânimo Tomas, “queres tu que por vinte anos perca uma eternidade de gozos no céu, e me condene a uma eternidade de tormentos no inferno?” Ao subir ao cadafalso, protestou publicamente que morria pela fé católica, e depois tendo rezado o Miserere, deceparam-lhe a cabeça (Ano 1534). A justiça divina não tardou muito em ferir o ímpio e o luxurioso Henrique. Este morreu no ano 1547, entre os mais atrozes remorsos de consciência e separado da Igreja Católica.  Sucedeu-lhe no trono seu filho Eduardo de dez anos de idade. Seu tutor o duque de Sommerset, fez declarar logo o protestantismo como religião do Estado, e fez desaparecer aquele resto de catolicismo que ainda havia deixado Henrique. Mas falecendo Eduardo aos dezesseis anos, sucedeu-lhe sua mãe Maria, filha de Catarina, que restituiu o reino à fé católica. Esta ocupou somente cinco anos o trono, e à sua morte, no ano 1558, lhe sucedeu Elizabeth, filha de Ana Bolena. Achando-se apaixonada pela heresia calvinista e querendo governar com inteira independência de todo princípio de fé e de justiça, revoltou-se e fez revoltar-se de novo todo o reino contra a obediência ao vigário de Jesus Cristo. Desde então a Inglaterra foi, e desgraçadamente é ainda um reino protestante, ainda que presentemente, não haja ali menos de dois milhões de católicos. 
CAPÍTULO II 
Novas ordens religiosas – Barnabitas – Capuchinhos – São Caetano e os Teatinos – São João de Deus e os Fate-bene fratelli – São Jeronimo Emiliano e os Somascos – Santo lnácio de Loiola – Adoração das quarenta horas – Fim de Lutero – Carlostadio – O imperador Carlos V. 

Novas ordens religiosas – Enquanto os hereges se esforçavam para destruir a Igreja, a Divina Providência suscitava novas sociedades de religiosos e uma multidão de doutores, que com suas fadigas apostólicas, com sua santidade e com suas obras cheias de erudição cristã fizeram­na florescer em todas as partes do mundo. A 0rdem dos Teatinos, a dos Barnabitas, dos Capuchinhos, dos Somascos, dos Fate-bene fratelli, e muitas outras congregações religiosas, a instituição das quarenta horas, a celebração do Concílio de Trento, São Caetano, São Jerônimo Emiliano, São João de Deus, São Tomas de Vilanova, Santo Inácio de Loiola, São Francisco Xavier, São Pedro de Alcântara, São Filipe Neri, São Pio V, Santa Teresa, São Carlos Borromeu, São Francisco de Sales e muitos outros repararam gloriosamente os danos causados a religião. 

Barnabitas – A congregação dos Clérigos Regulares de São Paulo, chamados também Barnabitas, foi instituída no ano 1530 por Santo Antonio Maria Macarias, sacerdote de Cremona e pelo venerável Bartolomeu Ferraria e Tiago Antonio Morigia, nobres cidadãos de Milão. Seu fim era promover com o exemplo e com toda a espécie de obras, próprias do ministério eclesiástico, a reforma dos costumes no clero e no povo. Foram chamados Clérigos Regulares de São Paulo porque escolheram a este grande apóstolo por patrono especial, cujas virtudes e zelo em conseguir a salvação das almas tratavam de imitar. Foram chamados mais tarde Barnabitas, por causa da igreja de São Barnabé em Milão, que eles estavam encarregados de oficiar. Sua congregação foi aprovada por Clemente VII, no ano 1533. A princípio, não tencionavam estabelecer-se a não ser em Milão; porém logo, por conselho e obra de São Carlos Borromeu, seu grande protetor, começaram a se estabelecer em Monza, em Vercelli e em muitas outras cidades da Itália. Até princípios do século XVII os Barnabitas limitaram-se às obras que mais de perto pertencem ao ministério eclesiástico, como seja a reza do ofício em coro, a pregação e a administração dos Sacramentos; porém mais tarde, dedicaram-se também à instrução e educação da mocidade, abrindo escolas públicas e colégios em muitas cidades da Itália e França. Animou-os a dar este passo, São Francisco de Sales, que no ano 1612, os chamou de Milão onde estavam, para dirigir o colégio de Anecy. O bem-aventurado Alexandre Sauli, bispo de Pavia, o venerável Carlos Pescapé bispo de Novara, o venerável Cosme Dossana, bispo de Tortona, Guerini, amigo e sucessor de São Francisco no bispado de Genebra, Recrósio, bispo de Niza, Gattinara, arcebispo de Turim, pertencem à ordem dos Barnabitas. Pertenceram ainda a ela os cardeais: Morigia, arcebispo de Florença; o célebre Gerdil, Fontana, Lambruschini, arcebispo de Gênova, Cadolini bispo de Ancona, elevado depois à sagrada púrpura pelo sumo pontífice Pio IX, no ano 1866. 

Capuchinhos – A ordem dos capuchinhos que é um ramo da grande ordem Franciscana foi fundada pelo venerável padre Mateus de Bassi chamado assim por causa do castelo deste nome no ducado de Urbino. Desejava este ardentemente ver florescer na ordem de São Francisco aquela perfeita ob­servância da regra professada e estabelecida pelo fundador. Rezava muito com este fim; até que apareceu-lhe reiteradas vezes São Francisco, com um hábito grosseiro, com um capuz acabado em ponta e unido com o hábito, e um escapulário, intimou-o que observasse a regra vestido daquela maneira. assim o fez Mateus; mas, para estar isento de toda a ilusão, resolveu ir a Roma para obter a aprovação do Vigário de Jesus Cristo que era Clemente VII. “Beatíssimo Padre, disse-lhe ele, sou um pobre sacerdote pertencente à ordem dos Frades Menores, e nada me interessa tanto como o cumprimento daquela regra que um dia, com voto solene, prometi a Deus observar, e imitar em quanto for possível a minhas fracas forças, a vida de nosso seráfico padre, muito descuidada hoje em dia. Depois de muitas orações compreendi ser vontade de Deus que, com este modo de vestir, me submetesse eu mesmo à observância regular do hábito e da vida perfeita de meu seráfico padre”. A franqueza e o candor destas palavras persuadiram ao Papa do verdadeiro zelo do padre Mateus e da divina inspiração que o guiava; por isso outorgou-lhe benignamente o que pedia, e fez extensiva a mesma faculdade a todos os que quisessem observar com mais perfeição a regra, vivendo daquele modo, e habitando em lugares solitários. Ano 1524. Finalmente, no ano 1528, o mesmo Clemente VII, erigiu a nova instituição em congregação religiosa, sob o nome de Frades Menores eremitas; nome, que muito prontamente, a voz pública mudou pelo de capuchinhos, devido a forma do capuz que traziam. Mateus foi primeiro geral da ordem; porém, pouco depois quis abandonar o cargo para preparar-se melhor para a morte. Concluiu seus dias em Veneza, com fama de santidade e mi­lagres. Em vista do hábito grosseiro dos capuchinhos, de sua austeridade, de sua pobreza, e de sua pregação popular, cheia de espírito evangélico; vista abnegação e desprendimento com que publicamente se consagravam ao serviço dos enfermos nos hospitais, especialmente em tempos de epidemia grangearam a estima e o apreço universal, e em pouco tempo seus conventos multiplicaram-se em toda Europa. O Piemonte deve a seu zelo e trabalhos a volta à fé católica de várias povoações dos Alpes, que foram infeccionados pela heresia calvinista. 

São Caetano os Teatinos – Vicenza, cidade do território Veneziano, é a pátria de São Caetano, fundador dos Teatinos. Logo que nasceu, sua mãe o ofereceu à SS. Virgem Maria, à qual muito agra­dou a oferta. Caetano, por sua parte, mostrou-se digno de sua augusta protetora. Nada admirava tanto nele como a ternura para com os pobres, aos quais distribuiu as riquezas que recebera de seus pais. Como, porém, não bastassem estas para as necessidades daqueles, ele mesmo ia pedindo de porta em porta para provê-los do quanto necessitassem. Sua vida angélica foi motivo para que todos o apontassem com o nome de Santo. Gra­duado em Pavia em ambos os direitos, foi a Roma, onde o Papa confiou-lhe o cargo de protonotário apostólico. Ordenado sacerdote, tornou-se um serafim por seu amor a Deus. Para preparar-se a celebrar a Santa Missa, empregava horas inteiras de meditação; às vezes passava até oito horas rezando. Fundou, à custa própria, vários hospitais, servindo ele mesmo com grande zelo aos enfermos e administrando-lhes com suas próprias mãos quanto lhes era necessário, ainda que sua enfermidade fosse contagiosa. Por seu zelo ardente em cuidar da salvação de seu próximo, foi chamado o caçador de almas. Não podendo só ele cumprir com todas as obras que constituíam o objeto constante de sua caridade, uniu-se a alguns zelosos companheiros com quem começou a levar vida comum. Dai teve princípio a ordem dos clérigos regulares, aos quais mandou São Caetano, que abandonassem todo terreno, que não tivessem rendas, nem andassem mendigando subsídios, senão que só vivessem de esmolas espontaneamente oferecidas. Clemente VII, tendo examinado as regras do novo instituto, incluiu-o no número das ordens religiosas. São Caetano, Pedro Caraffa e mais dois companheiros, pronunciaram seus votos solenes diante do altar mór de São Pedro, no Vaticano dando assim princípio à congregação dos clérigos regulares que, por terem escolhido como primeiro superior ao bispo de Teane, foram chamados Teatinos. No saque de Roma, que se deu no ano 1527 pelo exército de Carlos V, sob o comando do condestável de Bourbon, a nascente ordem correu perigo de perecer. O próprio Caetano foi cruelmente tratado, com o fim de obrigá-lo a entregar os tesouros, que já tinha repartido entre os pobres. Posto que atormentado e encarcerado, perseverou em seu teor de vida, confiando somente em Deus, que nunca abandona a ninguém. Promoveu muito especialmente São Caetano o respeito para com as coisas santas, a observância das cerimônias do culto divino a comunhão frequente, a assistência aos enfermos e a instrução do povo. Pelo grande fervor com que orava, com frequência era arrebatado em estases; tinha o dom da profecia e o de penetrar os corações. Em Roma, na noite de Natal, mereceu receber em suas mãos ao Menino Jesus, que lhe foi entregue pela mesma Virgem. Indo depois a Nápoles, ficou tão aflito pelas ofensas que se faziam a Deus em uma sedição, que caiu mortalmente enfermo. Consolado por uma visão celestial, voou ao céu no ano 1547. Seu corpo ainda se venera, com grande concurso de fiéis, em Nápoles, na Igreja de São Paulo. 

São João de Deus os Fate-bene fratelli – São João de Deus nasceu em Monte Maior, em Portugal, de pais pobres, vendo-se obrigado por isto, des­de jovem, a ganhar o pão com o trabalho de suas mãos. Por boa ventura tendo ouvido um dia pregar o Padre Ávila sobre as vaidades da terra, ficou tão penetrado de suas palavras, que se fingiu louco para fazer-se desprezar, e como tal foi levado a uma casa de saúde. Mas conhecido seu fingimento e tendo saído dali, dedicou-se a recolher pobres enfermos, estabelecendo para isto um hospital em Granada. Carecendo de meios para mantê-los, ocupava-se de dia em prover a sua assistência, e de noite, com dois sacos ao ombro, andava pedindo esmolas e gritava em voz alta: “Fazei bem, irmãos, a vós mesmos.” Daí tomou o nome de Fate-bene fratelli sua ordem hospitaleira. Cheio de méritos descansou João no Senhor no dia 8 de março do ano 1550. Poucos anos depois, s. Pio V expediu uma bula, em que punha a congregação entre as ordens religiosas. Pelo grande benefício que faziam aos enfermos e moribundos, os Fate­bene fratelli foram chamados à Espanha, à Itália, à Alemanha e até à América. Este instituto religioso, depois de 254 anos de existência contava já sob sua direção, mais de 295 hospitais, com 9208 camas, cuidados por não menos de 3469 irmãos. Porém o feliz desenvolvimento desta ordem foi desgraçadamente interrompido pelos transtornos políticos que se produziram no princípio deste século, ao suprirem-se todas as ordens regulares. Ainda que a ordem dos Fate-bene fratelli ainda exista, e faça muito bem, sempre em vista do fim que lhe deu seu fundador, contudo, seu número diminuiu muito. Apesar disto, eles tem sido e serão sempre verdadeiros benfeitores da parte abandonada da humanidade. Seu fim único é o que lhes deu seu santo fundador, isto é, cuidar dos enfermos, e, em quanto é compatível com seu estado de leigos, ao passo que socorrem o corpo, nada esquecem para que seus doentes se disponham da melhor maneira possível para receber os últimos auxílios de nossa santa religião. 

São Jerônimo Emiliano e os Somascos – São Jerônimo Emiliano, fundador dos Somascos, foi amigo e contemporâneo de São Caetano de Tiene. Nascido em Veneza, de nobre família, mostrou desde seus primeiros anos inclinação para a virtude, mas como no terceiro lustro de sua vida, se dedicasse à milícia, desgraçadamente deixou-se levar pela dissipação. Em tempos aziagos para a República de Veneza, encarregaram-no da defesa de Castello Nuovo, perto de Treviso; porém, tendo o inimigo tomado a fortaleza, feito prisioneiro, meteram-no em prisão, cumulando-o de ultrajes. Privado de socorros humanos, e esperando a morte daí a momentos, dirigiu-se a Deus chorando amargamente suas faltas, e fez promessa à Rainha do Céu que faria eficaz reparação delas logo que conseguisse a liberdade. Ouviu-o esta Mãe de misericórdia, apareceu-lhe, livrou-o das cadeias e o levou são e salvo a Treviso, fazendo-o passar por entre seus inimigos, enquanto estes se esmeravam em impedir toda comunicação externa. Vendo-se tão prodigiosamente solto, correu logo a uma igreja da Bem-aventurada Virgem Maria, suspendeu numa parede as cadeias que ainda trazia ao pescoço, e voltando para Veneza, renunciou a todas as doçuras e comodidades da vida para ganhar almas a Deus. Domava seu corpo com jejuns e cilícios; e em uma carestia que afligiu a Itália, no ano 1548, vendeu até os móveis de sua casa para socorrer aos pobres. Sucedendo à carestia a peste, transformou sua casa em hospital. Atacado ele mesmo pela doença fatal, pediu a Deus saúde para poder fazer maior penitência de seus pecados; acedeu o Senhor a seu pedido, e melhorou. Vendo por toda parte crianças órfãs e reduzidas aos últimos extremos da miséria, fez-se pai de todas; recebeu-os em sua casa, e ele mesmo os educou. O mundo se admirava de ver a um nobre senador, a um capitão, vestido tão miseravelmente e feito pai dos órfãos. Mas sua caridade não se limitou a Veneza somente, senão que também fundou casas e hospícios em Brescia, Bérgamo, Como, Milão, e em outras muitas cidades. Chegado a Somasco, pequeno povoado a curta distância de Bérgamo, fixou ali residência para si e para os seus, daí o nome de Somasco que tem a congregação por ele fundada. Crescendo e propagando-se, encarregou-se a congregação também, para maior utilidade da Igreja, da instrução da mocidade nos seminários e colégios. Em seguida tendo encontrado Jerônimo uma cova no cume de um monte perto de Somasco escondeu-se ali; e lacerando seu corpo com disciplinas, passava dias inteiros sem tomar alimentos; fazia sua oração durante quase toda a noite e somente tomava algum descanso sobre uma pedra nua. No lugar mais escondido daquela cova, brotou, de uma pedra dura, graças às suas orações, uma fonte que ainda existe, cuja água levada a diferentes regiões, as mais das vezes restitui a saúde aos enfermos. Finalmente, em uma epidemia que infestou aqueles lugares, achando-se ele servindo aos enfermos e carregando sobre seus próprios ombros os cadáveres para lhes dar sepultura, foi surpreendido por aquele mesmo mal e expirou no ósculo do Senhor, no ano de 1557, aos cinquenta e seis de idade. 

Santo Inácio de Loiola – Santo Inácio, espanhol, seguiu até a idade de vinte e um anos a carreira das armas. Fraturando uma perna no sítio de Pamplona, e sendo muito longa sua cura, pediu algum livro de cavalaria para passar o tempo. Como, porém, não se encontrasse nenhum desse gênero no lugar em que se achava, deram-lhe a vida de Jesus Cristo e dos santos. Começou a folhear o livro com má vontade, porém como trabalhasse nele a graça, encontrou nos exemplos que ali se narravam, coisas maiores que todos os heroísmos dos conquistadores, dos cavaleiros, e dos capitães, contados nas histórias de cavalaria. Depois de algumas lutas entre o espírito e a carne, tomou a resolução de imitá-los e de se fazer santo. Foi desde então sua vida um conjunto de feitos maravilhosos pela constância, zelo e atos heróicos de virtude. No ano 1534 fundou a Companhia de Jesus, justamente considerada como um dos baluartes levantados por Deus para resistir aos ataques dos novos hereges, e dos mais poderosos exércitos espirituais para propagar a fé nos paises estrangeiros. santo Inácio estabeleceu sua principal residência em Roma, e ali empregou o resto da vida em consolidar sua instituição. Teve a consolação de vê-la aprovada pelos Sumos Pontífices, e seus filhos, levarem frutos de graças e de bençãos, a todas as partes do mundo. Cheio de méritos, esclarecido por virtudes e milagres, descansou no Senhor do ano 1556, sexagésimo quinto de sua idade.  Entre os mais célebres discípulos de santo Inácio assinala-se São Francisco Xavier, que, pelos grandes trabalhos sofridos, pelos muitos milagres operados pelo prodigioso número de infiéis convertidos, mereceu o glorioso título de Apóstolo das Índias. 

Adoração das Quarenta Horas – Esta prática, à qual se deve a conversão de grande número de pecadores e o progresso na virtude de muitos santos, teve princípio, segundo se pensa, em Milão, no ano 1534. Por causa das discórdias que apareceram entre Francisco I, rei da França, e o imperador Carlos V, os dois exércitos inimigos tinham convertido as planícies de Milão em campo de batalha, faltando pouco para que a mesma cidade e as demais povoações circunvizinhas, fossem miseravelmente expostas à licença, rapinas, incêndios e estragos dos soldados franceses, espanhóis, e alemães. Naqueles calamitosos tempos o Padre José de Fermo, capuchinho, divinamente inspirado, exortou os Milaneses a expor sobre o altar, pelo espaço de quarenta horas consecutivas, o SS. Sacramento, em memória do tempo que Nosso Senhor Jesus Cristo esteve no sepulcro, assegurando­lhes que se assim o fizessem, ver-se-iam livres da invasão inimiga. Foi ouvida a palavra do piedoso pregador, e tudo se deu como havia predito. Reconciliaram-se os dois monarcas e a paz tão suspirada voltou àquelas devastadas regiões dos Milaneses. Os sumos pontífices enriqueceram esta devoção com muitas indulgências, e em curto espaço de tempo, se propagou em todo o mundo católico, de tal sorte, que em muitas cidades populosas, foi instituída a adoração perpétua, isto é, a exposição do SS. Sacramento, distribuída de tal maneira, que, todos os dias do ano, há em alguma igreja da mesma cidade, exposição das Quarenta horas. (Ben. XIV, Bov.) 

Fim de Lutero – Este miserável apóstata depois de ter desprezado todo argumento e toda autoridade, e depois de ter queimado a bula do Papa que o condenara, não cessou de pregar a rebelião contra a Igreja e contra os príncipes. Refutado em repetidas ocasiões por palavra e por escrito, não sabendo já como se defender, apelou para um concílio geral. Convidado para assistir a ele, negou-se a princípio, porém logo respondeu enfurecido: “Irei ao concílio, e que me cortem a cabeça se não souber defender minhas opiniões contra todo o mundo.” Mas o infeliz teve de ir defendê-las em presença do juiz divino. Certo dia depois de uma ceia opípara, acometeram-no fortes dores de estômago; levaram-no logo para a cama, porém as dores se tornavam cada vez mais atrozes. Cheio de cólera e vomitando horríveis blasfêmias, acabou miseravelmente a vida. Diz-se que, momentos antes de expirar, exclamou, olhando para o céu através de uma janela: “Tudo está acabado para mim, pois, formoso céu, jamais te tornarei a ver!” Morte semelhante a esta foi no nosso tempo a do infeliz apóstata Luiz Desanctis. Resolvera pregar em Florença, durante o concílio do Vaticano, uma série de conferências contra os dogmas da Igreja católica; deviam estas começar a 17 de janeiro de 1870. À tarde, do dia 31 de dezembro de 1869, enquanto se achava exaltando com seus amigos, depois de uma ceia suculenta, o êxito que esperava alcançar, foi surpreendido por fortes dores dos intestinos, seguidas de hemorragia de sangue. Levado à cama, ainda pode dizer: “Empreendi um mau trabalho; temos de nos separar”; e dito isto, compareceu ante o tribunal de Deus. 

Carlostádio – Carlostádio, professor de teologia em Wittemberg, era um dos mais zelosos partidários de Lutero; como, porém, se opusesse a algumas inovações deste, foi obrigado a abandonar sua pátria e refugiar-se em Ormeionda, cidade da Saxônia. Ali começou a censurar acremente a conduta de Lutero, o que deu motivos a escândalos e sublevações populares, de maneira que, o Eleitor de Saxônia, viu-se obrigado a enviar ali a Lutero para restabelecer a paz. Pelo caminho Lutero pregou em Jena, em presença de Carlostádio, a quem não deixou de chamar de ignorante e sedicioso. Ao sair do sermão foi Carlostádio vê-lo no hotel do Urso Negro, onde se hospedara. Ali, depois de ter-se defendido relativamente ao qualificativo de sedicioso, que lhe dera, declarou-lhe que não podia concordar com ele em relação à doutrina da presença real. Lutero então, com ar de desagrado, desafiou-o a que o refutasse por escrito, e prometeu-lhe um florim de ouro sempre que o fizesse. Carlostádio aceitou o desafio e ambos beberam, brindando um à saúde do outro. assim se declarou a guerra entre os dois apóstolos da reforma. Carlostádio ao separar-se de Lutero disse-lhe: “Oxalá pudesse eu ver-te enforcado.” “Pois eu, respondeu-lhe Lutero, desejaria que quebrasses a cabeça antes de sair da cidade!” Lutero foi muito mal recebido em Ormeionda, e pouco faltou, para que por instigação de Carlostádio, não o matassem. Lutero queixou-se disto ao Eleitor, e Carlostádio viu-se obrigado a refugiar-se na Suíça, onde Zuinglio e Ecolampádio tomaram sua defesa. Dali teve origem à seita dos sacramentários, assim chamada porque, contra Lutero, negavam a presença real. A memória de homens de tão infames costumes, tais como Lutero e Calvino, devera-se sepultar no esquecimento como se faz com a dos homens abomináveis; porém como sua doutrina dá livre expansão às paixões, tiveram e ainda tem muitos sectários que a professam. 

O imperador Carlos V – Carlos V, depois de ter satisfeito sua desenfreada ambição com quarenta anos de esplêndidas vitórias, quis finalmente ir em busca de um reino em que pudesse achar a paz do coração, que buscara em vão até então nas riquezas mundanas. Com esta intenção renunciou à dignidade real e outros títulos e, desejando reparar as culpas graves que tinha cometido, retirou­-se para um convento dos padres Jerônimos, na Espanha, e ali passou o resto de sua vida no retiro e nos exercícios de piedade. Assistia aos ofícios divinos, comungava com frequência, e disciplinava-se com os monges. Às vezes, por estranho capricho; fazia celebrar seus funerais como se tivesse falecido, com o fim de ter mais viva a lembrança de que estava morto para o mundo. Depois de ter passado dois anos no retiro e na penitência, morreu no ano de 1558, e foi dar contas a Deus da frieza com que se opôs ao protestantismo que teria podido sufocar em seu nascimento; como também do sacrílego escândalo que deu ao mundo, saqueando Roma e encarcerando a Clemente VII. 
CAPÍTULO III 
Concílio Tridentino (Concílio de Trento) – São Pio V – Santa Teresa – São Carlos Borromeu – São Luiz Gonzaga. 

Concílio Tridentino (Concílio de Trento) – A guerra encarniçada que os protestantes tinham declarado a Igreja, e a necessidade urgente de reanimar no clero e no povo a santidade dos costumes, tornavam necessária a convocação de um concílio ecumênico. Convocou-o, efetivamente, o Papa Paulo III, em Trento, cidade do Tirol italiano, donde, tomou o nome de Concílio Tridentino. Este é o décimo nono concílio ecumênico. Durou mais de dezoito anos, por ter sido interrompido diversas vezes, por causa da epidemia ou das guerras. Abriu o concílio o Papa Paulo III, no ano 1545; foi continuado sob Júlio III, e levado a feliz termo, no ano 1563, no pontificado de Pio IV, graças ao zelo do infatigável São Carlos Borromeu. Presidiram-no os Papas por meio de seus legados, e tomaram parte nele muitos prelados e insígnes teólogos. À sua conclusão se achavam presentes 255 padres, isto é, 4 legados, 2 cardeais, 3 patriarcas, 25 arcebispos, 168 bispos, 7 abades, 39 procuradores de padres ausentes e 7 superiores gerais de ordens religiosas. O fim principal deste concílio era condenar e refrear as heresias de Lutero, Calvino e outros hereges daqueles tempos, E fazer igualmente novas leis disciplinares concernentes particularmente ao clero. Convidaram também para assisti-lo aos protestantes, e foi-lhes dado plena liberdade para discutir e garantias plenas de que não seriam molestados, porém nenhum deles se apresentou, porque as trevas fogem da luz, e quem está interessado em sustentar o que e falso, teme ser convencido da verdade. Foram condenados todos os erros inventados e suscitados naquela idade por Satanás, porém não se condenou herege algum pessoalmente, indicando seu nome. Foram dados muitos decretos dogmáticos relativamente à graça, aos sacramentos, ao purgatório às indulgências e a outros pontos de fé e foram estabelecidos muitos preceitos de moral cristã. Celebraram-se 25 sessões, em que se encerra a doutrina e a disciplina de quase todos os concílios celebrados anteriormente. Neste, o Espírito Santo iluminou de tal modo sua Igreja que ao redigir as definições dogmáticas, e ao expor a doutrina católica, foram previstos os erros que pudessem ser suscitados no futuro. Mui dificilmente, pois, aparecerão heresias, que direta ou indiretamente não tenham já sido condenadas neste concílio. Com o fim de não se interpretarem mal as decisões do Concílio Tridentino, instituiu a Santa Sé uma congregação chamada: Congregação do Santo Concilio de Trento, composta de cardeais e prelados, para velar para que não se violem os cânones e decretos, e para definir sua interpretação nos casos de controvérsia. 

São Pio V – Ao Papa Pio IV morto no ano 1565, sucedeu São Pio V, um dos pontífices mais ilustres que ocuparam o trono de São Pedro. Nascido em Bosco, perto de Alexandria, no Piemonte, na idade de doze anos encontrou-se por casualidade com dois religiosos Dominicanos, os quais, admirados da precocidade do menino, o levaram para seu convento. Ali progrediu tanto na ciência e na virtude, que, a seu pesar, o Papa o quis chamar a seu lado para servir-se dele em muitos assuntos da Igreja. Primeiramente o fez cardeal e depois o nomeou bispo de Mondovi. Sua pureza de costumes e a energia com que pregava, unidas à sua rígida mortificação, atraíram para a fé a muitos hereges, converteram obstinados pecadores e remediaram gravíssimas desordens. Foi eleito Papa a 7 de janeiro do ano 1566. Pode-se dizer, que bastaram os seis anos de seu pontificado, para mudar o aspeto do mundo. Ao passo que os hereges causavam enormes males às almas na Alemanha, na França e nos Paises Baixos, ele, com a palavra, com seus escritos, e com a obra de zelosos missionários, combateu os erros e conservou a pureza da fé. Acometido por uma enfermidade que lhe causava agudíssimas dores, não proferia senão estas palavras: “Senhor, aumentai meu mal, mas igualmente a minha paciência.” Já próximo à morte repetia com frequência: “Estou cheio de prazer, pois alimento a esperança de entrar preparado na casa do Senhor.” Este grande santo pontífice morreu no ano 1572. Tinha muita devoção à Mãe do Salvador; e para eternizar a memória da insígne e esplêndida vitória alcançada por sua intercessão no ano 1571, pelos Cristãos contra os Turcos, nas águas de Lepanto, instituiu a festa do SS. Rosário e mandou que nas Ladainhas Lauretanas se acrescentassem as palavras: Auxilium Christianorum, ora pro nobis.

Santa Teresa – Santa Teresa nasceu em Ávila, cidade da Espanha. Os cuidados que lhe prodigalizaram seus pais contribuíram eficazmen­te para elevá-la a um grau heróico de virtude. Como agradassem muito a seu pai os livros de piedade, fazia, dando um belo exemplo, ler todos os dias a vida, de algum santo no seio da família. As atas dos mártires que tinham derramado seu sangue pela fé, produziram tão viva impressão em Teresa, que aos sete anos de Idade fugiu secretamen­te de casa com o irmãozinho, para ir em busca do martírio, porém, tendo-os encontrado um seu tio, os trouxe a casa paterna. A consideração de uma eternidade feliz ou desgraçada fazia-a exclamar com frequência: “Como! Para sempre feliz? Como! Padecer para sempre?” Este pensamento a fez tomar a resolução de se santificar, ou antes, de fazer quanto estivesse em seu poder para chegar ao mais alto grau de santidade. Construiu no Jardim, com ramos de árvores, uma pequena cela, onde se retirava para rezar. Crescida já, entrou para o mosteiro das Carmelitas, que fez voltar mais tarde a seu primitivo rigor e fundou muitos outros, em que se mostrou luminoso modelo de perfeição cristã. Cilícios, disciplinas, orações, contemplações, frequentes colóquios com Jesus, eis as coisas que se admiram no decurso de sua vida. Com muita frequência ouvia-se-lhe exclamar: “Divino esposo, ou aumentai a capacidade do meu coração, ou ponde termo às vossas graças!” Gozava tanto nos sofrimentos que repetia com frequência: “Ou padecer, ou morrer por vós, meu Jesus! Aut pati, aut mori”. Ao che­gar ao termo de sua vida dizia: “Já é tempo, ó meu Deus, de vos ver, pois tanto me há consumido este desejo”. Entregou sua alma ao Criador no ano 1582.

São Carlos Borromeu – Este brilhantismo luminar da Igreja, nasceu em Arona, nas margens do Lago Maior. Um resplendor celestial que rodeou e iluminou o lugar de seu nascimento, pressagiava que havia de ser um grande santo. Jovem ainda, fugia da companhia dos mundanos e dos que se mostravam vãos em suas ações ou imodestos em suas palavras. Fazer pequenos altares, adorná-los, rezar diante deles, imitar as cerimônias da santa Igreja, eram seus melhores divertimentos. Tanto em Milão como em Pavia, onde cursou seus estudos não conheceu senão dois caminhos, o da Igreja e o da escola. Um santo sacerdote, ao contemplar seu devoto comportamento, exclamou: “Este jovem será um dia o reformador da disciplina na Igreja”. Na idade de 23 anos apenas foi feito cardeal e nomeado arcebispo de Milão. Seu zelo no ministério episcopal, sua caridade e fervor em tudo o que podia ser de utilidade para as almas, os trabalhos que venceu e seus numerosos escritos foram bastantes para fazer dele uma das mais firmes colunas da Igreja. Foi ele quem trabalhou com grande ardor para se levar a termo, secundando o ardente desejo de todos, a obra do Concílio de Trento. Em seguida, com o fim de promover a publicação e a aplicação prática dos decretos do mesmo, convocou vários concílios provinciais e sínodos diocesanos por cujo meio desarraigou não poucas desordens de sua vastíssima diocese e das de seus sufragâneos da Lombardia. Tendo uma espantosa epidemia infestado a cidade de. Milão se fez Carlos o pai de todos. Vítima da caridade, considerava a morte como um prêmio; por isso não descansava de dia nem de noite levando a todas as partes palavras de confiança, de amor e de consolação. Ele mesmo às vezes, administrava os sacramentos aos atacados da peste, e quisera estar continuamente com eles para servir-lhes se não lho impedissem seus eclesiásticos que temiam que a peste privasse a diocese de seu pai e pastor. Trabalhava sem descanso, tomava alimento mui escasso e frequentemente comia a cavalo para não perder tempo. Em um só dia deu em esmolas uma herança de 40 mil escudos de ouro em outra ocasião deu 20 mil. Não se pode conceber como um só homem tenha podido efetuar tantas e tão grandes empresas. Gasto pelos trabalhos e pelas austeridades, sentindo chegar seu fim, pediu que o dei­tassem sobre um cilício e que o cobrissem de cinza. Depois de algumas horas de pacífica agonia, voou ao céu, tendo somente 47 anos de idade para receber o prêmio eterno de que se tinha feito credor com suas virtudes. (Ano 1584). 

São Luiz Gonzaga – Enquanto se achava São Carlos fazendo a visita pastoral de sua diocese, apresentaram-lhe um tenro jovem, chamado Luiz cuja santidade angelical percebeu logo o santo arcebispo. Este jovem, primogênito dos marqueses de Gonzaga, nasceu em Castiglione. Chama-se angélico pela candura de seus costumes e pela união fervorosa de sua alma com Deus. Aos quatro anos já amava tanto a solidão, que com frequência se escondia em algum canto de sua casa ou em qualquer lugar oculto, e ali, de joelhos, com as mãos juntas orava com grande fervor. A devoção acrescentou austeras penitências. Nunca se aproximava do fogo para se aquecer por mais frio que fizesse e por mais cruel que fosse a estação; jejuava com tal rigor, que com frequência reduzia seu alimento ao peso de uma onça por dia. Punha pedaços de madeira na cama para atormentar-se também durante o sono; açoitava-se, às vezes, de tal modo que seus vestidos e a terra ficavam salpicados de sangue e cingia suas carnes com cinturões armados de rodas de esporas. Tendo entrado para a Companhia de Jesus levou a penitência, a virtude e o fervor até o heroísmo. Desejava ardentemente morrer mártir e alcançou efetivamente em Roma o martírio da caridade. Aparecendo nesta cidade uma horrível epidemia, pediu permissão a seus superiores para ir servir aos infectos da peste, e ele também foi vítima da doença fatal. Conhecendo que se aproximava seu fim, exclamava cheio de alegria: “Quão bela notícia me deu o médico! Dentro de oito dias estarei no paraíso!” E dizia a outros: “Vamos ao paraíso, cantai um Te Deum por mim”. Faltando-lhe a palavra e fazendo esforços para pronunciar o Santíssimo nome de Jesus, adormeceu docemente no Senhor em 1591, aos 23 anos e 6 meses de idade. Foi beatificado pelo Papa Paulo V, no ano de 1612, em vida ainda de sua mãe, a qual conseguiu assim o melhor prêmio que podia esperar pela boa educação que lhe dera. Canonizou-o, mais tarde, o Papa Bento XIII que o propôs como modelo e o declarou protetor da juventude. 
CAPÍTULO IV 
Henrique IV – São Filipe Neri – O venerável Ancina – Perseguição no Japão – O pequeno Pedro, mártir – Cesar de Bus e os Doutrinários – São Camilo e os ministros dos enfermos – Santa Rosa de Lima – São Francisco de Sales e o Chablais

Henrique IV – O calvinismo tinha feito rá­pidos progressos em França, especialmente por culpa de seus reis; e até tentou, por meio de Hen­rique IV, sucessor de seu cunhado Henrique III, e chefe da facção calvinista, sentar-se no trono pa­ra infeccionar e corromper toda a nação. Porém, Deus preservou a França de semelhante desgraça, que teria sido a mais deplorável de todas, fazendo com que Henrique conhecesse e abraçasse a verdadeira religião. Este, primeiramente se instruiu bem nos dogmas que ensina a santa Igreja católica, depois mandou comparecer à sua presença os ministros protestantes e perguntou-lhes se acreditavam que ele podia salvar-se na Igreja romana. Estes, depois de refletir seriamente, responderam-lhe que sim. “Pois então, disse ele muito sabiamente, porque vós a abandonastes? Se os católicos afirmam que ninguém pode salvar-se em vossa seita; e vós afirmais que na deles pode-se conseguir a salvação, parece-me mais conforme à razão seguir o caminho mais seguro, e preferir aquela religião em que, segundo o sentir comum, eu posso salvar-me”. Dessa maneira o rei abjurou solenemente o calvinismo, recebeu do Papa a absolvição das censuras em que tinha incorrido, e trabalhou para fazer florescer a Religião em seus estados. Ano 1593. 

São Filipe Neri – Entre as maravilhas do décimo sexto século, conta-se São Filipe Neri, florentino. Levado pelo desejo de entregar-se inteiramente a Deus, abandonou, ainda que filho único, o lar paterno, renunciou aos avultados bens de um seu tio que o queria nomear herdeiro, e foi a Roma. Ajudado por um caridoso cavalheiro, pode seguir ali seus estudos e chegar ao sacerdócio. Desejava ardentemente ir a longínquas missões para conseguir a palma do martírio; porém Deus manifestou-lhe que o lugar destinado para sua missão, era a mesma cidade de Roma, onde se achava. Começou, portanto, a exercer o ministério sacerdotal com toda classe de pessoas, especialmente com os meninos abandonados. Procurava-os por toda a cidade, e os levava para sua casa, ou antes, ao jardim de alguma casa religiosa ou de pessoas caridosas, e ali, com amenos entretenimentos e diversões arredava-os do perigo de contraírem maus hábitos e os instrui a nas verdades da fé. assim começou a congregação do Oratório, que tem por fim principal manter a fé e a piedade nas classes operárias, especialmente na mocidade. O Senhor confirmou a santidade de Filipe com muitas maravilhas. Achava-se tão inflamado do amor de Deus, que o ouviam exclamar: “Basta, Senhor, basta, porque morro de amor”. Orando, ou celebrando a santa Missa era visto muitas vezes rodeado de vivo esplendor. Um dia enquanto se achava distribuindo esmolas aos pobres, deu-a também a um anjo sob as aparências de mendigo. Era tão zeloso guarda da virgindade, que até pelo cheiro conhecia quem era ornado desta vir­tude, e quem contaminado do vício contrário. Curou a muitos enfermos, e ressuscitou a um morto. Finalmente; aos 80 anos de idade, consumido pelas fadigas e pelo amor divino, foi unir-se para sempre a seu Deus, no mesmo dia e hora em que tinha predito. Ano 1595. 

Venerável Ancina – Um dos primeiros e mais ilustres discípulos de s. Filipe Neri, foi João Juvenal Ancina, nascido em Fossano no ano 1545. Cursou seus estudos em Montpelier, em Mondovi, em Turim, e em Pádua. Ilustrado com muitos conhecimentos, ocupou por algum tempo a cadeira de medicina na universidade de Turim. Tendo, porém renunciado ao mundo e entrado no Oratório de Roma, tornou-se modelo perfeito de virtudes religiosas. Mandou-o São Filipe a Nápoles para cooperar na fundação de sua congregação; ali trabalhou Ancina por dez anos com tanta atividade no ministério eclesiástico, que ganhou a estima de todos. Elevado pelo sumo Pontífice à dignidade episcopal de Saluzzo, resistiu por alguns meses, porém finalmente submeteu-se a tão pesado encargo. Entrou em sua diocese no ano de 1602, e, em breve tempo, a santificou com suas incessan­tes fadigas, com seu exemplo e com seu zelo. Morreu o santo bispo a 31 de agosto do ano 1604, envenenado por um infeliz, a cujas maldades se opunha. A 29 de Janeiro de 1870, Pio IX declarou que todas as virtudes do Pe. Ancina, tinham chegado ao grau heróico. 

Perseguição no Japão – Enquanto era Deus glorificado em seus santos em todas as partes do mundo suscitava o inferno, no Japão, uma perseguição longa e cruel. Via-se neste vasto império, trazido a fé pelos suores e fadigas de São Francisco Xavier, crescer diariamente o número de crentes e aumentar de modo extraordinário a Piedade o fervor. Quando, porém subiu ao trono do Império Taicosama, quis afastar do seu reino uma religião que contradizia a suas brutais paixões. Pelo que castigava com o desterro e até com a morte, a quem não renunciasse ao Evangelho. Começou a perseguição na mesma corte imperial, e Ucondono, general-chefe do exército, foi a primeira vítima. Os Jesuítas, os Franciscanos e os Agostinianos, caíram logo sob seus ferozes golpes. Mas nem por isso deixou de triunfar a graça de Deus, e ainda então se viram os exemplos de heroísmo dos primeiros séculos da Igreja. Velhos e Jovens, nobres e plebeus, arrostavam com tal firmeza os mais atrozes tormentos, que o imperador viu-se forçado a dizer: “Há verdadeiramente alguma coisa de extraordinário na constância dos Cristãos”. As próprias mulheres preparavam seus vestidos de festa para honrar o dia de seu triunfo, pois, assim com transportes de júbilo chamavam o dia marcado para o martírio. Conduziam, certo dia ao suplício a três tenros jovens, entre os quais se achava um, de doze anos, chamado Luiz, o qual comoveu de tal maneira ao verdugo, que este se prontificou em pô-lo em liberdade e lhe fez as mais lisonjeiras promessas. Luiz, porém, respondeu-lhe: “Guardai para vós essa compaixão que mostrais para comigo, e tratai, antes de conseguir a graça do batismo, sem o qual não podereis evitar uma eternidade de sofrimentos”. Foram empregados os mesmos ardis com outro chamado Antonio, e prometeram-lhe honras e riquezas da parte do Imperador. “Não, não, respondeu sem demora, o amor da fortuna: não tem para mim mais Eficácia do que os suplícios eternos; a maior felicidade que posso ter, é a de morrer na cruz por um Deus, que morreu nela por mim”. Ao chegar ao lugar do suplício, aqueles magnânimos jovens entoaram cheios de alegria o salmo Laudate pueri Lominum; e foram crucificados com outros vinte e seis mais, mostrando uma firmeza que fazia estremecer aos próprios verdugos. Ano 1597. 

pequeno Pedro, mártir – Entre aqueles confessores da fé, encheu a todos de assombro um menino de seis anos, natural de Tingo, que se chamava Pedro. Seu pai já tinha sido condenado à morte e Pedro estava compreendido no mesmo decreto. O terno menino ao ouvir ler a sentença, exclamou: “Oh! Quanto me agrada isso!” Esperou com impaciência que lhe vestissem o melhor traje, e logo, cheio de alegria, tomou pela mão o mandarim e se dirigiu ao lugar do suplício. O primeiro objeto que se apresentou ante seus olhos foi o corpo de seu pai, nadando ainda em seu mesmo sangue. Não mostrando a menor admiração, aproxima-se do cadáver, prostra-se, junta suas inocentes mãozinhas, abaixa a cabeça e tranquilamente espera o golpe da morte. Ante aquele espetáculo, levanta a multidão um confuso clamor, e não se ouvem senão gemidos e prantos. O próprio verdugo comovido, atira sua espada e sai soluçando. Substituem-no outros dois e se comovem igualmente. Foi, pois, necessário recorrer a um escravo, que com mão trêmula e inexperiente, descarregou tal quantidade de golpes sobre o pescoço e ombros da terna vítima, que a despedaçou. 

Cesar de Bus e os Doutrinários – O venerável Cesar de Bus foi destinado pela Providência para instituir a congregação da Doutrina Cristã. Nascido na cidade de Cavaglion, de nobre família francesa, dedicou-se desde jovem à perigosa carreira das armas. O mundo ganhou-o e o infeliz Cesar seguiu perdidamente suas máximas até que, iluminado pela divina graça, reconheceu que o mundo era enganador e que só Deus é o verdadeiro remunerador das boas ações. Não fazendo caso algum das burlas de seus camaradas começou a praticar com grande zelo as obras de misericórdia para com os pobres e os enfermos, e em­pregou toda sorte de meios para instruí-los nas verdades da fé. Para tirar proveito de sua santa empresa, e não ter nada que ver com o mundo nem com suas máximas perversas, consagrou-se a Deus no estado eclesiástico. Pôs-se logo a trabalhar com zelo no sagrado ministério e mui depres­sa seu coração se encheu de amargura, vendo que, por falta de instrução religiosa, a heresia e a revolução ameaçavam invadir a França. Foi então que concebeu o desígnio de fundar uma socieda­de, cujos membros se dedicassem com voto espe­cial a ensinar o catecismo. Para isso escolheu certo número de zelosos companheiros e deu princípio em Avignon, no ano 1592, à congregação dos Doutrinários, ou da Doutrina cristã. O arcebispo da cidade trabalhou eficazmente para conseguir que a santa Sé aprovasse a congregação, pois não podia deixar de ser recebida com júbilo uma instituição, cujo principal fim era ensinar a doutrina. cristã as crianças e aos adultos, seja nos catecismos ou na pregação, em ocasião de tríduos, novenas, mlssões, seja no governo das paróquias. Deus quis provar a santidade de seu servo com longa e penosa enfermidade, que suportou com resignação heróica. Finalmente, depois de doze anos de dolorosa cegueira, descansou no Senhor, no ano 1607, aos 63 anos de idade, no dia mesmo que tinha predito. Depois da morte de seu fundador, a Congregação continuou fazendo rápidos progressos na França e na Itália. 

São Camilo e os Ministros dos enfermos – São Camilo de Lelis é o fundador da maravilhosa instituição dos Ministros dos enfermos. Ainda antes de nascer viu-o sua mãe em sonhos com uma cruz no peito, guiando a outros meninos que traziam o mesmo sinal. Em sua primeira idade seguiu a carreira militar e deixou-se avassalar miseravelmente pelos vícios; porém Deus, que o chamava para grandes coisas, compadeceu-se dele, e aos 25 anos de idade, fez conhecer tão vivamente a Camilo o estado de sua alma, e conceber tão grande horror pelo pecado, que naquele mesmo dia foi confessar-se e começou vida penitente, em que permaneceu até sua morte. Por ter-se-lhe aberto uma dolorosíssima chaga na perna, foi a Roma, ao hospital dos incuráveis; conhecido aí seu mérito, confiou-se-lhe a administração do estabelecimento. Reputando-se qual servo de todos, exercia os mais humildes trabalhos, fazendo-se tudo para todos em todas as coisas, especialmente quando se tratava de assistir aos moribundos. Acabando de ver que no exercício daquele caridoso ministério lhe fora de suma utilidade o conhecimento das ciências, vencendo todo respeito humano, se pos na idade de trinta anos, a estudar com os meninos os primeiros elementos da gramática. Ordenado sacerdote, chamou em seu auxílio a outros companheiros, e assim deu princípio à Congregação dos ministros dos enfermos aprovada por Paulo V, no ano 1568.  Quis Deus, por meio de sinais sobrenaturais, dar a conhecer quanto lhe agradava esta nova instituição. São Filipe Neri, confessor de Camilo, assegurou ter visto anjos que apontavam aos discípulos do santo as palavras que tinham de dizer enquanto assistiam aos moribundos. Brilhou particularmente sua excessiva caridade quando Roma se achou assolada por terríveis açoites da carestia e da peste. Centenas de pobres abandonados foram pelo santo socorridos em suas necessidades espirituais e temporais. Ardia nele tanta caridade, que parecia um anjo revestido de carne, tanto que até mereceu receber o socorro dos anjos em vários perigos de sua vida. Consumido pelos jejuns, pelos trabalhos e por cinco enfermidades diferentes, chamadas por ele as misericórdias do Senhor, fortalecido com todos os sacramentos morreu em Roma no ano 1614, sexagésimo quinto de sua idade, na hora por ele predita. 

Santa Rosa de Lima – Ao passo que se multiplicavam os mártires no Japão e que se enriquecia a Igreja com novas palmas e coroas, na América Meridional, santificada pela fé católica, começava a resplandecer a candura da virgindade. A primeira flor virginal foi santa Rosa de Lima. A graça precedeu nela a idade, e em tão alto grau, que aos cinco anos fez voto de perpétua virgindade. Já crescida, para que não a pedissem em matrimônio, cortou seus formosos e louros cabelos. Durante o tempo quaresmal chegava a tal extremo o Jejum, que não tomava mais que cinco gomos de laranja por dia.  Ao vestir o hábito da ordem terceira de São Domingos, redobrou seu fervor e suas austeridades. Um cilício armado de agudas pontas cingia suas carnes; dia e noite trazia um véu tecido de agudíssimos espinhos; formava sua cama um monte de nodosos ramos onde tomava muito breve descanso o resto do tempo passava em oração e fazendo obras de caridade. Foi muito atribulada por longa e cruel enfermidade que suportou com alegria por amor de Jesus crucificado. Apareceu­lhe uma vez seu celestial esposo e disse-lhe: “Rosa de meu coração, tu és minha esposa”. Cheia de méritos, foi ao céu receber a coroa das virgens, no ano 1619 aos 31 anos de idade. 

São Francisco de Sales e o Chablais – São Francisco de Sales foi suscitado pela Providência para combater, e, até se pode dizer, para destruir a heresia de Calvino e Lutero, na parte da Sabóia chamada Chablais, que tinha sido infetada por seus erros monstruosos. Apelida-se de Sales por assim chamar-se o castelo de Sabóia onde nasceu. Tendo-se entregado inteiramente a Deus desde jovem e conservando zelosamente sua virginal candura, formou seu coração em todas as virtudes especialmente na doçura e mansidão. Não sem ter superado antes graves obstáculos da parte de seu pai, renunciou aos sedutores afagos do mundo e se consagrou ao ministério dos altares. Impelido pela voz de Deus, que o chamava para obras extraordinárias, partiu para o Chablais, sem outras armas que as da caridade. À vista das igrejas arruinadas, dos mosteiros destruídos, das cruzes arrancadas, enchendo-se de santo zelo dedica-se logo ao apostolado. Alvoroçam-se os hereges, e tratam de matá-lo; porém ele com paciência, com sermões, com escritos e com milagres, apazigua aos tumultuosos, ganha os assassinos, desarma o inferno e a fé católica triunfa com tanto esplendor, que em pouco tempo somente no Chablais, converteu ao seio da Igreja a mais de setenta e dois mil hereges. Divulgada a fama de sua santidade, fizeram-no, a seu pesar, bispo de Genebra, ainda que residisse em Annecy; como se achasse aquela cidade em mãos dos calvinistas redobrou seu zelo, não se recusando a cumprir, quando era necessário, com os ofícios mais humildes do ministério eclesiástico. Depois de uma vida inteiramente consagrada à maior glória de Deus, apreciado dos povos, honrado pelos príncipes, amado pelos sumos pontífices, e respeitado pelos próprios hereges entregou a alma a Deus em Lion, na habitação do Jardineiro do mosteiro da Visitação onde quisera hospedar-se no dia dos santos Inocentes do ano 1628. São Francisco de Sales é o fundador das Freiras da Visitação, no recinto de cujos mosteiros quis que fossem aceitas as senhoras que em razão de idade ou de enfermidade não fossem recebidas em outros mosteiros. Esta ordem conta hoje cerca de 200 casas espalhadas em várias partes do mundo. 
CAPÍTULO V
Jansênio – Novas crueldades no Japão – Castigo dos perseguidores – São José Calazans e as Escolas pias – São Vicente de Paulo e os Lazaristas – Reforma dos Trapistas – História do Galicanismo – Progresso do Evangelho no Novo Mundo.

Jansênio – Depois da solene condenação do protestantismo no concílio de Trento, pode gozar a Igreja de alguma paz até que apareceu o Jansenismo, heresia que deve seu nome a Cornélio Jansênio, seu autor. Natural de Accoy na Holanda e filho de pobres artistas, foi por um caridoso barbeiro guiado na carreira dos estudos. Mas, para sua primeira desgraça, contraiu amizade com um tal De-Vergel, conhecido na história sob o nome de Abade de São Cirano. Uniu-se a isto o ensino do Dr. Janson, o qual se esmerava em infundir em seus discípulos a doutrina de Baio, doutor da Universidade de Lovaina, condenado pela Igreja. Não obstante isto, como Jansênio ocultava seus erros, e parecia bastante douto nas ciências sagradas e mui apto em fazer obras de caridade, foi nomeado bispo de Iprés no ano 1636. Foi curto seu episcopado, porque dois anos depois morreu de peste, aos 53 ele idade.Os erros de Jansênio, que em maior parte são em relação à graça, à liberdade, ao pecado original, ao mérito e demérito, estão espalhados em diferentes partes de suas obras, mas especialmente em seu famoso livro chamado Augustinus. Pretendeu expor nele as doutrinas genuínas daquele santo doutor; alterando, porém, o sentido delas, o que na realidade expôs foi a substância do calvinismo sob as aparências de uma doutrina estritamente católica. Ensinava, entre outras causas, que Deus impõe às vezes preceitos impossíveis, e que ao mesmo tempo nega a graça necessária para cumpri-los. Contudo não imprimiu Jansênio seu livro enquanto viveu; mas ao morrer, dispôs que se imprimisse, declarando, entretanto, que o submetia ao juízo da Santa Sé. Antes de expirar pronunciou o seguinte protesto: “Sei que o Papa é o sucessor de São Pedro e o depositário fiel do tesouro da Igreja; quero, pois, viver e morrer na fé e em comunhão com a cadeira do sucessor do príncipe dos apóstolos, do vigário de Jesus Cristo, do chefe dos pastores, do pontífice da Igreja universal”. Segue-se dai que os erros de Jansênio devem ser efeito, antes da imprudência que da malícia. Seus sectários, porém, longe de seguir o exemplo de seu mestre na submissão, tornaram-se orgulhosos e soberbos; ainda que condenados em di­ferentes vezes se mostraram cada vez mais obstinados. Por isso tal heresia durou longo tempo e causou gravíssimos males à Igreja porque com mil subterfúgios e enganos achou modo de encobrir-se com o manto do catolicismo. 

Novas barbaridades no Japão – A perseguição suscitada contra os cristãos por Taicosama, pareceu apaziguar-se algum tanto com sua morte e a de seus sucessores. Porém no reinado de Hogun-Sama e de seu filho, recrudesceu ainda mais, e tornou-se mui atroz. Foram postas em obra, para fazer apostatar os cristãos todas as barbaridades que se puderam inventar. A uns, arrancavam as unhas, a outros furavam os braços as pernas com verrumas; a muitos metiam sovelas por debaixo das unhas, e repetia-se o tormento durante vários dias consecutivos; suspendiam-os sobre poços cheios de víboras; atavam em seus narizes canos e tubos cheios de enxofre ou de outras matérias de cheiro insuportável, e logo ateavam fogo nelas, e sopravam para fazer fumaça e afogá-los, causando assim sufocações, convulsões e dores indizíveis. Mas não parava ali sua crueldade, pois metiam dentro de seus corpos canos pontiagudos, e suspendendo-os, flagelavam até descobrir-lhes os ossos. Para lacerar ao mesmo tempo o corpo e o coração das mães, davam golpes nelas com as cabeças dos próprios filhos, agarrados nos pés pelos verdugos, que, tanto mais aumentavam sua crueldade quanto mais agudos eram os gritos daquelas inocentes vítimas. Desde o ano 1597 até 1650, calcula-se que foram martirizados mais de um milhão e duzentos mil fiéis, e com tal gênero de tormentos que em sua comparação, a pena do fogo era considerada como uma mercê.

Castigo dos perseguidores – A justiça de Deus, porém, não deixou, como nos primeiros séculos da Igreja, de se manifestar contra os autores de tão horrenda perseguição. Um daqueles sobre o qual mais se fez sentir, foi Brogondono, príncipe da Himbra, que a todos tinha excedido em crueldades. Ao sair de uma conferência, em que se tinha decidido exterminar o cristianismo, foi surpreendido por agudas dores intestinais que o faziam dar horrorosos gritos e sofrer espantosas contorções. Causava horror ver a agitação de seu corpo, as espumas que lançava pela boca, os gritos que dava e as instâncias que fazia para tirarem de sua presença a um cristão armado de uma foice que, segundo dizia, se achava diante dele ameaçando-o continuamente. Cairam-lhe todos os dentes, e acendeu-se-lhe um fogo tão abrasador em seu corpo, que parecia ferver o sangue de suas veias e a medula de seus ossos. Conduziram-no a um banho de água quente onde fizera perecer a muitos cristãos; porém, apenas o mergulharam nele, ficou como cozido e morreu miseravelmente. Outros muitos perseguidores terminaram sua vida de modo a perceber-se que se viu claramente neles o sinal da ira de Deus. Todavia, a perseguição não cessou senão quando se acreditou, que mortos já todos os ministros do santuário e extinto o clero, também se tinham extinguido todos os cristãos. Mas estavam muito enganados. A fé cristã se manteve naquele império ainda sem eclesiásticos; e poucos anos há, tendo novamente entrado os missionários naqueles paises, encontraram com admiração, famílias e povos de bastante consideração, inteiramente cristãos. 

São José Calazans e as Escolas Pias – Escolheu Deus na pessoa de São José Calazans, um poderoso sustentáculo para a mocidade ameaçada. Nascido em Pedralta, na Espanha, de família nobre, deu desde seus primeiros anos, claros sinais de sua futura caridade para com os meninos, e do cuidado especial que teria com eles, pois, desde então, costumava reuni-los em redor de si, ensinar-lhes as orações e os mistérios da fé leva-los à igreja e a receber os santos sacramentos. Ordenado sacerdote, depois de sérios estudos, correu pregando durante oito anos, diferentes províncias de Espanha. Porém avisado por visões celestiais, foi a Roma no ano 1592. Ali, além de macerar seu corpo com jejuns, vigílias e outras austeridades, dedicou-se com ardor admirável a instruir aos meninos, a visitar e consolar os enfermos, e aliviar aos mais abandonados. Em uma grande mortandade associou-se com Camilo de Lelis para servir aos doentes de peste. Mas, fazendo-lhe Deus conhecer que sua missão era para os meninos pobres, para eles dirigiu suas solicitudes. Para ter herdeiros de seu zelo e caridade, instituiu, sob a proteção da Santa Virgem, uma Congregação de religiosos, chamada dos Escolápios, pela união das duas palavras Escolas pias. A nova congregação começava já a produzir frutos de bênção, quando o demônio se atirou furiosamente contra ela para destruí-la. O santo instituidor a susteve com incríveis trabalhos, e exercitando de tal maneira sua paciência, que era por todos chamado um novo Jó. Ainda que Superior geral, continuou como antes, varrendo seu quarto, limpando roupas e estendendo a cama. Nada descuidava do que pudesse contribuir para o bem de seus pobres meninos; acompanha­va-os nas diversas ruas da cidade até suas respectivas casas; ouvia-os a qualquer hora do dia, e achava-se sempre pronto para socorrê-los em todas as suas necessidades espirituais e temporais. Apesar de sua débil saúde, perseverou durante 40 anos neste trabalhoso ministério. Costumava recomendar a todos a devoção à Bem-aventurada Virgem Maria, que foi para ele objeto de particular veneração durante o curso de toda sua vida. Um dia, enquanto rezava com seus queridos meninos, apareceu-lhe a Santa Virgem com o menino Jesus, em atitude de abençoá-los. Aos 80 anos de idade teve de padecer muitas aflições por parte de três religiosos, dois deles de sua congregação. Caluniado e levado ante os tribunais, foi deposto do cargo de superior geral; porém, Deus o sustentou com sua graça e com seus celestiais favores. Esclarecido com o dom das profecias e milagres e da penetração dos corações, morreu em Roma, aos 92 anos de idade, depois de ter predito o restabelecimento e incremento da sua ordem, que se achava quase extinta então. Morreu a 25 de agosto do ano 1648. Seu coração e sua língua achavam-se ainda incorruptos 100 anos depois de sua morte. 

São Vicente de Paulo e os Lazaristas – A caridade cristã, que já tinha operado tantas maravilhas, devia produzir outras novas, e sob certos aspetos ainda mais admiráveis, na pessoa de São Vicente de Paulo. De humilde pastorzinho, tornou-se pelo estudo e pela virtude, digno do sacerdócio; caiu depois em poder dos Turcos e mais tarde foi, em Paris, vítima de uma calúnia. assim aprendeu a compadecer-se das misérias dos homens. Entregue completamente ao exercício da caridade, não havia infortúnio que não socorresse. Cristãos oprimidos pela escravidão, crianças expostas, jovens licenciosos, religiosos desamparados, mulheres caídas, peregrinos enfermos, artistas inválidos, loucos e mendigos, todos provaram os efeitos da caridade de Vicente. Para manter em seu primeiro vigor as obras de caridade, que ia fundando, instituiu a Congregação dos sacerdotes da Missão, apelidados Lazaristas, por assim chamar-se a casa de São Lázaro em Paris, onde a princípio viveram. Dilatou-se esta por todas as partes do mundo com enorme proveito da cristandade. Também fundou a Congregação das Filhas da Caridade cujo fim principal foi, a princípio, a assistência dos enfermos nos hospitais; porém mais tarde, consagraram-se ao serviço de qualquer instituição onde a caridade precisasse de seu trabalho, tais como escolas, asilos, casa de repouso, cárceres e estabelecimentos para órfãos. Esclarecido por virtudes e milagres, passou Vicente para melhor vida, no ano 1660, aos 80 anos de idade. Os hereges, e até os próprios ateus, não podendo negar um tributo de admiração a São Vicente de Paulo, colocaram sua estátua no Panteon dos homens beneméritos da pátria; e Voltaire, o grande mestre da impiedade, tinha grandes elogios para com as Irmãs da caridade. 

Reforma dos Trapistas – A Congregação dos Trapistas foi fundada no século XII por São Roberto sob a observância da regra de São Bento. Deve seu nome à Abadia principal da Diocese de Sez, em França, situada em um grande vale coroado de colinas e montanhas. Durante muitos anos floresceu de tal modo a observância religiosa, que saiu dali um grande número de santos; porém com o andar do tempo, introduziu-se nela tal relaxamento, que no século XVII já tinha perdido completamente seu antigo esplendor. Deus, porém, suscitou, na pessoa de um douto e rico eclesiástico chamado João de Rance, um austero restaurador da primitiva observância. Tinha este, por certo tempo, empregado seu saber e suas riquezas em favor do jansenismo, por cujo motivo levava uma vida mundana e repreensível. Compadeceu-se Deus dele. A morte repentina de um seu parente, e o ter escapado prodigiosamente de um tiro de fuzil, fizeram-no entrar em si, e pensar no juízo divino, ante o qual todos os homens se devem apresentar. Renunciou, pois, às vaidades do século, abjurou os sofismas do jansenismo, repartiu entre os pobres seus haveres, e vestiu o hábito do Cistér na Trapa. Feito pouco depois superior da Abadia, dedicou-se com ânimo resoluto a remediar os abusos que nela se tinham introduzido, e com, seu exemplo e autoridade, conseguiu fazer tornar a observância a seu antigo esplendor.Eis uma idéia da vida dos Trapistas, em sua solidão. Sofrem muito frio no inverno porque tem sempre a cabeça descoberta e nunca se aquecem ao fogo. Padecem muito calor no verão, pois nem limpam o suor do rosto Levantam-se a meia noite durante todo o curso do ano, e não se deitam até anoitecer. Nunca se encostam quando estão assentados. Durante oito meses contínuos comem uma só vez ao dia; renunciam ao uso do vinho, da carne, do peixe, dos ovos, da manteiga do azeite. Trabalham sem descanso e em obras mui pesadas; durante as grandes solenidades salmodiam pelo espaço de doze horas; nas festividades comuns; onze, e nunca menos de oito nos demais dias do ano. Um grosso e basto pano lhes serve de hábito no verão e no inverno. Dormem sobre tábuas nuas, observam rigoroso silêncio toda a vida, e renunciam às notícias do século, de seus pais e amigos, demonstrando assim com os fatos, que estão realmente mortos para o mundo.  João de Rancé, depois de passados quarenta anos nesta penitência, morreu octogenário, no ano 1700, com a consolação de ver florescer a observância religiosa, em seu maior auge, em toda sua congregação. 

História do Galicanismo – Para ter uma idéia clara do Galicanismo ou das liberdades galicanas ou como outros dizem, da igreja galicanas, é bom remontar à sua origem. Alguns querem fazê-la subir até os tempos apostólicos, enquanto outros pretendem que estas liberdades foram decretadas pelo rei São Luiz. Estas asserções, porém, carecem de fundamento. O princípio do Galicanismo acha-se ligado à Pragmática Sanção do ano 1438, solenemente abolida no ano 1516, por uma concordata entre o sumo pontífi­ce Leão X e Francisco I. Estes princípios do Galicanismo foram mais tarde, no ano de 1682, re­duzidos a verdadeiro sistema religioso em desprezo da Igreja, sob o reinado de Luiz XIV. Este príncipe teve um reinado mais longo do que qualquer outro soberano conhecido. Efetivamente regeu os destinos da França desde o ano 1643 até 1715. Teve a mania de imiscuir-se nos assuntos religiosos, e quis, entre outras coisas, reunir os eclesiásticos mais ilustres de seus Estados, para por um limite ao poder do Sumo Pontífice, Chefe da Igreja; como se este que recebeu do Salvador a plenitude de autoridade sobre os cristãos do mundo inteiro, tivesse de deixá-la restringir por um monarca, cujos poderes se limitavam ao reino de França. Achavam-se, pois, naquela assembléia, reunida. em Paris, 35 bispos e 25 deputados, e proclamaram os quatro artigos que constituem a base da chamada Igreja galicana. O quarto desses artigos assim se exprime: “Ainda que Pontífice tenha a parte principal nas questões de fé, seus decretos digam respeito a todas as igrejas a cada uma delas em particular, contudo, pode seu juízo ser corrigido se não aderir a ele consentimento da Igreja”. Só este artigo, derruba em sua base o catolicismo, porque põe em dúvida tudo o que fizeram os Papas desde São Pedro em diante. Dai se originaram guerras obstinadas contra a Santa Sé. Os sumos pontífices condenaram o Galicanismo, ao passo que os reis e muitos bispos franceses tomaram com tenacidade sua defesa. Finalmente, ao definir o Concílio Vaticano, que o Romano Pontífice é infalível nas coisas concernentes à fé e aos costumes, deu fim às turbulências que agitaram a Igreja durante duzentos anos. Os bispos de França, reunidos neste concílio com os bispos de todo o mundo, ao declararem infalível o Romano Pontífice, condenaram o Galicanismo com todas as consequências que se pretendiam tirar dos quatro artigos principais das liberdades galicanas. 

Progresso do Evangelho no Novo mundo – Quando os ministros católicos pisaram pela primeira vez aquelas vastíssimas regiões que formam o novo mundo, encontraram dificuldades para a pregação do Evangelho e para a conversão dos selvagens; porém, quando pela ferocidade destes, foram mortos alguns missionários e começou a correr o sangue dos mártires, viu-se logo que o derramamento de sangue seria como nos primeiros tempos da Igreja, semente fecunda de novos cristãos. Aqueles povos entregues desde tantos séculos à embriaguez, à luxúria, ao roubo, e o que mais espanta, acostumados a comer carne humana, à medida que recebiam a luz do Evangelho, depunham sua ferocidade, tornavam-se castos, sóbrios, piedosos, e prontos também para, derramar seu sangue por Jesus Cristo. Desde o golfo do México até o estreito de Magalhães, nas terras banhadas pelo Maranhão e Orenoco, de três mil a três mil e seiscentas milhas, nos lugares pantanosos e nas inacessíveis montanhas dos Mossas, dos Quiquitos, dos Baceros, e até dos Quirinanos, para o outro lado do Taman; entre os Guaranis e outros povos antropófagos, ressoou cheio de encantos, o nome de Jesus. assim, pois, de um extremo a outro do novo mundo, renovaram-se os floridos tempos da igreja primitiva. Ano 1700. 
CAPÍTULO VI
Irmãos das Escolas cristãs – Bento XIV. – São Paulo da Cruz e os Passionistas – Origem dos franco-maçons – Filosofia moderna – Voltaire e Rousseau. 

Irmãos das Escolas Cristãs – A Igreja católica, à imitação de seu divino esposo, pos sempre especial empenho em educar as crianças e formá-las desde pequenas à virtude. Entre a multidão de seus filhos que, inflamados neste espírito de caridade, se dedicaram de modo especial à educação da juventude, distinguiu-se o venerável João Batista de la Salle, de Reims. Unia este, a uma vida pura e inocente tal inclinação e amor para a ciência e para a virtude, que desde muito jovem foi nomeado cônego, doutor em teologia, e mais tarde, ordenado sacerdote. Cuidadoso em adquirir uma dignidade segura e imperecível no paraíso, renunciou ao cargo de cônego, distribuiu quarenta mil francos de patrimônio entre os mosteiros, e dedicou-se a recolher meninos pobres e abandonados,para instruí-los na santa fé. Não podendo só ele levar a cabo uma obra de tanta importância, chamou em seu auxilio outros companheiros, nos quais infundiu seu espírito.Desta maneira principiou a instituição dos Irmãos das Escolas cristãs que tem por fimexclusivo a educação cristã dos meninos da classe pobre ou menos acomodada da sociedade. Esclarecido por virtude e milagres, morreu em odor de santidade, no ano 1719, Bento XIII, considerando o grande bem que a juventude lucrava por obra desta sociedade, a enumerou entre as congregações aprovadas pela Igreja. Gregório XVI, a pedido de muitos bispos católicos, declarou venerável a LaSalle iniciando a causa de sua beatificação. Leão XIII solenemente o beatificou, canonizando-o no ano jubilar de 1900. Osábio fundador proibiu aos que entravam na congregação, o estudo das línguas clássicas ea ordenação sacerdotal, para ficarem firmes na sua vocação que consiste unicamente em educar as crianças das classes elementares. Por esse motivo foram chamados, ainda que sem razão, Ignorantelli.

Bento XIV – Bento XIV foi um dos maiores pontífices que governaram a Igreja, eenquanto forem honradas a ciência e a religião, seu nome será celebrado. Eleito Papa no ano 1740, empregou os dezoito anos de seu pontificado em combater os hereges edesfazer as tramas que os franco-maçons e os falsos filósofos urdiam contra a Religião.Também teve muito que trabalhar para defender e sustentar os direitos da Igreja,pacificar potências inimigas, propagar e firmar a fé nas missões estrangeiras. Escreveu muitos livros cheios de ciência e erudição; entre outros os da beatificação e canonização dos santos, das festas de Nosso Senhor Jesus Cristo da Bem-aventurada Virgem Maria, do Sínodo diocesano, das instituições eclesiásticas e outras obras todas que merecidamente deram-no a conhecer como pontífice douto, infatigável, e promotor das sagradas ciências. Chorado não só pelos católicos, senão também pelos hereges, morreu no ano de 1758.

São Paulo da Cruz os Passionistas – Ovada, pequena cidade do Piemonte, sempre será célebre por ter sido a pátria de São Paulo da Cruz.. Um maravilhoso resplendor, que durante o seu nascimento iluminou o aposento materno, foi presságio da santidade a queDeus o chamava. Menino ainda, tendo caído em um rio, salvou-o a Virgem Maria milagrosamente. Possuído de um grande amor para com Jesus crucificado, fazia consistir todas as suas delícias na meditação da sua dolorosa paixão. Achava gozo em macerar seu corpo com açoites, vigílias e jejuns; às sextas feiras não tomava outra bebida senão um pouco de vinagre misturado com fel. Para entregar-se todo a Deus e servi-lo com os afetos mais puros de seu coração, renunciou aos prazeres, às riquezas e aos cargosmundanos. Revestido por seu bispo de um grosseiro hábito que trazia impresso no peito letras e emble­mas da paixão do Salvador, retirou-se para Castelazzo perto de Alexandria, a fim de levar vida penitente. Ali, inspirado por Deus, escreveu em seis dias as regras dos Passionistas, que tomaram este nome porque, além dos três votos de castidade pobreza e obediência, fazem outro mais, pelo qual se impõem despertar nos fiéis a memória da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Causa admiração ver as regras que escreveu, tão cheias do espírito do Senhor e de profunda sabedoria, tanto mais se consideramos que nosso santo não contava então mais de 26 anos e nunca tinha lido regras de outras religiões. Ainda que simples leigo, por mandato do bispo, prestava­se a catequizar os meninos e os adultos com grande proveito das almas. Aconselharam-no em Roma, a que estudasse teologia; mais tarde foi ordenado sacerdote pelo Papa Bento XIII. Tendo-se retirado com alguns companheiros para a solidão do monte Argentario, na Toscana, apareceu-lhe a Bem-aventurada Virgem, mostrando um hábito de cor escura; decorado com as insígnias da paixão de seu Filho. Tomando isto por sinal claro da vontade do céu, lançou ali mesmo os fundamentos de uma nova congregação. Teve de trabalhar muito para estabelecê-la, mas, depois de receber a aprovação da Santa Sé, sua congregação cresceu prodigiosamente e produziu abundantíssimos frutos. Também instituiu em Castelazzo um mosteiro de sagradas virgens chamadas Passionistas. A vida destes novos apóstolos consistia em fazer missões, especialmente entre a gente humilde do campo. assim sustentou a muitos no caminho da virtude, fez voltar ao bom caminho inumeráveis pecadores e conquistou muitos hereges. Consistia a maior força de seus sermões, na narração da paixão de Jesus Cristo que fazia derramando muitas lágrimas e com extraordinário proveito de seus ouvintes. Um dia, enquanto se achava pregando, ouviu-se uma voz celestial que lhe sugeria as palavras; outras vezes ouviam-se seus discursos na distância de muitos quilômetros. Seu coração se achava tão inflamado no amor de Deus, que a parte da camisa que o cobria, encontrava-se muitas vezes como queimada, e suas costelas apareciam visivelmente arqueadas. Celebrando a Missa, via-se com frequência arrebatado em êxtase, e às vezes com o corpo levantado do chão. Brilhou também pelo dom das profecias e das línguas, pelo poder sobre os demônios, pelo conhecimento dos segredos do coração e pela graça de curar enfermidades. Apesar de tão austero método de vida, chegou a uma longa e florida velhice. Já próxima sua morte, predisse os graves acontecimentos que Pio VI tinha de sofrer durante seu longo pontificado. Deixando aos seus em testamento utilíssimos avisos, fortalecido por uma visão celestial morreu em Roma no dia predito por ele, no ano 1775, aos 82 de idade. Pio IX colocou-o no número dos bem-aventurados, e mais tarde, como resplandecesse sempre mais pelo número de seus milagres, o inscreveu no catálogo dos santos. 

franco-maçons – Costuma-se dar o nome de franco-maçons, a uma seita de homens, que para poder satisfazer com toda a liberdade suas paixões, empregam toda a sorte de meios para combater a Religião e as autoridades civis. Os primeiros são chamados adeptos ou principiantes, e a estes não se manifesta a maçonaria senão como uma sociedade filantrópica e de socorro mútuo. Muitas das que trazem este nome, como também outras de operários, pertencem a esta seita, embora o ignorem seus afilhados. À medida que vão subindo de grau os levam-no ao ateísmo, à negação de toda religião, da alma, da eternidade, e lhes ensinam a por toda a sua felicidade nos gozos da vida presente. Daí a razão porque a mocidade se deixa seduzir mais facilmente, e porque os franco-maçons desprezam os auxílios da religião, tanto em vida como na morte. Suas reuniões costumam ser chamadas conventículos, e o lugar secreto onde se reúnem, Loja maçônica. Acredita-se que é muito antiga a origem da maçonaria; alguns a fazem remotar até os magos do Egito dos tempos de Moises; porém, ainda que desde mui remotos tempos tenham existido sociedades secretas, cujo fim é a Impiedade e a satisfação das paixões, contudo, a maçonaria de nossos dias não deve sua origem a muitos séculos atrás, pois, no princípio de século passado (séc. XVIII), Darvent-Water estabeleceu a primeira Loja na Inglaterra, e mais tarde se fundaram outras em França e em toda a Europa. Uma parte de sua doutrina parece a do herege Manes, cujos segredos e cerimônias adotaram. É um conjunto de panteísmo, materialismo, e ateísmo. Antes de admitir em seu seio a uma pessoa, fazem-lhe proferir estas palavras: “Jura, e perjura que nunca violarás o segredo”. Confirma-se este segredo por um juramento tão severo, que ao pai está rigorosamente proibido revelá-lo a seu filho o filho a seu pai, o Irmão a irmã, a irmã ao irmão! Loucura da mente humana! Querem destruir a Deus e a Religião, e por esta mesma Religião se obrigam com juramento ao mesmo Deus que pretendem destruir. Clemente XII e Bento XIV condenaram, a estes fanáticos, e excitaram os soberanos para os expulsarem de seus estados. Desgraçadamente, os reis e os príncipes, se não foram seus cúmplices, foram demasiado negligentes no cumprimento das ordens do pontífice, e muitos deles já pagaram a pena de sua culpa, porque os franco-maçons com suas reuniões secretas, causaram e ainda causam males imensos à Religião, aos governos civis e às famílias, e pode-se dizer que são a peste do gênero humano. Os que hoje se chamam Livres Pensadores pertencem à maçonaria! Desgraçados, os que se deixam prender nesta rede infernal.

Filósofos modernos – Outro exército posto ao serviço do espírito das trevas, e cujos adeptos pertencem em sua maior parte à maçonaria, é o dos falsos filósofos modernos. Estes, ou são racionalistas, porque afirmam que querem seguir a luz pura da razão natural e desprezam todo o sobrenatural e toda autoridade religiosa, ou, o que é pior ainda, negam tudo que é espírito, e não admitem outro conhecimento além da matéria. É difícil definir quais são suas doutrinas, porque não as têm. Quem ler atentamente seus escritos, concluirá deles, que, negar a verdade, denegrir a virtude, dar impulso ao crime, arrancar do coração humano a doce esperança de alcançar a felicidade de outra vida, é o fim substancial da decantada filosofia moderna. Os franco-maçons maquinavam secretamente; os filósofos deram-lhes as mãos e cooperaram com sua obra em escritos públicos e com a prática de sua doutrina. Os patriarcas destes incré­dulos foram Voltaire e Rousseau. 

Voltaire – O fim funesto de Voltaire e Rousseau prova que Deus às vezes também se vinga dos ímpios na vida presente. Voltaire nasceu em Chatenay, pequena cidade da França; seu verdadeiro nome e Francisco Maria Arouet. Seu pai o chamou Voltaire por ter-lhe dado algumas propriedades que tinham este nome. Cursou os estudos em um colégio de Jesuítas onde manifestou engenho vivo, porém soberbo, e muita obstinação em suas idéias. Certo dia, um professor seu, espantado pela audácia de seus raciocínios, exclamou: Este será precursor da incredulidade na França. Terminado o curso dos estudos literários seu pai queria dedicá-lo aos ofícios civis, porém Voltaire recusou e deu-se a escrever sátiras e livros imorais. Não há obscenidade à que não se tenha entregado, ou que ao menos, não tenha tratado de descrever com as mais vivas cores por meio de seus escritos. Isto lhe causou tais inimizades e discórdias, que foi preso várias vezes e finalmente desterrado. Como a santidade do Evangelho condenasse sua vida licenciosa, atirou-se com ódio feroz contra a religião e especialmente contra Jesus Cristo seu autor. Depois de ter cogitado mil meios para convencer a todos que ele não acreditava em nada, teve o atrevimento sacrílego de escrever a seu amigo d’Alambert esta blasfêmia: “Ainda vinte anos e daremos cabo de Deus” (25 de fevereiro de 1758). Enganou-se, porém, porque vinte anos mais tarde, e precisamente a 25 de fevereiro, foi surpreendido por um vômito violento, e ele esqueceu logo sua incredulidade. Mandou chamar o cura de São Sulpício com quem se confessou e se retratou autenticamente de sua impiedade e de seus escândalos. Livre já do perigo, voltou à impiedade; porém daí a pouco tempo caiu novamente enfermo para não melhorar. Pediu um confessor, porém seus amigos impediram a este chegar-se à cama do infeliz moribundo. Então Voltaire, enfurecido, começou a gritar: “Estou, pois, abandonado de Deus e dos homens!” Ora invocava ao senhor, ora blasfemava-O; agitava-se em contorções e acabou por morrer nos horrores do desespero. Ano 1778. (Lepan e Ebel, vida de Voltaire). 

Rousseau – Poucos meses depois de ter falecido Voltaire, deixava de existir outro famoso incrédulo de Genebra, chamado João Jacques Rous­seau. Seu pai, relojoeiro de profissão, queria que seu filho aprendesse a gravar; mas pelo contrário não aprendeu senão a mentir e a roubar. Fugindo da casa paterna, refugiou-se na Sabóia em casa de um sacerdote, que o recomendou à caridade do Bispo de Anecy. Vendo este que tinha Rousseau aptidões para se instruir na Religião, mandou-o à sua custa para a casa de catecúmenos em Turim, onde efetivamente abjurou o protestantismo e abraçou a fé católica. Depois de alguns meses saiu do Colégio e empregou-se como lacaio do Conde Solano. Por causa da sua inconstância, ocupou por pouco tempo este emprego e voltou para Anecy. Aí uma pessoa caridosa o pôs no Seminário para fazê-lo estudar e seguir a carreira eclesiástica, à qual, segundo dizia ele, queria se consagrar. Mas foi expulso por sua inaptidão para os sagrados estudos e por sua má conduta. Não tendo tão pouco bom êxito nos estudos literários, dedicou-se à leitura de novelas que lhe encheram a cabeça de idéias estranhas e ímpias. Como possuísse certa vivacidade em expor seus pensamentos, acreditou que isto bastava para ser um grande filósofo, e começou a tratar toda classe de argumentos sagrados e profanos. Como a fé cristã lhe impedisse continuar em seus escândalos, renegou toda verdade sobrenatural e enquanto viveu, procedeu como um incrédulo. Dizia com jactância que nenhum dos homens tinha sido feito como ele; ainda mais, em sua necedade até chegara a desafiar ao Juiz eterno para encontrar um homem melhor e mais valente do que ele. Surpreendido por um temor pânico, parecia-lhe ver espetros e homens que incessantemente o ameaçavam de morte; desesperado por isso envenenou-se. Diz-se que, para subtrair-se ao efeito lento do veneno, acelerou sua morte com um tiro de pistola. (3 de junho de 1778).O autor da vida de Rousseau conclui com estas palavras: “Este homem que se jactava de empregar toda sua vida em publicar a verdade, deixou um grande número de escritos, nos quais não aparece nem uma só verdade que possa justificar o autor ante o gênero humano”. 
CAPÍTULO VII
Santo Afonso e os Redentoristas – Supressão dos Jesuítas. – Perseguição francesa – Robespierre – Pio VI. 

Santo Afonso os Redentoristas – Enquanto Voltaire e Rousseau infestavam o mundo com seus escritos ímpios, serviu-se Deus do glorioso Afonso Maria de Ligório para iluminar e santificar aos povos. Nasceu em Nápoles no ano de 1696, e desde sua juventude manifestou-se qual luminoso modelo de virtude. Era mui exato no cumprimento de todos os seus deveres, especialmente religiosos, comungava toda semana e ainda com maior frequência, e visitava todos os dias o SS. Sacramento. Aos 16 anos já se achava graduado doutor em ambos os direitos e dedicava-se ao exercício da advocacia. Vendo, porém, frustradas suas esperanças de vencer uma causa, determinou abandonar o mundo e consagrar-se a Deus no estado eclesiástico. Pregava com grande fervor, e seu próprio pai a primeira vez que o ouviu, exclamou vivamente comovido: “Meu. filho me fez conhecer a Deus”. Para formar obreiros evangélicos penetrados de seu mesmo espírito de zelo e caridade, fundou a congregação dos Redentoritas ou do Redentor, a qual tem por fim principal instruir a gente rude, especialmente os habitantes do campo. Ainda que a seu pesar, Clemente XIII o nomeou bispo de Santa Águeda dos Godos no ano 1762. Desde então dedicou-se Afonso inteiramente à pregação, à confissão, à oração e ao jejum. Deus deu a conhecer sua santidade por muitos milagres. Em certa ocasião, enquanto pregava sobre a devoção à SS. Virgem, foi elevado a uma grande altura, e uma imagem de Maria apareceu radiante de luz celestial iluminando prodigiosamente o rosto do santo pregador. Em vista deste espetáculo, todo o povo exclamou: “Misericórdia, milagre!” e em toda a igreja ressoaram gemidos e soluços. Uma manhã, depois de celebrada a santa Missa, foi arrebatado em êxtase e ficou neste estado até o dia seguinte. Voltando a si em presença de muitas pessoas, disse-lhes: “Vós não sabeis tudo … fui assistir ao Papa, que acaba de morrer”. Era Clemente XIV que de fato morrera nesse momento. Tudo aconteceu como ele tinha dito. Pobre, sóbrio, penitente e austero para consigo mesmo, era doce para com os outros e mui caridoso para os pobres. Em uma carestia que afligiu Nápoles, vendeu todos seus bens e distribuiu sua importância entre os necessitados. Esclarecidos por milagres, profecias e penetração das conciências, morreu no ano 1787, aos noventa anos de idade. É Santo Afonso autor de muitas obras, entre as quais se acha sua teologia moral, obra cheia de erudição, o diretório dos ordenandos, a Explicação do decálogo, a História e refutação das heresias, as Vitórias dos Mártires, a Freira Santa, os Sermões; as Glórias de Maria, e o Amor da alma, a Visita ao SS. Sacramento; as Máximas eternas e outras muitas. O exercício de todas as virtudes em seu mais alto grau durante toda sua vida, e a extraordinária erudição que manifesta em todos seus escritos, considerado como martelo contra os Jansenistas e os incrédulos, foram motivo para que se proclamasse doutor da santa Igreja por decreto de 23 de março do ano 1871. 

Supressão dos Jesuítas – São as corporações religiosas como exércitos da Igreja espalhados nas diferentes partes do mundo. Por isso, quando se quer combater a Religião, costuma-se começar pe­los regulares; segue depois o clero secular, os bispos e por último o chefe supremo da Igreja. Os primeiros a serem feito alvos da perseguição foram geralmente os Jesuítas. A meado do século XVIII os franco-maçons e os mestres da incredulidade, vendo neles um grande obstáculo a seus fins, inventaram e lhes imputaram toda espécie de calúnias. assim conseguiram fazê-los expulsar de Portugal, da Franca, da Espanha e de outros reinos; e empenharam-se ante os governos civis, para obrigar o sumo Pontífice a suprimi-los, ameaçando-o com males gravíssimos se resistisse a seus desejos. Por isso, o Papa a seu pesar, acreditando que livraria a Igreja de maiores males, suprimiu toda a ordem no ano de 1774. Mas em pouco tempo, muitos soberanos desejaram que os ditos religiosos voltassem a seus estados para cuidar da juventude, pregar e cumprir os outros deveres do ministério eclesiástico. Por isso, o Papa Pio VI começou por permitir que os Jesuítas permanecessem na Rússia, e que pudessem viver juntos em outras partes, sempre que assim o desejassem os soberanos. O sumo pontífice Pio VI, em vista do grande benefício que a Companhia de Jesus tinha feito, e do que ainda prometia fazer no futuro, tornou a restabelecê-la e colocá-la entre as ordens religiosas outorgando-lhe aqueles favores e privilégios que a Igreja costuma conceder, para que seus institutos possam subsistir e trabalhar no campo evangélico, conforme o fim para que foram fundados. 

Perseguição francesa – Os franco-maçons, depois da supressão dos Jesuítas, puderam com maior facilidade desfazer-se dos demais religiosos, abolir em França toda autoridade civil, matar a seu próprio soberano, e apoderar-se eles mesmos do poder. Entre outras causas, exigiam de seus súditos um juramento contrário às regras da fé, o qual não podendo ser admitido pelos bons, motivou uma cruel perseguição. Milhares de cidadãos foram afogados ou guilhotinados sem processo algum, reservando-se aqueles bárbaros processá-los depois, para saber se os que morreram eram culpados ou inocentes. Segundo o costume, a perseguição assanhou­se, de modo especial, contra os eclesiásticos. Estes heróis magnânimos, êmulos dos mártires da Igreja primitiva, mostraram-se prontos a sofrer todo gênero de suplícios. Alguns foram desterrados, outros presos ou condenados ao patíbulo. Um verdugo, ao ver entre a multidão um que parecia sacerdote, dirige-se a ele e lhe pergunta:  – És sacerdote? – Sim, responde; é esta a minha glória. – Juraste? – Jurar! Horroriza-me só pensar nessa palavra! – O Juramento ou morte; juras ou morres. – Juro aborrecer esse juramento ímpio e sacrílego; mata-me … te perdôo. – E dizendo isto caiu por terra coberto de feridas. Aqueles monstros sedentos de sangue humano, entravam nos claustros, nas congregações e nos seminários, prendiam e estrangulavam a todos os que encontravam na sua passagem. Aboliram os dias consagrados à religião, mudaram o nome das semanas, dos meses, e dos anos; prostraram por terra toda a autoridade, e o rei Luiz XVI foi deposto, preso e decapitado. As igrejas foram profanadas e destruídas; as cruzes, as relíquias, os vasos sagrados, os próprios sacrossantos mistérios, sacrilegamente pisados, e nos altares do Deus vivo, onde se devia celebrar a santa Missa, foi colocada uma mulher infame e adorada como a deusa razão. Tudo era sangue e estragos; havia ameaça de morte para quem ainda desse a conhecer que professava a religião católica. Os esforços dos ímpios, porém, infringiram-se contra aquela pedra, sobre a qual Jesus Cristo fundara sua Igreja. Entre tantos desastres a religião foi duramente provada; porém não pereceu. 

Robespierre – Maximiliano Robespierre foi o primeiro autor da perseguição francesa e dos graves males de que esta foi causa. Nasceu na cidade de Arras e seguiu a carreira de advogado; orador excelente, mas sem entranhas, facilmente conseguiu fazer-se chefe do partido sanguinário. Experimentava um grande prazer em condenar homens e mulheres à guilhotina, e gostava de vê-las morrer em grande número nas mãos dos verdugos. Diz-se que este monstro infame se alimentava de carne humana, e que se ufanava em trazer calçados feitos da pele de suas vítimas. Quis a Providência de Deus que tantas impiedades fossem castigadas, também aqui na terra com uma morte que mostrasse visivelmente os sinais de sua vingança. Robespierre depois de ter feito assassinar a seu soberano, exerceu durante 18 anos tiranias inauditas; finalmente chegou a ser odiado pelos mesmos que o aplaudiam; instauraram contra ele um processo e foi condenado à guilhotina. Para evitar a afronta de morrer publicamente, qual outro Nero disparou contra si uma pistola; a bala atravessou-lhe o queixo, mas não morreu. Definhou algum tempo no cárcere, sofrendo horrivelmente, até que levado à praça pública, entre os insultos da plebe, cortaram-lhe a cabeça no ano de 1794. 

Pio VI – Ao Papa Clemente XVI sucedeu Pio VI, que, depois de Pio IX e Leão XIII, foi o Papa que teve mais longo pontificado, mas cheio de desgostos e amarguras. Eleito no ano de 1775, cumpriu com zelo infatigável as funções de supremo Pastor, consolando a uns, ajudando a outros e animando todos a permanecerem firmes na fé. Durante seus últimos anos de pontificado teve de sofrer toda sorte de crueldades, perseguições, e insultos da parte dos Franceses. Dirigidos estes por Napoleão I, invadiram a Itália e depois de terem despojado e profanado os mais venerandos santuários, entraram em Roma para apoderar-se do Papa, abusando da palavra que tinham dado de não insultar a Roma, nem a seu soberano. Achava-se o Papa celebrando os divinos ofícios, vestido pontificalmente, quando levaram a seu conhecimento a abolição de sua autoridade civil; ao mesmo tempo lhe tiraram suas guardas romanas e as substituíram por soldados franceses. O general Berthier teve o atrevimento de querer vestir o Papa de repuplicano, pondo-lhe uma insígnia tricolor; porém o magnaneme Pontífice lhe respondeu: “Eu não conheço outra insígnia senão aquela com que fui honrado pela Igreja. Podeis oprimir meu corpo mas minha alma é superior a todo atentado… Podeis queimar e destruir as habitações dos vivos e o túmulo dos mortos, a religião, porém, é eterna; ela existirá depois de vós, como existiu antes; e seu reinado durará até a consumação dos séculos … ” Ano 1798. 
CAPÍTULO VIII
Perseguição em Roma – Rapto e padecimentos de Pio VI – Sua morte gloriosa – Regras disciplinares desta época. 

Perseguição em Roma – Declarada a destronização do Papa, os comissários franceses se apoderaram de sua pessoa e deram começo ao saque do palácio pontifício. As bibliotecas preciosas e raras ali existentes, foram vendidas por preço vil depois de terem sido quebradas as estantes e armários que as continham. Vendo-se burlados por não achar o ouro, nem as jóias que ali esperavam encontrar, apresenta-se o calvinista Haller ao Papa e diz-lhe em tom de ameaça: “A república romana vos intima que me entregueis já vossos tesouros: dai-mos pois”. – “Eu não possuo tesouro algum”. “Não ostentais dois formosos anéis nesse dedo?” Entregou-lhe um deles o Papa, dizendo-lhe: “Não posso entregar-vos o outro, porque deve passar a meus sucessores”. Eram o anel do pescador que costumam usar os Papas para firmar ou selar os papéis de maior importância. Mas foi necessário que também fizesse entrega dele. Os cardeais, os bispos e outros prelados foram encarcerados ou desterrados. assim a Igreja Romana insultada em seu chefe e em seus membros, achava-se exposta a uma perseguição tão injusta como cruel; e em vez de se ouvirem em Roma as glórias de Deus, como quando se achava em poder do Papa, viam-se em suas ruas procissões obcenas, e se cantavam hinos à mais desenfreada licença. 

Rapto e padecimentos de Pio VI – O perseguido, porém sempre grande Pontífice, em vista de sua avançada idade de 80 anos, de sua saúde alquebrada e de suas doenças, deixava entrever um grande desejo de morrer em Roma, e não queria obedecer à ordem de partir. Mas o bárbaro Haller replicava: “Eu não ouço razão nem pretexto algum. Se não quiserdes partir por amor, vos faremos partir por força”. Na espantosa noite de 28 de fevereiro de 1798, durante uma horrenda tempestade, encerrado em miserável carro, privado de seus ministros e entregue em mãos de dois comissários, o Papa foi tirado secretamente de Roma para não voltar mais. Levaram-no primeiramente a Monterosso, depois a Viterbo, dali a Sena, e finalmente a um convento de Cartuxos perto de Florença. Era conduzido escravo por seus inimigos, os quais buscavam todos os meios para que não fosse conhecido. Sem embargo, por todas as partes onde passava recebia as mesmas honras como se o levassem em triunfo. Sacerdotes e leigos, ricos e pobres, homens e mulheres, velhos e moços, sãos e enfermos, ocupavam em todas as partes, campos e caminhos, subiam às árvores, e com as mãos juntas e de joelhos pediam a bênção ao glorioso prisioneiro. Visitaram-no na Cartuxa de Florença o rei Manoel IV e a venerável Clotilde, rainha de Sardenha. Ambos se ajoelharam a seus pés, apesar dos esforços que fizera o Papa para levantá-los. “Neste ditoso momento: disse o rei, eu esqueço todas as minhas desgraças, já não me queixo de ter perdido o trono; tudo eu encontro a vossos pés”. Querido príncipe, respon­deu o Papa, tudo é vaidade exceto amar e servir a Deus. Levantemos, nossos olhos para o céu; ali nos esperam tronos que nos não poderão tirar”. “Vin­de conosco à Sardenha, dizia-lhe a piedosa rainha, ali encontrareis em vossos filhos o respeito que merece tão terno Pai”. Porém, como podia livrar­se das mãos daqueles ladrões? A 27 de março de 1799, tiram o Papa de Florença e levam-no, durante quatro meses seguidos, de aldeia em aldeia, passando montes e pousando em cabanas, à mercê de uns homens que lhe faziam padecer toda espécie de martírios. Perto de Turim viu-se o carro obrigado a estacar, pois lhe estorvara o passo a multidão de fiéis que acudia a receber a bênção Papal. Os desnaturados comissários franceses que o acompanhavam, quiseram que continuasse a viagem, ainda que por um ataque de paralisia ficasse já imóvel a metade de seu corpo. Finalmente a 14 de julho chegou a Valença, termo de sua viagem, lugar de sua prisão e fim de sua vida. 

Morte de Pio VI – Depois de tantas viagens e fadigas, depois de tantos trabalhos e insultos, de tantos transtornos, devia receber este ilustre mártir a recompensa devida a seus padecimentos. O arcebispo Spina, ao aproximar-se para administrar-lhe o santo Viático, perguntou-lhe se em presença de Jesus Cristo perdoava a seus inimigos. Ao ouvir estas palavras, o santo pontífice levantou seus olhos para o céu, e fitando-os logo em um crucifixo que sempre tinha em sua mão: “De todo coração, respondeu, de todo coração”. E chamando em seu derredor todas as pessoas da casa, abençoou-as enquanto se achavam de joelhos e chorosos, com a tríplice e última bênção. Pediu que lessem as orações dos agonizantes, que acompanhou devotamente. Conservando sempre a mesma serenidade de rosto, dormiu no Senhor aos 81 anos de idade, a 29 de agosto de 1799, depois de 24 anos e meio de pontificado. Quando se espalhou a notícia de sua morte, correu o povo, em massa, à capela onde se achava o cadáver. Todos queriam possuir alguma coisa que tivesse pertencido ao santo Pontífice. Buscavam com avidez suas vestes, seus cabelos e outros objetos que lhe haviam pertencido e, não, encontrando já coisa alguma, punham sobre o féretro medalhas, véus, paninhos, livros, rosários, e os levavam para suas casas como relíquias. Entre as orações, os votos, a alegria e tristeza ouvia-se exclamar por toda parte: “É um mártir! É um mártir!” Em seu sepulcro escreveram o seguinte epitáfio: 
AQUI JAZ PIO VI PONTÍFICE MÁXIMO CHAMADO NO SÉCULO JOÃO ANGELO DE CESENA O QUAL NA DURAÇÃO DO PONTIFICADO EXCEDEU A TODOS OS OUTROS PONTÍFICES GOVERNOU A IGREJA XXIV ANOS, VI MESES E XIV DIAS SANTAMENTE MORREU EM VALENÇA EM UMA FORTALEZA ONDE ESTAVA GUARDADO COMO PRISIONEIRO DOS FRANCESES, HOMEM DE MARAVILHOSA FORÇA DE ANIMO E DE CONSTÂNCIA  EM VENCER OS MAIS PENOSOS  TRABALHOS. 

Regras disciplinares da quinta época – No século XVI publicou Paulo IV um índice dos livros proibidos. São Pio V ordenou que todos os anos no primeiro domingo de outubro se celebrasse a festa do Santíssimo Rosário. Gregório VII empreendeu a correção do calendário Romano, deixando onze dias no mês de outubro do ano 1582. Isto fez, porque não se havia observado até então com suficiente precisão, que nosso globo emprega em dar sua volta anual ao redor do sol 365 dias e 6 horas menos alguns minutos; depois de alguns séculos a soma destes minutos chegou a formar 11 dias a mais, e o ano já não ia de acordo com a revolução do nosso globo. Por isto se transportou o equinócio da primavera de 11 a 21 de março. Desde então todo o mundo cristão, excetuando a Rússia, começou a usar o calendário gregoriano. Urbano VIII reduziu o breviário a melhor forma e deu aos cardeais o título de eminência. Clemente XIII, no ano de 1759, ordenou que nos domingos que não tivessem prefácio próprio, se dissesse o da Santíssima Trindade. 
SEXTA ÉPOCA
Desde a morte de Pio VI no ano 1799, até Concílio Vaticano, no ano 1870. (Encerra um período de 282 anos.)
CAPÍTULO I
Pio VII – Desavenças com Napoleão – Prisão de Pio VII.

Pio VII – Quando se deu a morte de Pio VI, os repuplicanos franceses tinham-se assenhoreado de Roma e de toda a Itália. O chefe da Igreja morrera no desterro, os membros do sacro Colégio achavam-se encarcerados ou dispersos; como se poderia eleger um pontífice? Não temamos; Deus que governa sua Igreja, saberá inutilizar os esforços dos homens. Efetivamente dali a pouco um exército austríaco ataca os franceses, expulsa-os de Roma e da Itália e os encerra em um estreito desfiladeiro entre a Ligúria e o Piemonte. Postos então em liberdade os cardeais, se reunem em Veneza e elegem para ocupar o trono de São Pedro ao cardeal Chiaramonti de Cesena, que tomou o nome de Pio VII. Dirige-se este a Roma e toma de novo, com a maior solenidade, posse do poder temporal que lhe dera Deus para conservar a independência de seu ministério, entre as homenages e as felicitações dos soberanos. Logo que os Austríacos cumpriram sua missão, travou-se a batalha de Marengo, e apesar de seu número e valor, são derrotados e desaparecem da cena. Prova evidente de que Deus lhes deu no primeiro encontro a vitória somente para o bem da Igreja, isto é, para que se pudesse eleger o novo Papa e tomasse novamente posse de Roma. Ano 1800. 

Desavenças entre Pio VII e Napoleão – Cansada já a França de seus tiranos nomeou cônsul a Napoleão Bonaparte, que manifestava vontade e valor suficientes para restabelecer a ordem naquele reino mergulhado em tanta confusão. Cessa então a guilhotina, mitiga-se muito a perseguição, extingue-se o cisma constitucional e a França entra de novo na unidade católica. Bonaparte, porém, estimava talvez a religião somente enquanto servia a suas ambições. Firmou efetivamente uma concordata com o romano pontífice, que foi violada no ato mesmo de sua publicação, pois a acompanhou de certos artigos, chamados orgânicos, que contrastam com a própria concordata. Tendo-se feito proclamar imperador, pediu ao Papa que fosse a Paris para sagrá-lo. Pio VII titubeou longo tempo, e não se resolveu a ir senão abrigando a esperança de reprimir graves desordens e impedir muitos males que ameaçavam a Igreja. Por esse motivo saiu de Roma no ano 1804 e depois de ter atravessado a França, entre grandíssimas honras e aplausos, entrou em Paris e pos a coroa imperial sobre a cabeça de Napoleão. Este correspondeu à condescendência do Papa com monstruosa ingratidão. Para conseguir que o Papa o coroasse, protestou que queria ser filho obedientíssimo da Santa Sé; porém assim que foi coroado escreveu cartas injuriosas ao Papa, e poucos anos mais tarde fez marchar suas tropas sobre Roma.Depois da paz dada à Igreja por Constantino o Grande, Constante II protetor dos hereges monotelitas, foi o primeiro dos imperadores que, usando da violência, tirou de Roma ao sumo Pontífice, Napoleão quis ser o segundo. Pretendia este que o Papa lhe outorgasse coisas contrárias aos direitos da Igreja e ao bem da religião. Tendo-se recusado a isto o Papa, o imperador assalta Roma, apodera-se dela, rouba as obras principais de maior preço, entra à viva força no palácio Papal, desterra ou faz encarcerar a seus ministros, bispos ou cardeais, e encarrega ao general Radet da empresa sacrílega de se apoderar do Papa. Durante a noite um corpo de soldados escala, quais ladrões noturnos, o palácio pontifício, derrubam a machadas as portas, quebram as janelas e penetram no aposento do sucessor de São Pedro. Radet rodeado dos seus, ordena ao pontífice que saia imediatamente de Roma. Pio VII levanta os olhos para o céu e cheio de confiança n’Aquele que assiste a Igreja, entrega-se assim como estava nas mãos de seus inimigos, que o prendem com chave em um coche entre guardas, como se costuma fazer com os malfeitores. Ano 1809. 

Prisão de Pio VII – O mortal Pio VII, durante seus cinco anos de cativeiro, mostrou-se sempre intrépido confessor da fé. Durante a via­gem aconteceram vários acidentes. Perto de Florença, por inexperiência dos cocheiros, virou com ímpeto o coche ao passar sobre uma elevação de terra e o Santo Padre caiu debaixo das rodas e teria sido esmagado, se Deus não o protegesse. Ficou três anos prisioneiro em Savona, e depois (1812) ordenaram-lhe que partisse para Fontainebleau, em França. Trataram-no durante o caminho com os modos mais bárbaros, obrigando-o a viajar dia e noite sem lhe permitir sair do veículo. Isto foi causa de arruinar sua saúde e estar a ponto de morrer. Ao aproximar-se de Turim, parecia que tinha chegado o fim de sua viagem, e no Monte Cenis lhe administraram a extrema unção, não obstante isto, não pode gozar de um momento de descanso. Chegado a Fontainebleau, separado dos seus conselheiros, rodeado por pessoas que tinham sacrificado sua fé e seu pudor ao despotismo de Napoleão, oprimido por ameaças, e segundo contam, até pelos golpes do ambicioso Imperador, assinou um escrito pelo qual deixava a nomeação dos bispos, isto é, dos pastores das almas, em mãos do poder civil. Mas arrependido logo do feito, revogou valorosamente o que firmara, e triunfou a fé. 

Sua volta a Roma – Não podendo Napoleão seduzir o Papa a fim de secundar seus malvados propósitos, e como começassem de outra parte a sair-lhe mal suas empresas militares, achou conveniente restituir à liberdade àquele que de maneira alguma tinha podido vencer. O intrépido pontífice Pio VII, depois de cinco anos de prisão, de trabalhos, de ultrajes e de insultos, saiu finalmente de Fontainebleau para voltar à sua sé de a 23 de janeiro de 1814. Ao passar uma ponte sobre o Rodano entre Beaucoure e Tarascon, ensurdecido pelos gritos de alegria com que o povo saudava ao Santo Padre em sua passagem, o coronel Lagone perguntou: “Que farieis se passasse por aqui o imperador? – Dar-lhe-iamos de beber”, responderam a uma voz, mostrando o rio que corria a seus pés. Depois de quatro meses de viagem, entrou Pio VII solenemente na cidade eterna, com indizível alegria de Roma e de todos os bons. 
CAPÍTULO II
Queda de Napoleão – Seus últimos dias – Morte de Pio VII.

Queda de Napoleão – A história nos demonstra claramente que o favorecer a religião é o princípio da grandeza dos soberanos, e que ao contrário, persegui-la é causa de sua ruína. Napoleão não o queria crer, porém os fatos lhe provaram. Seu imenso poder fazia tremer a toda Europa e era seu nome temido em todo o mundo. Quando soube que Pio VII o queria excomungar por suas violências contra a Igreja e seus ministros, dizia em tom de mofa: “Pensa talvez o Papa que a excomunhão fará cair as armas das mãos de meus soldados?” Porém as censuras da Igreja, tarde ou cedo, produzem inexoravelmente seu efeito. A ambição levou de fato a Napoleão até as extremidades da Rússia, onde os quatrocentos mil homens, que compunham seu exército, morreram em sua maior parte pelo ferro, pela fome ou pelo frio. O general Ségur, um dos chefes daquele formidável exército, deixou escrito: “Os soldados mais valentes, gelados de frio, já não podiam segurar as armas e estas caíam lhes das mãos.” Sublevou-se, entretanto, a Europa contra Napoleão como contra um inimigo comum. Os mesmos que, por meio da força, se tinham aliado a ele, o abandonam arrojam-no da Alemanha, da Espanha e da Suiça; perseguem-no seus inimigos e penetram, em sua perseguição, até o coração da França. Feito prisioneiro e conduzido a Fontainebleau, naquele mesmo palácio onde tinha guardado preso o Santo Padre, e naqueles mesmos lugares onde tinha acabrunhado de angústia e de dor ao Vigário de Jesus Cristo vê-se obrigado a subscrever a ata de sua abdicação. 

Últimos dias de Napoleão – Ainda que Napoleão durante o tempo de sua prosperidade tivesse perseguido a Religião na pessoa de seu Chefe visível, contudo, quando se acalmou nele a ambição e pode refletir sobre a vaidade das grandezas humanas, parece que caiu em si e reconheceu seus erros. Pio VII depois de lhe ter perdoado sinceramente, se interpôs ante os Ingleses para mitigarem as penas de seu cativeiro; e para despertar sentimentos religiosos no coração daquele filho extraviado, enviou-lhe um eclesiástico para absolvê-lo das censuras e o guiasse no cumprimento de seus deveres religiosos. Reconheceu então Napoleão a mão do Senhor que o tinha humilhado e vendo próximo seu fim, exclamava: “Eu nasci na religião católica, desejo ardentemente cumprir os meus deveres e receber os socorros que ela oferece.” Depois de ter recebido os últimos sacramentos, pronunciou estas palavras: “Estou satisfeito, eu precisava disto; eu não pratiquei a religião no trono porque o poder transtorna aos homens, porém sempre conservei a fé; eu queria que ficasse sempre escondida, mas isto era fraqueza; agora desejo por ela glorificar a Deus.” Morreu aos 5 de maio do ano 1821. Atribuía Napoleão sua queda aos ultrajes feitos ao Chefe da Igreja: “O Papa, costumava dizer, não tem exércitos; porém é uma potência formidável. Tratai-o como se tivesse atrás de si duzentos mil homens, sob as armas.” Outras vezes costumava acrescentar: “O catolicismo é a religião do poder e da sociedade. A religião católica é uma mãe de paz e de amor.” (Memórias de Santa Helena). 

Morte de Pio VII – Pio VII, de volta de seu cativeiro, empregou o resto de seus dias em reparar os danos que as lojas maçônicas e Napoleão tinham causado à Igreja. Entre outras coisas aprovou a obra da pregação da Fé, que tem por fim socorrer aqueles animosos sacerdotes, que abandonam sua pátria, riquezas, pais e amigos, e vão a missões estrangeiras, unicamente para ganhar almas a Jesus Cristo. Tinha oitenta e um anos de idade, quando por uma queda em seus próprios aposentos quebrou um fêmur. Fortalecido com todos os auxílios da religião e cheio de merecimentos entregou sua alma a Deus a 20 de agosto de 1823 no ano vigésimo quarto de seu pontificado. Vítima de uma longa série de injustiças, cansou a seu inimigo com sua paciência e honrou a religião com sua nobre firmeza.    Contam-se deste pontífice muitos fatos prodigiosos; entre outros um que se refere a Pio IX, chamado então João Maria Mastai, dos condes de Ferretti. Como não pudesse este seguir a carreira eclesiástica por sofrer de epilepsia, recomendou-lhe o santo pontífice que fizesse uma novena à Santíssima Virgem, ao passo que ele também rezaria na santa missa por ele. Concluída a novena, voltou o jovem Mastai, e o pontífice pondo a mão sobre sua cabeça, disse-lhe: “Tranquilizai-vos, já não padecereis mal algum.” Efetivamente ficou perfeitamente curado.

CAPÍTULO III

Leão XII e Pio VIII – A Igreja Ortodoxa da Rússia – Perseguição contra os católicos nesse império – Gregório XVI e o imperador Nicolau.

Leão XII Pio VIII – Sucedeu a Pio VII o cardeal Anibal de Genga, natural de Espoleto o qual tomou o nome de Leão XII. Seu pontificado durou cinco anos e cinco meses incompletos. Amava muito aos pobres e o mesmo dia em que o coroaram preparou-lhes um esplêndido jantar no Vaticano. Tomou muito a peito o cuidado dos institutos de beneficência pública, aos quais visitava” com frequência e provia de todo o necessário. Ia às vezes visitar, sem aviso prévio as igrejas e os hospitais, para certificar-se se as pessoas ali empregadas cumpriam seus deveres com regularidade. No ano do jubileu (1825) beatificou a quatro servos de Deus, isto é: a Agostinho Juliano e a Angelo de Acri da ordem de São Francisco, a Afonso Rodriguez, jesuíta, e a Hipólito Galantini, fundador da Congregação da doutrina cristã. Certo dia, enquanto ainda gozava de boa saúde, disse a um de seus familiares: “Daqui a alguns dias já não nos veremos mais.” Os fatos demonstram a verdade de sua predição. Tendo enfermado, pediu os últimos sacramentos e depois de algumas horas de, tranquila agonia, descansou no seio de seu Criador. Ano 1829. O Cardeal Castiglioni que sucedeu a Leão XII, sob o nome de Pio VIII, morreu santamente aos vinte meses de seu pontificado. Sucedeu-lhe o Cardeal Mauro Capellani de Belluno, da ordem de São Bento, que se chamou Gregório XVI. Ano 1831. 

Igreja ortodoxa da Rússia – Entre os muitos acontecimentos que se desenrolaram sob o pontificado de Gregório XVI, merece particular menção o que se refere à chamada igreja russa ortodoxa. Ortodoxo é aquele que pensa com retidão. Pois bem, a Igreja católica que conserva e prática o santo Evangelho, tal como o ensinava Jesus Cristo, e a única que pensa e sente retamente; logo ela só se deve chamar ortodoxa. Heterodoxo quer dizer, ao contrário, o que pensa ou sente diversamente; por isso a igreja russa, cismática e herética, deve chamar-se heterodoxa, porque pensa e crê diversamente do reto e verdadeiro. Para fazermos uma idéia precisa sobre a origem da igreja russa, devemos recordar que pouco depois da celebração do Concílio ecumênico de Florença, no ano 1439, e precisamente em princípio do século décimo sexto, começou o cisma russo, sob o imperador Basílio III. Este, procedendo, com completa independência da Santa Sé, elegeu um patriarca na cidade de Moscou, e decretou que unicamente a este patriarca deviam obedecer todas as outras igrejas de seu império. Mais de uma vez trabalharam os Papas para restituir este reino vastíssimo ao rebanho de Jesus Cristo, porém sempre durou pouco a conciliação. Finalmente, o imperador Pedro, o Grande, vendo que as desordens políticas diariamente cresciam pela falta de um chefe supremo nos assuntos religiosos, depois de ter trabalhado inutilmente para induzir ao patriarca e aos bispos, a que se submetessem ao pontífice romano, deliberou acrescentar à coroa Imperial o poder de soberania suprema, fazendo-se desta maneira ele ,mesmo, Papa e juiz em todos os assuntos religiosos. Por isso no ano 1720, transladou a capital do império para São Petersburgo, e a erigiu como centro da autoridade civil e religiosa, e estabeleceu uma liturgia sob o nome de Estatuto Eclesiástico, onde se acham contidos os mesmos erros de Fócio.Estabelece como base de seu estatuto uma inteira liberdade de consciência. São admitidas neste império todas as seitas cristãs, o maometismo é até a própria idolatria. E com o fim de retrair cada vez mais seus súbditos da obediência ao Pontífice romano, ordenou que não se desse cargo político ou religioso a pessoa alguma que não pronunciasse este juramento: “Confesso confirmo sob juramento, que juiz supremo da autoridade religiosa é nosso monarca, senhor absoluto de todas as Rússias.” Os soberanos da Rússia, chamados autocratas ou senhores absolutos, deixaram por algum tempo aos católicos a liberdade de praticar sua religião; porém paulatinamente pretenderam mandar sobre as consciências, de tal sorte que no pontificado de Gregório XVI, chegaram a uma perseguição aberta. 

Perseguição na Rússia – No ano de 1825 subiu a ocupar o trono das Rússias Nicolau I, homem digno de elogio sob muitos respeitos. A mania, porém, de constituir-se juiz supremo em matérias religiosas tinha-o induzido a oprimir a seus súditos católicos, cujo número passava de quinze milhões. Começou fazendo crer que de acordo com o Papa, suprimia o ensino entre os católicos, e os obrigava a frequentar as escolas cismáticas; em seguida proibiu a seu súditos cismáticos fazerem-se católicos e aos católicos pregar sua religião e professá-la publicamente. Feito isto, pôs-se de acordo com três bispos católicos entregues às vaidades e amantes das riquezas, os quais seduzidos por ele, apostataram, e em consequência dessa sacrílega submissão mandou o imperador que todos os outros usassem em suas respectivas dioceses, os ritos, breviários, missões e práticas religiosas seguindo a liturgia do império. Muitos sacerdotes, párocos e bispos, se declararam contra semelhante impiedade, porém foram logo depostos, despojados de seus bens, encerrados em horrendos calabouços, ou desterrados para a Sibéria, o que equivalia a condená-los a morrer de frio ou a força de sofrimentos. Embora ficassem privadas as dioceses de seus bispos, o povo permaneceu por algum tempo firme na fé, mesmo no meio das perseguições, de sorte, que muitos morreram por confessá-la; porém, tendo ficado como ovelhas sem pastor, muitos caíam no cisma; na Rutênia e na Lituânia, prevaricaram miseravelmente uns três milhões. No ano de 1839, festejava-se com solenidade no império russo esta deplorável apostasia, ao passo que os católicos do mundo inteiro choravam tamanho mal e rogavam a Deus que se compadecesse da Rússia.

Gregório XVI Nicolau da Rússia – Enquanto durou esta perseguição, Gregório XVI não poupou meios, para opor a tão grave mal os remédios que podia. Escreveu aos bons animando-os; lançou em rosto aos bispos sua traição, e mandou numerosos súditos aos que tinham sido despojados. Com este fim fez uma alocução em que censurou a crueldade e a injustiça daquele governo e do próprio Nicolau. Tendo feito este imperador uma viagem à Itália, quis visitar duas vezes aquele homem, que embora inerme, fazia, contudo, tremer com sua palavra os mais poderosos monarcas da terra. O digno vigário de Jesus Cristo acolheu com as devidas considerações ao poderoso monarca. Falaram largo tempo de coisas concernentes à religião. Admirou Nicolau a sabedoria e virtude do pontífice; porém se escusou dizendo que motivos políticos o tinham levado a tomar aquelas graves deliberações contra os católicos. O santo Padre lhe disse com gravidade: “Príncipe, a política foi feita para o tempo, a religião para a eternidade. Dia virá em que ambos nos apresentaremos a Deus para lhe prestarmos conta de nossas obras. Eu, como mais avançado em anos, serei indubitavelmente o primeiro; porém não me atreveria por certo a sofrer as vistas de meu Juiz se não tomasse hoje a defesa da religião que me foi confiada e que vós oprimes. Príncipe, Deus criou os reis para serem pais e não tiranos dos povos que lhes obedecem”. Estas palavras repercutiram com espanto nos ouvidos e no coração de Nicolau. Saiu perturbado da presença do pontífice e se comoveu até derramar lágrimas. Prometeu dar aos católicos liberdade de professar sua Religião, e de manter relações com a Santa Sé. Iniciou além disso uma concordata com Roma em que se estabeleciam diversos bispados, com jurisdição livre. A morte de Gregório, em 1º de Janeiro de 1846 interrompeu as negociações que foram levadas mais tarde a feliz termo por Pio IX. Em pouco tempo, porém, tornou-se a acender o ódio que a Rússia sempre nutrira contra a fé católica. 
CAPÍTULO IV
Eleição de Pio IX – Anistia e aplausos – Revolução em Roma – Pio IX em Gaeta – República Romana – Roma liberta – Volta do Sumo Pontífice à Roma. 

Eleição de Pio IX – Um dos maiores pontificados e dos mais esplêndidos, é sem dúvida alguma o de Pio IX. Nasceu em Sinigaglia no ano de 1792, da família dos condes Mastai Ferretti e se chamou João Maria. Jovem ainda, tinha ido a Roma para alistar-se no exército pontifício; porém sua abalada saúde impediu-lhe a realização de seu desígnio. Mas Deus que o chama para grandes coisas, o curou como temos visto, para que pudesse alistar-se na milícia sacerdotal. Desde jovem já brilhava em João todo gênero de virtudes; a devoção à Bem-aventurada Virgem formava todas as suas delícias. Digno ministro de Jesus Cristo prontamente conheceu a grande necessidade que tem a juventude de ser educada; e para este fim consagrou os primeiros trabalhos de seu grande ministério. Tomou conta em Roma da direção e administração de dois grandes institutos, conhecido um sob o nome de Tata Giovanni e outro de São Miguel em Ripagrande, onde se albergam centenas de meninos pobres. Uma difícil missão levada a cabo no Chile por comissão de Pio VIII demonstrou o grande talento e a rara habilidade que possuía no manejo dos grandes negócios. À sua volta do Chile foi nomeado bispo, e finalmente no ano 1840 criado cardeal. morte de Gregório foi, quase, por unanimidade de votos, proclamado pontífice a 16 de junho de 1846 dois dias depois de terem entrado para o conclave os Cardeais, e tomou o nome de Pio IX. Para narrar devidamente os feitos deste incomparável pontífice seriam necessários muitos e avultados volumes; limitaremo-nos, pois, a indicar alguns.

Anistia e aplausos – Assinalou Pio IX sua eleição com um ato de clemência por meio de uma anistia, isto é, de um perdão geral, a todos os que durante o pontificado de Gregório XVI se tinham tornado culpados de rebelião contra o estado. As­sim, pois, muitos desterrados e muitos presos puderam livremente voltar ao seio de suas famílias. Introduziu igualmente algumas reformas no governo civil de seus Estados. Estes atos de clemência fizeram ressoar seu nome em todas as partes acompanhado de um sem número de aplausos. Alegravam-se os bons com aqueles sinais de obséquio ao supremo pastor da Igreja, porém os malvados guiados pela estranha idéia de formar uma Jovem Itália, ou o que é o mesmo, uma república italiana, aproveitaram-se daqueles mesmos favores em seu prejuízo. Muitos dos que já tinham perturbado a paz em outros paises, foram a Roma e sob o pretexto de unir seus aplausos aos que todo o mundo tributava ao grande Pio IX, faziam o possível para induzi-lo a declarar guerra à Áustria. Sendo o Papa pai espiritual de todos os fiéis, nunca poderá resolver-se a declarar guerra, senão em defesa da religião ou de seu povo; porque os soberanos e os povos, a quaisquer pais que pertençam são sempre seus filhos. “Saiba o mundo que nós amamos a independência da Itália, porém nunca nos deixaremos levar a uma declaração de guerra ou a derramar sangue para consegui-la.” Fez, pois, o Papa tudo o que convinha a seu ofício de pai. 

Revolução em Roma – Em vista disto, os autores dos aplausos, os que tinham levantado estrondosos vivas, começaram por pedir reformas, logo outro governo, e em seguida a dar gritos de morte ao soberano da cidade eterna. O Santo Padre para tentar um último remédio, outorgou favores e chamou a Roma o conde Pellegrino Rossi, hábil político, e nomeou-o presidente de seus ministros, recomendando-lhe que se esforçasse para conservar a ordem de paz. Inútil remédio. O conde Rossi foi assassinado, entre espantosos gritos, no mesmo momento que ia entrar no palácio da Chancelaria, onde se achava então a Câmara dos deputados, desarmam os guardas do Quirinal, apunhalam a um sacerdote chamado Ximenes, e um tiro de pistola faz cair morto a monsenhor Palma, secretário de Pio IX. assim, pois, viu o Papa derramar-se o sangue de seus familiares nas salas de seu próprio palácio, e sua pessoa em perigo de cair em mãos daqueles revolucionários, a quem não espantava delito algum. Vendo, pois, o pontífice desconhecida a independência de sua autoridade, ameaçada sua vida, mal seguros os cardeais e os empregados públicos que permaneciam fiéis à sua pessoa, tomou a resolução de fugir. Mas como subtrair-se a seus inimigos que guardavam todas as saídas do Quirinal? Deus assiste a seu vigário e não abandona sua causa, que é a da Igreja. 

Pio IX em Gaeta – Ajoelha-se Pio IX diante de um crucifixo e reza; em seguida se levanta veste-se à secular e confia sua salvação à divina Providência. Já noite, acompanhado por um só criado, desce a um porão e por uma espécie de subterrâneo, se dirige a um lugar determinado onde o esperava o conde Spauer, ministro da Baviera. Sobe com ele ao coche e fazendo correr os cavalos chegam felizmente a Gaeta, antes de saberem de sua fuga. Tinham-no já precedido nessa cidade, o cardeal Antonelli e outros prelados que o esperavam. Quando correu a notícia de que o Papa se achava em Gaeta, tornou-se es­ta cidade, qual nova Roma, centro da Religião, e para ali se dirigiram os fiéis de todo o mundo. Ditoso o rei de Nápoles, por abrigar a semelhante hóspede, lhe prodigalizou toda espécie de cuidados, e não poupou meios para prover de todo o necessário ao Papa e aos que o acompanhavam. Ficou Pio IX dezesseis meses em Gaeta, não se descuidando do bem Universal da Igreja. Deu entre outras coisas, solene prova de veneração para com a Mãe do Salvador, dirigindo uma carta aos bispos de todo o mundo, em que os convidava, para que unidos com seus fiéis, pedissem e manifestassem seu modo de pensar sobre a conceição imaculada da Santíssima Virgem, de que logo falaremos. O chefe da religião, despojado assim de seus estados, e obrigado a fugir com tanta precipitação de sua sede, achava-se em verdadeiras angústias para prover a si e aos seus, e ter correspondência com todo o mundo. Em vista disto, os católicos, com afeto de filhos, procuraram o melhor meio para acudir em socorro de seu pai, já com grandes, já com pequenas somas de dinheiro a que chamaram como nos antigos tempos, óbulo, ou dinheiro de São Pedro, porque tem por fim socorrer ao chefe da religião e sucessor daquele santo apóstolo no governo da Igreja. O óbulo de São Pedro é ainda o meio com que hoje se provê às grandes estreitezas do chefe supremo da Igreja. 

República em Roma – Quando se soube em Roma da fuga do Papa, uma dor imensa feriu o coração de todos os bons. Mas os inimigos da ordem, acreditando que tinha chegado ao apogeu da fortuna, reuniram-se e por um ato sacrílego, constituíram em Roma uma República, dirigida por um triunvirato, isto é, por três chefes: Mazzini, Armellini e Saffi. Estes declararam o Papa privado de todo o poder soberano, e se constituíram árbitros de toda autoridade. O primeiro ato de seu governo foi impor tributos, por em circulação uma quantidade imensa de papel moeda, e se apropriar de uma grande parte dos bens da Igreja. Sinos da igreja, cálices, píxides, custódias, turíbulos, e todos os objetos de ouro e prata, foram roubados para com eles fazer dinheiro. Vários sacerdotes religiosos foram assassinados; doze deles morreram em um só dia debaixo dos golpes de punhal. Mosteiros e conventos foram violados e profanados, e não curto número de sagrados ministros barbaramente estrangulados. Corramos porém um véu sobre tanta iniquidade. 

Roma livre – O céu não podia permitir que se continuassem a cometer impunemente tantas iniquidades. As potências católicas, quais carinhosos filhos resolveram acudir em socorro do pai comum, cuja sé de natural está em Roma. Espanha, Nápoles, Áustria, Baviera e França põem-se de acordo para libertar Roma; e enquanto a Áustria conserva a autoridade do Papa na parte principal dos Estados pontifícios, a França, ainda que república, encarrega-se de expulsar de Roma aqueles rebeldes. Com este fim uma companhia de valorosos franceses marchou diretamente sobre Roma, que teriam podido tomar mais prontamente do que o fizeram, se tivessem querido por em obra todos os meios violentos de que podiam dispor; porém como quisessem salvar da destruição os monumentos preciosos da cidade, e mais ainda, evitar o derramamento de sangue, em quanto lhes fosse possível, empregaram três meses em apoderar-se dela. Os sitiados levaram a cabo proezas dignas de melhor causa. Encarniçadas lutas; conquista e reconquista de uma mesma posição por ambas as partes, sem nenhuma dar-se por vencida antes de sucumbir. Finalmente, a 29 de junho, dia dedicado ao príncipe dos apóstolos, fizeram os franceses tão forte assalto à cidade, que rechaçados os inimigos, ficou Roma em seu poder. É fácil imaginar qual a alegria dos Romanos, quando se viram livres daqueles revolucionários e puderam novamente gozar de paz e tranquilidade, dedicar­se ao comércio, tornar a abrir os conventos, as igrejas, e praticar de novo pacificamente sua religião. 

Volta de Pio IX – A notícia da libertação de Roma chegou logo aos ouvidos do Sumo Pontífice, que profundamente comovido exclamou: “Deus seja bendito, agora cessa o derramamento de sangue entre meus filhos.” Muitos desejavam que voltasse imediatamente para Roma; porém as pessoas prudentes aconselhavam-no que protelasse sua volta. Esta não se verificou até o dia 12 de abril de 1850. Houve naquele dia tal concurso de povo, tais transportes de alegria, que talvez não se visse coisa igual desde que Pio VII entrou de novo em Roma depois de sua prisão. O afortunado Pontífice dirigiu-se antes de tudo à basílica de São Pedro para dar graças a Deus pela paz dada à Igreja, em seguida, com aquele zelo e carinho que lhe eram próprios, começou a cicatrizar as profundas chagas causadas pelos repuplicanos à Religião e ao Estado. 
CAPÍTULO V
A Imaculada Conceição – A propagação da fé – O Pe. João de Triora – Carlos Corney – Gabriel Perboire – Liberdade Cristã na China – 0rdens Religiosas.

A Imaculada Conceição – Logo que o Papa voltou à sua sede, chegaram-lhe de todas as partes do mundo os votos dos bispos atestando a crença geral de que Maria sempre tinha sido preservada do pecado original, e que era uma das maiores aspirações de seus diocesanos que se definisse dogmaticamente esta verdade. O pontífice estabeleceu então uma comissão de doutos teólogos e cardeais; mais tarde concedeu um jubileu de três meses, para excitar aos fiéis a dirigir a Deus ardentes votos, e convidou finalmente que fossem a Roma todos os bispos, que facilmente pudessem ir. Depois de uma discussão esmerada e profunda, se achou que era doutrina conforme às sagradas escrituras, constantemente manifestada pela tradição, isto é, na sagrada liturgia, nos escritos dos santos padres, nos decretos dos sumos pontífices, e no sentimento geral de todos os cristãos, que Maria tinha sido concebida sem mancha original, e que era coisa muito conveniente que se definisse essa doutrina como artigo de fé. Pio IX depois de novas súplicas, julgou que já tinha chegado o tempo de proceder à tão anelada definição; e assistido pelos cardeais, pelos patriarcas e por um grande número de arcebispos e bispos em presença de multidão imensa de sacerdotes e leigos, a 8 de dezembro de 1854, dia consagra­do a Maria Imaculada, antes de celebrar a santa Missa, pronunciou este decreto na basílica vaticana: “É doutrina revelada por Deus que a Bem-aventurada Virgem Maria desde o primeiro instante de sua conceição foi preservada de toda mancha da culpa original por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em consideração aos méritos de Jesus Cristo. Salvador do gênero humano; por isso todos os fiéis devem crer nela firme constante­mente”. Em virtude desta definição desapareceu toda a dúvida acerca deste privilégio da Mãe de Deus. Com esta definição não introduziu o pontífice uma nova crença; só declarou dogmaticamente uma verdade revelada por Deus e acreditada já desde os primeiros tempos da Igreja. 

A Obra da Propagação da fé – Entre as maravilhosas instituições deste século conta-se a obra da Propagação da fé. Tendo Napoleão I suprimido os conventos e os mosteiros, despojado as igrejas e se apropriado dos bens sagrados, faltavam os meios para ajudar àqueles animosos sacerdotes, que, levados pelo desejo de salvar almas, iam a longínquos paises. Pois bem, Deus para prover a uma coisa tão necessária como as missões, inspirou um meio eficaz que já produziu assombrosos efeitos. No mês de maio de 1822 uma jovenzinha de Lion convidara a alguns amigos e parentes seus a reunirem para fazerem pequenas ofertas semanais e juntar assim algum subsídio em proveito das missões. A obra era mui simples, santo o seu fim e por isso, Deus a abençoou. A oferta que se devia fazer não era e não é mais de cinco centésimos (um vintém) semanais; o que a faz se obriga a rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. De cada dez associados, um recebe o óbulo semanal e em troco se lhes oferece a leitura dos Anais das Missões que se imprimem de dois em dois meses. Sendo tão pequenas as ofertas, todos podem fazê-las. Por isso, ricos e pobres, patrões e criados, homens e meninos se inscreveram imediatamente na nova obra. Como já se disse, Pio VII a recomendou com sua autoridade apostólica, e os outros sumos pontífices a enriqueceram com muitas indulgências. Gregório XVI e Pio IX foram mui zelosos promotores desta obra, que com a bênção do Vigário de Jesus Cristo cresceu maravilhosamente e se difundiu por toda a terra. Imprimem-se os anais em grande quantidade e em todos os idiomas, e se recolhem todos os anos mais de cinco milhões de francos. Com este socorro já se converteram à fé muitos milhões de idólatras. Espécie de apêndice da obra da propagação da fé é a Santa Infância, chamada assim porque foi posta sob a especial proteção do Menino Jesus, e tem por fim resgatar as crianças pobres naqueles paises em que como na China, são barbaramente vendidos e com frequência atirados no meio das praças para servir de pasto aos animais imundos. Obrigam-se todos os associados a pagar cinco centésimos por mês e rezar uma Ave Maria e uma jaculatória a Maria Santíssima e a São José. O sumo pontífice Pio IX, considerando a grande utilidade que a nova obra traria à religião, aprovou-a em cartas apostólicas de 16 de julho de 1856 e a enriqueceu com muitos privilégios e indulgências. 

Padre João de Triora – Deus, senhor do coração dos homens, ao passo que inspira em uns o zelo para promover sua glória em nossos paises, infunde em outros o valor heróico de abandonar a pátria, parentes e amigos para empreender longas e perigosas viagens, cujo termo é geralmente o martírio. Somente a Itália conta uns dois mil destes obreiros evangélicos que presentemente trabalham sem descanso pela fé. Daremos a este respeito algumas breves notícias. Começaremos pelo Padre João Francisco, natural de Triora, perto das costas da Ligúria. Depois de ter cursado seus estudos em Roma, partiu para as missões estrangeiras. No ano de 1800, depois de ter padecido grandes trabalhos, sofrimentos e perigos, chegava a Macau, cidade das fronteiras da China. No ano seguinte passou as fronteiras do Celeste Império, ainda que houvesse ameaça de morte para quem pregasse ou professasse naquele império a religião cristã. Não obstante isto, pode durante 15 anos pregar, catequi­zar, administrar os santos sacramentos, batizar as crianças e assistir os moribundos espalhados naquelas vastas regiões sem chegar a ser reconhecido pelas autoridades civis. Porém depois de ter sofrido fome, sede, fadigas de toda espécie, foi finalmente descoberto e denunciado aos mandarins. Arrastaram-no enquanto celebrava a santa Missa vestido com os hábitos sagrados; levaram-no em presença de diferentes tribunais, e o ameaçaram com tormentos e a morte, se não renunciasse a sua fé. Ele, porém, confessou com denodo que era cristão e que estava pronto a morrer mil vezes antes que dizer ou fazer coisa alguma contraria à fé de que era ministro. Queriam obrigá-lo entre outras coisas, a pisar o Crucifixo; porém não podendo os verdugos induzi-lo a tornar-se réu de tão horrível sacrilégio, punham eles mesmos por meio da força os pés da vítima sobre a imagem adorável de nosso Redentor. Em vista desse ato de violência horrorizado o santo exclamou: “Não sou eu quem pisa este santo crucifixo, porém vós que com a violência me arrastais sobre ele”. Fizeram­no padecer vários tormentos e finalmente depois de atarem-no a um pau, o enforcaram. Na sentença proferida contra ele se dizia que ia ser condenado à morte porque tinha pregado a fé católica. Não se podia pronunciar mais gloriosa sentença contra este animoso missionário. Seu martírio deu-se no dia 15 de agosto de 1815. (V. Museu das Missões, ano V). 

Carlos Corney e Gabriel Perboire – Assinala-se a França entre as nações católicas em ministrar pregadores às missões estrangeiras e aumentar as fileiras dos mártires da idade moderna. Indicaremos alguns. O venerável Carlos Corney, sacerdote da missão de Vicente de Paulo, saiu de Paris no ano de 1830 e no seguinte unia-se a seus companheiros na China. Trabalhou para a conversão daqueles idólatras até o ano de 1837, em que foi descoberto e condenado à morte. Seu martírio foi bastante cruel. Estendido em terra, cinco verdugos ligaram estreitamente suas mãos e pés em quatro paus e puseram sua cabeça entre duas estacas fincadas na terra. A um sinal dado, um verdugo corta com um só golpe a cabeça do santo mártir, ao passo que os outros fazem o mesmo com os braços e os pés, dividindo-o em quatro partes. Este martírio deu-se a 20 de setembro tendo Corney apenas 28 anos de idade. Gabriel Perboire, seu irmão em religião, depois de seis anos de trabalhos e fadigas, foi acusado porque pregava o Evangelho e por isso condenado à morte. Fizeram-no padecer prisão penosíssima, submetendo-o ao tormento das varas e a degradantes interrogatórios, seguidos de mil espantosas ameaças e sedutoras promessas. Ele, porém, venceu com intrepidez todos estes males e coroou seus sofrimentos com a crucifixão, suplício que padeceu contente e com coragem por amor de Jesus Cristo morto por ele na cruz. 11 de setembro de 1840. 

Liberdade cristã na China– Os cristãos da China continuaram ainda sendo perseguidos por vários anos; porém a perseguição de nenhum modo entibiava o zelo dos missionários, posto que ir pregar o Evangelho equivalia a expor-se ao martírio. Finalmente teve Deus piedade daquela infeliz nação e dispôs que a Europa fosse por termo a tanta barbaridade. No ano de 1858, depois de muitas fadigas, despesas e guerras, a França e a Inglaterra conseguiram passar os limites do Celeste Império. Este fato demonstra a todas as luzes, de quanto a civilização européia, que é fruto do cristianismo, sobrepuja à da China, produzida pelo paganismo, porque poucos milhares de Franceses e Ingleses alcançaram vitória e ditaram leis a um império de 400 milhões de habitantes. A França e a Inglaterra vitoriosas contra a China concluíram um tratado que contém, entre outros os seguintes artigos:  1º Todos os portos do império Chinês se abrirão ao comércio livre dos estrangeiros, que habitando em ditos portos, poderão gozar dos mesmos direitos que os Chineses, submetendo-se às leis do pais, sob a proteção de seus respectivos consules. 2º A religião cristã poderá ser exercitada em todo o Celeste Império. 3º Residirão em Pequim embaixadores europeus, ao passo que se mandará um embaixador chinês a Paris e outro a Londres. Desta maneira depois de trezentos anos de perseguição, o sangue dos mártires, com produzir novos cristãos finalizou naquele imenso império a perseguição legal contra a Igreja Cristã. Os missionários puderam sair dos lugares escondidos, mostrar-se publicamente, reunir os cristãos dispersos, levantar igrejas, abrir escolas, casas de órfãos e hospitais. Diariamente acodem em seu auxílio novos missionários. Estabeleceram-se já ali muitos bispados, e na própria cidade de Pequim, capital do império, reside um bispo católico, que exerce com a maior solenidade e publicamente, e às vezes com assistência das autoridades civis, as augustas cerimônias de nossa Santa Religião.*(Com a Revolução Comunista na China, processo que se iniciou em 1927 e culminou com a instauração do comunismo neste pais, a perseguição religiosa reiniciou e persiste até os dias de hoje).

Ordens religiosas – Depois de queda de Napoleão I puderam os religiosos voltar a seus antigos domicílios e trabalhar de novo no campo evangélico, e ir às missões estrangeiras tanto na Europa como nas demais partes do mundo. Mas como por outra parte as antigas ordens não podiam voltar a seu primitivo rigor, suscitou Deus novas ordens e novas congregações que as suprissem em parte e satisfizessem às necessidades a que aquelas já não podiam acudir. Leão XII aprovou, no ano de 1826, a Congregação dos Oblatos de Maria, fundada por dois piedosos e doutos sacerdotes, Lanteri de Cuneo e Reinaudi de Carignano. No ano de 1836 foram aprovadas as religiosas chamadas Fiéis Companheiras de Jesus, cujo fim era a educação religiosa e civil das meninas; entre o grande número de suas casas, havia uma mui florescente em Turim. O Instituto de caridade fundado pelo douto escritor Pe. Antonio Rosmini foi aprovado como ordem religiosa pelo Papa Gregório XVI no ano de 1839.O mesmo Gregório, nos últimos anos de seu pontificado, aprovou o instituto de Sant’Ana e o das Penitentes de Santa Maria Madalena, fundados pela marquesa Júlia Barolo, muito célebre em Turim por suas obras de caridade.Os seguintes institutos foram aprovados pelo sumo pontífice Pio IX:    1º As Filhas da Imaculada Conceição. 2º As Irmãs da Bem-aventurada Virgem Maria do Retiro. 3º As Irmãs de Santa Marta. 4º As Irmãs do SS. Salvador. 5º As Irmãs da Bem-aventurada Virgem do Bom Conselho. 6º E finalmente (1º de Março de 1869) a Congregação de São Francisco de Sales (ou Salesianos)fundada em Turim com o fim de promover a educação cristã, científica e literária da juventude, especialmente por meio dos oratórios festivos e das casas de beneficência.
CAPÍTULO VI
Beatificação dos mártires do Japão – Concílio do Vaticano – Sessão quarta – Fato único na História da Igreja.

Beatificação dos mártires do Japão – Será sempre de grata memória para os fiéis o dia 8 de junho de 1862, em que 26 heróis da fé, martirizados no Japão há cerca de três séculos, foram elevados à honra dos altares. Falamos, a seu tempo, da sanguinolenta perseguição de Taicosama e do grande número de cristãos que foram coroados com o martírio. Aqui tão somente acrescentaremos que, depois de terem sofrido muitos trabalhos nas prisões e nas viagens; depois de terem passado fome; sofrimentos e golpes de toda espécie, chegaram finalmente à cidade de Nagasaki lugar preparado para seu suplício. Querendo ensaiar ainda uma prova para lhes infundir temor, mostrou-se-lhes um outeiro sobre o qual se achavam preparadas 26 cruzes. Ao recordar, em presença desse espetáculo, que a cruz tinha trazido a salvação ao gênero humano, e que dentro em pouco abriria-lhes as portas do céu, encheram-se de grande alegria. Um deles chamado Antonio, falou no lugar do suplício a seus pais, que lhe faziam grandes promessas para excitá-lo a renegar a Jesus Cristo: “Vós me prometeis bens terrenos, Jesus Cristo, bens celestiais aqueles duram breve tempo, estes são eternos”. Entregou-lhes em seguida a túnica que levava e correu a abraçar a cruz. Posto cada um deles em uma cruz foram transpassados por uma lança, conforme o costume japonês. Assistia ao suplício uma multidão de pagãos e de cristãos, aos quais os mártires ainda na cruz pregavam a Jesus Cristo. Para prova de sua santidade se deram, durante sua crucificação, vários sinais prodigiosos. Constando com argumentos irrefutáveis que aqueles heróis derramaram seu sangue pela fé, e se operaram sobre seus sepulcros, graças à sua intercessão, muitos milagres, Pio IX inscreveu-os no catálogo dos santos mártires.

Concílio Vaticano – Depois do Concilio Tridentino passaram-se mais de trezentos anos sem que houvesse necessidade de convocar nenhum concílio ecumênico. Todas as questões e erros surgidos nesse período foram examinados, julgados e condenados pelo Chefe supremo da Igreja, pois ele recebeu de Jesus Cristo plena e ilimitada autoridade sobre o que concerne ao bem espiritual e eterno dos cristãos. O Salvador disse a São Pedro: “Tudo o que atares na terra também será atado no Céu; e tudo o que desatares na terra também será desatado no Céu”. Mas as doutrinas errôneas destes últimos tempos, que alguns insidiosamente tratam de inserir na religião, ainda mais, os chamados filósofos modernos, as diferentes formas de sociedades secretas, a maçonaria, o socialismo, os livre-pensadores, os espíritas e outras seitas semelhantes se apoderaram de tal sorte do coração e da mente dos homens, que o romano Pontífice Pio IX julgou necessária a convocação de um concilio ecumênico. Com este fim, seguindo o exemplo de seus antecessores, que nos mais graves momentos costumavam reunir em volta de si os bispos católicos postos pelo Espírito Santo para governar a Igreja de Deus, determinou a convocação de um concilio que deveria reunir-se na Basílica Vaticana, e por isso chamou-se Primeiro Concílio Vaticano. Foram inauguradas as sessões a 8 de dezembro de 1869, achando-se presentes cerca de 700 pessoas entre bispos, cardeais, abades, gerais de ordens religiosas e insígnes teólogos. Na primeira e segunda sessão fez-se a introdução e a profissão de fé. Mas na terceira sessão, depois de terem os Padres exposto a doutrina da Igreja acerca de Deus criador de todas as coisas, da necessidade de crer em todas as verdades reveladas por Deus, que se devem crer firmemente, ainda que não se possam compreender, condenaram vários erros. Entre outras definições fizeram a seguinte em confirmação da divindade dos livros sagrados: “Se alguém não receber por sagrados e canônicos todos os livros da sagrada escritura com todas as suas partes, como os enumerou o santo Concílio Tridentino, ou negar que são divinamente inspirados, seja excomungado”. 

Sessão Quarta – Sempre será memorável nos fatos da Igreja a quarta sessão do concilio Vaticano. Depois de se ter exposto a doutrina católica sobre a instituição do primado apostólico na pessoa do Bem-aventurado Pedro, e a perpetuidade dele mesmo nos Papas que lhe sucederem, cuja autoridade devia se estender a todos os tempos, a todos os paises, a todas as coisas concernentes à religião, a todos os cristãos, (seculares, sacerdotes e bispos), da terra, passou-se enfim à grande questão do magistério infalível do romano Pontífice. O glorioso Pio IX, depois de aprovada pelos Padres, proclamou esta importante verdade com as seguintes palavras:<<Esta Santa Sé tem acreditado sempre, o costume permanente da Igreja o prova, e os mesmos Concílios Ecumênicos, sobretudo aqueles em que o Oriente convinha com o Ocidente na união da fé e da caridade, tem declarado que o poder supremo do magistério está compreendido na primazia apostólica, que o romano Pontífice possui sobre a Igreja universal em sua qualidade de sucessor do Pedro, Príncipe dos Apóstolos. Por isso os Padres do quarto Concílio de Constantinopla, seguindo as pegadas de seus predecessores, promulgaram esta solene profissão de fé: – A primeira condição para a salvação consiste em guardar a regra da verdadeira fé. E que a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”, não pode falhar, o confirmam os fatos, pois sempre na Santa Sé se tem conservado imaculada a religião, e se tem ensinado a santa doutrina. Desejando, pois, não separarmo-nos em coisa alguma de sua fé e de sua doutrina, esperamos ser dignos de permanecer na única comunhão que prega a Sé Apostólica, na qual permanece a completa e verdadeira solidez da religião cristã. – Com aprovação do segundo Concilio de Lion, os gregos professavam: Que a santa Igreja romana tem soberania e primazia sobre a Igreja católica universal, principado que esta reconhece em verdade e humildade, como recebido, com a plenitude do poder, do Senhor mesmo na pessoa do Bem-aventurado Pedro, Príncipe e cabeça dos Apóstolos, de que é sucessor o Pontífice romano; e assim como ela esta obrigada, mais que qualquer outra, a defender a verdade da fé, assim também quando se suscitam questões relativas à fé, essas questões devem ser resolvidas por seu juízo. – Finalmente, o Concilio de Florença definiu: Que o Pontífice romano é o verdadeiro Vigário de Jesus Cristo, chefe de toda Igreja, Pai e Doutor de todos os cristãos, e que a ele, na pessoa do Bem-aventurado Pedro, foi dado por Nosso Senhor Jesus Cristo o pleno poder de reger e governar a Igreja universal. Para cumprir os deveres deste cargo pastoral, nossos predecessores tem trabalhado sempre ardentemente em propagar a salutar doutrina de Cristo entre todos os povos da terra, e tem velado com igual solicitude em conservá-la pura e sem alteração em todas as partes onde tem sido recebida. Por isso, os bispos de todo universo, ora dispersos, ora congregados em Sínodos, conforme o costume constante das igrejas e a forma da antiga regra, tiveram sempre cuidado de mostrar a esta Sé apostólica os perigos que se apresentavam, sobretudo em pontos de fé, afim de que os danos causados à fé, encontrassem seu soberano remédio, precisamente onde a fé não pode sofrer demérito. Os romanos Pontífices por sua vez, conforme aconselhava a condição dos tempos e das coisas, umas vezes convocando Concílios Ecumênicos, outras consultando a Igreja dispersa no universo, já por Sínodos particulares, já por outros meios que a Providência lhes ministrava, definiram que era necessário manter sempre o que, com o adjutório de Deus, tinham reconhecido ser conforme com as Sagradas Escrituras a com as tradições apostólicas. Com efeito, não foi prometido o Espírito aos sucessores de Pedro, para publicarem, segundo suas revelações, uma nova doutrina, mas sim para que, com sua assistência, guardassem santamente, e expusessem fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, isto é, o depósito da fé. Todos os veneráveis Padres abraçaram e todos os santos Doutores ortodoxos tem respeitado e seguido sua doutrina apostólica, sabendo perfeitamente que esta Sé de Pedro permanece sempre isenta de todo o erro, segundo esta divina promessa feita pelo Senhor, Salvador nosso, ao príncipe de seus discípulos: “Eu tenho rogado por ti, para que tu não vaciles, tu quando estiveres convertido, confirma a teus irmãos”. O dom da verdade e da fé que não vacila, foi, pois, divinamente concedido a Pedro e a seus sucessores nessa Cátedra, afim de que desempenhassem seu eminente cargo para a salvação de todos: afim de que toda a grei de Cristo, apartada por eles dos pastos venenosos do erro fosse nutrida da doutrina celestial, afim de que, deixada toda causa de cisma se conserve a Igreja toda inteira na unidade, e que firmada em seus fundamentos se mantenha indestrutível contra as portas do inferno. Na presente época, porém, quando existe mais do que nunca necessidade da salutar eficácia do cargo apostólico, e em que se acham tantos homens empenhados em rebaixar sua autoridade, Nós pensamos ser absolutamente necessário afirmar solenemente a prerrogativa que o Unigênito Filho de Deus dignou-se unir ao supremo ofício pastoral. Por isso, Nós unindo-nos fielmente à tradição que remonta ao princípio da fé cristã, para a glória de Deus, Salvador nosso, e exaltação dos povos cristãos, ensinamos e definimos, com aprovação do Sagrado Concílio, que é um dogma divinamente revelado: “Que Romano Pontífice, quando fala ex-cathedra, isto é, desempenhando cargo de Pastor Doutor de todos os cristãos em virtude de sua suprema autoridade apostólica, define que uma doutrina sobre a fé ou sobre os costumes deve ser professada pela Igreja universal, goza plenamente pela divina assistência que está prometida na pessoa do Bem-aventurado Pedro, daquela infalibilidade da qual divino Redentor quis que sua Igreja estivesse provida ao definir sua doutrina quanto à fé e aos costumes; por conseguinte, que as definições do romano pontífice, são por si mesmas irreformáveis, não em virtude do consentimento da Igreja. Se pois alguém, o que Deus não permita, tiver a temeridade de contradizer a esta definição, seja excomungado.”>> Assim a 18 de julho de 1870, definia-se como artigo de fé, que o Pontífice romano é infalível, quando fala de coisas tocantes à fé e aos costumes. 

Fato único da história da Igreja – Entre as maravilhas que admirou o mundo em Pio IX, acha-se a de ter excedido a todos seus predecessores na duração do pontificado. São Pedro que tinha ido a Roma cerca de dez anos depois da morte do Redentor, ocupou aquela sede 25 anos, 2 meses e 7 dias. Nenhum pontífice alcançou depois dele tal espaço de tempo, de maneira que era geralmente recebida a tradição de que nenhum Papa alcançaria os anos de Pedro: “Non videbis dies Petri”. Antes muitos acreditam que se cantavam estas palavras a todos os pontífices em sua consagração; porém como não se encontram em nenhum cerimonial da coroação dos Papas, duvida­se do fato. Contudo não tendo nenhum Papa alcançado os anos de Pedro, era considerado por todos como verdade histórica. A glória excepcional de alcançar ou antes de exceder os anos de Pedro estava reservada a Pio IX*. A 16 de junho de 1871 completava-se o XXV aniversário de seu pontificado. Comoveu-se o mundo, e todas as partes se preparavam de mil diferentes modos para atestar ao pontífice sua alegria e sua veneração. Secundando o Papa a aspiração dos corações católicos, dirigiu uma encíclica a todos os Bispos, para que convidassem aos povos a dar graças a Deus por ter-lhe concedido tão longo pontificado; e abriu ao mesmo tempo os tesouros das santas indulgências. É impossível imaginar maior solenidade. Parecia que o espírito do Senhor tinha invadido todos os corações para impeli-las a festejar o Pai comum de todos os crentes. Desde a mais humilde aldeia até a mais ilustre cidade, os próprios protestantes, hereges e o grão Sultão, todos compartilharam daquele grande dia. *(A data real do martírio de São Pedro, de acordo com um cruzamento de datas feito pela arqueóloga italiana Margherita Guarducci  seria 13 de outubro de 64 d.C.. Como Jesus morreu com 33 anos e se considerarmos o nascimento da Igreja e inicio do pontificado de São Pedro, no dia de Pentecostes, no mesmo ano da morte de Jesus, podemos concluir que a duração do pontificado do Primeiro Papa foi de aproximadamente 31 anos, ou ainda se considerarmos o início de seu pontificado como sendo quando Jesus o escolheu como Apóstolo, no início de sua Vida Pública, e o renomeou de “Pedro”. Então,  teria tido um papado de aproximadamente 34 anos. Portanto o pontificado de Pio IX que durou 31 anos, 7 meses e 22 dias, pode ou não ter superado o de São Pedro.)
CAPÍTULO VII
Morte de Pio IX – Eleição de Leão XIII – Estado presente da Igreja – Ensinos da história Eclesiástica. 

Morte de Pio IX – Os transportes de alegria dos católicos pela ocorrência do XXV aniversário de pontificado de Pio IX, renovaram-se ao festejarem o quinquagésimo da celebração de sua primeira missa; porém o de seu Jubileu Episcopal excedeu a todos os demais acontecimentos da História Eclesiástica, e a tudo o que é possível legar à posteridade. Basta dizer que no ano de 1877, fiéis cristãos de toda idade e condição, partiam das mais longínquas regiões de terra para irem venerar ao chefe da Igreja e levar a seus pés quanto possuíam de mais precioso em trabalhos de arte, em ouro, em prata ou em trabalhos científicos. Mas a vida do homem é limitada. Pio IX, pela firmeza de sua fé, por sua caridade, por sua benevolência, por seus conselhos e por sua mansidão, tinha-se tornado a delícia do mundo, e dos corações. Os próprios heterodoxos o consideravam qual amigo, pai, irmão, e benfeitor. Já corria o ano octogésimo sexto de sua idade e ainda conservava grande lucidez de espírito e seu ânimo viril. No mês de novembro do dito ano enfermou gravemente, porém pode melhorar e tornar a atender às audiências do costume, e dirigir aquelas pequenas práticas, que formaram sempre uma das glórias do seu pontificado. Porém à tarde de 6 de fevereiro de 1878 manifestaram-se vários sintomas de febre no venerando Pontífice. Agravou-se o mal durante a noite, na manhã seguinte administraram-lhe os consolos da Religião, que recebeu com os sinais de santo fervor, que todos podem imaginar. Ao anoitecer de 7 de fevereiro, entregou Pio IX sua formosa alma ao Criador. Voou a receber a merecida coroa dos justos e a gozar de presença da Imaculada Rainha do céu que tanto tinha honrado no curso de sua vida. 

Eleição de Leão XIII – Quando se espalhou a notícia da morte de Pio IX comoveram-se todos os cristãos. A dor foi imensa e geral em todos os paises, pode-se dizer, em todas as famílias. Somente a eleição de um digno sucessor pode consolar o coração dos católicos. Experimentou-se este consolo na eleição de Leão XIII ao trono pontifício. Concluídos os funerais do falecido Pontífice, os cardeais em número de 64 reuniram-se em conclave no palácio Vaticano, e 36 horas depois estava feita a eleição de uma maneira inesperada, recaindo ela no cardeal Joaquim Pecci, já notoriamente conhecido por sua grande ciência e virtude, e por sua prudência singular no manejo dos grandes negócios. Nascido na pequena povoação de Carpineto, perto de Anagni, a 2 de março de 1810, da nobre família Pecci, fez a esplêndida carreira nos estudos e ocupou honrosos cargos na Igreja. Gregório XVI preconizou-o Arcebispo de Perugia em janeiro de 1846 e Pio IX o criou cardeal no consistório de 19 de dezembro de 1853. A 21 de setembro de 1877 o mesmo Pio IX o chamou a Roma para exercer o ofício de Camerlengo. Achava-se no conclave revestido com esta dignidade, quando todos os cardeais, vendo nele todas as virtudes necessárias para um grande Pontífice, proclamaram-no sucessor de Pio IX a 20 de fevereiro de 1878. Êmulo de seu predecessor, na firmeza, na afabilidade, na caridade e na prudência, seguiu inalteravelmente seus princípios e nobres exemplos. Entabulou relações com as potências estrangeiras, obtendo vantagens para a religião. As missões estrangeiras formaram um dos maiores objetos de seu paternal zelo. Dão prova disto a hierarquia e o episcopado ereto na República Oriental do Uruguai. A república do Paraguai que desde muitos anos se achava aflita por sanguinolentos desastres e pela guerra civil, ouviu fielmente a voz do Pontífice de Roma e recebeu seu Núncio, preparando assim um campo vasto e uma copiosa messe aos obreiros evangélicos. Todos os católicos aplaudiram a eleição do novo Vigário de Jesus Cristo e unânimes rogaram a Deus que lhe concedesse longos anos de vida; aplanasse as dificuldades que encontrasse e o ajudasse a carregar a cruz inseparável do universal governo da Igreja. Oxalá pudessem vê-lo triunfar em todas as nações, em todos os povos! Teve este pontífice a consolação de ver o mundo em paz, e todos crentes permanecerem fiéis aos divinos preceitos e formarem um só rebanho ao redor de um só pastor na terra, para que todos juntos um dia chegassem a gozar da imensa felicidade do Céu. 

Ensinamentos da História Eclesiástica – Apresenta-nos a História Eclesiástica alguns ensinamentos, que nos servem de consolo em nossa carreira mortal. 
1º Que a Igreja Católica é filha de Deus Pai, esposa de Jesus Cristo e o templo do Espírito Santo; pois somente com o auxílio de Deus pode se sustentar, propagar e crescer no meio de tantos e tão grandes contrastes, que durante dezenove séculos se tem suscitado contra ela. 
2º Que não nos devemos maravilhar das guerras dirigidas contra a Igreja. Uma só é a causa de todas estas guerras: o ódio do espírito das trevas contra Jesus Cristo. 
3º Prova evidente da divindade da Igreja Católica, é que nunca se viu que um católico para levar vida mais perfeita, abandonasse sua crença para se fazer Judeu, mulçumano, herege; e os incrédulos abraçaram a fé católica para assegurar sua salvação. 
4º Constitui outra prova da divindade da Igreja católica, que no ponto de morte muitos infiéis hereges e incrédulos fizeram instâncias para entrar no seio da Igreja, ao passo que naquele instante fatal nenhum católico tratou de fazer-se herege. mulçumano, ou incrédulo para salvar sua alma. 
5º Que a Igreja Católica está fundada na autoridade do Sumo Pontífice, se conserva e propaga somente em virtude da fé e reverência que se professa a esta autoridade; e que, por conseguinte, é coisa de suma importância propagar e aumentar a submissão e o respeito ao Papa, cuja autoridade é infalível. 
6º Que todos os cismáticos, os hereges e os protestantes, encontram, examinando a história, o dia em que tiveram princípio seus erros e em que começou a série de seus mestres; entre eles e o tempo em que viveu Jesus Cristo na terra passa uma distância mais ou menos longa; de sorte que nenhum deles pode ter recebido de Jesus Cristo sua doutrina, nem ter sucedido aos apóstolos. A história, pelo contrário, nos demonstra que o Pontífice Leão XIII, chefe da Igreja Católica, por uma série não interrupta de Papas, remonta de um a outro antecessor, até chegar a São Pedro, príncipe dos Apóstolos, constituído Pastor supremo pelo próprio Salvador. Por isso só a Igreja Católica é a Igreja de Jesus Cristo cuja doutrina foi pregada pelos apóstolos. Quanto às demais crenças, ainda que se arroguem o nome de Igrejas cristãs, não são Igrejas de Jesus Cristo, porém Igrejas do heresiarca ou chefe da seita, de quem cada uma delas se originou. 
7º Finalmente, ainda que vejamos a Igreja perseguida, devemos permanecer firmes na fé e nos ensinos desse supremo Pastor. Procuremos, pois, conservar e aumentar em nós o espírito de fé, de esperança e de caridade na terra para merecermos um dia participar da glória, que Deus reserva aos verdadeiros católicos na bem-aventurada eternidade. 
(Dom Bosco, o autor, morreu no dia 31 de janeiro de 1888, ainda no pontificado de Leão XIII. Foi canonizado pelo Papa Pio XI em 1º de abril de 1934).