SEGUNDA ÉPOCA
Desde a conversão de Constantino no ano 312, até a origem do maometismo no ano 622. (abrange um período de 310 anos.)
CAPÍTULO I 
Constantino, o Grande – Aparição da Cruz – O Lábaro – Entrada em Roma – São Melquíades ­ O palácio e basílica de Latrão – Cisma dos donatistas – Carta de Constantino – Concílio de Latrão – Morte de São Melquíades.  

Constantino, Grande – Era filho de Constantino Cloro e de Santa Helena. Após a morte de seu pai, que dominava a Grã-Bretanha e as Gálias na qualidade de Cesar, foi proclamado imperador por seus soldados.Conquanto não se achasse ainda instruído na fé, amava os cristãos, e dando-lhe estes provas de sua fidelidade em várias ocasiões, ordenou que cessasse a perseguição na Grã-Bretanha e nas Gálias onde ele governava, e que dali em diante os cristãos fossem tratados como os demais cidadãos. Conseguiu este imperador grandes vitórias entre as quais ocupa o primeiro lugar a que obteve contra Maxêncio, filho de Maximiano e seu sucessor no trono. Pelos vícios da avareza e da crápula se tinha tornado Maxêncio desagradável a todos os bons, de modo que de todas as partes chamavam a Constantino para livra-los daquele tirano. Constantino não titubeou em tomar as armas para combater contra o inimigo da humanidade e da religião. Foram formidáveis os preparativos de guerra que se fizeram de ambas as partes. Maxêncio, segundo dizem os historiadores, tinha cento e sessenta mil homens a pé e dezoito mil a cavalo, ao passo que Constantino não tinha mais do que quarenta mil. A desigualdade da força atemorizou algum tanto a Constantino: mas Deus serviu-se disso para apartá-lo do culto dos deuses impotentes, tirá-lo daquele perigo e trazê-lo ao conhecimento do verdadeiro Deus.

Aparição da Cruz – Seu inimigo empregava as artes da magia para invocar em seu auxílio as potências infernais; mas ele, ao contrário, dirigiu-se ao verdadeiro Deus que, embora confusamente conhecia como o Criador do céu e da terra, suplicando-lhe que se declarasse em seu favor. Ouviu-o Deus e operou um assinalado prodígio, que a história não declara com suficiente precisão em que local se realizou. Alguns autores dizem que foi nos arredores de Turim, e esta opinião se acha confirmada por uma pintura muito formosa que esta em Roma no palácio do Vaticano, na galeria chamada dos mapas geográficos. Eis como nos referem o fato os historiadores contemporâneos, entre os quais Eusébio de Cesaréia, amigo de Constantino. Marchava Constantino com seu exército depois do meio dia, quando de súbito viu descer do céu, do lado do sol, uma cruz luminosa que trazia esta inscrição: In hoc signo vinces. – Com este sinal vencerás. – Ele e seu exército foram testemunhas daquele milagroso fenômeno que deixou a todos admirados. Constantino não compreendia o que significava aquela cruz, e por isso Deus dignou­se manifestá-lo com uma revelação. Apareceu-lhe durante a noite Jesus Cristo trazendo na mão uma cruz igual a que tinha visto no dia precedente e ordenou-lhe que fizesse um estandarte semelhante, o qual lhe serviria de segura defesa contra seus inimigos em tempo de guerra. Constantino executou logo o que lhe tinha sido ordenado e deu ao estandarte o nome de lábaro.

Lábaro – Segundo Eusébio, consistia o lábaro em uma longa lança revestida de ouro, atravessada em certa altura por um pedaço de madeira, formando todo ele uma cruz. Da parte superior, mais acima dos braços pendia uma coroa resplandecente de ouro e ricas jóias e no centro ressaltava o monograma de Cristo, formado pelas duas letras gregas iniciais dessa palavra. De cada braço da cruz pendia um pano de purpura, bordado a ouro e pedras preciosas, e na parte superior, debaixo da coroa e do monograma, achava-se em ouro o busto de Constantino e seus dois filhos. Este trofeu da cruz foi o estandarte imperial. Deste modo os Romanos, que até então tinham usado um estandarte particular chamado Labarum, coberto de imagens de falsas divindades, tomaram por bandeira a cruz de Jesus Cristo. Constantino substituindo nele as imagens do paganismo pelo nome de Jesus Cristo apartou seus soldados de um culto ímpio, e os levou, sem esforços, a adorar o verdadeiro Deus. Este precioso estandarte foi confiado a um corpo de cinquenta guardas, escolhidos entre os soldados mais religiosos e valentes, que deviam rodeá-lo, defendê-lo e carregá-lo alternadamente sobre seus ombros. 

Entrada de Constantino em Roma – Contando com a proteção do Céu, dirigiu-se Constantino animosamente a frente de seu exército para o lugar onde estavam acampadas as tropas de Maxêncio. Seus soldados, ainda que inferiores em número, achavam-se impacientes para combater, pois contavam desde já com a vitória. Já tinha havido um encontro em Suza, porém deu-se outra batalha mais importante na vasta planície que se estende entre Rivoli e Turim deixando ali dono do campo o piedoso imperador. Com muito pouco trabalho apoderou-se de Milão, Brescia e outras cidades, que se entregaram a sua clemência, de modo que sem graves contratempos pode chegar até as portas de Roma. Maxêncio enviou então contra ele seu exército, que se achava do outro lado do Tevere, e fez construir sobre este rio uma ponte levadiça de madeira, dividida em duas partes, que facilmente se podiam unir e segurar por meio de grossas cordas, para que tirando-as se dividissem e Constantino e seu exército caissem no rio e se afogassem, caso tentassem passar para o outro lado. Querendo além disso que os deuses lhe fossem propícios, lhes oferecia em sacrifício mulheres e crianças, e enquanto corria ainda o sangue das vítimas, o bárbaro príncipe procurava nas entranhas daqueles infelizes o preságio de seu destino. Ao contrário Constantino preparou seus soldados com a oração e, pondo sua confiança em Deus, iniciou o assalto cheio de valor.Combateu-se com denodo de parte a parte; porém no fim se declarou a vitória em favor de Constantino. Ao ver Maxêncio mortos e dispersos os seus melhores oficiais, tratou de salvar­se fugindo; porém ao passar a ponte que ele mesmo fizera para prejudicar o seu inimigo, pelo ímpeto e multidão dos fugitivos romperam-se as amarras, e caindo com seu cavalo no Tevere se afogou. No outro dia foi encontrado seu cadáver no lodo. Os romanos, vendo-se já livres daquele tirano, receberam com alegria ao vencedor. Constantino ao entrar na cidade, deu graças a Deus pela vitória que tinha obtido, e mandou que a cruz, penhor da proteção do céu, atravessasse a cidade e fosse arvorada no Capitólio para anunciar ao mundo o triunfo do Deus crucificado. Com a cruz adornou também o seu diadema, e proibiu que dai em diante servisse de suplício aos malfeitores. Ano 312. 

São Melquíades – O Pontífice São Melquíades teve a gloriosa sorte de receber em Roma o grande Constantino. Dizemos gloriosa, porque foi este, sem dúvida alguma, um acontecimento da maior importância, pois os imperadores romanos, tendo conhecido desde esse tempo a santidade do cristianismo começaram a protegê-lo e a professá-lo publicamente. Senhor de Roma, Constantino chamou do desterro os cristãos, pos em liberdade os presos e restituiu seus bens aos que deles tinham sido despojados. O romano pontífice, perseguido até então, foi dai em diante objeto de reverência para o imperador cristão que, venerando nele o Deus a quem se reconhecia devedor de suas vitórias e do império, quis provê-lo de tudo o que era necessário para seu decoro. O palácio e a basílica de Latrão – O palácio de Latrão foi a primeira habitação que Constantino deu aos sumos Pontífices. Este edificio é muito célebre nos fatos da Santa Sé, e se conserva ainda com grande esplendor. Deve o nome de Latrão a Pláucio Laterano, consul de Roma nos tempos de Nero, que o mandou edificar sobre o monte Celio. Esteve em poder dos imperadores até Constantino que fixara sua morada nele; porém, querendo este religioso monarca oferecer aos Papas uma morada digna do Vigário de Jesus Cristo deu a São Melquíades uma parte daquele grande edifício. Mais tarde fez inteira doação dele aos Papas, e mandou edificar a seu lado a grande basílica de São Salvador de Latrão, chamada mais tarde São João, a qual costuma-se chamar mãe e cabeça das igrejas de Roma e de todo o mundo: Ecclesiarum urbis et orbis mater et caput. Cisma dos donatistas – No palácio de Latrão celebraram-se muitos concílios, sendo o primeiro o que se reuniu no pontificado de São Melquíades, contra os donatistas, assim chamados do nome de Donato, um dos seus principais fatores. Nasceu esta seita no ano 311, em tempo de Ceciliano, bispo de Cartago. Distinguia-se este por ciência e virtude; porém o acusaram de ter sido sagrado bispo de modo irregular e nulo; ja porque Felix, bispo de Aptunga, que o tinha sagrado, era considerado traidor, ou réu de ter entregue os livros sagrados aos perseguidores, já porque no ato de sua sagraçao não se achava presente a número de bispos, que segundo sua opinião, se requeria. Depois de muitas contendas, os adversários de Ceciliano elegeram outro bispo, chamado Majorino, porém todos os bons católicos se negaram a comungar com o novo bispo intruso, e ficaram fiéis e submissos ao legítimo bispo Ceciliano. Dai nasceu o cisma, isto é, a separação; achavam-se de um lado os católicos com Ceciliano seu chefe, e do outro lado as cismaticos tendo por cabeça Donato com o bispo intruso, Majorino. A desordem chegou a tal ponto, que os Donatistas resolveram apelar para Constantino que se achava então nas Gálias. Este, para formar idéia clara do assunto, pediu ao governador da África uma relação detalhada do assunto, e reuniu em seguida três bispos para conhecer o estado das coisas. Mas quando viu que se tratava de religião, respondeu que essa não era de sua competência, e que como secular não podia dar seu juízo em relação aos ministros daquele Deus, por quem dentro em pouco devia ser julgado. Concluiu dizendo que tantos os acusadores como os acusados escolhessem cada um dez bispos e fossem a Roma com Ceciliano e Majorino, que ali se discutiria tudo com o Papa São Melquíades; em juízo solene se examinaria e julgaria definitivamente a questao. 

Carta de Constantino a São Melquíades – Enquanto em cumprimento das ordens de Constantino, os convidados da África se preparavam para ir a Roma, o imperador escreveu uma carta a São Melquíades concebida nestes termos: “por sucessivas cartas que me tem enviado de África meu proconsul Anolino, chegou a meu conhecimento que Ceciliano, bispo de Cartago, é acusado, por seus colegas, de muitos delitos. Pelo que creio conveniente que Ceciliano vá a Roma com dez bispos dos que o acusaram e outros dez que ele julgue necessários para esclarecer e defender sua causa. Além disso, para que possais estar plenamente informado do assunto em questão vos envio cópia das cartas que Anolino me mandou da África contra os colegas de Ceciliano; e as envio com a minha firma para tirar todo o perigo de que possam ser adulteradas. Quando as tiverdes lido com atenção e com o tino que vos distinguem, certamente sabereis como e com que modificações se deverá resolver esta questao. Quanto a mim, vos asseguro que professo tanta estima e respeito para com a Igreja católica, que desejarla que nunca surgissem divisões entre vós, nem aparecessem princípios de discórdias. A suma majestade do Soberano Senhor a vós e a vossos honrados ministros conserve por muitos anos. (Euseb. 1. 10, 15). Ao receber esta carta, São Melquíades se esmerou em preparar todo o necessário para reunir o concílio; e para que tudo se discutisse profundamente e se sentenciasse por juízes competentes além dos três bispos que mandou Constantino das Gálias, chamou a Roma outros quinze bispos da Italia. 

Concílio de Latrão – Este imponente concílio, que foi o primeiro que se efetuou na basílica de Latrão, começou suas sessões a 2 de Outubro do ano 314. Depois de longa discussão, confessou Donato que tinha renovado a sagrada ordenação a alguns que tinham caido em tempo de perseguição, coisas em todo tempo condenadas pela Igreja; porque é dogma da fé que o valor destes sacramentos não depende da bondade daquele que os confere, e que o caráter que eles imprimem não se tira jamais, Ao chegar a causa de Ceciliano, diz Optato de Mileto, interrogaram-se as testemunhas que Donato havia trazido, e estas confessaram que nada tinham de dizer contra Ceciliano. São Melquíades depois de ter ouvido todas as opiniões, levantou-se e pronunciou a seguinte sentença: “Constando claramente que Ceciliano não é culpado de pecado algum, nem mesmo segundo a opiniao dos que Donato trouxe para acusá-lo, e que este tão pouco pode convencê-lo de culpa alguma, julgo que deve ser reconduzido a sua diocese e reintegrado em todos os seus direitos.” Morte de São Melquíades – São Melquíades não sobreviveu senão três meses a celebração do Concílio de Latrão. O mártirológio romano falando dele diz: “Teve muito que padecer durante a perseguição de Maximiano e depois da volta da paz à sua Igreja dormiu tranquilamente no Senhor.”
CAPÍTULO II 
São Brás, bispo de Sebaste – Basílica de São Pedro no Vaticano – Ario e sua doutrina – Concílio de Nicéia. – Os arianos e São Atanásio – Morte de Ario – Invenção da Cruz – Morte de Constantino. 

São Brás, bispo de Sebaste – Após a morte de São Melquíades foi eleito São Silvestre romano de nascimento, para ocupar o lugar de São Pedro, como pastor da Igreja universal. Coube-lhe a sorte de tomar o governo da Igreja enquanto era protegida por Constantino; porém também teve a dor de ver perseguídos os cristãos pelo imperador Licinio que reinava no Oriente. Este tinha prometido a Constantino não os perseguir; porém faltou a sua palavra. A perseguição fez-se sentir especialmente em Sebaste, cidade cuja sede episcopal achava­se ocupada por São Brás, varão esclarecido por suas virtudes e milagres. Achava-se proximo ao martírio, quando se apresentou uma mãe aflita que pos a seus pés o filho único, próximo a morte, sufocado por ter-se-lhe atravessado na garganta uma espinha de peixe. Brás enternecido fez breve oração, e o menino ficou logo livre de todo tormento e perigo. Deste milagre se originou a devoção que os fiéis tem a São Brás contra males da garganta, como também a benção que estes invocam no dia de sua festa. Vendo o governador da cidade que o santo de nenhum modo queria sacrificar aos ídolos, ordenou que fosse atirado ao mar. Brás fez o sinal da cruz e começou a caminhar por sobre as águas sem submergir; sentou-se logo sobre elas e convidou aos infiéis que fizessem o mesmo, se acreditavam que seus deuses tinham algum poder. Temerários houve que tentaram fazê-lo; porém submergiram no mesmo instante. Depois destes claros sinais de constância e santidade Brás voltou a terra onde o governador, fê-lo decapitar no ano 315. 

Basílica de São Pedro no Vaticano – Constantino com o fim de dar maior esplendor ao cristianismo, erigiu muitas igrejas, entre as quais sobressaem a de São João de Latrão a de São Paulo fora dos muros de Roma, e a Basílica de São Pedro no Vaticano chamada assim porque foi edificada aos pés da colina desse nome. Ainda que sempre tida em grande veneração as relíquias do Príncipe dos Apóstolos, ali guardadas em um oratório secreto, não obstante durante os três primeiros séculos não se lhes pode tributar a honra que mereciam erigindo-se-lhes uma Igreja pública; porém apenas cessaram as perseguições, o túmulo de São Pedro foi o santuário do mundo cristão. Por isto o próprio imperador, para dar um testemunho público de honra ao primeiro vigário de Jesus Cristo, projetou erigir-lhe uma Igreja, conhecida sob o nome de Basílica Constantiniana. De comum acordo com São Silvestre, estabeleceu que esta encerrasse em seu interior o pequeno templo edificado por São Anacleto sobre essas relíquias o dia em que se deu princípio àquela santa obra, despiu-se Constantino do diadema imperial e das demais insígnias reais, e depois de ter-se prostrado em terra, e feito uma humilde oração, tomou uma enxada e cavou no lugar onde deviam assentar os alicerces da nova Basílica, e encheu doze canastras com a terra que se tinha extraído, as quais levou sobre seus ombros em honra dos doze Apóstolos. Desenterrou-se então o corpo de São Pedro e, na presença dos fiéis e do clero, foi colocado por São Silvestre em uma grande caixa de prata fechada numa outra de bronze dourado que se achava fixa no chão.  A urna que guardava o sagrado depósito tinha cinco pés de altura, cinco de largura e cinco de comprimento. No centro da tampa que a cobria, pos-se uma cruz de ouro de cento e cinquenta libras de peso que trazia gravados os nomes de Santa Helena e de seu filho Constantino. Terminado este majestoso edifício e preparada a crípta ou aposento subterrâneo, adornado de ouro e pedras preciosas, e rodeado de grande quantidade de lâmpadas, colocou-se nele o corpo de São Pedro, fechado na dita urna. São Silvestre  convidou para esta sonidade muitos bispos e fiéis, e para excitá-los abriu os tesouros da Igreja e concedeu muitas indulgências. Foi extraordinário o concurso, e aquela função serviu de exemplo  para a consagração das igrejas cristãs de então e dos séculos vindouros. Este acontecimento deu-se aos 18 de novembro do ano 324. A urna de São Pedro fechada desta maneira, segundo parece, não se tornou a abrir. O sepulcro deste grande Apóstolo sempre foi sobremaneira venerado por todos os cristãos 

Ario sua doutrina – Nosso divino Salvador nos deixou dlto no Evangelho, que sua Igreja sempre seria perseguida,  e que o inferno poria em campo todas as suas más artes para destruí-la, nunca, porém, poderia prevalecer contra ela. Os três primeiros séculos foram tempos de perseguições, de sangue e de estragos; mas a fé de Jesus Cristo passou glorriosa e triunfante por entre esses desastres. À perseguição seguiu-se o triunfo e a paz, mas assim que pode respirar a Igreja, ao cessarem as perseguições, acometeramna ferozmente a heresia e o cisma, especialmente por meio de um sacerdote de Alexandria chamado Ario. Era Ario homem ambicioso que se achva disposto a cometer qualquer crime para satisfazer sua vaidade. Teve o atrevimento de pregar contra a divindade de Jesus Cristo afirmando que o Filho de Deus não é igual ao Pai, mas sim criatura sua. Esta doutrina foi desprezada no mesmo instante com o horror que merecia, ouvindo-se reprovar em todas as partes essas impiedades e blasfemias. Bispos e doutores se levantaram contra Ario com a voz e com escritos; encontrou não obstante partidários enganados por sua hipocrisia, e conseguiu perturbar a Igreja em todas as partes 

Concílio de Nicéia – Conhecendo o imperador os progressos da nova heresia, concordou com o Papa São Silvestre, em opor-se a ela, convocando um Concílio Ecumênico, isto e, uma renião geral dos bispos. Nesse interim ordenou a todos os governadores de províncias que os provissem de todo o necessário para a viagem. o Pontífice consentiu de born grado e resolveu que o Concílio se reunisse em Nicéia, cidade principal de Bitínia, chamada hoje Isnik, na Anatólia. Abriu-se o Concílio no ano 325 e achavam-se presentes 318 bispos. O Papa, não podendo ir pessoalmente, mandou para o representar a Ósio, bispo de Córdova, e dois sacerdotes romanos chamados Vito e Vicente. Eram, pois, eles os legados do Papa, que deviam presidir em seu nome ao Concílio. foi uma reunião imponente, nunca vista e impossível de se descrever, parte dos prelados que a compunham distinguia-se já por doutrina, santidade e milagres, e muitos deles traziam as cica­trizes dos tormentos que tinham sofrido na última perseguição. No dia em que devia inaugurar o Concílio, reuniram-se todos os bispos em uma grande sala. Constantino, como sinal de respeito aos que se achavam presentes, quis entrar por último, e não quis tomar assento até que o tivessem feito os demais.Tomou parte no Concílio, não como juiz, senão como protetor dos bispos e para impeder que os hereges causassem turbulências.Ario, que também tinha sido admitido atreveu-se a sustentar jactanciosamente sua blasfêmia em presença do concílio. Horrorizaram-se os Padres, e com argumentos tirados dos Livros Sagrados e da Tradição provaram e definiram que Jesus Cristo é igual ao Pai e verdadeiro Deus, e que tem a mesma substância e a mesma natureza que o Pai. Para exprimir este dogma, empregaram a palavra “consubstancial”. Ósio como presidente do concílio e legado do Vigário de Jesus Cristo, compos uma profissão de fé conhecida sob o nome de “Símbolo de Nicéia”Os bispos pronunciaram anátema contra Ario, e o imperador apoiou o juízo dogmático da Igreja com a força do braço secular, desterrando o hereges e seus partidários. Tal foi a conclusão desta célebre reunião, cuja memória sempre será venerada pelos católicos, por ter constituído o primeiro Concílio Geral da Igreja. 

Os arianos e São Atanásio – Os arianos que tinham sido condenados no Concílio de Nicéia, para não serem desterrados, fingiram aceitar a decisão dos Padres, ao passo que trabalhavam secretamente contra os católicos. São Atanásio bispo de Alexandria foi seu mais formidável adversário e a coluna que Deus pos para que servisse de dique contra aqueles ímpios blasfemos de seu Filho. Nasceu em Alexandrla  no Egito, e ainda muito jovem, apenas diácono, tomou parte no Concílio de Nicéia onde deu visíveis sinais de santidade, zelo e profunda doutrina. Morto o bispo São Alexandre, foi eleito com aplauso universal para ocupar seu posto. Tendo ele reprimido a irnpiedade de Ario, de tal modo concitou contra si o ódio de todos os arianos, que desde então nunca mais deixaram de lhe armar insídias. E como vissem que saiam baldados todos os esforços, dirigiram contra ele a arma costumada dos malvados, a calúnia. Em conciliábulo reunido em Tiro, os arianos apresentaram a Santo Atanásio, que se achava presente, a mão de um morto, dizendo-lhe: “Eis aqui o que te condena. Conheces esta mão? É a mão daquele santo varão chamado Arsênio, a quem tu mandaste dar a morte.” Atanásio ficou algum tempo em silêncio, e dirigindo-se em seguida à assembléia, disse: “Recorda algum de vós as feições de Arsênio?” Muitos responderam afirmativamente. Então Atanásio fez um sinal a Arsênio, que tinha feito ir ali para provar a sua inocência, e mandou-lhe que, deixando o manto em que estava envolto, se adiantasse e mostrasse que estava vivo, e que possuia ambas as mâos. Em vista disto, aqueles ímpios caluniadores se cobriram de vergonha, longe, porém, de se apaziguarem ante justificação tão evidente, se enfureceram ainda mais e, acrescentando calúnia a calúnia, obrigaram ao imperador a tirar Atanásio de sua sede e à mão armada por outro em seu lugar. O santo prelado viu-se obrigado a salvar sua vida passando muitos anos em penoso desterro. Pode, é verdade, voltar de vez em quando a Alexandria, porém teve de retirar-se novamente dali pela perseguição dos arianos: e para não cair em suas mãos viu-se forçado a ficar escondido cinco anos em uma cisterna enxuta, e outros quatro meses no sepulcro de seu pai. Contudo não deixou por isto de refutar e combater por meio de cartas, livros e todos os meios a seu alcance, a esses inimigos de Jesus Cristo; até que, voltando à sua sede, concluiu em paz sua vida no ano 373, tendo sido bispo durante 46 anos. 

Morte de Ario – Ario, depois de ter causado males gravíssimos à Igreja, desejando abrir-lhe chagas  mais profundas ainda, fingiu emendar-se: para isso se apresentou ao imperador, e com juramento lhe assegurou que acreditava em tudo o que ensinava a Igreja Católica. Receando Constantino algum engano disse-lhe: “se mentes, Deus vingará teu perjúrio, entretanto podes voltar a ocupar teu cargo!”. E deu ordens para que pudesse voltar ao exercício de seu ministério em Contantinopla. Os hereges seus sectários, estavam sobremaneira contentes de poder levar Ario a tomar posse daquela Igreja, donde tinha sido expulso; e para que a reintegraçao fosse mais solene estabeleceram que se realizaria no dommgo seguinte.Um povo imenso acompanhava o obstinado herege que sentado em um carro elegantemen te adornado, tratava de aumentar sua pompa espraiando-se em fastidiosos e arrogantes discursos; porém ali o esperava a divina vingança. Tendo chegado no meio de tanta glória, perto da Igreja onde devia dar-se a reintegraçao, apodera-se dele um repentino terror, empalidece e treme agitado por violentos remorsos. Acometido ao mesmo tempo de horríveis dores de ventre e laceração de intestinos, morreu desesperado em uma pública sentina, tendo caido com muito sangue uma parte de suas entranhas. Ano 336. 

lnvenção da santa Cruz – o imperador Constantino, reconhecendo-se devedor à Cruz de suas vitórias, desejava ardentemente dar mostras especiais de veneração àquela sobre qual dera sua vida o Salvador. Ardendo o coração de sua mãe santa Helena no mesmo desejo, posse de acordo com seu filho e com o romano Pontífice, e foi a Palestina em busca desse tesouro, apesar da avançada idade de oitenta anos. Era muito difícil encontrá-la, porque os pagãos tinham amontoado muita terra no lugar onde se achava o sepulcro e formado ali uma grande praça, erguendo no centro um templo a Venus; porém nada pode impedir que a piedosa princesa visse realizados seus desejos. Sabendo pelos anciãos de Jerusalém, que se chegasse a encontrar o sepulcro, encontrar-se-la também a Cruz, fez logo derrubar o templo pagão e dar começo às escavações. Depois de muito trabalho, desecobriu-se afinal a gruta do santo sepulcro, e a muito curta distância dele se acharam três cruzes, e em lugar separado encontrou­se também o letreiro que tinha sido posto na cruz do Salvador, com os cravos que tinharn perfurado suas mãos e seus pés. Mas, como se podia conhecer qual a verdadeira cruz? Helena, a conse­lho de Macário bispo de Jerusalem, mandou levar as três cruzes à casa de uma mulher que desde longo tempo se achava atacada por uma incurável enfermidade. Aproximaram sucessivamente as três cruzes, e ao mesmo tempo rogava-se ao Divino Salvador que fizesse conhecer qual delas tinha sido banhada com seu sangue. Estava presente a imperatriz, e toda a cidade esperava com ansiedade o sucesso. As duas primeiras cruzes não causuram nenhum efeito na enferma, porém assim que se aplicou a terceira, sentiu-se perfeitamente curada e se levantou no rnesrno instante. O historiador Sozomenos afirma que também sendo aplicada a um cadáver o ressuscitou logo, o que se acha confirmado por São Paulino.  Cheia de alegria a santa rnulher, desprendeu uma parte da verdadeira cruz para a enviar a seu filho, e encerrando o resto em uma caixa de prata, colocou-a nas rnãos do bispo Macário para que a depositasse na Igreja que Constantino tinha ordenado se levantasse no Santo Sepulcro. Helena não viveu muitos anos depois de sua viagem a Jerusalem e cheia de merecimentos perante Deus e os homens, morreu pouco tempo depois, sendo honrada pela Igreja como santa. A Igreja católica celebra todos os anos este prodigioso descobrimento no dia 3 de maio. 

Morte de Constantino – Quanto rnais miserável foi a morte dos perseguidores da Igreja, tanto mais consoladora foi a morte desse protetor da fé. Vendo Constantino os oficiais que choravam em derredor de seu leito de morte, disse-lhes: Eu vejo com olhos diferentes dos vossos a verdadeira felicidade; e, longe de afligir-me, folgo muito porque chegou para mim o momento de gozar dela. Deu-lhes as ordens necessárias para que se conservasse a paz no império, fez-lhes jurar nunca empreenderiam coisa alguma contra a Igreja, e com a paz dos justos morreu com 64 anos de Idade, 31 de reinado no ano 337 de nossa era. Antes de morrer dividira o império entre seus filhos Constâncio e Constante. Sua morte foi chorada por todos, e embora seja verdade, que se lhe imputam alguns delítos que cometeu levado pela cólera ou engano por falsas relações, o certo é que fez penitência deles e reparou seus escândalos vivendo vlrtuosa e exemplarmente. 
CAPÍTULO III
Concílio de Rimini – Santo Antão, monge – Vida monastica – Juliano apóstata – Persegue os cristãos – Sua morte.

Concílio de Rimini – Constâncio filho e sucessor de Constantino no Oriente, favoreceu desgraçadamente o arianismo, e para fazê-lo triunfar, reuniu um concílio em Rimini: porém todos os bispos, a uma voz, pronunciaram anátema contra os arianos. Não satisfazendo isto ao imperador, mandou um oficial seu ao concílio, o qual com promessas e ameaças induziu a maior parte dos bispos a subscrever uma fórmula de fé, na qual não se achava a palavra consubstancial. Conquanto essa fórmula não fosse herética, não exprimia, entretanto, com suficiência, a fé de Nicéia. Os aranos se jactaram muito com isso, como se com essa fórmula se tivesse adotado sua heresia, porém os bispos que a tinham firmado quando conheceram o sentido perverso que lhe davam os hereges se opuseram a ela, e professaram seu apego à fé de Nicéia. O Papa Libério unido aos blspos de todo o mundo, levantou a voz contra este escândalo, não servindo desta maneira nem a violência, nem a astúcia para obscurecer a fé católica. Ano 359. 

Santo Antão, mong– O primeiro e o mais célebre entre os solitários foi, como já se disse, São Paulo, porém a este não se considera como fundador da vida monástica, porque não teve muitos discípulos, nem deu uma regra fixa para este genero de vida cristã; por isso geralmente se venera Santo Antão o Egípcio como fundador do monaquismo. Observe-se que se chamavam monges ou solitários os religiosos que viviam separados um dos outros, e habitavam em celas ou cabanas e as vezes em cavernas, distantes umas das outras, reunindo-se somente em certas ocasiões para orar juntos, assistir aos divinos ofícios, e receber instruções e avisos, ao passo que chamavam­se cenobitas os religiosos que viviam juntos, e dormiam debaixo do mesmo teto. Só com o correr dos tempos, monge cenobita tiveram o mesmo significado. Nasceu Antão no ano 252, de pais virtuosos e nobres, e passou sua primeira juventude na piedade mais exemplar. Na idade de dezoito anos, entrando certo dia na Igreja em momento em que se lia este texto do Evangelho: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, depois vem e segue-me e terás um tesouro no céu” , tomando estas palavras como ditas para si, deliberou segui-las fielmente, e dando tudo o que possuia aos pobres, abandonou seus pais e amigos, e retirou-se as solidões da Tebáida. Ali deu principio a um método de vida o mais austero que se possa imaginar: servia-lhe de cama uma esteira ou a terra nua; alimentava-se uma vez por dia depois do sol posto, e sua comida consistia em escasso pão e água, servindo-lhe de vestimenta, um cilício e um manto de couro. Depois de muitos anos de vida muito austera, Deus lhe concedeu o dom de milagres, e isto lhe atraiu tal séquito de discípulos, que com grande assombro do mundo, povoaram imensos desertos que pareciam inabitáveis, formando-se várias comunidades em algumas das quais se achavam até mil e mais monges. Estes valentes cristãos animados por tal mestre, formavam um espetáculo não menos maravilhoso do que o dos mártires. Cheio de méritos e esclarecido pelos seus milagres, passou Antão a melhor vida no ano 357 aos 105 de idade. Sua vida foi escrita por Santo Atanásio.               

Vida monástica – A vida solitária ou monástica tinha por objeto observar a pobreza, a obediência, a castidade em seu grau mais perfeito, e fazer morrer totalmente o homem às coisas do corpo para fazê-lo viver só para as do céu. Para consegui-lo empregava-se quatro meios: o trabalho, o jejum, a solidão e a oração. O trabalho era muito penoso, e por isso ocasião contínua de áspera mortificação, consisti geralmente em fazer esteiras e cestos de junco, ou de palma, os quais vendiam dando quase todo seu fruto aos pobres. Não comiam senão uma vez no dia e o fazlatm ao do sol, e isso durante todo o ano exceto os dia de domingo e o tempo pascal. Seu alimento regularmente, compunha-se de ervas sem tempero algum, exceto o sal, e o azeite às vezes; uma ou outra vez também comiam tâmaras ou figos secos. Vida tão austera em vez de debilitar suas forças, as aumentava de tal modo que muitos deles chegavam a uma avançada e florida velhice. Todos sabemos que São Paulo morrreu aos 113 anos, São Antão viveu 105; São Macário de Nitra igualmente seu discípulo chegou aos 100 anos. Estes e outros exemplos de vigorosa velhice demonstram que a vida sóbria e temperante é fonte de saúde e conserva vigorosamente as faculdades mentais. Muitos deles reuniam-se duas vezes ao dia para rezarem em comum, rectando cada vez doze salmos, ao que seguia-se a leitura da História Sagrada; o resto do dia rezavam de per si, encerrados em uma cela. Outros, que v­viam muito separados, não acudiam a reunião senão aos domingos e dias festivos; os demais dias oravam a sós. Todos prestavam a seus superiores uma obediência ilimitada e perfeita, vendo Deus na pessoa deles; por isso reinava entre eles a mais admirável união, concórdia e caridade.  

Juliano Apóstata – Enfurecido Satanás pela queda da idolatria no império romano, tratou de voltar a ressuscitá-la por meio do imperador Juliano, chamado comumente apóstata porque abandonou a religião cristã em que se tinha educado, e pos em campo todos os meios a seu alcance para destrui-la. Era Juliano filho de um irmão do grande Constantino, e na morte de Constâncio como herdara ele todo o império, fez tudo o que pode para restabelecer o culto dos ídolos. Tendo predito Jesus Cristo que não ficaria pedra sobre pedra do templo de Jerusalem, e tendo os fatos, como vimos, correspondido plenamente as suas palavras, propos-se Juliano a desmenti-lo reedificando aquele templo célebre; porém a única coisa que conseguiu foi tirar a última pedra sem poder sequer lançar os alicerces. Logo que começou o edifício não se tinham ainda assentado as primeiras pedras, quando sobreveio um espantoso terremoto que as vomitou do seio da terra, e as lançou contra os operários, especialmente judeus. Muitos deles que tinham corrido para ali com frenético entusiasmo para ver se conseguiam reedificar seu antigo templo, morreram sepultados entre as ruínas, deixando outros gravemente feridos. Tornou-se a tentar mais de uma vez a temerária empresa, e não se abandonou até que turbilhões de vento espalharam a areia, o cal e os demais materiais. Mas o mais prodigioso e terrível a um tempo é que saiam dentre aquelas ruínas glóbulos de fogo que serpeando com a rapidez do relâmpago, deitavam por terra os trabalhadores e os arrastavam consumindo muitos até os ossos e carbonizando outros, até ehegavam a alcançar a alguns judeus que estavam muito longe e os sufocavam ou consumiam. Em vista de tão extraordinário milagre, não se atrevendo já ninguém aproximar-se daquele lugar, desistiu-se da empresa. Ano 363.

Perseguição de Juliano – Exasperado Juliano pelo mau êxito da reedificação do templo de Jerusalém, condensou todo o seu ódio contra os cristãos, aos quais teria querido aniquilar se possível lhe fosse. Com este fim ajudava os hereges e os cismátlcos, dando-lhes toda sorte de liberdades ao passo que despojava o clero de todos os seus bens e privilégios, dizendo em tom de zombaria, que não fazia mais do que fazê-los praticar a pobreza evangélica. Obrigava-os a pagar crescida soma para reparar os templos dos ídolos e não confiava cargos públicos aos cristãos nem permitia que eles se defendessem perante os tribunais. “Vossa religião, dizia-lhes, proibe os pleitos e as pendências. Proibiu finalmente aos cristãos que exercessem o ofício de mestres de escola ou de professores nas academias, dizendo que era inútil o estudo das ciências e das letras aos que tão somente devem crer sem raciocinar.

Morte de Juliano – Este genero de perseguição teria sido muito mais funesto para a Igreja do que a crueldade de Nero e de Diocleciano, se Deus não tivesse derrubado por terra os planos de Juliano com uma morte prematura. Tinha esse ido combater contra o rei da Pérsia com propósito de exterminar os cristãos assim que alcançasse a vitória; porém a mão poderosa do Senhor desbaratou os atrevidos planos do apostata, e quando ele contava já com a vitória, uma flexa, cuja procedência se ignorava, atravessou-lhe o coração. Ao fazer força para tira-la cortaram-se-lhe os dedos, e caiu desmaiado sobre seu cavalo.. Tlraram­no dentre a multidão para curar a ferida; porém tornando-se-lhe cada vez mais agudas as dores, dava gritos de desespero. Caindo em um paroxismo de raiva arrancava com a mão o sangue de sua ferida e atirando-o para o céu exclamava: “Venceste, Galileu… venceste, Galileu”, referindo-se com essas palavras a Jesus Cristo contra quem sempre tinha combatido. Obstinado na impiedade morreu no ano 365, aos 31 anos de idade. Com ele caiu para sempre a idolatria no império romano. Jesus Cristo conseguiu novo triunfo e a Igreja Católica nova e muito esplendida vitória.

CAPÍTULO IV
 
Santo Hilário – Santo Eusébio – Santo Ambrósio – Segundo Concílio Ecumênico os Macedonianos – São Gregório Nazianzeno – São Basílio Magno – São Dámaso – São Jerônimo. 

Santo Hilário – Contra os esforços que a heresia e a perseguição faziam em prejuízo da fé, suscitou Deus uma série de homens célebres pela santidade e doutrina, chamados comumente Doutores ou Mestres da Igreja. Estes pelo heroísmo de suas virtudes, pela profundidade de sua ciência e por zelo incansável, foram a salva-guarda do Evangelho em várias partes do mundo. Um destes bispos e doutores insígnes foi Santo Hilário de Poitiers, que com justiça se pode chama-lo apóstolo das Gálias, suscitado contra os arianos. Nascido de pais nobres, estes o instruíram em todos os ramos da literatura e das ciências e tanto aproveitou que ainda jovem, passava por um dos oradores mais eloquentes. Apenas conheceu a religião cristã, recebeu o batismo e começou a praticá-la com o exercício das mais sublimes virtudes. A extraordinária ciência e santidade que o adornavam foram motivo para que o nomeassem bispo de sua pátria; ele se opos quanto pode, e somente aceitou o honroso cargo quando conheceu ser essa a vontade de Deus. A nova dignidade não produziu nele senão maior entusiasmo pela glória de Deus. Não poupou esforços ou fadigas para dar-se todo a todos e ganhá-los todos a Jesus Cristo. Sua casa foi a casa dos pobres; para eles era tudo o que possuia. Pregava com tamanho fervor a palavra de Deus, que os gentios e até os próprios arianos, em grande número naquelas regiões, corriam estupefatos a ele para que os instruísse nas verdades católicas. o imperador Constâncio, grande protetor dos arianos, oprimia de mil modos os católicos, despojava-os de seus bens e os desterrava. Hilário, que se opos, qual forte muralha, a esse perseguidor, chamou sobre si suas iras; por isso foi tirado de sua sede e desterrado para as mais longinquas regiões do Oriente. Hilário aproveitou essa ocasião para escrever vários livros em defesa do Evangelho. o mais importante e o que traz o título de Tratado da Trindade, composto expressamente para refutar os arianos. Nele se estabelece como regra !nfAlivel a doutrina de São Pedro, e falando dele assim se exprime: “Oh! Feliz fundamento da Igreja e pedra digna de que sobre ela a Igreja seja edificada, para que quebre as portas do inferno e todos os vínculos da morte! ó bem-aventurado porteiro do paraíso, cuja sentença aqui na terra se transforma em juízo autorizado no céu; de modo que as coisas atadas ou desatadas sobre a terra recebem plena confirmação também no céu!”. Achou-se também Santo Hilário no conciliábulo de Selêucia, que se reuniu no ano 359, convocado, por alguns bispos orientais infeccionados de arianismo. No meio de tantos inimigos da verdade, ele continuou em seu propósito de provar a divindade de Jesus Cristo refutando ponto por ponto a seus adversários; porém indignado por suas blasfemias, abandonou aquele antro de Satanás e se apresentou ao imperador Constâncio, em Constantinopla, para lhe fazer patente o perigo em que se achava a fé ortodoxa, porém como o imperador era ariano e favorecia o concilábulo de Calcedonia, pediu Hilário permissão para disputar publicamente sobre a fé com seus adversários.    Os arianos receando ser confundidos publicamente pelo Santo, se recusaram a conferenciar com ele, dizendo que não queriam tratar com um perturbador da paz; e para sair do apuros, convenceram ao imperador que o fizesse voltar ao bispado de Poitiers. Sua entrada nas Gálias foi um verdadeiro triunfo, de todas as partes acorriam para festejá-lo, e o Senhor quis fazer mais ilustre sua volta, obrando milagres, como o de ressuscitar a um menino morto sem receber o batismo. Apenas gozou um momento de paz, se dedicou com o maior zelo a reparar a Igreja dos males que lhe tinham causado seus inimigos. também reuniu alguns Concílios, e tendo conseguido trazer para o caminho da verdade os bispos seduzidos pelos hereges, pode com sua cooperação desarraigar a heresia dos arianos, de quase toda a Gália. escreveu muitos outros livros cheios de erudição, livros que São Jerônimo encarece e declara isento de todo erro. Morreu no ano 269. 

Santo Eusébio – Santo Eusébio, bispo de Vercelli, foi o primeiro que reuniu no Ocidente os eclesiásticos da cidade, para viverem juntos na qualidade de religiosos, dando assim origem à instituição dos cônegos. Foi uma das principais salva-guardas da fé católica contra os arianos. Em um Concílio celebrado em Milão disputou com eles com tanta solidez de argumentação, que confundidos não sabendo que partido tomar, dirigiram-se ao imperador e conseguiram fazê-lo desterrar. O santo soube aproveitar o tempo de seu desterro para fortalecer os católicos do Oriente e Ocidente. Depois de ter sofrido fome, sede, açoites e outros ultrajes, tendo morrido o imperador Constâncio, permitiu­se-lhe voltar à sua diocese. A volta do magnanimo prelado, toda a Italia despiu-se das vestes de luto, lúgubres vestes mutavit, conforme a expressão de São Jerônimo, porque a volta de Santo Eusébio era o triunfo da verdade católica. Quis Deus dar­lhe o prêmio que mereciam tantos padecimentos e fadigas, permitindo que depois de governar em paz sua diocese por alguns anos, recebesse a coroa do martírio das mãos de alguns arianos, que lhe deram a morte apedrejando-o. Subiu ao céu no ano 370.Santo Ambrósio – Sem dúvida foi um dos bispos mais insígnes em doutrina e santidade, que floreceram na Igreja naqueles tempos. Achava-se presidindo em nome do imperador os negócios civis da Ligúria e da Emilia, porém como surgissem discórdias em Milão motivadas pela eleição do bispo, enviou-o o imperador para ali afim de apaziguar os animos. “Ide, disse-lhe aquele monarca, e regulai as coisas não como severo governador, mas com a caridade de bispo.” Ao chegar àquela cidade, entrou entre os amotinados e se esforçava em serenar os animos, quando um tenro menino que descansava nos braços da mãe, desprega a língua e grita: “Ambrósio nosso bispo; Ambrósio nosso bispo.” E tomando aquela voz como sinal da divina vontade, todos exclamaram: “Ambrósio é nosso bispo.” E assim, apesar de sua grande repugnância, com aplauso universal foi criado bispo de Milão no ano 374. Escreveu muitos livros, sermões e cartas em defesa da religião e em favor da virgindade, da qual fez os maiores elogios, fundando em sua diocese vários conventos de virgens. Para conhecer qual a verdadeira crença entre todas as que se chamam cristãs, dava Santo Ambrósio esta regra: “Onde esta Pedro (vivendo em seu sucessor), ai esta a Igreja de Jesus Cristo: Ubi Petrus, ibi Ecclesia.”  significando com isto que são verdadeiros cristãos somente os que estão unidos com o sumo Pontífice. Este insígne Doutor descansou em paz no ano 397.

Segundo Concílio Ecumênico e os Macedonianos – O segundo Concílio Ecumênico é o primeiro Constantinopolitano, chamado assim porque foi o primeiro Concílio Ecumênico celebrado em Constantinopla. Motivou este Concílio a heresia de Macedonio, que, à força de enredos, se tinha elevado a sé daquela capital. Os arianos atacavam a divindade do Verbo; Macedonio, a do Espírito Santo. Era então imperador Teodósio o Grande, e regia a Igreja São Dámaso. Este douto Pontífice vendo ameaçada a fé, convocou, de acordo com o piedoso monarca, um Concílio em Constantinopla, para que se combatessem os erros ali onde tinham nascido. O Concílio se reuniu no mês de maio do ano 384, e concorreram a ele 150 bispos orientais. Foram condenados os erros de Macedonio e se confirmou o Símbolo de Niceia, ao qual se acrescentaram estas palavras que dizem respeito a divindade do Espírito Santo: Creio no Espírito Santo, Senhor e vivificador… qual juntamente com a Pai com Filho adorado e glorificado, qual falou pelos profetas. Teodósio recebeu as decisões do Concílio como se fossem saídas da boca do próprio Deus e promulgou uma lei para que não fossem desprezadas. Ainda que não constasse esta reuniao senão de bispos orientais, bastou, sem dúvida, a aprovação do Papa para dar-lhe toda autoridade de um Concílio Ecumênico, de maneira que seus decretos constituem uma regra infalível de fé. São Basílio Magno – São Basílio Magno nasceu no ano 319 em Cesaréia da Capadócia, de pais ilustres, nos quais a piedade pode se dizer foi hereditária. Seu pai também chamado Basílio (santo), sua mãe santa Emélia, e especialmente sua avó santa Macrina se encarregaram de educá-lo na ciência e na piedade. Jovem ainda, mandaram-no a um deserto; porém o bispo de Nazianzo prevendo que, por suas virtudes e profunda ciência, chegaria a ser um luminar da santa Igreja, o consagrou sacerdote apesar da sua repugnância. Tendo-se depois ocupado com grande zelo em pregar contra os arianos, trouxe muitos deles à fé. Manifestando-se sempre cada vez mais nele por meio dessas pregações, a santidade e a ciência, foi criado bispo ainda que tivesse fugido sempre dessa dignidade. Chamado à se episcopal de Constantinopla, empregou sua palavra e escritos em combater a heresia dos Macedonianos, e conseguiu reconduzir toda a cidade à fé católica. Isto provocou a inveja de muitos; então ele por amor à paz, renunciou ao bispado e se retirou para sua terra natal. Ali, em companhia de alguns solitádos, levou uma vida angélica. As mortificações, os jejuns, as vigilias, as orações, o silêncio e a solidão ocupavam todos os momentos de sua vida. Escreveu sobre muitos assuntos em prosa e em verso com admirável piedade e com tal elegância, que deixou muito aquém todos os seus contemporâneos. Finalmente, na idade de 60 anos, cheio de méritos, foi gozar a glória celeste. Ano 390.

São Dámaso – São Dámaso, espanhol, pontífice insígne por doutrina, prudência e virtude, tinha sucedido ao Papa Libério no ano 366. Deve­se a ele a convocação de segundo Concílio Ecumênico. Edificou várias igrejas; entre elas a de São Lourenço em Roma; mandou que no fim dos salmos se acrescentasse o Gloria Patri; escreveu muitas obras em prosa e verso, e chamou a Roma São Jerônimo para que lhe servisse de secretário nas cartas latinas. Por ordem de São Dámaso, o grande doutor traduziu do hebráico para o latim os livros sagrados do Antigo Testamento, e corrigiu a tradução latina que já existia dos livros do Novo Testamento, fazendo-a mais conforme e fiel com o texto grego. São Dámaso que o tinha estimulado com palavras e exemplos a fazer estas obras maravilhosas em favor da Igreja, morreu octogenário no ano 384, depois de dezoito anos de glorioso pontificado. 

São Jerônimo – São Jerônimo nasceu na cidade de Estridon, na Dalmácia. Estudou em Roma, e depois de ter estado nas Gálias, foi a Constantinopla por-se sob a direção de São Gregório Na­zianzeno; dali passou ao deserto de Cálcida na Siria, onde levou uma vida muito austera, inteiramente dedicado ao estudo e à oração. Muito versado no grego, no latim e no hebreu, foi suscitado por Deus para interpretar e explicar as divinas Escrituras, e por isto o venera a Igreja de um modo especial, dando-lhe o título de Doutor Máximo. Sua tradução foi adotada pela Igreja, e é a mesma que, aprovada pelo Concílio de Trento, corre ainda em mãos dos Cristãos sob o nome de Vulgata. Quanto aos salmos, se usou sempre e ainda se continua usando a tradução latina do tempo dos Apostólos. Os hereges, tendo conhecido a profundidade de seu engenho, não pouparam meios para ganhá-lo; ele, porém, para certificar-se de não cair em erro, consultava com frequência a Santa Sé e com este fim escreveu diferentes cartas a São Dámaso. Entre estas é particularmente memorável aquela em que o santo doutor, cansado já pelo tédio que the causavam as dlferentes facções que dividiam a igreja da Antioquia, dizia: “Querendo me certificar de estar com Jesus Cristo, me uno a comunhão de Vossa Santidade, isto é, a cadeira de São Pedro; Eu sei que a Igreja está edificada sobre este fundamento; todo aquele que come do cordeiro fora desta casa é profano; todos os que não se refugiaram na arca de Noé, pereceram no dilúvio. Combato qualquer outra doutrina, porque quem não recolhe convosco, espalha, isto é, quem não está com Jesus Cristo está com o anti-Cristo. (Ep. 14 ad Dam.). Empregou toda a vida em compor livros para instruir os fiéis e combater os hereges; de sorte que, de todas as partes recorriam ,a ele nas questões mais difíceis. Escrevia com tal veemência contra os hereges que suas sentenças pareciam raios. Para evitar as insídias de seus inimigos e para preparar-se melhor para a morte, saiu de Roma e foi a Belem onde Santa Paula, dama romana, havia construído dois conventos; um para homens e outro para mulheres. Ali consumido pela penitência e trabalhos, descansou no Senhor na idade de oitenta e nove anos. Ano 420.
CAPÍTULO V
Donatistas e Santo Agostinho – Pelágio e seus erros – Morte de Santo Agostinho – Nestório e o terceiro Concílio Ecumênico – Fim de Nestório – Êutiques e o quarto Concílio Ecumênico. 

Donatistas Santo Agostinho – Os Donatistas que tinham sido condenados solenemente no Concílio de Latrão, no pontificado de São Melquíades, sossegaram por algum tempo; porém pouco depois voltaram mais furiosos que antes. Apoderaram-se a mão armada das igrejas, saquearam e destruiram os altares e os demais objetos sagrados, e sua impiedade chegou até batizarem de novo, e à força a  os que ja tinham sido batizados, tratando cruelmente os que não queriam consentir nisso. A Providência, porém, suscitou, na pessoa de santo Agostinho, um bispo esclarecido por sua santidade e doutrina, que devia vencê-los juntamente com outros hereges. Nasceu em Tagaste cidade da África no ano 354, e durante a juventude levou uma vida desregrada. Deus, porém, que o chamava para grandes coisas, ouviu as orações de sua mãe Santa Monica, e o atraiu a si de um modo extraordinário. Tendo ido a Milão, chamado p~eo imperador para dar lições públicas de eloquência, ia com frequencia, por mera curiosidade, Quvir Santo Ambrósio, que tinha fama de grande orador. Enquanto a graça divina ia abrindo caminho em seu coração um fato maravilhoso o resolveu a fazer-se definitivamente cristão. Passeava um dia em um jardim, quando ouviu uma voz que vinha do céu e que dizia: “Agostinho, Agostinho, toma e lê” Admirado por estas palavras dirige-se maquinalmente para uma mesa, toma o primeiro livro que lhe cai à mão, abre-o e encontra aquelas palavras de São Paulo, que dizem: “Nem os impudicos, nem os gulosos alcançarão o Reino dos Céus.” Desde esse momento mudou-se o coração de Agostinho, e convencido da vaidade das grandezas humanas, resolveu fazer-se cristão. Na idade de trinta anos recebeu em Milão o batismo das mãos de santo Ambrósio. Quando voltou a África se dedicou a oração e ao estudo, e progrediu tanto na ciência e na virtude, que foi ordenado sacerdote e depois bispo de Hipona. Trabalhou sem descanso para fazer voltar os donatistas para o seio da Igreja, e conseguiu converter grande número deles. Mas os que permaneceram no erro, mais enfurecidos que nunca, armaram insídias contra ele, e teria sido vítima de sua perfidia, se o não tivesse salvo uma especial proteção do céu. Os bispos católicos, aflitos por esses males, propuseram aos hereges uma conferência pública. Por isso todos os bispos da África, donatistas ou católicos, receberam a ordem de ir a Cartago. Para abreviar as discussões e deixar livre o campo a todos para que expusessem suas razões, escolheram sete bispos de ambas as partes, para que conferenciassem entre si em nome de todos. Santo Agostinho foi um dos eleitos para defender a causa dos católicos. Depois de estar inteirado da questão, apoiado na autoridade dos livros santos, provou à evidência que o bispo legítimo de Cartago era Ceciliano, que era válida sua ordenação e feita conforme todas as leis da Igreja, que por conseguinte não havia motivo algum para romper a unidade da Igreja, e que não restava outro recurso aos donatistas, para entrar no caminho da salvação, que o de voltar para o seio da Igreja Católlca. Os bispos cismaticos nada tiveram a opor, e os povos que tinham confundido ate então o erro com a verdade, voltaram em grande parte, depois desta reunião, ao seio da Igreja. Ano 411. 

Pelágio e seus erros – Já se tinham extinto quase completamente os donatistas, quando apareceu a heresia de Pelágio. Nascido na Gra­Bretanha de pais obscuros, abraçou hipocritamente a vida monástica na qualidade de leigo. Indo a Roma pode grangear a estima de algumas pessoas honradas. Seu erro principal consistia em negar o pecado original e a necessidade da graça para fazer obras dignas de recompensa. Esta novidade foi incontinente vigorosamente refutada por Santo Agostinho, a cujas instâncias se convocou um Concílio em Cartago, no qual se condenou a Pelágio, e seus sectários. Os bispos desse Concílio escreveram ao romano Pontífice Inocêncio I pedindo-lhe que se dignasse confirmar a sentença que eles tinham dado com a autoridade da Sé Apostólica o Papa lhes respondeu benignamente, elogiando-os porque tinham seguido a prática observada sempre e em todas as partes, isto é, não considerar por definida coisa alguma, ainda que se tratasse das províncias mais longinquas, antes de ter sido enviada a Santa Sé… Concluia confirmando com um decreto a sentença que estes tinham dado, excomungando os bispos pelagianos. Ano 417.  Os pelagianos, obstinando-se no erro foram condenados por outro Concílio, cujas atas igualmente se enviaram ao Papa para que as confirmasse, o qual assim o fez. Depois deste decreto, Santo Agostinho dava a causa por terminada e dizia: “Relativamente a isto, já enviamos dois concílios a Sé Apostólica: esta respondeu; está pois concluida a causa; queira Deus que também se acabe o erro”.  Não se cumpriu o desejo de Santo Agostinho. Pelágio e seus partidários tiraram a máscara e apelaram para um Concílio Geral; porém Santo Agostinho continuava afirmando, que para condenar um erro não era de absoluta necessidade um Concílioo Ecumênico, pois bastava a sentença dos concílios particulares, confirmado pelo Sumo Pontífice. Por isso exprobrava energicamente aospelagianos, que, por não terem conseguido infeccionar a Igreja com a pestilência de sua heresia, queriam ao menos perturbá-la, obrigando a que se reunissem os bispos em Concílio Geral. Deste modo foram rechassados os hereges; Pelágio, porém, obstinado sempre em seu erro, andou errante por vários paises, até que sem se saber onde, nem como, desapareceu no ano 420. 

Morte de Santo Agostinho – Santo Agostinho não foi somente martelo dos donatistas e dos pelagianos, senão também dos hereges maniqueus. Esforçavam-se estes, naquele tempo, em corromper a Igreja. O Santo Doutor enquanto viveu, combateu-os vigorosamente com sua palavra e com escritos. Finalmente depois de ter consumido sua vida no cumprimento de seu sagrado ministério, na austelidade e nas penitências, chegou ao termo de seus dias em um tempo em que o mundo se achava muito agitado pelos transtornos políticos e religiosos.  Os Vândalos, depois de terem invadido e entregue a sangue e fogo a maior parte da África, sitiaram estreitamente a mesma cidade de Hipona. Reflexionando Santo Agostinho nos males que aguardavam as almas que lhe foram confiadas, se caisse a cidade em mãos dos bárbaros, pediu a Deus que a livrasse daquele sitio, ou que desse ao menos a seus cidadãos forças suficientes para suportar com paciência cristã tão grande flagelo e suas tristes consequências, aceitando sua própria vida em expiação de seus pecados e dos do povo. Deus o ouviu e dali a pouco apoderou-se dele grave enfermidade. Este grande varão, ao aproximar-se de seus últimos momentos, sentia profundo pesar pelos anos que tinha vivido ofendendo a Deus. “Tenho-Vos conhecido demasiado tarde, Ó meu Deus, exclamava, demasiado tarde comecei a amar-vos, ó bondade suma de meu Deus.” Mandou copiar. e colocar diante de si, na parede, os salmos penitenciais, e os lia muitas vezes na sua cama banhado em lágrimas; e para poder rezar e chorar seus pecados com maior liberdade durante os últimos dez dias pediu aos bispos, sacerdotes e aos demais amigos que se achavam presentes, que o deixassem só em seu quarto, e que ninguém entrasse nele senão para levar-lhe o alimento ou os médicos para visitá-lo. No último dia não podendo já ler nem rezar, chamou a seus amigos para que rezassem em voz alta ao redor de seu leito; repetia Agostinho as orações, e quando cessaram os lábios de rezar, sua alma já se achava no seio do Criador, gozando daquela felicidade, para cuja conquista havia empregado a maior parte da vida. Morreu aos 28 de agosto de 430 na idade de setenta e seis anos, tendo empregado quarenta no serviço da Igreja, primeiro como sacerdote e depois como Bispo. Com razão se chama luminar fulgentíssimo da Igreja, modelo dos teólogos, mestre de caridade, especial defensor da graça e martelo dos hereges. Seu apego à Igreja Católica igualava a sua vasta ciência. “Eu não acreditaria nem no Evangelho, escrevia, se a isso não me persuadisse a autoridade da Igreja Católica.” Deplorando em outra parte, a desgraça dos que viviam fora do selo da Igreja Católica, exclamava: “Aquele que se separa da Igreja Católica, ainda supondo que seja boa a sua vida, nunca possuirá a vida eterna; antes cairá sobre ele a cólera de Deus, unicamente pelo crime de se achar separado da unidade de Jesus Cristo. A bondade e a probidade que não respeitam a Igreja é refinada hipocrisia.”  

Terceiro Concílio Ecumênico – Nestório – O terceiro Concílio geral é o de Éfeso chamado assim porque reuniu-se na cidade desse nome chama-se também Concílio de Maria, porque nele se definiu que Maria é verdadeira Mãe de Deus e porque se reuniram os Padres em uma Igreja que a ela estava dedicada. Convocou-se este Concílio para condenar as impiedades e blasfêmias de Nestório, bispo de Constantinopla, que de pastor se transformou em lobo rapace, pregando e afirmando que se acham em Jesus Cristo duas pessoas, isto é, dois filhos, o Filho de Deus ou seja o Verbo, e o filho do homem, ou Cristo. Deste primeiro erro nascia outro, segundo o qual não se devia, nem absolutamente se podia chamar a Maria mãe de Deus senão mãe do Cristo que, na sua opinião não passava de um simples homem; não era pois Deípara senão Christípara. Estas blasfêmias causaram tal horror entre os cristãos, que ouvindo-as pela primeira vez na Catedral de Constantinopla fugiram da Igreja. Sabedor disto São Cirilo, patriarca de Alexandria, escreveu uma carta cheia de caridade a Nestório esmerando-se em persuadí-lo a que desistisse de erro tão ímpio; porém o soberbo Nestório respondeu-lhe com insolências. Então São Cirilo, seguindo o antigo costume das igrejas, como ele mesmo diz, denunciou a São Celestino I os erros de Nestório, pedindo-lhe que, valendo-se de sua autoridade, providenciasse com algum remédio contra aqueles males. O Papa examinou a questão, e achando falsa e contrária à fé da Igreja a doutrina de Nestório, primeiramente o admoestou e depois ameaçou com a excomunhão se não se retratasse. De nada serviram as súplicas nem as ameaças. O manso Pontífice quis tentar a última prova para convencer ao obstinado Nestório,  convocou um Concílio Geral em Éfeso ao qual não podendo presidir em pessoa, delegou entre outros representantes, a São Cirilo.  Abriu-se o Concílio a 22 de junho do ano 431 achando-se presentes cerca de 200 bispos. Condenaram os erros de Nestório e com grande alegria dos fiéis, se definiu que em Jesus Cristo há uma só pessoa que é a divina, e que a Santíssima Virgem é verdadeiramente a Mãe de Deus, o que proporcionou grande alegria a todos os fiéis. Para propagar e conservar a memória desta definição, compuseram os Padres do Concílio a segunda parte da Ave Maria, oferecendo deste modo um meio fácil e simples de honrar e professar a divina Maternidade de Maria.  

Fim de Nestório – Nestório não querendo emendar-se, nem cessar de levantar discórdias, foi excomungado, e logo desterrado para o Egito pelo Imperador Teodósio. Ali se apoderou dele horrível enfermidade que reduziu seu corpo a podridão, e a sua língua, que tinha blasfemado da Mãe de Deus, apodreceu, e vivendo ainda ele foi consumida pelos bichos. Objeto de maldição e espanto, morreu no ano 440. 

Eutiques e quarto Concílio Ecumênico  ­Apareceu neste tempo uma nova heresia suscitada por Eutiques, superior de um convento de monges perto de Constantinopla. Erguera ele a voz para combater a heresia de Nestório porém levado por um zelo mais entusiástico que iluminado, caiu no erro contrário. Nestório tinha ensinado que em Jesus Cristo há duas naturezas e duas pessoas, e ainda que Eutiques admitisse o contrário que em Jesus Cristo há uma só pessoa,  FALTAM AS PÁGs. 176 E 177 (sendo providenciadas)
CAPÍTULO VI 
FALTAM AS PÁGs. 176 E 177 (sendo providenciadas) confiado na proteção do céu, saiu, vestido de hábitos pontificais ao encontro de Átila perto de Mântua, onde o rio Míncio deságua no Pó. O altivo guerreiro, ainda que bárbaro e idólatra, recebeu-o cortesmente; e depois de tê-lo ouvido, aceitando sem mais as condições propostas, tornou a passar os Alpes, deixando a Itália em paz. Admiraram-se os soldados de Átila vendo em seu general aqueles insólitos atos de obséquio: “Como é possível, diziam, que nosso chefe se humilhasse tanto diante de um homem só, quando o não têm aterrorizado formidáveis exércitos?” Ele porém respondeu-lhes que enquanto falava com o romano Pontífice, viu sobre ele uma personagem vestida com hábito sacerdotal, que empunhava uma espada desembainhada, ameaçando ferí-lo se não obedecesse a Leão.                             
Este Pontífice, depois de ter escrito e trabalhado muito em benefício da Igreja, cheio de méritos perante Deus e os homens, foi receber a recompensa no ano 401, após 21 anos de glorioso pontificado.  

São Máximo de Turim – São Máximo bispo de Turim, é muito conhecido na história pela santidade de sua vida, por seus escritos e sobretudo por seus sermões, que constituem ainda agora um dos ornamentos do breviário romano. Combateu. com ardor os erros de Nestório e de Eutiques, e era tido em tão alta estima, que no Concílio romano, celebrado sob o Papa Hilário, sucessor de São Leão, ocupava o primeiro assento depois do Pontífice. Trabalhou muito para não permitir que a heresia invadisse o Piemonte, e para desarraigar a superstição dos pagãos, que ainda existiam em Turim, e lugares vizinhos. Era tão caritativo para com os pobres que, se algum estrangeiro perguntasse pela casa do bispo, respondiam-lhe que podia entrar com confiança na casa que visse rodeada de mendigos, pois essa seria certamente a casa do bispo. Sustentava e promovia uma terníssima devoção para com a Mãe de Deus e falava dela com muito zelo em seus sermões, afirmava que esta fora achada digna de ser morada do Filho de Deus antes por sua graça original do que por suas virtudes. Conta-se este santo entre os mais doutos escritores da Igreja. Descansou no Senhor no ano 474 mais ou menos. 

São Gelásio Papa – São Gelásio, romano, eleito para no ano 652, é muito conhecido por suas instituições em pról da Igreja. Reuniu em Roma um Concílio ao qual assistiram muitos bispos; nele se declarou quais os livros autênticos do Antigo e do Novo Testamento e quais os apócrifos; recomendou a honra em que se devem ter os quatro concílios ecumênicos de Nicéia, Constantinopla e de Calcedênia; compôs um catálogo das obras dos santos padres e dos escritores eclesiásticos; mandou publicar um livro chamado Sacramentale, no qual se acha a ordem de quase todas as mis­sas que temos no missal romano e a fórmula para dar as bênçãos (missal anteror ao Concílio Vaticano II).Aboliu as festas lupercais que se celebravam em Roma, no mês de fevereiro, em honra do deus Pan, e em lugar delas mandou celebrar a festa da Purificação, como já se fazia em muitos paises; por último confirmou o antigo costume de conferir as ordenações aos eclesiásticos nas quatro têmporas. Ainda que se achasse elevado à primeira dignidade do mundo, levava entretanto  uma vida pobre, praticando rigorosa austeridade; dava de comer a todos os pobres que conhecia e ele mesmo os servia na mesa. O tempo que lhe deixavam livre suas ocupações, empregava-o na oração ou em piedosos colóquios com os mais dignos servos do Senhor. Morreu santamente no ano 496.
CAPÍTULO VII
São Bento e o monte Cassino – Feitos memoráveis deste santo – Os três capítulos de Nestório e o quinto Concílio Ecumênico. 

São Bento e o monte Cassino – A vida monástica iniciada por São Paulo primeiro eremita e alentada, propagada e vinculada a determinadas regras por Santo Antão na Tebáida, aplicada ao clero por São Eusébio de Vercelli e espalhada na África por Santo Agostinho, recebeu por obra de São Bento na Itália e em toda a Europa ocidental, um regulamento fixo e uma difusão assombrosa. Este astro luminoso da Igreja nasceu em Núrcia no ducado de Spoleto. Enviado a Roma para seguir seus estudos encheu-se de tal espanto vendo a corrupção de seus companheiros, que na idade de quinze anos decidiu-se a abandonar o mundo e a retirar­se em uma profunda cavena a quarenta milhas da cidade. Deus, porém, que o destinava para maiores coisas, permitiu que o encontrassem muitos de seus companheiros e condiscípulos que atraídos por sua virtudes e milagres, iam em grande número visitá-lo. As famílias romanas se consideravam ditosas em confiar-lhe a educação de seus filhos, e lhe consagravam tanto afeto que já não queriam separar-se dele; por isso teve de edificar doze mosteiros para os receber. (Ano 528). O mais célebre entre estes é o do Monte Cassino, no reino de Nápoles, centro da ordem de São Bento. Quando se estabeleceu ali o Santo, ainda existia sobre o monte um templo dedicado a Apolo, deus adorado pelos habitantes daqueles arredores. São Bento quebrou o ídolo e o altar e converteu aquele povo à verdadeira fé. Ano 529.  

Feitos memoráveis deste Santo – Fez Deus brilhar a santidade de seu servo com o dom de profecia e de milagres. Não podendo os invejosos sofrer suas correções e ocultar os remorsos que despertava a vista de sua santa vida, deliberaram matá-lo secretamente. Para este fim, ao sentar-se certo dia na mesa, ofereceram-lhe de beber em um copo que continha vinho envenenado; mas como o santo abade costumava fazer o sinal da cruz, antes de tomar alimento, mal acabou de fazer este sinal augusto, quebrou-se o copo com estrépito, como se tivesse sido ferido por uma pedra. Pondo­se então de pé disse-lhes com semblante sereno e tranquilo: “Perdôe Deus o vosso pecado”, e saiu. Em outra ocasião, achando-se em presença de numeroso povo, somente com o sinal da cruz, ressuscitou a um morto que ficara esmagado debaixo das ruínas de uma montanha. A Tótila, rei dos Godos, que tinha ouvido contar os prodígios que fazia Bento, vieram desejos de presenciar algum milagre, e com este fim mandou-lhe dizer que desejava visitá-lo; porém em vez de ir ele em pessoa, enviou um de seus capitães vestido com as insígnias reais e acompanhado de seus oficiais. Apenas o avistou o santo disse-lhe: “Depõe, meu filho, o hábito que vestes, pois não te pertence”. Quando soube isto, Tótila foi ele mesmo ao santo, e assim que o viu, prostrou-se por terra e ali. ficou até que Bento foi levantá-lo; este lhe predisse as vitórias que devia ganhar e a ano preciso de sua morte. O santo, seis dias antes de sua morte, predita a seus discípulos, quis que lhe, preparassem a sepultura. No último dia de sua enfermidade pediu que o levassem. à Igreja para receber a Eucaristia; e pouco depois, reclinando sua cabeça em um de seus discípulos, levantando as mãos ao céu, entregou tranquilamente sua alma ao Senhor no ano 543. São Bento deixou uma regra admirável que abraçaram mais tarde quase todos os cenobitas do ocidente. Multiplicaram-se de tal modo os monges beneditinos, que alguns séculos depois não havia cidade ou vila da Europa em que não se tivesse levantado. algum mosteiro. Tão grande é o bem que estes fazem à Igreja, que só Deus o pode calcular. 

Quinto Concílio Ecumênico e os três Capítulos – O quinto Concílio Ecumênico é o segundo Constantinopolitano, assim chamado por ser o segundo celebrado em Constantinopla. Convocou-se para examinar os três livros, comumente chamados Os três capítulos com os quais pretendiam os Nestorianos justificar seus erros. O primeiro destes escritos se referia à pessoa e aos escritos de Teodoro de Mopsuéstia, do qual Nestório tinha tirado sua doutrina; o segundo continha: escritos de Teodoreto bispo de Cirne, onde havia alguma coisa contra São Cirilo; e o terceiro consistia numa carta de Ibas, bispo de Edessa, escrita a um herege da Pérsia chamado Mari, igualmente infecta de nestorianismo. As três obrazinhas, posto que condenáveis, não o tinham sido no Concílio de Calcedônia em consideração a seus autores, dois dos quais, (Teodoro e Ibas presentes no Concílio), tinham feito profissão de fé sinceramente católica. Pois bem, esta atenção era considerada pelos Nestorianos como uma aprovação dos ditos capítulos e consequentemente também dos erros que neles se professavam. Neste estado de coisas pareceu conveniente reprovar expressamente estas três obras para tirar todo pretexto aos ditos hereges. Celebrou-se um Concílio no ano 553, ao qual, por outra parte, não puderam intervir os bispos do Ocidente pela prepotência exercida contra eles pelo imperador Justiniano; por isso se apresentaram só 165 bispos, e estes quase em sua totalidade orientais. Foram examinados neste Concílio os três capítulos e condenados como contrários à fé: condenaram também de novo as doutrinas de Nestório e de Êutiques e alguns outros erros que se achavam nas obras de Orígenes. Conquanto este Concílio, por si não possa ser chamado ecumênico, tendo obtido, contudo, a aprovação e confirmação do Papa Virgílio, foi recebido e venerado como tal pela Igreja. Isto claramente confirma como desde a mais remota antiguidade se fazia consistir o valor dos Concílios, principalmente na autoridade do Papa. Também é bom notar aqui que este Concílio nos oferece uma brilhante prova do direito que em todo tempo tem exercido a Igreja, de condenar os maus escritos, de dar seu parecer sobre o sentido dos livros e exigir que seus filhos respeitem suas sentenças como o têm feito neste Concílio.
CAPÍTULO VIII 
São Gregório o Grande – Missões na Inglaterra – Feitos memoráveis de São Gregório e sua morte – Disciplina e estado da Igreja nesta época.  

São Gregório o Grande – São Gregório I, chamado o Grande por sua extraordinária santidade, eloquência e sabedoria, nasceu em Roma de pais nobres e ricos. Por seu admirável talento ocupou os principais cargos do Estado: conhecendo porém que as ocupações mundanas lhe roubavam os afetos do coração, renunciou a todas as suas dignidades, vendeu a todos os bens, distribuiu o total entre os pobres e outras obras de caridade abraçando a vida monástica. Era tão grande sua humildade, que foi necessário obrigá-lo, para se ordenar sacerdote. Tendo falecido em uma peste o Papa Pelágio II, os Romanos unânimes elegeram a Gregório para suceder-lhe. Espantado este ao ouvir tal noticia, fugiu e foi esconder-se em um bosque; mas uma coluna de fogo descobriu ao po­vo romano, e por último se viu obrigado a aceitar a dignidade pontifícia. Ano 590.  

Missões na Inglaterra – Um dos primeiros pensamentos do novo pontífice foi o restabelecimento do cristianismo na ilha da Grã-Bretanha, chamada hoje com o nome de Inglaterra, pelos Anglos que se apoderaram dela em união com os Saxões pelo ano de 450. Como estes eram idólatras, aboliram completamente a religião e restabeleceram a idolatria. São Gregório enviou quarenta religiosos sob as ordens de seu discípulo Santo Agostinho, para pregarem a fé. Apenas os santos missionários começaram a pregação, converteu-se à fé grande número de idólatras. O rei de Kent (Cantuária), os magnatas de sua côrte e quase todos seus súditos em breve abraçaram a fé. Querendo o pontífice dar forma estável àquela cristandade, criou ali uma hierarquia de doze bispos, nomeando arcebispo ao mesmo Santo Agostinho. A santidade dos missionários e os milagres que por todas as partes os acompanhavam multiplicaram de tal modo as conversões, que perto da cidade de Cantuária receberam o batismo no espaço de um só dia cerca de dez mil pessoas. Tomando-se, por conseguinte, sensível cada vez mais a falta de sagrados ministros que conhecessem bem o idioma e os costumes do país, quis o Papa que fosse enviados a Roma jovens ingleses, com o fim de se instruirem nas ciências sagradas e na piedade, e pudessem voltar a seu pais sagrados sacerdotes. assim no espaço de 80 anos foi convertida esta grande ilha a Jesus Cristo merecendo São Gregório o nome de apóstolo da Inglaterra. Igual solicitude empregou em benefício da Espanha e da Itália, esta última se achava então ocupada pelos Longobardos, em sua maior parte arianos ou idólatras.  

Outros fatos memoráveis de São Gregório  Excede a toda ponderação o que este pontífice disse, escreveu, e fez em benefício da Igreja. Pode-se dizer obra dele o antifonário e o breviário que se usa hoje. Em uma epidemia que afligiu Roma, muitos morriam no ato de espirrar ou bocejar; São Gregório estabeleceu que se usasse a palavra Ave (Deus te salve) para os primeiros e que aos segundos se fizessem cruzes ,sobre a boca; estes sinais exteriores feitos com fé serviram de eficaz remédio para curar aos que eram molestados por aquela enfermidade. Instituiu as Ladainhas dos Santos, a procissão do dia de São Marcos e ordenou que não se dissesse a Aleluia desde Septuagésima até a Páscoa. Foram realizados por suas mãos vários milagres e, entre eles, o seguinte que tem relação com o SS. Sacramento: Achava-se o santo celebrando, quando na ocasião de dar a comunhão a uma matrona que duvidava da verdade deste sacramento tomou a santa hóstia visivelmente a forma de carne. Finalmente depois de ter ocupado quase quatorze anos a Santa Sé, morreu no ano 604, aos 64 anos de idade. 

Disciplina desta Segunda Época – Já no século quarto São Paulo; o eremita, costumava contar suas orações com três pedrinhas, assim como nós fazemos com as contas do Rosário. Observava-se grande rigor para com os pecadores que voltavam à penitência. Estes eram divididos em quatro classes, a saber: Gementes, Ouvintes, Prostrados Consistentes. Os Gementes vestiam um saco e choravam seus pecados no átrio da Igreja, durante as sagradas funções, encomendando-se as orações dos que entravam; os ouvintes eram admitidos na Igreja perto da porta, e saiam com os catecúmenos depois de terem ouvido o sermão e o evangelho; os Prostrados ficavam ajoelhados e se lhes permitia receber várias bençãos dos sacerdotes porém deviam sair ao ofertório; os Consistentes já podiam ouvir a Missa, mas não comungar. Passava-se o tempo da penitência guardando rigoroso jejum; frequentemente consistia este em pão e água; rezavam sem cessar, ou dormiam sobre a terra núa. O pecador também devia submeter-se por muitos anos a esta disciplina antes que fosse admitido à sagrada comunhão; tamanho era o horror que se tinha ao pecado! No quinto século São Zósimo, Papa, estabeleceu que se concedesse também às paróquias a faculdade de benzer o círio pascoal que não se podia acender então a não ser nas grandes Basílicas. São Felix II ordenou que somente os bispos pudessem sagrar as Igrejas novas. São Mamerto, bispo de Viena, na França, introduziu em suas dioceses as procissões, chamadas das Rogações, nos três dias que precedem a festa da Ascensão, durante os quais também se costumava jejuar; mais tarde São Leão III prescreveu esta prática para toda a Igreja. No sexto século, São Gregório decretou que se começasse o jejum quaresmal pondo as sagradas cinzas sobre a cabeça dos fiéis. Os meninos que se julgavam aptos para os ofícios da Igreja, eram educados geralmente em colégios especiais ou nos mosteiros, vestidos com o hábito clerical. O Papa Sabiniano propagou na Igreja o uso dos sinos, já introduzido por São Paulino de Nola. Todos os eclesiásticos e todas as Igrejas gozavam de imunidade; não estavam ligados ao juízo dos seculares, e dependiam tão somente do foro eclesiástico. Este direito que deriva do mesmo Jesus Cristo, tinha sido reconhecido por Constantino e pelos imperadores cristãos que lhe sucederam. 

Estado da Igreja – O Estado da Igreja durante esta Segunda Época foi assáz glorioso. Os Papas dos três primeiros séculos coroaram seus trabalhos com o martírio; assim também seguiram seu exemplo uma multidão de cristãos que derramaram seu sangue pela fé. Quase todos os mesmos pontífices desta segunda época se contam no número dos santos já por trabalhos que tiveram de vencer e também pelas leis com que explicaram e defenderam a doutrina da Igreja. A par dos pontífices defenderam a fé contra os hereges muitos santos doutores, escritores eclesiásticos, monges, penitentes, virgens e confessores, os quais com sua ciência e santidade formaram uma das épocas mais luminosas da Igreja. Os Francos, que pareciam os mais apegados à superstição, também receberam o batismo, seguindo o exemplo de seu rei Clovis. Os Longobardos que se tinham estabelecido novamente no Piemonte e na Lombardia e deixavam entrever grande apego ao Arianismo e à idolatria, finalmente todos abraçaram a fé católica, levados a fazê-lo especialmente pela conversão de Agilulfo duque de Turim e mais tarde rei dos Longobardos. Este príncipe excitado por sua esposa Teodolinda, mulher piedosa e muito religiosa, rechassou a heresia e abraçou a verdadeira fé, pondo em prática todos os meios a seu alcance para fazê-la florescer. Com o fim de garantir a paz em seus estados, expulsou deles os arianos e os pagãos que se tinham mostrado turbulentos; e de acordo com São Columbano, fundou o célebre mosteiro de Bóbio. Tendo devoção especial para com São João Batista, escolheu-o como padroeiro de seus estados e consagrou-lhe a catedral de Turim no mesmo lugar onde se levanta a basílica metropolitana. Agilulfo morreu no ano 615. 
TERCEIRA ÉPOCADesde o estabelecimento do maometismo no ano de 622, até a celebração do IV Concílio de Latrão no ano 1215. (abrange um período de 593 anos.)
CAPÍTULO I 
Maomé e sua religião – Milagre da Santa Cruz ­ São Isidoro de Sevilha – Os Monotelistas e o Papa São Martinho I – Sexto Concílio Ecumênico. 

Maomé sua religião – Nasceu este famoso impostor em Meca, cidade da Arábia, de família pobre, de pai gentio e mãe judia. Errando em busca de fortuna, encontrou-se com uma viúva negociante em Damasco, que o nomeou seu procurador e mais tarde casou-se com ele. Como era epilético, soube aproveitar-se desta enfermidade para provar a religião que tinha inventado e afirmava que suas quedas eram outros tantos êxtases, durante os quais falava com o arcanjo Gabriel. A religião que pregava era uma mistura de paganismo, judaísmo e cristianismo. Ainda que admita um só Deus, não reconhece a Jesus Cristo como filho de Deus, mas como seu profeta. Como dissesse com jactância que era superior ao divino Salvador, instavam com ele para que fizesse milagres como Jesus fazia; porém ele respondia que não tinha sido suscitado por Deus para fazer milagres, mas para restabelecer a verdadeira religião mediante a força. Ditou suas crenças em árabe e com elas compilou um livro que chamou Alcorão, isto é, livro por excelência; narrou nele o seguinte milagre, ridículo em sumo grau. Disse que tendo caído um pedaço da lua em sua manga, ele soube fazê-la voltar a seu lugar; por isso os maometanos tomaram por insígnia a meia lua. Sendo conhecido por homem perturbador, seus concidadãos trataram de dar-lhe morte; sabendo disto o astuto Maomé fugiu e retirou-se para Medina com muitos aventureiros que o ajudaram a apoderar-se da cidade. Esta fuga de Maomé se chamou Egira, isto é, perseguição; e desde então começou a era muçulmana, correspondente ao ano 622 de nossa era. O Alcorão está cheio de contradições, repetições e absurdos. Não sabendo Maomé escrever, ajudaram-no em sua obra um judeu e um monge apóstata da Pérsia chamado Sérgio. Como o maometismo favorecesse a libertinagem teve prontamente muitos sequazes; e como pouco depois se visse seu autor à frente de um formidável exército de bandidos, pode com suas palavras e ainda mais com suas armas introduzi-lo em quase todo o Oriente. Maomé depois de ter reinado nove anos tiranicamente, morreu na cidade de Medina no ano 632. 

Milagre da Santa Cruz – Tendo Santa Helena encontrado o Santo madeiro da cruz fez depositar uma parte dele na igreja da Anastásia, isto é, na Ressurreição, levantada no monte Calvário. Ali ficou cerca de trezentos anos, até que Cósroes, rei da Pérsia, indo a Jerusalém, despojou a cidade de todos os ornamentos preciosos. Quando, porém, o imperador Heráclito venceu os Persas obrigou-os entre outras coisas a que restituíssem essa preciosa relíquia que fora roubada quatorze anos antes. Cheio de alegria o imperador, por ter voltado a recuperar tão valioso tesouro, ordenou uma grande festa na qual quis ele mesmo revestido com as insígnias reais levar a Santa Cruz ao Calvário; mas ao chegar ao pé do monte, foi detido por força invisível que crescia à medida que fazia esforços para caminhar para diante. Todos os que se achavam presentes admiravam com assombro o fato, quando o bispo de Jerusalém falou ao rei do modo seguinte: “Atendei bem, ó príncipe! Que com vossas reais vestimentas talvez mui pouco imiteis a pobreza e humildade de Cristo quando carregava com essa mesma cruz”. Ouvindo isto se despojou o imperador das insígnias de sua dignidade e humildemente vestido, com a cabeça descoberta e pés descalços, voltou a por sobre seus ombros a sagrada carga, que sem a menor dificuldade levou então até o cume do Calvário e depositou no lugar mesmo onde a tinham levantado quando crucificaram o Salvador. Este fato aconteceu no ano 629, a 14 de setembro. Costumava-se celebrar nesse mesmo dia uma festa em honra da Santa Cruz, talvez por ter sido esse o dia em que tão augusto sinal apareceu a Constantino. Em memória do novo milagre tornou-se esta festa muito mais solene e chamou-se Exaltação da Santa Cruz.

São lsidoro de Sevilha – Entre os gloriosos heróis, que com sua doutrina e santidade sustentaram a fé na Espanha é digno de menção São Isidoro, bispo e doutor da Santa Igreja. Nascera ele em Cartago de família ilustre por sua nobreza e piedade; com efeito, pelo sangue era unido aos monarcas de Espanha ao passo que dois de seus irmãos, Leandro, bispo de Sevilha e Fulgêncio, bis­po de Cartagena e sua irmã Florentina, mereceram a honra dos altares. Educado por seus santos irmãos em mui breve tempo foi um modelo das mais altas virtudes; tornou-se célebre também por seus conhecimentos nas letras latinas, gregas e hebráicas. Como os Godos, senhores da Espanha, se achavam contaminados pelo arianismo, aplicou-se o santo com tal ardor em combater essa heresia que pouco faltou para que lhe não dessem a morte. Falecido Leandro, seu irmão, apesar das oposições feitas, foi eleito para seu sucessor. São Gregório Magno, além de confirmar a sua eleição honrou-o ainda com o pálio, nomeando-o Vigário Apostólico de toda a Espanha. Exerceu o seu apostólico ministério levando uma vida mais angélica que humana. Era humilde, paciente e misericordioso com todos; Solícito em revigorar a disciplina eclesiástica e incansável em pregar. Promoveu as instituições monásticas, dando-lhes excelentes regras; construiu muitos mosteiros, edificando vários colégios, onde ele mesmo ensinava, reunindo assim muitos discípulos, que imitaram suas heróicas virtudes. Entre estes se contam São Ildefonso, bispo de Toledo e São Bráulio, de Saragoza, ambos luminares da igreja espanhola. Presidiu ainda o IV Concílio de Toledo, o mais célebre da Espanha; convocou outro em Sevilha, onde foram condenados os acéfalos, que ameaçavam infestar aquelas regiões. Depois de quarenta anos de episcopado, em que quase extinguira o arianismo, e depois de ter predito publicamente a sua morte e a invasão dos Sarracenos, na Espanha, foi para o céu, aos oitenta anos de idade, no ano 636. Ganhou tal fama de santidade e doutrina que dezesseis anos após sua morte mereceu ser proclamado pelos 50 bispos do Concílio que se reunira então em Toledo, doutor egrégio e novo lustre da Santa Igreja. Compara-se a São Gregório o Grande por suas virtudes, iguala-se a Santo Agostinho e São Jerônimo por seus escritos e diz-se que foi enviado do céu para instruir a Espanha, em lugar de São Tiago apóstolo que foi o primeiro pregador do Evangelho naquelas regiões. Femando I, rei de Castela, edificou um magnífico templo em sua honra e fez depositar nele seu corpo, glorificado por milagres e venerado com grande devoção. 

Os Monotelitas e o Papa São Martinho – A heresia de Montano foi um dos erros de Êutiques, isto é, daqueles que sustentavam que em Jesus Cristo há uma só vontade e uma só operação, ao passo que a Igreja Católica sempre ensinou que em Jesus Cristo há uma só pessoa e duas naturezas, a divina e a humana, tendo cada uma sua vontade e sua operação própria; de sorte que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, isto é, a vontade e a operação divina, a vontade e a operação humana. Chefes dos monotelitas foram Sérgio e Pirro, patriarcas ambos, o primeiro de Constantinopla e o segundo de Alexandria. Estes hereges empregaram toda a sorte de meios para arrastar o Papa Honório I a seu erro, pois os favorecia o imperador Constante. Para este fim escreveu Sérgio uma carta ao Papa em que lhe dizia que, em vista da efervescência de opiniões, seria coisa muito prudente proibir que se afirmasse, haver em Jesus Cristo uma só vontade e operação ou duas, e que se impusesse silêncio a respeito. Respondeu-lhe o Papa com duas cartas em que expunha claramente a doutrina católica; porém, não tendo advertido o laço que lhe havia armado Sérgio, aprovou como prudente o silêncio aconselhado por este. Não há dúvidas que o Papa teria condenado expressamente estes hereges, se antes de sua morte tivesse podido ver os progressos de seus erros e a maldade com que se interpretaram as cartas que ele tinha escrito. Isto o fizeram seus sucessores, e São Martinho I, especialmente, que desejando por um dique à difusão destes erros, os condenou definitivamente, dando nisto prova de grande valor, porque irritado o imperador, mandou a Roma um capitão para matar o Papa ou levá-lo preso a Constantinopla. O ímpio capitão, chegando a Roma, manda a um seu escudeiro que entre na Igreja de Santa Maria maior e mate ao pontífice, enquanto se achava celebrando o Santo Sacrifício. Obedece o sicário; porém ao por os pés nos umbrais do templo, perdeu repentinamente a visão. Não obstante isto, apoderaram-se do Papa, arrastaram-no vergonhosamente para Constantinopla, e este concluiu seus dias desterrado no Quersoneso, no ano 655, mártir da fé de Jesus Cristo. Pouco tempo depois, Constante recebeu o castigo que merecia, sendo assassinado por um seu criado enquanto o servia num banho. Sucedeu-lhe seu filho Constantino chamado Pugonato, bom príncipe e sinceramente católico. 

Sexto Concílio Ecumênico – Desejando o novo imperador reparar de algum modo os graves males ocasionados por seu pai à religião, escreveu uma carta ao Papa santo Agatão, pedindo-lhe que, no uso de sua autoridade, se dignasse convocar um Concílio em Constantinopla. O Papa, que não desejava outra coisa, reuniu no ano 680, o sexto Concílio Ecumênico, terceiro Constantinopolitano. A abertura teve lugar a 7 de novembro desse mesmo ano a ele concorreram mais de 160 bispos, presididos pelos legados do Papa. Depois de um maduro exame foram condenados os erros dos Monotelitas, e se definiu, como tinha ensinado constantemente a Igreja, que se devia crer como verdade de fé, que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, a vontade e a operação divina e a vontade e a operação humana. Escreveram logo ao Papa o que se tinha feito no Concílio, pedindo-lhe sua aprovação e confirmação. É bom saber que este Concílio de que se servem os adversários dos Papas para combater a infalibilidade Pontifícia, nos oferece ao contrário uma prova luminosa do acatamento à autoridade e superioridade do romano Pontífice nos Concílios. Com efeito, nessa ocasião, chamava-se a Agatão, santíssimo arcebispo da Apostólica e suprema Sé de Roma. Suas cartas foram recebidas e acatadas pelos padres do Concílio, como ditadas pelo Espírito Santo por boca do bem-aventurado Pedro. O que mais se pode exigir? Até a mesma definição de fé foi por eles feita inteiramente conforme às cartas de Santo Agatão e com suas mesmas palavras, afirmando que eles não tinham feito mais do que seguir a doutrina do Papa que era a mesma dos Apóstolos. Na carta sinodal que lhe dirigiram depois de se ter encerrado o Concílio, para que desse sua aprovação, falam-lhe nestes termos: “A ti como primeira sede da Igreja universal, fundada sobre a pedra firme da fé, remetemos o que se há de fazer… pedimos à tua paternal santidade, confirme nossa definição de fé com teus veneráveis rescritos.” 

CAPÍTULO II

Os lconoclastas – Sétimo Concílio Ecumênico – São João Damasceno. 

Os lconoclastas -, Logo que a Igreja acabava de condenar uma heresia, o demônio suscitava outra em menoscabo da fé. Aos monotelitas sucederam os Iconoclastas, isto é, quebradores das sagradas imagens. Diziam estes, como ainda hoje dizem os protestantes, que de nenhum modo se devem venerar as sagradas imagens, e conforme isto, não só as desprezavam, como também as quebravam quando podiam fazê-lo. Esta heresia deu ocasião a muitos males, porque foi protegida pelos imperadores Leão Isáurico, Constantino Coprônimo e Leão IV. Estes, para propagá-la mais, tornaram a usar contra os cristãos inauditas crueldades. Mas Deus vingou o ultraje feito a seus santos, ferindo, com morte infelicíssima os autores desta perseguição. 

Sétimo Concílio Ecumênico – Ao subir ao trono a piedosa imperatriz Irene, animada pelo desejo de restabelecer o culto católico, pediu ao Papa Adriano I que convocasse um concílio. O Pontífice consentiu e no ano 786 realizou-se a abertura do Concílio em Constantinopla, donde foi transladado no ano seguinte para Nicéia por cau­sa de uma sublevação das guardas imperiais infectas de heresia. Este é o sétimo concílio ecumênico, chamado segundo de Nicéia porque, como o primeiro, foi celebrado na cidade deste nome. Foi condenada nele a impiedade dos Iconoclastas por 350 bispos presididos pelos legados do Papa, os quais declararam, que era uma prática lícita e piedosa honrar as imagens de Jesus Cristo, da Virgem e dos Santos e que era coisa muito útil colocá-las também nas ruas públicas. assim, pois, podem os protestantes ver condenados pela Igreja seus erros, setecentos anos antes que eles nascessem para dar nova vida a esta velha heresia. 

São João Damasceno – São João Damasceno, ou da cidade de Damasco, foi o campeão que Deus opôs aos Iconoclastas. Nascido de família nobre, foi instruído nas ciências sagradas e profanas. Jovem ainda renunciou à avultada herança paterna, e abraçou a vida monástica. Do deserto em que se achava, combateu aos Iconoclastas, demonstrando com argumentos tirados da Sagrada Escritura e da Tradição que as santas imagens sempre foram honradas pela Igreja; e que os cristãos não tributam culto de adoração às relíquias ou imagens, mas sim que as veneram somente não tendo o propósito, fazendo assim, de adorar o objeto material ou as criaturas, mas sim a quem é Senhor e Criador delas. O imperador Leão irritou-se muito com estes escritos, e não podendo ter São João em suas mãos, caluniou-o vilmente perante o príncipe muçulmano, de quem era súdito e em cuja corte ocupava o emprego de secretário. Para fazê­lo aparecer réu de traição, fez chegar a este príncipe uma carta falsa, na qual apresentava o santo como culpado, e acusava-o de tramar uma conjuração. O príncipe em seu primeiro arrebatamento de furor, fez-lhe cortar a mão direita; porém na noite seguinte por um milagre da Bem-aventurada Virgem Maria, tornou a unir-se ao braço, de maneira que se desenganou o maometano, e somente deixou ao imperador a vergonha de uma atrocidade sem fruto. Então este desafogou sua cólera matando a muitos cristãos que a Igreja honra como mártires. São João Damasceno terminou em paz sua vida pelo ano de 780. Considera-se como o modelo dos teólogos; e sua maneira de tratar as questões, que se chama método escolástico, foi seguida mais tarde no ensino da teologia. 
CAPÍTULO III
Carlos Magno – Domínio temporal dos Papas ­ Os mártires de Bagdá – São Leão VI – Perseguição na Espanha – Heresia de Godescalco – Cisma de Fócio – Oitavo Concílio Ecumênico. 

Carlos Magno – Entre os reis escolhidos pela Providência para beneficiar de um modo especial a humanidade e a Religião deve-se certamente contar Carlos Magno, filho de Pepino, rei de França. Tendo os Longobardos devastado a Itália, despojaram de seu patrimônio aos pontífices, fazendo-lhes vis insultos. Pelos fins do século oitavo, governando a Igreja São Leão III, chegaram as coisas a tal ponto, que dois miseráveis tiveram o atrevimento de atirar-se sobre o Papa, e fazer-lhe graves feridas. Carlos Magno tendo-se feito protetor da Igreja, dirigiu-se para a Itália à frente de poderoso exército; passou o monte Cenis, derrotou, a poucas milhas de Susa, ao rei Desidério, que queria impedir-lhe o passo, restabeleceu a observância das leis por onde passava, e chegou finalmente a Roma. Carlos Magno ignorava por certo a recepção esplêndida que aquela cidade estava-lhe preparando. Adiantaram-se para recebê-lo o Papa, os príncipes, os barões romanos e franceses e uma multidão imensa de povo. Era dia de Natal, e o Papa, enquanto celebrava a Missa, disse em voz alta: “A Carlos piíssimo, augusto, coroado por Deus, grande e pacífico imperador, vida e vitória!” Todos os presentes repetiram por três vezes em voz alta as mesmas palavras. Fora de si Carlos Magno por aquelas inesperadas aclamações, não sabia o que dizer nem fazer. Então o Pontífice o consagrou Rei e pôs-lhe na cabeça a coroa imperial. Ano 800.Carlos Magno sobreviveu 14 anos àquele dia memorável, empregando-os todos em benefício de seus povos e da Religião. Cumulado de glória, e passavam eles as noites inteiras confessando aos que deviam combater no dia seguinte. 

Domínio temporal dos Papas – Entre as grandes obras de Carlos Magno deve-se enumerar a de ter restituído ao Romano Pontífice o domínio temporal que quase em sua totalidade tinha sido invadido por Desidério, rei dos Longobardos. Entende-se por domínio temporal dos Papas o poder civil que o acatamento voluntário dos povos deu aos Sumos Pontífices sobre considerável parte da Itália, compreendendo também a cidade de Roma. Nos primeiros tempos do cristianismo os fiéis que possuíam alguma coisa a levavam aos pés dos Apóstolos para se servirem dela segundo suas necessidades, dando uma parte aos pobres, e provendo o sustento dos ministros sagrados. A Igreja, porém não deve tratar somente do sustento material dos ministros sagrados, senão também do bem moral de todos os cristãos espalhados em todas as partes do mundo. Daí nasce a necessidade de que a Igreja possua um lugar, em que possa com plena liberdade ensinar a verdade e exercer seu ministério com independência de outro poder civil qualquer. Jesus Cristo foi crucificado porque anunciava com inteira liberdade o Evangelho; os Apóstolos que o pregaram com igual franqueza foram martirizados, e todos os Papas que precederam a Constantino morreram para defender sua fé; e isto por quê? Porque lhes faltava, um lugar a propósito, donde pudessem proclamar a verdade sem depender da vontade de outros. Constantino o Grande convenceu-se logo, apenas conheceu o cristianismo, de que os Romanos Pontífices deviam ser livres no exercício de seu apostólico ministério: por isso subministrou-lhes meios materiais para viver, e deu ao Papa o palácio de Latrão e vastíssimas possessões. Considerasse este como o primeiro domínio dos Papas. Em seguida este imperador transladou seu trono para Constantinopla; desde então começou a ser Roma não já a capital de todo o império romano, senão a capital de um território que pouco a pouco foi propriedade do Papa e da Igreja. Ligaram-se a Roma as cidades de Ancona, Umana, Pésaro, Fano e Rimini, que por serem cinco se chamaram Pentápolis. Quando o imperador Leão Isáurico se declarou, como já se disse, contra as sagradas imagens, pretendia que o Sumo Pontífice Gregório II as fizesse em pedaços na mesma cidade de Roma, e dispersasse as relíquias dos mártires, negando assim a intercessão dos santos perante Deus em proveito nosso, Gregório negou-se com firmeza a obedecer; então Leão enviou perfidamente a Roma alguns sicários para que lhe dessem morte aleivosa e despojassem as igrejas; porém o povo romano defendeu a pessoa do Papa, e rechaçou com as armas os soldados imperiais. Depois deste fato o senado e o povo se declararam independentes de um tirano herege e perseguidor, e se puseram da parte dos Papas para que os socorresse e fizesse justiça. Em princípios do século VIII o domínio temporal dos Papas já se achava pacificamente constituído por acatamento voluntário dos povos, e por aprovação tácita senão expressa, dos soberanos. Roma com seus territórios forma um estado suficientemente grande para a Igreja e para que os Papas gozem de independência em sua casa: porém bastante pequeno ao mesmo tempo para que estes não possam chegar a ser grandes potentados como os da terra. Por conseguinte os reis de França, Pepino e Carlos Martelo, não deram aos Papas todos os seus domínios temporais, mas somente algumas cidades, e Carlos Magno defendeu, reconheceu e confirmou solenemente tais doações. Reconheçamos pois que o domínio temporal é necessário aos Papas, para que possamexercer livremente o seu augusto ministério, e sobretudo proclamar a verdade a todos os homens, ainda que sejam capitais inimigos do Evangelho; para que possam também obrigar a todos, inclusive príncipes e soberanos, a honrar as leis de Deus e da Igreja: por último para que se achem em atitude de oferecer a todos os homens do mundo um meio seguro, para melhor dizer, o meio mais acertado para acudir ao Pai universal dos homens, e de ir, quando melhor lhes aprouver, visitar e reverenciar ao Vigário de Jesus Cristo. Assim, pois, este governo civil da Santa Sé, não pertence absolutamente a nenhum outro soberano, nem ainda aos habitantes dos Estados Romanos, senão que realmente é propriedade dos católicos do mundo inteiro, que, quais filhos afetuosos, sempre concorreram e ainda tem obrigação de concorrer, para conservar a manter a liberdade e independência de seu Pai espiritual, do Chefe visível do cristianismo.

Os mártires de Bagdá – Tendo-se declarado naquele tempo uma guerra sanguinolenta entre Teófilo, imperador de Constantinopla, e o Califa, foram presos muitos cristãos e conduzidos à Bagdá cidade que se ergue hoje onde se achava a antiga Babilônia. Tentou-se primeiramente fazê-los prevaricar; porém tendo permanecido firmes na fé foram atados e postos em escuros calabouços. Todo o seu alimento consistia em escasso pão e água, e dormiam sobre a terra nua, cobertos de miseráveis andrajos. Alguns sedutores exortava­os a abandonar a Jesus Cristo para seguir a Maomé; mas aqueles generosos confessores respondiam em alta voz a suas exortações: “Seja anatematizado Maomé e sua doutrina.” Enfurecidos por isto os Muçulmanos, os encarceraram amarrando-lhes as mãos por detrás das costas e os levaram assim às margens do no Tigre, onde em número de 42 coroaram com o martírio sete anos de penosíssimo cárcere. Ano 845. 

São Leão IV – Contam-se entre as calamidades daqueles tempos as correrias dos Sarracenos, que, vindos do Oriente para os paises ocidentais, infestavam também a Itália causando gravíssimos males por todo o lugar, onde passavam. ,Aflito o Papa Leão IV, porque muitos fiéis, despojados de seus bens, se viam obrigados a errar nos bosques, pos em campo toda sorte de esforços para ajudá-los; e para assegurar a cidade de Roma contra a ferocidade daqueles inimigos fez construir uma série de casas entre Castelo Sant’ Angelo e o Vaticano murou-as e as incorporou ao resto da Cidade da qual as separava o Tevere. Esta nova parte foi chamada cidade Leonina ou Leópolis em honra do Pontífice que a edificára. São Leão IV também fundou e restabeleceu muitos mosteiros decorou e dotou grande número de Igrejas e foi muito pródigo em esmolas públicas e privadas Sua santidade foi assinalada com prodígios: extinguiu com efeito, com o sinal da cruz, um terrível incêndio que se tinha ateado em Roma, e com breve oração matou uma horrível serpente, que com suas picadas venenosas causava a morte a muitos cidadãos. Morreu no ano 855 depois de oito anos de pontificado e se conta no número dos Santos.

Perseguição na Espanha – Foi causa desta terrível perseguição um desventurado cristão que se tinha feito judeu. Este fez acreditar aos muçulmanos que acabavam de se estabelecer na Espanha, que seu estado correria grave perigo se não obrigassem os cristãos a se fazerem judeus ou muçulmanos. Renovaram-se então os espetáculos de heroísmo dos primeiros séculos da Igreja. Homens, mulheres, crianças, eclesiásticos e leigos ilustraram a fé, fazendo os mais heróicos sacrifícios. Entre os mártires desta perseguição é célebre São Perfeito. Perguntando-lhe um dia o que pensava de Jesus Cristo e de Maomé, respondeu: “Jesus Cristo é Deus bendito sobre todas as coisas; Maomé é um daqueles sedutores que, segundo predisse o Evangelho, serão precipitados com seus sequazes nos abismos eternos.” Mal acabou de pronunciar estas palavras; os infiéis arrojaram-se ferozmente sobre ele e o decapitaram. Muitas mulheres tiveram tamanha coragem que se ofereceram espontaneamente aos verdugos, não as intimidando nem o fogo nem o ferro, que para elas havia sido preparado. Mitigou-se um tanto esta perseguição pelo terrível golpe de vingança divina sobre Aderramen II, seu ator. Achava-se este sobre um terraço recreando-se com o espetáculo da multidão de mártires que queria oferecessem sacrifícios, quando de súbito lhe sobreveio um acidente que o deixou sem vida. Não obstante isto, Maomé seu filho continuou a perseguição que durou 60 anos, isto é, desde o ano 822 até o ano 882. Somente na cidade Caradigna foram degolados em um só dia mais de duzentos monges, cujo sepulcro se tornou glorioso por um fato extraordinário que ainda hoje se renova. O pavimento debaixo do qual se guardam as suas relíquias, vê-se todos os anos transpirar sangue vivo no aniversário do dia em que conseguiram a coroa do martírio. 

Heresia de Godescalco – Entre os males que afligiram a Igreja no século nono, conta-se a heresia de Godescalco. Estimulado por sua vanglória, fez-se, monge beneditino na cidade de Orbais, diocese de Soissom, esperando nesciamente conseguir honras e riquezas na profissão religiosa. Excitado, porém, pelo desejo de mais ampla liberdade, saiu do convento e andou errante pela Itália, ensinando que Deus predestinou inevitavelmente uns para a glória e outros para o inferno; que Deus não quer que todos se salvem, e outros erros deste jaez. Notingo, bispo de Verona, foi um dos primeiros a denunciar seus seguidores sendo logo condenados em diferentes concílios por muitos insígnes prelados. Seu bispo metropolitano, Incmaro de Reims, fez tudo o que pode para trazê­lo a melhores sentimentos: porém trabalhou em vão; por isto foi degredado, desterrado e mais tarde preso, mas não deixou o herege de sustentar suas impiedade até a morte. Seus erros foram depois de muitos séculos reproduzidos por Lutero e Calvino.  

Cisma de Fócio – Mal se tinham apaziguado no Ocidente as turbulências suscitadas por Godescalco e outros hereges, apareceu o fatal cisma grego; que foi causa de que a maior parte dos cristãos da igreja oriental começasse a se separar da unidade da Igreja Católica, da qual desgraçadamente ainda permanecem separados, não tendo sido suficientes para atraí-los os carinhosos esforços dos Romanos Pontífices. Fócio, seu autor, recebera da natureza, junto com raro talento, uma índole vaidosa e ardente; esta e os laços de parentesco que o uniam ao imperador do Oriente influíram para que se abrisse caminho para os cargos de primeiro escudeiro e primeiro secretário imperial. Sua nova dignidade, suas abundantes riquezas e sua vasta erudição fizeram-lhe crer que ninguém era mais digno do que ele para ocupar o patriarcado de Constantinopla. Ocupava então aquela sé Santo Inácio, homem de grande virtude e elevado saber. Este não cessava de censurar o escandaloso procedimento do imperador Bardas, a quem recusara dar a santa comunhão em uma solenidade. Soube Fócio aproveitar-se dos vícios e da cólera do soberano contra Inácio, ao qual, com efeito, por meio de fraude e de prepotência, conseguiu retirar daquela sé, e desterrar. Despojou­se logo Fócio dos hábitos seculares fez-se monge no mesmo dia, no outro dia fizeram-no leitor, ao terceiro dia subdiácono, ao quarto diácono, ao quinto sacerdote, ao sexto bispo e patriarca de Constantinopla. Ano 858.  Mas sabendo muito bem que sua eleição não seria válida, se não a confirmasse o Papa, escreveu ao Pontífice Nicolau I uma carta, em que por meio de mentiras tratava de caluniar a Santo Inácio e de justificar-se a si próprio para ganhar o favor do Pontífice. Mas este, conhecedor de seus manejos deixou em sua sé santo Inácio que fora tratado barbaramente, e declarou que Fócio era um intruso, absolutamente indigno de ocupar o patriarcado de Constantinopla em lugar de Inácio. Estava preparando a condenação daquele cismático quando Deus o chamou a Si para recompensá-lo de suas fadigas. 

Oitavo Concílio Ecumênico – Adriano II pos em campo o que seu antecessor tinha idealizado, com o fim de sufocar o cisma nos seus princípios, e convocou um concílio em Constantinopla, que é o oitavo ecumênico. Fócio foi citado para se apresentar; porém não o permitiu sua consciência culpável; por isso foi preciso levá-lo ali a força. Quando lhe foi perguntado porque se atribuía o caráter de chefe da Igreja universal, (pois esta era sua principal pretensão) não respondeu, ou limitou-se a dar algumas respostas insolentes. Em vista disso os Padres do Concílio e os legados do Papa o excomungaram, e foi desterrado por ordem do imperador, ao passo que se restitui a Santo Inácio sua primeira dignidade. Ano 870.                               
Todavia, quando morreu santo Inácio, Fócio conseguiu, à força de enganos, introduzir-se de novo na sé donde tinha sido expulso. Desde a transladação da capital do Império de Roma para Constantinopla, os bispos desta cidade pouco a pouco chegaram a ter autoridade sobre a Tracia, a Ásia e o Ponto, e até pretenderam o título de Patriarca ecumênico, isto é, universal. Os Papas se opuseram a tais pretensões, pois era querer igualar-se ao Romano Pontífice. A vaidade porém dominou a muitos daqueles patriarcas e o orgulho dos imperadores do Oriente não deixou es­quecer esse título que o mesmo Fócio, em sua am­bição, quis tomar. Este durou pouco tempo, por­que encerrado finalmente em um mosteiro, mor­reu nele impenitente no ano 891. 
CAPÍTULO IV 
Século décimo – Progressos da fé – São Bruno ­ São Romualdo – Heresia de Estevão e de Lisóio.  

Século décimo – O décimo século da Igreja foi assinalado por muitos deploráveis acontecimentos, devidos à prepotência exercida em Roma pelo conde Adalberto e por suas filhas Marósia e Teodora. Estas duas ambiciosas mulheres intro­duziram no Pontificado, por meio da força, os de seu partido, sem Consideração alguma a sua vir­tude e doutrina. Por isso, muitas vezes, fizeram-­se eleições nas quais, homens de pouca ciência e de não muito bons costumes eram preferidos a ou­tros que por doutrina e santidade eram os únicos que mereciam ser eleitos. Deve-se por outra par­te notar, que muitas coisas que se referem aos papas desta época, teem sido exageradas por histo­riadores posteriores e pouco inclinados à Igreja. Um cuidadoso estudo da história deste século pôs em claro que a calúnia e a maldade levaram vá­rios escritores a falar mal de alguns Papas, que autores imparciais acharam dignos dos maiores elogios. Igualmente deve-se fazer sobressair a especial assistência que prestou Deus a sua Igreja, posto que neste século, não houvesse heresia ou cisma, contra o qual fosse necessário convocar um concilio universal.  

Progressos da fé – Neste mesmo século muitas nações abraçaram o Evangelho. Os Polacos com o seu duque Micislau converteram-se ao cristianismo; o mesmo fizeram os Húngaros, que depois de terem saqueado horrivelmente as igrejas cristãs, foram convertidos por São Estevão seu rei, que por isto é chamado o apóstolo da Hungria. Es­te monarca era muito devoto da Mãe do Salvador, sob cujo patrocínio pôs sua pessoa e seu reino, exemplo que seguiram mais tarde Luiz XIII, rei de França; Carlos Manoel II, duque de Sabóia, e a república de Genova. Também abraçam a fé de Cristo os Dinamarqueses os Turcos, os Nor­mandos com seu feroz chefe Rolon à frente, e os Russos; no mesmo tempo suscitava Deus nos pai­ses já cristãos, homens esclarecidos por sua santidade, para conservar e aumentar neles a fé.  

São Bruno – Pelo fim do século nono e no princípio do décimo os Sarracenos e os Longobardos tinham assolado os mosteiros da Itália e da Espanha, ao passo que na França a guerra civil e os Normandos saqueavam os mosteiros e dispersavam os religiosos que os habitavam. Via-se por isso um grande número de monges expulsos de seus claustros andar errando de um a outro país e de uma a outra cidade em busca de asilo e entregues à maior miséria. São Bruno tratou de prover a estas necessidades públicas.  Nascido na Borgonha de família nobre, para evitar os perigos do mundo, entrou na ordem beneditina e fez maravilhosos progressos nas ciências e na virtude. Era superior da abadia de Aniano, quando o duque de Aquitânia, Guilherme o Piedoso, o convidou a que fosse aos seus estados procurar um lugar adaptado para uma fundação religiosa. Bruno escolheu um deserto per­to da cidade de Cluny, donde proveio o nome da nova abadia. Quando Bruno a fundou, foi seguido somente por doze companheiros, porém pouco a pouco a estes se uniram outros, que sob suas ordens foram fundar outros conventos e abadias. assim formou-se a famosa congregação de Cluny, donde saíram tantos homens esclarecidos por doutrina, santidade e milagres. Morreu Bruno no ano 927 com o consolo de ver florescer a observância en­tre seus religiosos. Alguns martirológios o cha­mam bem-aventurado; outros lhe dão o título de santo. (V. Moroni art. Cluny Cong. Cluniac.)  

São Romualdo – Nasceu este santo em Ravena no ano 956, e desde jovem sentiu-se prodigiosamente levado a abandonar o mundo e a fazer-se religioso no mosteiro de Santo Apolinário, próximo da sua cidade natal. Sua vida era mortificação contínua; trabalhava sem descanso durante o dia, e passava as noites inteiras em oração. Cingia seu corpo um áspero cilício. Possuía o dom da profecia, conhecia o interior dos corações e dava a conhecer a muitos as culpas que tinham cometido em segredo, com o que conseguiu converter a muitos obstinados pecadores. Desejando ganhar a palma do martírio, pôs-se em marcha para a Hungria a fim de levar ali a luz do evangelho; porém não o quis Deus, enviando-lhe uma enfermidade que lhe reaparecia sempre que queria pôr-se novamente em marcha. Retornou à Toscana, a um vale dos Apeninos onde lançou os alicerces do célebre mosteiro dos Camaldulenses, assim chamado porque então eram conhecidas aquelas terras por Campos de Maldo, nome do seu dono. Consumido pelos trabalhos e austeridades, tendo predito muito antes a hora de sua morte, voou ao céu São Romualdo no ano 1027 para receber a eterna recompensa. Seu corpo se conservava ainda incorrupto quatrocentos e vinte anos depois de sua morte. 

Heresia de Estevão de Lisóio – Nos princípios do século onze, tentou Satanás dar nova vida à heresia dos maniqueus, os quais, como já dissemos, ensinavam que há dois deuses, um bom e outro mau. Começou-se a manifestar o funesto erro em Orleans, cidade de França, e eram seus mais célebres propagadores Estevão e Lisóio. Como eram tidos estes no conceito de homens doutos e virtuosos, puderam em mui pouco tempo difundir tão monstruosa heresia. Para dar alguma idéia de suas torpezas, é suficiente recordar o que eles faziam em suas reuniões. Reuniam-se de noite em determinado lugar; quando se achavam todos presentes, tomava cada um deles uma luz na mão e recitavam juntos ladainhas em que invocavam os demônios, até que aparecia um, dentre eles, sob as formas de um pequeno animal. Então entregavam-se a toda sorte de excessos: tomavam um menino de oito dias, o atiravam no meio de uma grande fogueira em sacrifício aos demônios, e ajuntavam depois as cinzas que deviam servir de viático para os enfermos. Foram acusados ao rei de França que mandou se apresentassem perante um concílio convocado em Orleans; ali se reuniram muitos bispos que unanimemente condenaram tais hereges e seus erros. Estevão e Lisóio porém, obstinando-se no erro, foram excomungados e queimados vivos por ordem do rei. Sendo ameaçados com o fogo, zombaram dele dizendo que não lhes causaria dano algum, mas quando viram que os demônios, em que confiavam, tinham perdido suas forças, e que as chamas realmente os queimavam, começaram a gritar que tinham sidos enganados. Então acudiu gente, mas era demasiado tarde, porque a força do fogo reduzira a cinzas até seus ossos. 
CAPÍTULO V
São Leão IX – Berengário e sua retratação – São Pedro Damião – São Gregório VII – Morte e milagres de São Gregório VII. 

São Leão IX – São Leão, chamado antes Bruno, nasceu no ano 1002, de real família alsaciana. Fez tais progressos nas ciências, que na idade de vinte e quatro anos foi consagrado bispo de Toul. Para não perder um só momento de tempo, distribuia-o entre a oração, a leitura de bons livros, o estudo, a visita aos hospitais e a instru­ção aos pobres, método que seguiu toda sua vida. Tendo falecido o Papa Damaso II, foi eleito para substituí-lo sob o nome de Leão IX. Teve muito que trabalhar para combater a heresia de Berengário que negava a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. São Leão, depois de tê-la condenado, foi em pessoa a Verceli para assistir a um concílio que esta cidade convocara. Condenou-se nele o herege e seus escritos, condenou-se também e foi lançado ao fogo um livro de João Scoto Erígenes, isto é, Holandês por estar cheio de erros contrários à fé. Depois de ter apaziguado estas turbulências, recebeu Leão uma carta do Patriarca de Constantinopla, chamado Miguel Cerulário, que acusava a Igreja romana porque celebrava a missa com pão ázimo, isto é, sem fermento: jejuava aos sábados, deixava o Alleluia desde a Septuagésima até a Páscoa. Respondeu-lhe São Leão com muita caridade, observando-lhe que eram estas coisas de mera disciplina e que por isto não davam motivo algum razoável para causar cisma na Igreja. O soberbo patriarca só buscava pretextos para subtrair-se à autoridade do romano pontífice; por isso, fechando os olhos à luz da verdade, renovou o cisma de Fócio que, consumado alguns séculos depois separou a igreja grega da igreja latina, isto é, da Igreja Católica (1034). Este foi o último ano de São Leão. O Santo Pontífice, vendo aproximar-se seu fim, quis que o levassem à basílica vaticana à beira do túmulo, onde pronunciou um discurso comovedor. Em seguida, depois de ter recebido o viático e os demais confortos da religião morreu, aos 52 anos de idade. 

Berengário sua retratação – Berengário de quem já falamos, era arcediago da igreja de Angers, e foi o primeiro que se atreveu a negar for­mal e publicamente a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. Confundido muitas vezes nas discussões, declarando que se retratava de seus erros, em seguida tornava a recair neles. Depois de uma série de retratações e recaídas, entrou finalmente em si mesmo, converteu-se devéras e passou os últimos anos de sua vida fazendo penitência. Apesar disto, quando estava em ponto de morte, temia os juízos divinos e exclamava chorando: “Confio que o Senhor não se negará a receber-me em sua glória em vista da penitência que me inspirou; porém temo a sua justiça por causa daqueles a quem eu perverti com meus escândalos.” Ano 1088. 

São Pedro Damião – Enquanto Berengário escandalizava a Igreja, edificava-a um grande santo; era Pedro Damião, natural de Ravena, o qual desde menino já havia deixado entrever maravilhosa inclinação para o estado eclesiástico. Achando certo dia uma moeda de preta, apesar de que tivesse dela grande necessidade e lhe faltasse o necessário sustento, quis levá-la logo a um sacerdote, pedindo-lhe para celebrar uma missa por alma de seu pai. Deus recompensou a generosa ação inspirando a um irmão seu para se encarregar dele.Mandou-o estudar em Parma onde muito depressa foi um dos mais hábeis preceptores. Este ministério proporcionava-lhe ocasião de ser pródigo para com os pobres, a quem recebia com alegria em sua casa e servia com suas próprias mãos, pois via a Jesus Cristo debaixo de seus andrajos. O mundo, porém, não era para ele; por isso decidiu-se a ir para uma ermida nas faldas dos Apeninos na Umbria onde viveu uma vida verdadeiramente angélica. Jejuava todos os dias a pão e água; às vezes passava três dias sem tomar alimento; caminhava descalço, açoitava-se até ao sangue, golpeava com frequência o peito, orava com os braços abertos, dormia pouco e deitado sobre uma esteira estendida no chão. Com seu pesar foi nomeado abade de um mosteiro, que administrou santamente; fundou vários outros, procurando insinuar em todos os corações três máximas fundamentais: Caridade recíproca, solidão e humildade. Tivera desejado passar toda sua vida em tranquila solidão; porém o Papa Estevão IX obrigou-o a aceitar a dignidade de cardeal e de bispo de Ostia. Neste cargo que ocupou sob o pontificado de sete Papas, resolveu os assuntos mais intrincados da Igreja com o maior êxito, conseguiu com seu infatigável zelo, vantagens consideráveis para toda a Igreja e para a da Itália especialmente. Empregou especial solicitude em combater valorosamente os simoníacos e os libertinos daqueles tempos e em promover a disciplina do clero. Ao voltar de uma legação sobreveio-lhe em Faenza violenta febre que o levou ao sepulcro. Ano 1072. São Pedro Damião deixou muitos escritos utilíssimos pelo que é contado entre os doutores da Igreja. 

São Gregório VII – Depois da morte de São Pedro Damião, subiu à cadeira de São Pedro um dos maiores Papas que têm governado a Igreja: foi São Gregório VII, chamado antes Hildebrando. Desde seus primeiros anos profetizou sua futura grandeza, pois ainda menino e sem nenhum conhecimento, estando certo dia a brincar com serragens em uma carpintaria, formulou estas palavras de David: Dominarás de um a outro mar.Vestiu o hábito dos monges beneditinos em Cluny; passou mais tarde para o mosteiro de São Paulo perto de Roma, onde sua doutrina, santidade, perspicácia e firmeza o tornaram merecedor da dignidade cardinalícia, e foi, em toda a extensão da palavra, um poderoso sustentáculo da Santa Sé sob o pontificado de seus cinco antecessores. Trataram muitas vezes de elevá-lo à cadeira Papal, porém ele sempre se recusou humildemente, até que, a seu pesar, no ano 1073 viu-se obrigado a aceitá-la. Dominou realmente de um a outro mar e, como o sol, espalhou seus raios benéficos em proveito de toda a Igreja. Trabalhou com denodo para extirpar o vício da simonia, confundir os hereges, reformar a disciplina eclesiástica e defender os direitos da Santa Sé apostólica. Empregou grande zelo contra Henrique IV, rei dissoluto e cruel da Alemanha, que desperdiçava as rendas da Igreja em festas e donativos aos soldados que tinha alistado contra a religião, encarcerava e matava os sacerdotes e bispos que se opunham às suas crueldades e sacrilégios. São Gregório conser­vou firme e imóvel contra ele a imunidade eclesiástica o excomungou e depôs, desligando todos os seus súditos da obrigação do juramento. Depois disto os sectários de Henrique e os cúmplices de suas maldades foram castigados de modo visível pela divina Justiça. O mesmo Henrique, abandonado por todos, foi despojado do império por seu filho, e concluiu seus dias morrendo repentinamente. 

Morte e milagres de São Gregório VII – Este incomparável Pontífice, depois de ter renovado a face do mundo por meio de sua ciência e piedade, para evitar as tramas do ímpio Henrique, retirou-se de Roma e foi a Salerno, onde caiu gravemente enfermo. Antes de expiar prometeu que, quando mediante os méritos de Jesus Cristo chegasse ao céu, a todos recomendaria vivamente ao Senhor. Pronunciou estas palavras: “Amei a Justiça e odiei a iniquidade; por isso morro no desterro”. Descansou no Senhor a 25 de Maio do ano 1085, depois de doze anos de glorioso pontificado. Deus confirmou sua santidade com muitos milagres, entre os quais se nota o seguinte: Enquanto se achava o santo disputando com um homem que lhe negava ser réu de simonia, mandou-lhe que firmasse sua palavra rezando Gloria Patri; porém começando-o por três vezes nunca pode pronunciar as palavras et Spiritui Sancto, porque era culpado dos delitos que se lhe imputavam. Outra ocasião enquanto celebrava a santa Missa, viu-se baixar do céu uma pomba que, indo pousar no ombro direito de Gregório, cobriu-lhe a cabeça com suas asas. Com o sinal da Santa Cruz apagou um incêndio que se tinha ateado em Roma. Seu corpo cinquenta anos depois de sua morte, foi encontrado ainda inteiro com os ornamentos pontificais. 
CAPÍTULO VI 
São Bruno – Libertação dos Santos Lugares – Santo Anselmo bispo e doutor – São lsidro, o lavrador. 

São Bruno – Nasceu São Bruno em Colônia de família ilustre, e fez tais progressos na ciência e na virtude, que ainda muito jovem, tornou-se credor de cargos muito elevados. Querendo, porém, abandonar o mundo e entregar-se inteiramente a Deus, partiu com seis companheiros e subiu com eles a altíssima e mui escabrosa montanha de Grenoble, chamada Cartuxa. No meio daqueles montes rodeados de precipícios, e de penhascos espantosos, fundou a ordem dos Cartuxos, assim chamada pelo lugar onde teve princípio. A nova ordem se difundiu rapidamente por toda a Europa. O Papa Urbano II queria nomear a Bruno arcebispo de Reggio; ele porém não quis nunca aceitar essa dignidade. Permitiu-lhe então o Pontífice que se retirasse para a Calábria com alguns companheiros, onde fundou outro mosteiro chamado a Torre. Morreu no ano 1101. 

Libertação dos Santos Lugares – Os Santos Lugares, que por suma desgraça e ludíbrio da cristandade, se achavam desde mais de cinco séculos em poder dos maometanos, foram libertados por meio das Cruzadas, isto é, exércitos reunidos pelos príncipes da Europa. O iniciador desta grande obra foi um simples sacerdote da diocese de Amiens, chamado Pedro, e apelidado o eremita por sua vida solitária. Fazendo uma peregrinação a Jerusalém, comoveu-se vivamente ao ver mesquitas e estábulos em redor da Igreja do Santo Sepulcro, e ao contemplar todos os lugares santificados pelo nascimento, vida, milagres, pregação, morte, sepultura, ressurreição e ascensão do Salvador, em poder dos infiéis e de mil modos profanados. Ao chegar a Roma apresentou-se a Urbano II, e pintou tão ao vivo o triste estado daqueles lugares, que o Pontífice se propôs lançar mão de todos os meios para libertá-los de semelhante profanação. Pedro, alentado assim pela aprovação do Papa, em breve tempo animou as potências européias a que se armassem para levar a cabo aquela santa e grande empresa. Os que se alistavam tomavam por divisa uma cruz de lã encarnada que faziam colocar sobre o ombro direito, donde o nome de cruzados. Ao chegar o exército cristão perto de Jerusalém, sitiou a cidade e assaltou os inimigos com tal ímpeto e com tanto valor, que depois de cinco semanas de combate, se apoderou da cidade, expulsando de lá os inimigos e fez desaparecer todas as imundícies que desonravam aqueles santos lugares. Os fieis em agradecimento ao divino favor tomaram vestidos de penitentes, e com os pés descalços foram visitar os lugares consagrados pelos padecimentos do Salvador. Fizeram logo uma festa esplêndida sagrando ao valente e piedoso capitão Godofredo de Bouillon, duque de Lorena, como rei e soberano do reino de Jerusalém. Em sinal de reverência a Jesus, Godofredo jamais quis levar a coroa naquela cidade. Em seguida, para honrar o culto divino, fundou ali um cabido de cônegos, fez um mosteiro no vale de Josafá e levantou muitas Igrejas às quais ofereceu preciosos dons. (1099). Com o fim de por dique aos infiéis que molestavam os cristãos, muito capitães se consagraram ao serviço do Senhor, formando e instituindo para tal fim a ordem dos Hospitaleiros de São João. Seu ofício consistia em assistir aos enfermos, servindo-lhes com suas próprias mãos, como criados, e combater valorosamente pela causa da Religião. Esta ordem chamou-se mais tarde Cavaleiros de Malta porque tinham fixado moradas nessa ilha desde o ano 1530. 

Santo Anselmo, bispo e doutor – Nasceu Santo Anselmo em Aosta de pais nobres no ano 1033. Desde pequeno deixou vislumbrar grande ardor para o estudo e para a virtude. Aos quinze anos espantado já com os perigos que encontrava no século, queria fazer-se monge; porém seu ardor juvenil e alguns falsos companheiros, lhe fizeram retardar a execução de seu santo propósito seguindo por algum tempo as máximas do mundo. Mas iluminado pela graça divina, abandonou as vaidades mundanas, vendeu todos seus bens, e retirou-se para a abadia de Bec em França sob a observância das regras de São Bento. Ajudado ali e instruído pelo célebre Lanfranco, fez tais progressos na virtude, na filosofia e na teologia, que depois de três anos foi eleito prior. Este novo cargo serviu-lhe de estímulo para andar com maior ardor no caminho da perfeição. Empregava o dia nos exercícios monásticos e em instruir os outros e de noite, depois de muito breve descanso, ocupava-se na meditação das verdades eternas e em responder aos que por carta lhe pediam conselhos. À imitação do Salvador, entretinha-se com predileção em instruir as crianças. Tinha como regra que na educação dos pequeninos não se deve empregar demasiado rigor, nem se deve levar ao cumprimento do dever à força de castigos, porque dizia, acontece com eles o que se dá com as tenras plantas que, cercadas com demasiada estreiteza, ficam sufocadas e não produzem frutos. Sua ciência profunda unida à eminente santidade, grangeou-lhe as simpatias e o carinho dos reis, dos bispos e do pontífice São Gregório VII, que, oprimido pelos poderosos do Século, recomendava­se a suas orações juntamente com sua Igreja. Morto Lanfranco, que fora nomeado arcebispo de Cantuária, sucedeu-lhe Anselmo. O rei Guilherme, porém, que tinha promovido sua eleição, começou desde logo a persegui-lo, pretendendo se intrometer nos assuntos eclesiásticos. O santo Arcebispo se opôs com firmeza. Despojado de todos os seus bens e obrigado a por a salvo sua vida por meio do desterro, foi a Roma junto do pai comum dos fiéis que era então Urbano II. O Papa o cumulou de louvores e de graças e valeu-se dele em muitos e importantes negócios. Dali a pouco morreu o rei Guilherme e sucedeu-lhe Henrique. Um dos primeiros atos do seu governo foi chamar imediatamente o nosso santo para a Inglaterra; porém, pouco depois o mesmo o desterrou de novo cruelmente. No meio daquelas continuas aflições, o santo costumava dizer que nada temia no mundo senão o pecado. “Se de um lado, dizia, visse eu o pecado, e de outra parte as penas do inferno, escolheria de preferência estas antes que cometer um pecado”. Estas últimas perseguições não duraram muito, pois que dois anos depois, quando parecia que as coisas se tinham novamente regularizado com o rei dormiu no Senhor na idade de 76 anos. Deixou fama de grande santidade e de operador de milagres em vida e depois de morto (1109). Sua santidade e sua vasta e profunda doutrina fizeram que fosse enumerado entre os doutores da Igreja. 

Santo Isidro, o lavrador – No seio da Igreja católica todos, Seja qual for a sua condição, podem chegar a possuir a perfeição das virtudes; bem o dá a conhecer assim um pobre lavrador chamado Isidro, que se distinguiu naquele século. Nasceu em Madri de pais pobres, e ainda que se visse obrigado a ganhar o sustento com o trabalho de suas mãos, conservou-se sempre fervoroso no serviço do Senhor. Costumava levantar-se de manhã muito cedo, e, antes de trabalhar, ia todos os dias ouvir a santa Missa. Era muito devoto da Virgem, e, já caminhando pelas ruas, já trabalhando no campo, rezava sempre a Ave Maria, sua oração favorita. Alguns invejosos acusaram-no a seu amo, dizendo-lhe que para cuidar de suas devoções descuidava a cultura dos campos. Este então tratou de surpreendê-lo; mas qual não foi sua surpresa quando, ao chegar junto de seu servo, viu dois arados que aravam com Isidro! Perguntando de quem eram aqueles dois arados que tinham desaparecido à sua chegada, Isidro respondeu-lhe: “Eu não conheço outro auxílio senão o de Deus a quem invoco no princípio de meus trabalhos, e nunca o perco de vista durante o dia”. Conheceu então o amo a santidade de seu servo, e vendo os campos bem cultivados, o exortou a perseverar em suas santas práticas. Cheio de caridade para com os órfãos, dava-lhes tudo o que sobrava de seu escasso alimento. Passou toda sua vida entre pobres agricultores e morreu no ano 1130, Em pouco tempo operaram-se muitos milagres em seu sepulcro; por isso o clero e os magistrados foram ao cemitério comum com o fim de transportar o corpo do glorioso lavrador para lugar mais honroso. Nessa ocasião deu-se um fato assaz extraordinário; porque ao dar o primeiro golpe para exumá-lo, todos os sinos tocaram de per si e não pararam até se concluir a cerimônia.
CAPÍTULO VII
Nono e décimo Concílio Ecumênico – São Bernardo – Milagres e morte – São Tomás de Cantuária – Heresia dos Valdenses – Undécimo Concílio Ecumênico.

Nono Concílio Ecumênico – O nono Concílio Ecumênico foi celebrado também em Roma, na Igreja de São João de Latrão; por isso chamou-se Lateranense. Convocou-o Calixto II no ano 1123 e intervieram nele mais de 300 bispos e mais de 600 abades, sob a presidência do mesmo pontífice. O fim principal deste concílio era restabelecer a paz e concórdia entre o sacerdócio e o império, perturbada pelas chamadas investiduras. Os imperadores da Alemanha pretendiam imiscuir-se nos assuntos religiosos, especialmente na eleição dos bispos e abades, e na adjudicação da dignidade episcopal ou abacial, o que se chamava investir. Acontecia frequentemente que, pela usurpação destes direitos, elegiam-se pessoas indignas e às vezes indigníssimas por sua ignorância e péssima conduta, com grande escândalo dos fieis. Os Papas tinham levantado várias vezes a voz contra estes abusos, porém em vão, pois os mesmos imperadores tomaram as armas e passaram a cometer violências contra eles. O Papa Calixto, cheio de zelo e valor, querendo a todo custo remediar tamanho mal, depois de ter trazido Henrique V a melhores sentimentos, reuniu o dito concílio. Ali conseguiu o imperador ser absolvido da excomunhão em que tinha incorrido, e submeteu-se humildemente à Igreja jurando que já não tomaria parte nas investidas deixando assim livre a Igreja na eleição de seus ministros. Condenaram-se igualmente as ordenações feitas pelo herege Bordino, que se proclamara anti-Papa. O concílio convidou por último os cristãos a expulsarem de Jerusalém aos Sarracenos, que tinham voltado novamente, e da Espanha aos Mouros, ferozes inimigos do cristianismo, que se tinham apoderado daquele reino. 
Décimo Concílio Ecumênico – Ainda não tinham passado dezesseis anos da celebração do mencionado concílio, quando o Papa Inocêncio II julgou conveniente reunir outro no mesmo palácio de Latrão. Abriu-se em 1º de Abril do ano 1139. Assistiram a ele mil bispos e outros tantos abades presididos pelo mesmo pontífice, que, como escreve um historiador daqueles tempos, compareceu entre aqueles santos prelados como o mais venerável de todos, tanto pela majestade que Resplandecia em seu rosto e pelos oráculos que saiam de sua boca, como por sua suprema autoridade. O concílio foi celebrado para por um remédio às desordens causadas pelo anti-Papa Anacleto, chamado Pedro de Leão, e condenar vários erros que tinham surgido contra a fé. Entre estes merece mencionar a heresia de Tanquelino, leigo muito astuto, que fingindo santos costumes, soube enganar os simples e levá-los à prática das mais vergonhosas obscenidades. Considerava-se igual a Jesus Cristo; negava os sacramentos e ensinava que os bispos nada eram mais do que os leigos. Foram condenados também os erros de Pedro de Bruis e Arnaldo de Brescia, os quais, além de levarem vida escandalosa, desprezavam o santo sacrifício da Missa, a invocação dos santos, o batismo das crianças, a tradição e os escritos dos santos Padres. A justiça de Deus confirmou visivelmente a condenação destes hereges. Com efeito: Pedro de Bruis, depois de cinco anos de roubos e delitos, foi vítima do furor do povoque, horrorizado por suas blasfêmias, o atirou dentro das chamas que ele próprio preparara para queimar um monte de cruzes que tinha derribado. Arnaldo, inimigo acérrimo do poder temporal dos Papas, não cessando de vomitar calúnias contra a igreja, atreveu-se a ir a Roma onde por ódio ao pontífice tentou fazer assassinar a um cardeal. Temendo em seguida a pena que merecia seu crime, fugiu de Roma; ao chegar porém a Toscana, foi preso e condenado às chamas pelo poder civil. São Bernardo em carta escrita ao Papa sobre Arnaldo de Brescia e Abelardo seu mestre, disse que estes se uniram e se puseram de acordo para uma conjuração secreta contra Jesus Cristo e contra sua Igreja; em seguida relata-lhe seus erros. Arnaldo morreu obstinado no erro; mas Pedro Abelardo foi a Roma e submeteu-se à santa Sé. Dali voltou à França, reconciliou-se com São Bernardo, e para tratar melhor da salvação de sua alma, encerrou­se em um convento dependente de Cluny, onde depois de passar alguns anos fazendo penitência, com edificação daqueles religiosos, morreu no Senhor no ano 1142, aos 63 de idade. 

São Bernardo, abade e doutor – São Bernardo, abade de Claraval, é certamente um dos astros mais luminosos da Igreja. Nasceu em Fontainas na Borgonha. Ainda pequeno, sentia tal ternura para com a Santíssima Virgem, que só ao ouvir pronunciar seu nome, dava sinais de prazer e alegria. Tudo fazia com gosto contanto que se lhe dissesse: “Isto agrada a Maria’” e desejava fazer o contrário quando se lhe dizia: “Isto desagrada a Maria.” Embora as raras e nobres qualidades de sua pessoa e as ainda mais seu engenho surpreendente lhe abrissem caminho para as mais altas dignidades, a tudo renunciou para abraçar o estado religioso no mosteiro de Cister. Seu exemplo suscitou-lhe tantos discípulos, que tiveram de fundar outros mosteiros entre os quais se achava o de Assêncio. Era este lugar uma espantosa guarida de ladrões, e pelo nome e celebridade de Bernardo se chamou em seguida Claraval. Poucos eram os jovens com quem falava o santo, que não se alistassem na sua milícia Espiritual. Muitos nobres mancebos seguiram os incentivos de sua extraordinária santidade. Um seu tio, sua Irmã, seus cinco irmãos, e seu próprio pai fizeram-se religiosos e morreram como santos. 

Milagres e morte – A santidade de Bernardo achava-se confirmada por frequentes e ruidosos milagres. Com o sinal da cruz curou um bispo que estava prestes a morrer; também curou, em presença de grande multidão, a uma mulher, um menino e uma menina aleijados. Dava por todas as partes a vista aos cegos e o ouvido aos surdos, a palavra aos mudos, a saúde aos enfermos e conhecia os segredos mais íntimos do coração. E ainda que suas rígidas penitências debilitassem sua saúde, estava, não obstante, sempre pronto para confessar, pregar e empreender viagens a fim de cumprir difíceis missões, e pacificar príncipes e nações. No meio destes vários e gravíssimos negócios nunca deixava as orações e meditações de costume. Estando um dia na Igreja catedral de Spira, arrebatado em êxtase, pôs-se a cantar no meio do povo e do clero: o clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria. Estas palavras agradaram tanto, que a Igreja acrescentou-as à Salve Regina, com que costuma honrar a augusta Mãe do Salvador. Quando se espalhou a notícia da perigosa enfermidade de São Bernardo, de todas as partes acudiam pessoas a Claraval unicamente com o fim de ver pela última vez esse portento de sabedoria. Bispos e abades tinham-se reunido em redor dele para receber sua bênção e assistir à sua ditosa morte. Dormiu Bernardo no Senhor, nos braços de seus religiosos, no ano 1153, aos sessenta e três de idade. Por causa dos muitos milagres que se operavam sobre seu sepulcro, apenas vinte anos depois de sua morte, Alexandre II o inscreveu no número dos santos, e o sumo Pontífice Pio VIII no ano 1830 o contou entre os doutores da santa Igreja. 

São Tomás de Cantuária – A Inglaterra, terra fecunda em santos, contou neste século, entre os muitos luminares da fé, a Santo Tomás, arcebispo de Cantuária. Nascido em Londres de nobres e piedosos pais, demonstrou, desde menino, tanto amor para com a verdade, que não podia sofrer que se faltasse a ela nem por gracejo. Seus talentos e suas virtudes o tornaram mui querido a Teobaldo, arcebispo de Cantuária, que o ordenou sacerdote e mais tarde arcediago de sua catedral. Sua aptidão para manejo dos grandes negócios lhe mereceu o cargo de conselheiro, ou primeiro ministro de estado. São Tomás exerceu este cargo com plena satisfação de todo o reino, e muito em particular, do rei, que o favoreceu de tal modo que nada queria que se fizesse sem ordem sua. Morto o arcebispo, elegeram a Tomás para lhe suceder. Não podendo subtrair-se a este cargo tão pesado, abandonou todas as pompas, cingiu um grande cilício em suas desnudadas carnes e vestiu o hábito monástico. Costumava passar as noites em oração e na leitura dos livros santos ao passo que de dia dedicava-se a obras de beneficência e a reformar os costumes do clero e do povo. Exemplar no ofício de chanceler, mostrou-se firme e invicto no ministério episcopal, e com ânimo varonil resistiu ao próprio rei, que de diferentes modos o perseguia cruelmente. Tomás teve de experimentar por muitos anos os rigores do desterro, até que, acalmando-se as iras do príncipe, voltou a sua sede episcopal. Como continuasse, porém, sempre pregando contra as desordens públicas e privadas, acusaram-no perante o rei, o qual não cessou de armar­lhe insídias; e queixava-se a seus cortesãos de que já não podia ter paz enquanto vivesse o arcebispo. Ouvindo isto alguns de seus satélites, pensando fazer coisa agradável ao soberano, foram às escondidas a Cantuária, e acometeram ao bispo enquanto se achava na igreja rezando vésperas. Querendo seus clérigos fechar as portas do templo, impediu-os dizendo-lhes: “A Igreja de Deus não se deve guardar como as fortalezas das cidades; eu de bom grado morrerei pela causa de Deus e da sua Igreja. Não peço senão esta graça, que meu sangue lhe restitua a paz e a liberdade que lhe querem tirar”. Pondo-se logo em oração e encomendando a Deus sua igreja, ofereceu sua cabeça ao ferro do verdugo com a mesma firmeza e constância com que tinha resistido às iníquas leis do rei. Morreu mártir no ano 1171. Tendo-se operado mais tarde muitos milagres mediante sua intercessão, o pontífice Alexandre III, três anos depois de sua morte, o colocou no cânon dos santos. 

Heresia dos Valdenses – Os hereges chamados Valdenses começaram neste século a perturbar a Igreja. Devem nome e origem a Pedro Valdo, comerciante de Lion. Achando-se este em um banquete (Ano 1160), um seu amigo caiu morto a seu lado. Horrorizado com o fato, começou a exortar seus companheiros à pobreza voluntária; porém deixando-se levar pela imaginação, excedeu os limites e deu-se a pregar contra as riquezas que possui a Igreja, afirmando que o clero está obrigado a viver pobre e que não pode possuir bens sem cometer pecado. Deste erro extravagante passou a reprovar o culto das sagradas imagens, a confissão auricular, a extrema unção, as indulgências e o purgatório. Ameaçado em sua pátria saiu dela, e foi à Sabóia em companhia de alguns vagabundos; passou dali para Lucerna, perto de Pinerolo, onde ele e seus sectários tomaram o nome de Barbudinhos. Tendo sido refutados várias vezes seus erros, tornaram-se mais orgulhosos e por isso foram condenados no undécimo concílio ecumênico. Estes, contudo, até o século dezesseis ficaram mais ocultos; não tinham igrejas próprias, porém frequentavam as dos católicos e, quando podiam confundir-se com eles, pediam e recebiam todos os sacramentos da Igreja católica. Mas surgindo em Genebra a heresia de Calvino, pensou este homem astuto que ganharia muito mais se unindo aos Valdenses, que, cedendo a seu convite, abraçaram seus erros e desde então Valdenses identificaram-se com Calvinistas sendo eles, portanto muito diferentes dos primitivos Valdenses, sectários de Pedro Valdo. 

Undécimo Concílio Ecumênico – Convocou este concílio o Papa Alexandre III no ano 1179 com o fim de condenar as Valdenses e outros hereges, e tratar também de alguns assuntos concernentes ao bem da Igreja. Foi este o undécimo Concílio Geral e o terceiro de Latrão; tomaram parte nele 302 bispos. Seu fim principal foi estabele­cer um meio conveniente para evitar toda sorte de desordens e cismas na eleição dos Papas. O Papa Nicolau II no ano 1059 a fim de obviar estes perigos, tinha reservado o direito de eleger o Papa somente aos cardeais; mas estes não concordando às vezes sobre a pessoa que tinham de nomear, acontecia que se elegiam ao mesmo tempo vários anti-Papas. Em vista disto, o concílio presidido pelo mesmo Alexandre, decretou que, dado o caso em que os cardeais não se achassem de acordo na eleição do pontífice, se reconheceria por legítimo o que tivesse obtido as duas terças partes de votos, e que se aquele que obtivesse a outra terça parte quisesse se declarar Papa, ficaria excomungado juntamente com seus instigadores. Este concílio condenou, como ficou dito, os Valdenses juntamente com os Cátaros, os Patarinos e outros hereges. 

CAPÍTULO VIII

Frederico Barba-Roxa – São João da Mata – Ritos e leis disciplinares desta época. 

Frederico Barba-Roxa – O imperador da Alemanha, Frederico, chamado Barba-Roxa pela cor de sua barba, perturbou durante muitos anos a paz da Igreja. Depois de ter incendiado e reduzido a um monte de ruínas as cidades de Suza, Chieri, Asti e Milão, convocou um concílio e elevou à dignidade pontifícia um anti-Papa excomungado por Alexandre III. Cheio de ira contra o legítimo pontífice, resolveu marchar sobre Roma para vingar-se cruelmente; porém uma terrível epidemia que fez perecer a maior parte de seus soldados, obrigou-o a desistir da empresa. Então determinou dirigir suas armas contra Alexandria da Palha, cidade que o mesmo pontífice tinha mandado edificar para libertar a si e a Itália de suas iras. Sitiou a cidade e quis tomá-la de assalto, mas foram vãos todos os seus esforços. Derrotado pouco depois pelos confederados italianos, na memorável batalha de Lenhano, julgou conveniente humilhar-se e ir pedir perdão ao Papa. Este o recebeu com bondade e levantou-lhe a excomunhão. Frederico, em penitência de seus pecados, foi com seu exército para Palestina, a fim de reconquistar a Jerusalém, mas depois de muitas e gloriosas vitórias, morreu no ano 1199, em um rio da Cilícia, onde fora tomar banho. 

São João da Mata – Achando-se naqueles tempos grande número de cristãos escravizados entre os Turcos, especialmente nas costas da África chamada Berbéria, suscitou Deus, para ir em seu auxílio, a São João, nascido em Mata, cidade da Espanha. Enquanto se achava celebrando a santa Missa em Paris, apareceu-lhe um anjo que descansava suas mãos sobre dois escravos. Conheceu por isto ser vontade de Deus que ele se consagrasse ao resgate dos escravos que tinham caído em poder dos infiéis. Mas para certificar-se melhor da vontade do céu, foi ter com São Felix de Valois, que também levava uma santa vida no deserto. Este santo que tivera a mesma visão, reuniu-se a São João e ambos foram a Roma pedir ao Papa apro­vasse uma ordem que tivesse por fim o resgate dos escravos, podendo-se entregar os próprios religio­sos em troca da pessoa que se quisesse resgatar, toda vez que não se pudesse consegui-lo com dinheiro. O Papa Inocêncio III, que ocupava então a Santa Sé, e que tinha tido igual visão celebran­do a santa Missa, não titubeou em aprovar a nova ordem. (1198). Fundou São João muitas casas de zelosíssimos religiosos e fez duas vezes viagem a Tunis com o fim de exercer ali suas obras de caridade. Irritados por isto os muçulmanos, ultrajaram-no de diferentes maneiras, e finalmente puseram-no sobre um batel ao qual tinham tirado o leme e as velas, para que perecesse no meio do mar. O santo porém com o crucifixo na mão começou a cantar glórias a Deus, ao passo que o barco guiado pela divina Providência, em poucos dias chegou ao porto de Óstia na Itália, trazendo a bordo cento e vinte escravos que ele tinha resgatado. Abatido pelos males sofridos nesta viagem e pelas austeridades de sua vida, morreu João em Roma no ano 1212. 

Ritos e leis disciplinares desta época – No ano 690, por celestial aviso, erigiu-se um altar em Roma, para onde se transladaram as relíquias de s. Sebastião, com o fim de debelar uma horrível epidemia que no mesmo instante cessou. No século oitavo, estabeleceu-se como regra geral para ser observada indistintamente por todos os cristãos e em todos os casos, (excetuando o de enfermidade grave) que ninguém pudesse receber a Santa Eucaristia senão em jejum. Esta lei existia desde o tempo dos Apóstolos; mas como estava sendo esquecida ou descuidada, renovou-se mais severamente, sendo declarado réu de sacrilégio o que se atrevesse a violá-la. Foram instituídas várias confrarias em sufrágio das almas dos defuntos, e começou a se recitar o ofício da Bem-aventurada Virgem. No século nono, Gregório IV ordenou que a solenidade de todos os Santos, já introduzida em Roma no século sétimo, se celebrasse em toda a Igreja em honra de todos os Santos, o que até então não se fazia a não ser em relação aos mártires. No ano 893, João XV registrou nos fastos dos santos a Santo Ulderico, bispo de Augusta, com rito público e solene, com bula chamada de canoniza­ção; o que, segundo parece, nunca se fizera antes, porque os santos eram então canonizados em sua própria diocese por voz do povo e decreto do bispo, ou por decreto de todos os bispos da província eclesiástica à qual pertenciam. No século décimo o bem-aventurado Hermano compôs a Salve Regina, até as palavras nobis ostende. São Bernardo acrescentou, como já dissemos, o clemens, pia, dulcis Virgo Maria. As últimas palavras: Dignare me landare te, Virgo sacrata, etc., afirma-se, pertencem a São Domingos. Introduziu-se em toda a Igreja a solene comemoração dos fiéis defuntos no segundo dia de novembro. A respeito disto é digno de lembrar-se o presente feito à Igreja de Santa Maria de Pinerolo, em 1064 pela princesa Adelaide de Sabóia, marquesa de Suza, em sufrágio da alma de seus pais e particularmente do marquês Odon seu esposo.  No ano 1136, a Igreja começou a celebrar so­lenemente a festa da Conceição de Maria Santís­sima. s. Bernardo se opôs a isto a princípio não porque lhe desagradasse que se desse este maior grau de honra a Maria, porém porque desejava que antes se consultasse a Santa Sé, sem cuja intervenção não queria se tomasse determinação alguma de interesse geral para a Igreja. 
QUARTA ÉPOCA
Desde o IV Concílio de Latrão, XII ecumênico, no ano 1213, até os princípios da Reforma de Lutero no ano 1517. (abrange um período de 304 anos.)
CAPÍTULO I
Quarto Concílio de Latrão – São Domingos e a ordem dos Pregadores – Ordem Franciscana. 

Quarto concílio de Latrão – Inaugurou-se o século treze com o duodécimo concílio ecumênico, que é o quarto de Latrão. Este concílio, convocado pelo Papa Inocência III, reuniu-se em Roma no ano 1215, e intervieram nele 573 bispos e 800 abades. Os decretos que nele foram emanados tiveram tal importância, que se considerou a celebração deste concílio como um fato digno de assinalar época na história eclesiástica. A principal causa que o motivou foi a heresia dos Albigeneses, assim chamados porque começaram a difundir seus erros na província de Albi, em França. Esta heresia era um conjunto de todas as que tinham aparecido nos séculos anteriores, e ensinava, entre outras extravagâncias, como os Maniqueus” que existem dois princípios criadores, Deus e Satanás; que o primeiro criara as almas e o segundo os corpos. Repeliam a autoridade da Igreja e os Sacramentos, vomitavam blasfêmias contra Jesus Cristo e Maria Santíssima, e tinham, além disto, costumes muito relaxados. Como não bastassem as palavras para difundir esta impiedade, punham em obra toda sorte de violências; derrubavam templos, destruíam altares; ameaçavam e matavam a todos os que não queriam seguir suas doutrinas. Não sendo suficientes para pôr um dique a tantas desordens, nem o zelo de São Domingos, exercido por meio de seus sermões, nem o fervor militar de Simão de Montfort, julgou-se necessária a convocação do dito concílio. Foram condenados nele os erros dos Albigenses, e, por lei do mesmo, obrigou-se a todos os príncipes e soberanos a purificar seus domínios da infecção destes hereges turbulentos, sob pena de perderem sua autoridade e todos os seus direitos. Também se tratou nele de alguns pontos da doutrina católica, especialmente sobre a santa Eucaristia. A este respeito foi definido que, depois de pronunciadas pelo sacerdote as palavras da consagração, cessa de existir a substância de pão e vinho, para se converter na substância do corpo e sangue de Jesus Cristo. Para enunciar com maior precisão esta verdade da fé, empregou-se pela primeira vez a palavra transubstanciação. Como naqueles tempos, muitos cristãos se entibiassem muito na piedade, e passassem anos inteiros sem se aproximar dos sacramentos da confissão e da comunhão, foi ordenado que todos, ao chegar ao uso da razão. deviam confessar-se ao menos uma vez por ano, e receber a comunhão pela Páscoa, cada um em sua paróquia. Foi decretado também que aquele que não cumprisse esse preceito, fosse impedido de entrar na Igreja, e que, depois de morto, (morrendo impenitente) se lhe negasse sepultura eclesiástica. Esta lei, ao passo que demonstra a clemência da Igreja que se contentou com o menos possível, é também muito justa, porque é fora de dúvida que já não merece o nome, e se torna indigno de gozar dos direitos de cristão, aquele que não se aproxima de tais sacramentos. 

São Domingos e a ordem dos Pregadores – São Domingos foi escolhido de maneira especial pela Providência para combater aos Albigenses. Nascido na Espanha de nobre família, concluiu seus estudos fazendo assombrosos progressos na ciência e na virtude. Enviado pelo Papa, com outros missionários, para defender a fé contra os Albigenses, os combateu denodadamente, e Deus confirmou sua pregação com brilhantes milagres. Eis aqui um dos principais: Tendo o santo transcrito algumas passagens da sagrada Escritura que mais diziam respeito aos hereges, lhas entregou para que as considerassem atentamente. Reuniram-se estes de noite em forma de concílio e depois de ter lido um deles o escrito de São Domingos, disse-lhe outro: “Atira-o ao fogo; se arder, é sinal que nossa crença é verdadeira; se não, será a dos católicos”. Atiraram o papel às chamas; porém, com admiração de todos, saiu intacto, como dantes. “Atira-o ao fogo de novo, e melhor se conhecerá a verdade”. assim se fez, porém o papel de novo ficou ileso. Atiraram pela terceira vez, e pela terceira vez saiu perfeito.Vendo São Domingos a necessidade de operários evangélicos, para combater a heresia, conservar a fé e retemperar o espírito cristão nos católicos, fundou uma ordem que se chamou de São Domingos, conforme o nome de seu fundador, e dos Pregadores pelo fim principal que estes têm de dedicar-se à pregação. Dedicaram-se estes a princípio a combater a heresia dos Albigenses, porém mais tarde se estenderam por todos os paises cristãos, pregando e trabalhando sem descanso para dilatar o reino de Deus. Inocêncio III antes, e no ano seguinte Honório III, (1216), aprovaram esta ordem. Como causasse profunda magoa a São Domingos ver o grande número de donzelas, que por falta de mestres católicos e de casas de educação de igual gênero, frequentavam as escolas dos Albigenses, fundou uma segunda ordem, chamada de freiras Dominicanas, as quais, ao mesmo tempo que trabalhavam para sua própria santificação, faziam o possível para arrancar as meninas cristãs dentre as garras de heresia. Mas como muitas pessoas não podiam ir se encerrar no claustro, fundou outra ordem, chamada dos Terceiros. Homens e mulheres de toda idade e condição podem professar nesta ordem ainda estando no século, sem fazer votos. A princípio chamou-se milícia de  Jesus Cristo, e devia enfrentar a heresia com todos os meios possíveis. Mais tarde chamou-se ordem terceira da penitência ou dos penitentes, porque os que se inscrevem nela se propõem levar um método de vida perfeita, que se aproxime o quanto possível, ao que se leva no interior dos conventos. Atribue-se a São Domingos a instituição do Rosário, por inspiração que teve da mesma Virgem Maria que aparecendo-lhe em uma capela da Apúlia, mandou-lhe que pregasse esta devoção como arma formidável contra a impiedade. Os fatos corresponderam às promessas, porque com a eficácia dessa devoção foram vencidos os Albigenses. Esta prática se tornou universal, e foi como um grande auxiliar da Igreja Católica. Não se pode dizer, quão grande é o bem feito à Igreja, e quanto o mal, que por ela se tem evitado. Além dos milagres já mencionados, ressuscitou este santo a três mortos, em presença de muito povo. Achando-se próximo à morte, fez com que o deitassem sobre cinza; e chamando a seus religiosos, disse-lhes: “Com a castidade e pobreza sereis agradáveis a Deus e úteis à Igreja”. Morreu em Bolonha no ano 1221, experimentando o doce consolo de ver seus religiosos produzirem em todo o mundo frutos de graça e de bênção. 

Ordem Franciscana – Se São Domingos com a ordem dos Pregadores prestou à Igreja um poderosíssimo adjutório, não foi menos eficaz o que prestou São Francisco de Assis, instituindo a religião dos Frades menores, chamados vulgarmente Franciscanos. Seu nome primitivo era João, e foi chamado Francisco porque falava bem a língua francesa. Desde seus primeiros anos deixou entrever sua grande caridade para com os pobres, pois se impusera uma lei de nunca recusar uma esmola, quando lhe fosse pedida pelo amor de Deus. Encontrando um dia um homem de boa família, porém muito pobre e mal vestido, despiu o traje novo que levava e o obrigou a que o vestisse. Indignado o pai, porque Francisco não queria seguir suas vistas mundanas, deserdou-o expulsando-o de sua casa. “Pois bem, dizia Francisco, já que me abandona o pai que tenho na terra, direi de agora em diante, com mais confiança: Pai nosso que estais no céu”. Saiu logo da cidade de Assis e dedicou-se ao serviço dos leprosos e ao exercício das obras de misericórdia, fixando morada perto de uma igreja consagrada a Nossa Senhora dos Anjos, chamada também da Porciúncula, nome do lugar onde estava situada. Apesar da rigidez de sua vida e da austeridade que professava, viu-se muito depressa à frente de numerosos discípulos, animados de seu mesmo espírito. Levado pelo zelo de salvar almas, dirigiu-se ao Egito, para conseguir a palma do martírio, e se apresentou ao próprio Sultão para pregar-lhe a Jesus Cristo; ali, porém em vez de lhe darem a morte, o cumularam de honras e lhe deram os maiores sinais de veneração. De volta à Europa, fundou muitos conventos, entre os quais figuram um em Chieri e outro em Turim, pois as cidades da Itália tratavam à pórfia de ter entre elas discípulos de homem tão santo. Continuou regendo a santa ordem até sua morte gloriosa, que aconteceu no ano 1226. Dois anos antes de morrer recebeu uma grande graça que anteriormente a ninguém fora concedida. Foi a de ter as mãos e os pés atravessados milagrosamente por cravos e o lado milagrosamente aberto por obra de um Serafim que lhe apareceu; assim Francisco era a imagem de Jesus Crucificado.  No ano 1221, fundou São Francisco sua segunda ordem para as donzelas que desejassem levar uma vida devota e retirada. As freiras franciscanas são chamadas também Clarissas, do nome de santa Clara, que foi sua primeira superiora. Para que o fruto da nova ordem se pudesse estender a maior número de fiéis, estabeleceu São Francisco outra para as pessoas que vivem no século, chamada dos terceiros, a qual também se propagou maravilhosamente por todo o mundo.
CAPÍTULO II 
Santo Antonio de Pádua. – Os Servos de Maria – Décimo terceiro Concílio Ecumênico – São Luiz, rei de França – Festa do Corpo de Deus. 

Santo Antonio de Pádua – Entre os primeiros discípulos de São Francisco sobressai Santo Antonio de Pádua, glória de sua ordem e esplendor de seu século. Nasceu em Lisboa, e aos quinze anos abraçou a ordem de santo Agostinho; porém chegando a Coimbra os corpos de cinco franciscanos, martirizados em Marrocos, sentiu-se arder em desejos de entrar na mesma ordem para conseguir mais facilmente a palma do martírio. Pondo-se em Viagem para ir pregar o Evangelho aos Sarracenos, so­breveio-lhe violenta enfermidade, que lhe fez tomar a resolução de voltar à Espanha. Mas Deus dispôs que fosse à Itália, e que depois passasse à cidade de Pádua, da qual tomou o nome. Começou a pregar ali e nos lugares circunvizinhos com tanta eficácia, que todos ficaram admirados do imenso poder de sua palavra. Conta-se que para ouvi-lo, saíam de noite os habitantes da cidade e iam apinhar-se na Igreja, e que os camponeses abandonavam seus campos, os empregados e trabalhadores suas ocupações para poderem ouvi-lo.  Os milagres, a unção, e fervor, a dignidade, mais angélica que humana, com que pregava, atraiam­lhe tão grande número de ouvintes, que muitas vezes se via obrigado a pregar em campo aberto, vendo reunido em seu redor até trinta mil pessoas. Deus o chamou para gozar do prêmio celeste no ano 1231, aos 36 anos de sua idade. Pelo extraordinário número de milagres que se operaram em seu sepulcro, poucos meses depois de sua mor­te, foi contado no número dos santos. Os

Servos de Maria – Pouco depois da mor­te de São Domingos e de São Francisco teve a Igreja um novo ornamento na ordem dos Servitas ou Servos de Maria. Eis a sua origem: Havia na cidade de Florença uma irmandade chamada dos Laudenses, cujos membros se propunham honrar particularmente a, Santíssima Virgem, rezando e cantando suas glórias. Sete dos principais patrícios da cidade, membros dessa irmandade, enquanto se achavam reunidos em uma igreja, no dia da Anunciação do ano 1233, viram aparecer-lhes a Mãe de Deus, que os exortou a abraçar um método de vida mais perfeita. Resolveram imediatamente fazê-lo e, seguindo o conselho do bispo de Florença retiraram-se para uma pequena casa no campo para viverem ali no retiro, na oração, e na mortificação. Havia passado um ano quando tiveram de voltar à cidade para consultar de novo o bispo acerca de seu estado. Já era tanta sua reputação de santidade, que todo o povo acudiu para vê-los; porém o que mais chamou a atenção naquela circunstância foi que as criancinhas receberam o uso da palavra e todas gritaram à porfia, apontando para eles: Eis os servos de Maria. Entre aqueles inocentes se achava São Filipe Benício, que não tinha ainda cinco meses, e que foi, no decurso do tempo, ornamento da nova ordem. Seria demasiado difícil exprimir por palavra o gozo que experimentaram aqueles penitentes ao serem chamados de uma maneira tão maravilhosa servos da Mãe de Deus. Por isso resolveram dedicar-se inteiramente a seu culto, porém, vendo-se continuamente molestados pelo grande número de pessoas que iam visitá-los, estabeleceram-se no cume do monte Senario lugar muito alto da Toscana. Indicou-lhes também o hábito que deviam trazer como sinal de que estavam consagrados a esta aflita Mãe.Aqueles santos solitários, receberam com o maior respeito as ordens de sua protetora e, guiados e aconselhados pelo bispo, deixaram o hábito de cor de cinza e revestiram-no de cor preta, que foi desde então, o hábito próprio da ordem dos Servitas. Continuaram praticando o mesmo gênero de vida e, em pouco tempo, mereceram a aprovação de São Pedro, mártir dominicano, uma das mais célebres personagens de seu século. Estando em Florença este grande servo de Deus e ouvindo falar dos penitentes do monte Senario, quis julgar de per si mesmo se devia dar crédito a tudo o que publicava a fama sobre suas virtudes. Vi-os, com efeito, e ficou tão persuadido de sua santidade que lhes dedicou uma santa amizade. Apareceu-lhe também a Santíssima Virgem e o certificou com uma visão, de que ela escolhera a Bonfiglio e a seus companheiros, para que se consagrassem especialmente a seu serviço e participassem das dores amargas que ela tinha sofrido; e como eles deviam fundar uma ordem, que teria por fim honrá-la e promover sua glória. Animados por semelhantes oráculos, aqueles humildes solitários, que a princípio se tinham proposto não receber discípulos, resolveram instituir a ordem dos Servitas, particularmente com o fim de cumprir com os deveres de uma sociedade religiosa. Abraçaram a regra de santo Agostinho, que seguem ainda hoje. Aprovou primeiramente o novo instituto o arcebispo de Florença e, pouco depois, foi definitivamente aprovado pela Santa Sé. Os servos de Maria propagaram-se muito rapidamente na Itália, onde já possuíam bom número de casas. Também fundaram institutos em outras partes da Europa, e ainda se encontram conventos destes religiosos nos estados onde foram suprimidas as ordens monásticas. Aqueles sete bem-aventurados fundadores dos Servitas chamam-se, Bonfiglio, Manetti, Dell’Antella, Amadeu, Uguccione, Sostegno e Falconieri. Os fervorosos Servos de Maria continuavam caminhando a grandes passos no caminho da perfeição, e concluíram santamente sua carreira neste mundo no monte Senario, à exceção do bem-aventurado Aleixo Falconieri que chegou até cento e dez anos de idade e morreu em Florença. 

Décimo terceiro Concílio Ecumênico – Tendo neste tempo Frederico II, imperador da Alemanha, perturbado gravemente a paz da Igreja, pensou o sumo pontífice Inocêncio IV em convocar um concílio geral em Lion. Foi o primeiro nessa cidade, e realizou-se no ano 1245. Presidiu-o o pontífice pessoalmente, e se acharam presentes a ele 140 bispos. O principal fim que deu razão à convocação deste concílio foi remediar os graves danos ocasionados à Igreja pelo imperador Frederico. Este, em sua mocidade tinha recebido assinalados benefícios do Papa Inocêncio III; porém, com o correr dos anos, tornara-se ímpio e cruel. Depois de ter cometido muitas violências contra os bispos e os sacerdotes, armou insídias ao próprio Pontífice, que, perseguido em sua cidade, viu-se obrigado a refugiar-se em França. Foi convidado Frederico para assistir ao concílio, porém recusou-se. Examinadas pelos padres suas maldades, foi achado réu de perjuro, por ter violado o juramento que prestara de ir libertar os santos lugares e réu de sacrilégio por ter furtado os bens da Igreja, e proibido aos bispos do império de ir ao concílio, encarcerando aos que iam a ele. Acharam-no também culpado de heresia. Por estas três culpas, o concílio o excomungou, o depôs e privou de todas as suas honras e dignidades. Desde então pareceu que o imperador se achava ferido pela cólera do céu, e já não conseguiu senão derrotas. Morreu, pouco tempo depois, vítima de cruéis remorsos. Também foi ordenado, neste concílio, que os cardeais trouxessem barrete encarnado, para indicar que sempre se achavam prontos a trabalhar para a Igreja e a derramar seu sangue toda vez que assim fosse necessário. Mais tarde usou­se também a cor de púrpura nas batinas e outras insígnias de sua dignidade. No fim do concílio decidiu-se a armar uma cruzada, sob o comando de São Luiz, rei da França, para libertar a terra santa do poder dos Turcos. 

São Luiz, rei de França – Este rei da França, órfão aos 11 anos, foi educado santamente por sua mãe e regente, a ótima rainha Branca. Foi isto causa de, no trono e no meio do fausto mundano, dar ele exemplo da castidade piedade, humildade, fortaleza, generosidade e todas as outras virtudes cristãs. Abrigando a esperança de poder libertar a terra santa que tinha tornado a cair em poder dos Turcos, passou ao Egito para combater ao Sultão em sua própria terra, com numeroso exército. Mas depois de gloriosas vitórias, seu exército foi quase destruído pela peste, e ele mesmo caiu em poder dos inimigos. Durante este tempo deu provas de paciência heróica. Sendo resgatado, foi à Palestina, e ficou ali quatro anos remindo os cristãos que tinham sido escravizados pelos Turcos, e fazendo reedificar e armar as cidades e fortalezas que naquela terra possuíam os cristãos. Ao voltar à França providenciou eficazmente para a reta administração da Justiça e para o incremento da religião, promovendo constantemente o bem e a glória do seu povo. Pelo Impulso de sua piedade tentou levar a cabo uma cruzada contra os Turcos e com este fim desembarcou, à frente de numeroso exército, nas costas setentrionais da África, sitiou Tunis e, apoderou-se do castelo; mas teve de sucumbir vítima da peste e morreu no acampamento a 25 de agosto, aos 55 anos de idade. Ao aproximar-se de seus últimos momentos recebeu o santo viático. Como lhe perguntasse o sacerdote que lho administrava se acreditava que Jesus se achava presente na santa hóstia, respondeu: Não acreditaria melhor, ainda que o visse em todo seu esplendor, como quando subiu ao céu”. Em seus últimos momentos fez-se colocar sobre cinza e com os braços cruzados sobre o peito e os olhos voltados para o céu, pronunciou aquelas palavras do salmo; Senhor, eu entrarei em vossa casa, vos adorarei em vosso santo templo, e glorificarei vos­so santo nome. Isto se deu no ano 1270. Canonizou-o o Papa Bonifácio VIII no ano 1297. Festa do Corpo de Deus – Quanto mais se combatia o dogma da presença real, tanto mais crescia entre católicos o fervor para com Jesus Sacramentado. Este foi o motivo que levou as bem-aventuradas Juliana e Eva de Liège e a outras pessoas piedosas a iniciar a solene festa de Corpo de Deus. Um milagre acontecido em Bolsena foi o que deu o último impulso ao sumo Pontífice decidindo-o a instituir esta grande solenidade. Aconteceu que um sacerdote alemão, que padecia de tentação contra a presença real de Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia, enquanto se achava celebrando a santa Missa na igreja paroquial, viu que a hóstia consagrada derramava Sangue vivo, molhando com ele o corporal, as toalhas e algumas chapas de mármore que se achavam no solo. O Papa Urbano IV, em vista deste milagre e das revelações contínuas que se davam, decretou, no ano 1264, que se celebrasse aquela solenidade em todo o mundo cristão. Santo Tomás de Aquino, a pedido do Papa, compôs o ofício que ainda hoje (final do século XIX) está em uso. 
CAPÍTULO III 
São Tomas de Aquino – São Boaventura – Segundo Concilio de Lion – O jovem Vicente Verner – São Celestino. 

São Tomas de Aquino – Entre os santos que brilharam neste tempo por grande saber e virtu­de, merecem singular menção os doutores. São Boaventura, toscano, e Santo Tomas de Aquino. Este último, nascido, de nobre família napolitana aos cinco anos de idade entrou para ser educado no convento dos Beneditinos do Monte Cassino. Mais tarde, ao manifestar seus desejos de se consagrar a Deus na ordem dos Pregadores, os parentes para impedi-lo encerraram-no em um calabouço. Pessoas infames tentaram-no ali gravemente para ver se lhe faziam perder a pureza, porém saiu Tomas vencedor, afugentando-as com um tição aceso. Saindo do cárcere, foi a Paris, onde estudou teologia sob a direção do célebre Alberto Magno. Ainda que fizesse maravilhosos progressos nas Ciências e na piedade, sabia ocultar de tal sorte seu talento, que seu silêncio era julgado necessidade, pelo que seus condiscípulos chamavam-lhe boi mudo. Mas o mestre, que bem o conhecia, dizia aos que mofavam dele, que algum dia os sábios mugidos do boi mudo ressoariam em toda a terra. Aos 25 anos tomou a seu cargo a cadeira de filosofia e teologia na universidade de Paris. Os ouvintes que corriam para aprender em tão célebre mestre, apelidaram-no o Anjo das Escolas. Certo dia, estando em Nápoles, falou-lhe a Imagem de Jesus Cristo e disse-lhe: “Tomas tens escrito bem de mim; que prêmio desejas?”, Respondeu-lhe: “A Ti somente, ó meu Deus!” Sentado um dia à mesa de São Luiz rei da França, recordando uma questão teológica, encontrou de pronto a solução e dando um golpe com a mão sobre a mesa, exclamou: “Achei o argumento contra Manés”. Lembrando-lhe seu superior que se achava em presença do rei, pediu humildemente perdão; porém o príncipe chamou logo um secretário, a quem ordenou escrevesse os argumentos do Santo Doutor. Ofereceram-lhe o arcebispado de Nápoles, que ele por humildade jamais quis aceitar. O Papa Gregório o convidou para o concílio ecumênico que devia reunir-se em Lion. O santo já se encaminhava para aquela cidade, ao chegar, porém, ao mosteiro de Fossanova adoeceu pediu o viático e completamente absorto em pensamentos celestiais, descansou no Senhor no ano 1274 aos 49 de idade. 

São Boaventura – Boaventura chamou-se João até os quatro anos. Nessa idade foi curado de grave enfermidade pelas orações de São Francisco, que, ao vê-lo são, exclamou: Ó boa ventura! Desde então o menino se chamou Boaventura. Aos vinte e um anos professou as regras de São Francisco. Alexandre de Rales, seu mestre admirando a candura e inocência de seus costumes, costumava dizer: “Parece não ter entrado em Boaventura o pecado de Adão”. Conhecido o talento e a rara prudência que o adornavam, foi eleito geral de sua ordem. Em seguida o Papa Clemente IV o elevou ao arcebispado de Iorque. na Inglaterra, porém fez o santo tantas instâncias junto ao Papa, que este o dispensou de tal encargo. Gregório X o obrigou a aceitar a dignidade de cardeal e de bis­po de Albano. Quando lhe Comunicaram a notícia, acharam-no lavando o material da cozinha. Continuou em sua tarefa como se nada tivesse acontecido; tomou depois a carta e tendo-a exa­minado, prorrompeu em sinais de repugnância, e só para obedecer ao Papa aceitou a dignidade que este lhe propusera. O mesmo Pontífice ordenou-lhe que se preparasse sobre as matérias do concílio de Lion. Falou nele na segunda e terceira sessão, porém depois da quarta foi surpreendido por uma enfermidade que em pouco tempo causou-lhe a morte. Morreu no ano de 1274, aos 53 anos de idade. Tendo ido visitá-lo um dia seu grande amigo são Tomas de Aquino, achou-o escrevendo a vida de São Francisco. “Que não o interrompam, disse: deixemos que um santo escreva a vida de outro santo”. Em outra ocasião perguntou-lhe o mesmo, onde tinha aprendido aquelas coisas admiráveis que ensinava em seus escritos: e ele apontando para o crucifixo respondeu-lhe: “Eis o livro onde aprendo o que ensino”. 

Segundo Concílio de Lion – O XIV concílio geral, II de Lion, foi convocado na cidade deste nome, no mês de maio do ano de 1274. Principal fim deste Concílio era a reunião da Igreja grega cismática com a Igreja católica. Já havia quatro séculos que a Igreja grega, como já dissemos, por obra de Fócio, se tinha separado da Santa Sé apostólica. Ainda que pouco depois tivesse voltado à unidade, todavia pela soberba de Miguel Cerulário, patriarca de Constantinopla, tornou a separar-se completamente da obediência ao romano Pontífice. Porém Deus, no século XIII a chamou de novo à verdade por meio de gravíssimos castigos. Ameaçavam-na continuamente os Turcos e para não cair em suas mãos, necessitava da assistência do Papa. Por isto, o Imperador Miguel Paleólogo mandou uma carta por um legado seu, ao bem-aventurado Gregório X, protestando que ele e todos os seus súbditos desejavam tornar a fazer parte da unidade católica. Alegrou-se muitíssimo o Papa e, para que se tratasse o assunto com a maior, circunspeção, convocou o Concílio de Lion. Assistiram a ele, além dos patriarcas latinos, os representantes do Imperador de Constantinopla e vários patriarcas e bispos orientais, 500 bispos e 1070 abades e insígnes teólogos. Os Gregos abjuraram seus erros, declararam acreditar que o Espírito procede não somente do Pai senão também do Filho, admitiram a existência do purgatório, a validade do Sacramento da Eucaristia consagrada com pão ázimo, e confessaram finalmente, que o romano Pontífice é o verdadeiro e legítimo sucessor de São Pedro, e que é impossível se salvar quem não permanecer unido a ele. O Papa que presidia o Concilio em pessoa, vendo voltar ao redil de Jesus Cristo, a tantos filhos extraviados, em um transporte de alegria, entoou um solene Te Deum, que a uma voz cantaram todos os presentes.

jovem Vicente Verner – Naqueles tempos aconteceu um fato atroz que deu a conhecer quan­to ódio abrigavam os Judeus contra nossa santa religião. Um jovem camponês de Treves (França) chamado Vicente Verner, tinha-se empregado, na idade de 15 anos, com alguns judeus de Vesel, pa­ra trabalhar a pagamento em uma adega. Um dia a mulher que caritativamente lhe dava morada lhe disse: “Verner, chegou a sexta-feira san­ta, os judeus te vão matar”. O inocente jovem respondeu-lhe: “Eu não posso viver senão trabalhando; minha vida está nas mãos do Senhor.” Na quinta-feira santa confessou e comungou e depois voltou para seu trabalho. Os judeus desceram com ele à adega: puseram-lhe uma bola de chumbo na boca para não se ouvirem os gritos, e em seguida ataram-no a um pau de cabeça para baixo, para que vomitasse a santa Hóstia; porém não podendo consegui-lo, açoitaram-no cruelmente. Abriram-lhe logo as veias e o espremeram com tenazes para que saísse todo o sangue de seu corpo. Foi conservado suspenso no ar durante três dias, já pelas pernas, já pela cabeça, até que exalou o último suspiro. Isto se deu no ano 1287. Seu cadáver ainda que enterrado em uma gruta, foi descoberto por luz portentosa que apareceu no lugar onde se achava sepultado. Foi tirado dali e com a honra devida, enterrado em uma capela. Martírio parecido a es­te sofreu em Damasco o Pe. Tomas de Sardenha, nos últimos anos do pontificado de Gregório XVI.  

São Celestino V – Foi São Celestino um dos Papas que deram mui singular exemplo de humildade. Nascido em Sulmona; desde jovem dedicou-se inteiramente à contemplação das coisas celestiais e ao exercício da penitência. Depois de ter levado setenta anos de vida austera e penitente, em um deserto tiraram-no, quase à força, dali no ano 1294 para torná-lo Papa em lugar de Nicolau IV que falecera em 1292. De todas as partes acudiam as multidões para verem o novo Pontífice, que com a fama de suas virtudes e milagres atraia a admiração de todos. Mas cinco meses depois de ocupar o trono pontifício, levado por sua humildade e amor ao retiro, renunciou ao Papado, coisa nunca vista até então; e apesar das vivas instâncias dos cardeais, quis tornar a vestir os humildes hábitos de anacoreta; no fim de dez meses morreu em Sulmona, na Campania, com fama de santidade. Ano 1296. Foi ele fundador dos monges chamados Celestinos.
CAPÍTULO IV 
Jubileu – Décimo quinto concílio geral – Flagelantes – Santa Brígida – Santa Catarina de Sena.  

Jubileu – Era tradição constante entre os cristãos que, indo a Roma no ano secular para visitar a Igreja de s. Pedro e as outras principais basílicas, ficavam perdoados todos os seus pecados. No ano 1300, foi tão grande o concurso, que pareceu se tivessem aberto ali as portas do céu. Muitos peregrinos por causa do aperto de tamanha multidão, pereciam esmagados ao passar a ponte de Sant’Angelo para ir ao Vaticano. Então o pa­pa Bonifácio VIII, reuniu todas as notícias ante­riores e publicou uma bula, em que, depois de indicar a origem e o fim do jubileu, concedeu indulgência plenária a todos os fiéis que confessados e arrependidos visitassem as quatros basílicas principais; indulgência que se devia renovar ca­da cem anos. Uma pintura, obra do célebre Giotto que vivia naquele tempo, e que ainda existe na basílica de Latrão, representa o Papa Bonifácio VIII no ato de publicar dita bula. Clemente VI querendo imitar o jubileu dos judeus, limitou o tempo a 50 anos para que participassem dele maior número de fiéis. Urbano IV considerando ainda que este prazo era demasiado longo, o reduziu a 33 anos. Mais tarde Xisto IV o diminuiu ainda mais, reduzindo-o a 25. Às vezes concedem os Papas jubileus por extraordinárias necessidades da Igreja. Em outros tempos, nas épocas de jubileu, acorria a Roma grande multidão de fiéis; mas agora, os sumos pontífices permitem aos católicos que gozem do jubileu em seus próprios paises.  

Décimo quinto concílio geral – Ao Papa Bonifácio VIII sucedeu Benedito XI, e a este Clemente V, que convocou, no ano 1311, um Concílio geral na cidade de Viena, em França. Tomaram parte nele mais de 300 bispos sem contar um número enorme de prelados inferiores. Foi presidido pela Papa em pessoa, que para isso partiu de sua residência em Avignon. O que principalmente motivou a reunião deste concílio, foram os erros dos Templários. Esta ordem militar instituída em Jerusalém no tempo das cruzadas, tinha tomado esse nome pela habitação que fizera construir perto do templo levantado sobre o sepulcro de Nosso Senhor. Tinham os Templários por ofício defender a Terra Santa, mas depois de terem prestado importantes serviços à Igreja, degeneraram miseravelmente; muitos deles foram acusados dos mais horríveis sacrilégios e desenfreada licença. Por isso o concílio de Viena, tendo ouvido e examinado as acusações apresentadas contra eles, e achando-as bem fundadas, suprimiu a ordem e mandou que transmitissem todas as suas propriedades aos cavaleiros de Malta. Foram condenados também outros hereges; entre eles os chamados Beguardos, Beguinas, e os Irmãozinhos, que junto com a fé cristã, tinham infringido os bons costumes. Para paralisar mais e mais a impiedade dos hereges que afirmavam que não se devia tributar culto divino à Eucaristia, tornou a confirmar o concílio o decreto de Urbano IV; o qual prescrevia, que se celebrasse em todo o mundo e com o maior esplendor a solenidade do Corpo de Deus. Declarou-se também inocente a memória do Papa Bonifácio VIII, que fora acusado injustamente de heresia por Felipe o Belo, rei de França. Não satisfeito este de ter perseguido de diferentes modos ao santo pontífice em vida, tão pouco o queria deixar descansar em paz depois de morto, infamando seu nome. Tratou-se finalmente no concílio, de iniciar uma nova expedição à Terra Santa contra os Turcos.  

Flagelantes – Como se achasse oprimida a Itália por graves calamidades, despertou-se singular entusiasmo de penitência para aplacar a cólera de Deus. Grandes multidões de gente andavam pelas ruas em procissão, para rezar, e se açoitavam até tirar sangue com o fim de implorar a misericórdia do Senhor. Para que tivesse maior êxito esta obra de penitência, formaram-se irmandades, cujo fim era rezar e açoitar-se publicamente; donde tomaram o nome de flagelantes. Semelhante entusiasmo dilatou-se rapidamente no Piemonte e em toda Itália, produzindo em todas as partes grandes frutos espirituais. Não tendo, porém, o Papa nem os bispos aprovado semelhante instituição, degenerou mui depressa em superstição, e pouco depois em heresia. Entre outras extravagâncias, sustentavam os flagelantes que ninguém poderia alcançar o perdão dos pecados, se não se sujeitasse àquela maceração e penitência, proveitosa também, segundo eles para os condenados. Clemente VI condenou formalmente esta heresia, e dirigiu-se, por meio de cartas, a muitos bispos e príncipes seculares, exortando-os a combater aqueles erros e a dissolver reuniões dos que os professavam. Ano 1349. 

Santa Brigida – O século décimo quarto teve um exemplo claríssimo de virtude em Santa Brígida, descendente da real família da Suécia. Na idade de sete anos já deu a conhecer tal desejo de chegar à perfeição, que admirava a todos. Aos dez anos não podia pensar na paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo sem sentir-se comovida até derramar lágrimas. Seu pai, a seu pesar, a fez contrair matrimônio com um príncipe; porém neste novo estado continuou cumprindo com maior fervor ainda suas práticas de piedade, e induzindo a seu esposo a que fundasse um hospital próximo à casa em que viviam, encarregando­se ela própria de cuidar dos enfermos e prover­lhes o que necessitavam. Ia diariamente visitá-los, e todos os dias fazia assentarem-se doze deles a uma mesa e os servia com suas mãos. Morto seu esposo, não pensou senão em Deus, em sua alma, e no Paraíso. Cingia suas carnes um áspero cilício composto de pungentes correntezinhas de ferro, servindo-lhe de cama, ainda mesmo no rigor do inverno, umas taboas de madeira. Jejuava quatro vezes na semana, e na sexta-feira a pão e água. Passava a maior parte da noite em oração, confessava-se com frequência e comungava todos os dias. Levada por um espírito de viva fé, empreendeu a trabalhosa peregrinação aos Santos Lugares: porém à sua volta adoeceu gravemente em Roma e no ano 1375 entregou placidamente sua alma ao Senhor, tendo 71 anos de idade. Santo Antonino refere muitos milagres operados por Santa Brigida, entre outros a ressurreição de dez mortos. Deixou-nos também esta santa oito livros de revelações, que foram elogiados pelos padres do concílio de Basiléia. 

Santa Catarina de Sena – Outra santa de vida muito maravilhosa foi santa Catarina de Sena. Na idade de 5 anos já era chamada a santinha. A solidão, a oração e a abstinência formavam todas suas delícias. Abstinha-se do uso da carne e do vinho, e só se alimentava de ervas cruas. Duas taboas nuas serviam-lhe de cama, de mesa e de cadeira. Uma pesada corrente de ferro servia-lhe de cilício. Não dormia mais do que algumas horas durante a noite e passava o resto no trabalho e na oração. Esteve desde o princípio da quaresma até a festa da Ascensão sem tomar mais alimento do que a santa Eucaristia. Possuía conhecimentos maravilhosos; sabia profundamente a teologia, a filosofia e o que ainda mais admira, é que também entendia do governo dos estados. Indubitavelmente sua ciência não podia ser senão inspirada. Amava em extremo sua pátria; esse amor foi o que a levou a ir a Avignon, para tratar com Gregório XI, sobre a reconciliação dos Florentinos que se tinham rebelado contra a Igreja. O Papa e os cardeais receberam-na com grande respeito e fizeram-na árbitro da paz entre seus concidadãos. Mas a glória que lhe deu maior lustre foi a de ter contribuído poderosamente para a volta dos Papas de Avignon à sua legítima morada de Roma. Enviada pelo Papa para tratar de alguns assuntos com a Rainha de Nápoles, caiu enferma em Roma no ano 1380, e entregou ali sua alma a seu celestial Esposo. Suas visões celestiais e as graças singulares que a adornaram, são extraordinárias entre os mesmos santos, e demonstram até que ponto pode uma alma chegar a ser aceita ao Senhor. 
CAPÍTULO V 
Residência dos Papas em Avignon – Os Papas em Avignon – Grande cisma do Ocidente – Wicleff – Hussitas – O imperador Wenceslau e São João Nepomuceno – Décimo sétimo Concílio Ecumênico. 

Residência dos Papas em Avignon – A antiga sede do romano pontífice, onde São Pedro, divinamente inspirado, colocou o centro de toda a Igreja e do orbe católico, é Roma. Desde São Pedro até o ano 1305 nun­ca saíram dela os Papas, senão obrigados pela violência ou pela perseguição. E nesse caso logo que se viam livres, voltavam à cidade que, pelos seus monumentos religiosos, pelos mártires nela sacrificados pelos santos que a ilustraram, e pelos milagres de que foi testemunha em todos os tempos, com justo título adquiriu o direito de ser a capital do mundo cristão. Neste ano (1305), porém, uma série de tristes acontecimentos obrigou ao Papa a se retirar de Itália e fixar sua residência em Avignon, cidade que se acha na parte da França, chamada condado Venosino. Foi causa principal disto o rei de França e de Nápoles, chamado Filipe o Belo, que muito bem merece o nome de açoite da Igreja. Este queria, como fica dito, imiscuir-se nas coisas da religião, mas como o pontífice se opunha a seus perversos desígnios, a fez sair de Roma. Queria que o Papa fixasse sua morada em França para depender dele, fazendo-se assim Filipe, de certo modo, dono da Igreja. A morte de Benedito XI a Santa Sé esteve vacante quase um ano, sendo depois eleito Clemente V, francês, que foi coroado em Lion no ano 1305. Como continuassem em Roma as discórdias e prepotências, e não estivesse ali segura a liberdade, nem a vida dos Papas e dos concidadãos, o novo pontífice julgou conveniente estabelecer sua residência em Avignon. 

Os Papas em Avignon – Avignon foi, pois, a sede dos romanos pontífices durante setenta anos. Compara-se este tempo com a escravidão que padeceram, por igual número de anos, os judeus em Babilônia, conhecida sob o nome de escravidão babilônica. A Itália, com efeito, não tendo já o Papa, perdeu seu esplendor, e Roma chegou ao cúmulo da desventura. Guerras civis, matanças, saques, violação das Igrejas, monumentos preciosos arruinados, queimados ou vendidos por preço vil, todas as obras de arte abandonadas, morta a indústria, paralisado o comércio, pobreza, fome e trabalhos nos dão uma idéia vaga do que foi Roma sem os Papas. Os habitantes, para salvarem suas vidas e não morrerem de fome, imigravam para outros paises em busca de refúgio mais seguro. assim pois a gloriosa cidade dos Cesares quase se transformou em deserto; nas ruas e nas formosas praças dos Romanos brotava a erva como nos campos. Então se sentiu a necessidade de voltarem os Papas a Roma, não só para o bem da cidade como também para a tranquilidade e paz do mundo. Por isso, de todas as partes se dirigiam ardentes súplicas aos Papas, para que tornassem a fixar sua regular residência em Roma. O célebre Petrarca e mais ainda santa Catarina de Sena, tiveram grande parte nesse extraordinário acontecimento. Finalmente o pontífice Gregório XI, deu por cumprido o desejo de todos os bons e voltou para o antigo domicilio dos Papas. Esta gloriosa volta foi acolhida com aplauso universal e celebrada com grande festa. Ano 1377.

Grande cisma do Ocidente – Haviam já passado quatorze séculos sem que a Igreja fosse perturbada por algum rompimento religioso, quando infelizmente estalou o chamado cisma do Ocidente. Este durante quarenta anos, trouxe os povos e reinos católicos divididos entre si, pois reconheciam a um Papa uns e o outro Papa outros; donde se pode coligir quantos males se seguiram para a Religião. Deu origem a este cisma o fato seguinte:Gregório XI, o animoso pontífice que tornara a estabelecer a sede apostólica na cidade eterna, cessou de viver no ano 1378. Ao eleger o pontífice que lhe devia suceder, uma multidão de descontentes, receiosa de que o novo Papa voltasse à França, amotinou-se ante o conclave, pedindo que por nenhum motivo se elegesse um Papa francês, e que o eleito prometesse estabelecer sua sede em Roma. Os cardeais congregados responderam que nada podiam prometer, porque em assuntos de tal importância não se devia buscar mais do que a vontade de Deus. A eleição recaiu sobre o arcebispo de Bari, chamado Bartolomeu Prignano, que se chamou Urbano VI. Mas os inimigos da paz fizeram desordens e, ameaçando de morte ao Papa e aos cardeais, os obrigaram a se refugiarem na fortaleza de Castel Sant’Angelo, e em casas particulares, ou a fugir de Roma. Apaziguados aqueles tumultos, já tinha o novo pontífice começado a ocupar-se do bem da Igreja, quando doze cardeais franceses e outros quatro de diferentes nacionalidades, proclamaram outro Papa, francês de nação, que sob o nome de Clemente XIII estabeleceu sua residência em Avignon. A morte destes dois pontífices foram eleitos sucessores para ambos, e até chegou a haver três Papas ao mesmo tempo, isto é, Gregório XII, João XXIII e Benedito XIII.      Muitos males sobrevieram à Igreja neste cisma, porque, conquanto um grande número de católicos reconhecesse como Papa o que fora eleito em Roma, contudo, elegendo-se outro em Avignon, o mundo católico achava-se dividido em duas partes. Os soberanos arrogavam-se, além disso, o direito de declarar a qual dos dois seus súditos deviam considerar como Papa; e frequentemente impediam-lhes de conhecer qual era o Papa legítimo. Para remediar a tantos males foram convocados os concílios de Pisa, de Basiléia, de Constança e de Florença.  Permitiu Deus que este cisma afligisse a Igreja, como se disse, por quarenta anos, isto é, até que no concílio de Constança renunciando ao pontificado Gregório XII João XXIII e Benedito XIII, foi eleito o cardeal Othon Colonna que tomou o nome de Martinho V. Este fato aconteceu no ano 1417.  Ainda que este cisma tenha sido uma calamidade gravíssima para a Igreja, contudo a Divina Providência cuidou de que nenhum destes pontífices ensinasse coisa contrária à fé ou aos costumes. Deste cisma, nada se pode deduzir, pois, contra a infalibilidade do romano Pontífice, e não constitui senão uma prova de que a Igreja Católica é obra de Deus, não dos homens. 

Wicleff – Enquanto o cisma dividia a Igreja, esforçava-se a heresia por aniquilá-la. João Wicleff, assim chamado pelo nome da cidade da Inglaterra onde nasceu, foi o corifeu dos hereges daqueles tempos. Ornado de não mediano talento, porém cheio de vanglória, abraçou o estado eclesiástico, confiado em que o sagrariam bispo. Vendo, porém, desvanecidas suas esperanças, rebelou-se contra a Igreja. O bispo de Cantuária e os outros bispos ingleses combateram e condenaram logo a impiedade do heresiarca e de seus sectários. Gregório XI aprovou a sentença destes contra Wicleff, e pouco depois o condenaram de novo no concílio de Constança. Porém Wicleff seguindo o exemplo dos outros hereges, em vez de humilhar-se, inflamou-se em cólera, e deu-se a vomitar blasfêmias contra o Papa, os bispos e particularmente contra o arcebispo de Cantuária, que em consequência disso foi barbaramente assassinado.  Deus porém não deixou impunes aos que se atreveram a ultrajar seus ministros, pois dos que assassinaram ao prelado, alguns ficaram loucos e outros foram condenados à morte pelas autoridades civis. O mesmo Wicleff, enquanto se achava pregando sarcasticamente contra São Tomas de Cantuária, foi surpreendido por uma terrível paralisia, que, ocasionando-lhe mortais con­vulsões, o deformou e retorceu-lhe a boca que fora instrumento de tantas blasfêmias. Enraivecido por não poder já falar, morreu desesperado no ano 1385.  
Hussitas – Os erros de Wicleff passaram da Inglaterra para a Boêmia e originaram a heresia de João HuSS. Chamava-se assim pelo nome da cidade da Boêmia onde nascera. Tendo concluído seus estudos em Praga, começou a espalhar os erros de Wicleff, pelos quais se combatiam as leis da Igreja, a autoridade do Papa, e outros artigos da fé. Citado a comparecer ante o concílio de Constança concordou com isso, e declarou por escrito que queria que o castigassem sempre que pudesse ser convencido de que havia caído em erro. O imperador Sigismundo, com o fim de facilitar os meios para se desculpar, deu lhe um salvo-conduto. Logo que chegou a Constança, mui longe de acatar o juízo da Igreja, recusou retratar-se. Não houve herege com quem se usassem maiores contemplações. Os padres do concílio, o imperador, e todos enfim, pública e privadamente empregaram toda sorte de meios para convencê-lo. Mas como se mostrasse cada vez mais obstinado no erro, conduziram-no à praça pública, e ali o despojaram de seus vestidos sacerdotais e o degradaram. O duque o entregou em seguida aos ministros da justiça, que, conforme às leis do império fizeram-no perecer entre as chamas. Ano 1414.  Discípulo de Wicleff e colega de João Huss na heresia, foi também Jerônimo de Praga, que como se obstinasse também na impiedade, foi como ele condenado às chamas pelo poder secular. Ano 1415.  Os Hussitas, depois da morte de seus corifeus, ainda causaram algumas leves turbulências; porém passado algum tempo, muitos deles reconhecendo-se culpados, abjuraram a heresia e prometeram obedecer ao Papa, que, em vista disso, os absolveu das censuras em que tinham incorrido. Ano 1436.  

imperador Wenceslau e São João Nepomuceno – Naquele mesmo tempo viu-se ocupar um dos tronos da Alemanha, a crueldade confraternizada com a prepotência, com o fim de tornar a um santo sacerdote traidor de seu ministério. Mas alentado este pela divina graça, resistiu heroicamente àquele cruel monarca, e foi o primeiro a receber a palma do martírio por ter guardado o sigilo da confissão sacramental. Reinava na Boemia Wenceslau IV, homem feroz, a quem sempre acompanhava um verdugo, para que se chegasse a ter sede de sangue, pudesse logo acalmá-la matando ao primeiro que encontrasse. Dispusera de tal modo de um aposento que, embora parecesse estar firme ao dar um golpe com o pé, se afundava em um rio. Serviu-se deste meio para matar a muitos e insígnes personagens. Escreveram um dia em seu aposento: Wenceslau, segundo Nero, porém ele em vez de envergonhar-se, escreveu a lápis mais abaixo: Se não fui, sê-lo-ei. Certo dia, porque não lhe agradou uma comida que lhe apresentaram na mesa, mandou que assassem logo ao cozinheiro naquele mesmo lugar onde tinha feito cozinhar aquela comida. Em suas ímpias extravagâncias chegou até a pretender que São João Nepomuceno lhe fizesse conhecer os pecados que lhe revelara em confissão a rainha. O fiel ministro de Jesus Cristo respondeu-lhe que, ainda que o ameaçasse de morte, de nenhum modo o induziria a violar no mínimo o sigilo sacramental. O rei, por algum tempo, tentou-o com blandícias, porém um dia como se mostrasse mais decidido que nunca em obrigá-lo a revelar-lhe os segredos de sua esposa, e como achasse o santo firme em sua negativa, o fez encerrar em uma das salas do palácio real e aí o submeteu ocultamente aos mais horríveis tormentos. Saindo o santo mui maltratado do palácio, preparou-se para a morte e com este fim foi a um santuário da Santíssima Virgem para implorar seu socorro. Ao voltar a Praga, vendo-o o rei de sua janela, o fez vir à sua presença e o intimou de novo lhe revelasse o segredo; porém permanecendo ele firme em sua negativa, mandou-o atirar imediatamente ao rio Moldava. Enquanto o corpo do mártir era levado pelas ondas, foi visto com uma coroa de estrelas ao redor da cabeça. Por isso os cônegos da catedral deram-lhe honrosa e solene sepultura. Assistiu a seu enterro grande multidão de povo. Muitos milagres foram operados sobre seu túmulo, e o Papa Benedito XIII colocou-o no número dos santos. Pouco tempo depois morreu Wenceslau e foi dar conta a Deus de suas crueldades e sacrilégios. 

Décimo sétimo Concílio Ecumênico – Os orientais, que no segundo concilio de Lion tinham entrado de novo no seio da Igreja católica, e dela tinham tornado a separar-se, deixavam entrever novamente vivos desejos de restabelecer a união, porque sentiam outra vez a necessidade do socorro do Papa contra os Turcos. Foi este um dos motivos que determinaram a convocação do concílío geral de Florença, que é o XVII ecumênico. Convocou-o Martinho V, no ano de 1431, na Cidade de Basiléia mais tarde, seu sucessor Eugênio IV o transladou para Ferrara, e dali, por motivo da peste, no ano 1493 foi transladado para Florença. Assistiram a ele pessoalmente o imperador João leólogo, o patriarca de Constantinopla e outros prelados, contando-se entre latinos e gregos, mais de 140 bispos e muitas outras personagens, presididas pelo próprio Pontífice. Foram tratados os pontos da controvérsia e os padres latinos e gregos de pleno acordo declararam que era doutrina revelada nos livros santos e contida na tradição, que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho; que é válida a consagração da Santíssima Eucaristia com pão ázimo; que as almas dos que morrem estando na graça de Deus e livres de toda dívida vão imediatamente ao paraíso, e que ao contrário vão logo para o inferno, se estão manchadas de pecado mortal; que se estão em graça de Deus, porém ainda não acabaram de pagar suas dívidas à divina justiça, vão para o purgatório; que é o Papa o vigário de Jesus Cristo e sucessor de São Pedro, o chefe de toda a Igreja, o pai, e mestre de todos os cristãos, e que a ele deu Jesus Cristo na pessoa de São Pedro, pleno poder de apascentar reger e governar a Igreja universal. Por isso, no dia 6 de Junho, depois do Papa Eugênio celebrar a santa Missa, foi lido o decreto da União, firmado pelo Papa, pelos cardeais, pelos bispos e prelados gregos e latinos, e pelo próprio imperador, que o fez, todavia, debaixo de outra fórmula. Tudo deixava esperar que a união estabelecida com tanta solenidade tivesse de durar para sempre. Vã esperança! De volta a Constantinopla os gregos desdisseram-se de tudo o que tinham feito em Florença e seu cisma ainda continua em nossos dias. Deus porém não deixou sem castigo tão culpável cegueira porque no ano 1453, treze anos depois de ter violado a união, o grande Sultão Maomé II sitiou a cidade de Constantinopla e apoderou-se dela de assalto. Durou três dias o saque, durante os quais foram cometidas as mais horríveis crueldades. Os soldados matavam quantas pessoas encontravam, demoliam as igrejas, destruíam os altares, profanavam os mosteiros e tudo passavam a sangue e fogo. assim aquela igreja que não quis reconhecer a São Pedro que a tratara como pai, caiu sob o sucessor de Maomé, que a tratou como tirano. 

CAPÍTULO VI
 
Milagre do Santíssimo Sacramento em Turim – Maomé II – Descobrimento do novo mundo – São Francisco de Paula – Décimo oitavo Concílio Ecumênico – Disciplina dessa época. 

Milagre do Santíssimo Sacramento em Turim – A história eclesiástica, como já vimos, conta muitos milagres, operados por Deus, confirmando a presença real de Jesus Cristo na SS. Eucaristia. Um destes aconteceu em Turim tão pública e solenemente, que mereceu esta cidade o título de Cidade do Sacramento. Ao anoitecer do dia 6 de junho de 1453, passavam por Turim alguns ladrões, que conduziam um jumento carregado de mercadorias. Vinham de Exilles, lugar perto de Susa, que por graves revezes ocasionados pela guerra, tinha sido saqueado. Atreveram-se a roubar até mesmo uma igreja e levaram até a custódia com a santa Hóstia, que com outros objetos, se achava sobre o jumento. Enquanto atravessavam aqueles ímpios a cidade de Turim, ao chegarem em frente da igreja de São Silvestre, empacou o animal, parou e caiu no chão. Os que o conduziam davam-lhe fortes pancadas para fazê-lo levantar e andar, porém debalde. Neste ínterim, rompem-se as ligaduras de um pequeno embrulho, levanta-se no ar o vaso sagrado, e aparece a Hóstia santa, mais resplandecente que o sol, em presença de todos os que se achavam ali reunidos. Avisado o bispo Ludovico, da família dos marqueses de Romagnano, acode com o clero com grande acompanhamento de povo e em sua presença, abre-se e cai a custódia, ficando radiante no ar a Hóstia Divina. Então de todas as partes ouve-se a multidão exclamar: Ficai conosco, ó Senhor! Novo prodígio! A Santa Hóstia, que até então tinha ficado elevada no ar, descendo pouco a pouco até o cálice que preparara o bispo, é levada solenemente à catedral. No lugar onde se deu esse prodígio foi levantada a igreja do Corpo de Deus. Eis donde teve origem a devoção dos Turineses ao SS. Sacramento. Para conservar e aumentar esta devoção, o arcebispo Luiz Franzoni instituiu em Turim as Quarenta Horas perpétuas que se sucedem alternativamente em cada uma das igrejas da cidade, e nunca falta um núcleo de almas escolhidas que adore a Jesus Sacramentado exposto à veneração pública. 

Maomé II – Este príncipe, instrumento da vingança divina, em seus trinta anos de reinado não cessou um momento de perseguir os cristãos. Depois de ter saqueado Constantinopla, como já vimos, e subjugado o império do Oriente, dirigiu-se até a Itália à frente de formidável exército, com o fim de matar a todos que não aceitassem a religião dos Turcos. Apoderou-se da cidade de Otranto, e fez passar pelas armas a todos os seus habitantes. O arcebispo, que revestido com os hábitos pontificais, animava ao povo que ficas­se firme na fé, foi preso e dividido em duas partes com uma serra de madeira. A notícia da espantosa invasão daqueles bárbaros, tremeu toda a Itália. Deus, porém, que não permite que as tribulações sejam superiores às nossas forças, socorreu de uma maneira inesperada a sua Igreja aflita, tirando do mundo o autor de tantos males. Feriu a Maomé um tumor contagioso que, fazendo-o sofrer dores agudíssimas, lhe causou a morte. Ano 1487. 

Descobrimento do novo mundo – Três eram as partes do mundo que até então se conheciam: Ásia, África e Europa. Começou-se a descobrir a quarta, isto é a América, que em extensão é quase igual às duas últimas reunidas, pelo fim do décimo quinto século. O primeiro gênio que se atreveu a afrontar mares imensos e desconhecidos, com o fim de ir em busca de outro hemisfério foi o genovês Cristóvão Colombo. Reflexivo e inteligente por natureza, persuadiu-se, vendo o sol todo dia esconder-se no horizonte, de que ao outro lado do oceano deviam existir terras habitadas por seres inteligentes, pelo que concebeu o atrevido pensamento de ir descobri-las. Manifestando sua resolução a vários príncipes, a princípio trataram­no estes de visionário. Unicamente o rei de Espanha entregou-lhe, e não com a melhor vontade, o mando de três navios com o pomposo titulo de Almirante do oceano e vice-rei dos reinos que conquistasse. No ano 1492 partiu Colombo em direção do ocidente por mares que, segundo se pensava, até então ninguém se tinha atrevido a navegar. Em sua viagem, ora feliz, ora adversa, teve de lutar terrivelmente não só contra os elementos, senão também e muito mais ainda, contra os homens de sua tripulação que, espantados muitas vezes pelas dificuldades, e temendo morrer de fome ou perecer no mar, queriam a todo custo voltar. Rebelando-se contra seu comandante, concordaram em matá-lo para se livrar dele e voltar à Espanha. Nesta ocasião porém avistam terras desconhecidas e gentes novas, e todos os corações se enchem de alegria. Cinco anos mais tarde, o florentino Américo Vespuccio foi mais adiante do que tinha ido Colombo e deu, ainda que com prejuízo da fama deste, o nome de América àquele imenso pais. O novo mundo ofereceu campo vasto aos obreiros evangélicos. O primeiro destes foi o monge beneditino Bueil, que no ano 1493, acompanhado de doze sacerdotes, levou a luz do Evangelho àquelas nações, que jaziam até então nas sombras da morte. Muitos viajantes que iam àquelas regiões pela avidez do dinheiro, cometiam espantosas crueldades; porém os ministros do Evangelho, levados unicamente pelo desejo de ganhar almas para Deus, converteram tão grande número de índios e plantaram ali de tal modo a fé, que a abraçou e ainda a conserva grande parte da América meridional. O zelo de todos os bispos desta parte da América para com a santa Sé de Pedro resplandeceu admiravelmente no concílio do Vaticano. 

São Francisco de Paula – Pelos fins deste século, floresceu na Itália meridional São Francisco de Paula cuja vida foi uma série maravilhosa de virtudes e milagres. Consistia sua cama em uma pedra, seu alimento em ervas, raízes e um pouco de água, e seu vestido em um cilício armado de pontas de ferro. Bastava-lhe ver um crucifixo para arrebatar-se em êxtase. Quando ouvia falar de Maria, corriam-lhe pelo rosto lágrimas de ternura. Fundou uma ordem que por humildade quis se chamasse dos Mínimos, a qual em curto tempo estendeu-se na Itália, França, Alemanha, na Espanha e até nos paises do novo mundo. A propagação rápida desta ordem foi efeito da santidade e milagres do fundador, e também da virtude de seus discípulos. Parecia que Deus lhe tivesse dado domínio sobre os elementos. Avisado de que se achava próximo a cair um forno de cal devorado pelas chamas, corre sem demora ao lugar do sinistro, entra no fogo, e ali fica até que, composta a fenda aberta, impede a ruína do forno. Um enorme penhasco, desprendido do cume de um monte, rola pela ladeira abaixo ameaçando destruir seu convento; levanta Francisco suas mãos para o céu, e aquela mole pesada se detem no meio de seu caminho. Estando sem água um grande número de trabalhadores, faz brotar uma fonte que não mais se esgota. O dono de uma embarcação, demasiado ávido de dinheiro, recusa-se a levá-lo de graça; em vista disto, estende o santo seu manto sobre as águas, coloca-se sobre ele com seus companheiros, e nesta nova espécie de navio, atravessa o estreito da Sicília. Uma sua irmã, não quer dar licença a seu próprio filho para se fazer religioso; o menino morre mas Francisco manda que tragam o cadáver chama-o de novo a vida, e faz dele um fervoroso discípulo seu. Conhecia as coisas presentes, passadas e futuras e penetrava os segredos mais íntimos dos corações. As austeridades que praticava este homem extraordinário, em lugar de lhe abreviar a vida, prolongaram-na até noventa anos. Tendo ido à França, ali passou desta vida para a outra na quinta-feira santa do ano de 1507. 

Décimo oitavo Concílio Ecumênico – A Igreja católica, sempre solícita em excogitar novos meios para combater o pecado sobre a terra e promover a virtude, convocou, em princípios do décimo sexto século, um concílio ecumênico, que se reuniu em Roma, no palácio de Latrão e foi presidido pelo Papa Julio II. Começou-se no ano 1512, foi continuado por Leão X, encerrou-se no ano 1517. É este o quinto concílio de Latrão e o décimo oitavo geral. Estiveram nele 114 bispos, além dos cardeais e muitos abades. Celebrou-se para remediar às muitas desordens com que ameaçava a Igreja uma reunião de prelados indignos, protegida pelos príncipes seculares, reunião conhecida comumente com o nome de Concílio de Pisa, por causa da cidade onde foram celebradas as sessões. Tinha determinado também o concílio abolir uma lei francesa, conhecida sob o nome de Pragmática sanção.           Compunha-se esta lei de 23 artigos, redigidos em uma reunião projetada no ano 1438 pelas mais influentes personagens eclesiásticas e seculares da França. Havia nela várias coisas contrárias à Igreja, e entre outras se afirmava que um concílio ecumênico é superior ao Pontífice romano o que se acha em aberta contradição com o Evangelho, porque Jesus Cristo estabeleceu o Papa como chefe da Igreja e não ao concílio. Tendo sido fulminado com a excomunhão o conciliábulo de Pisa, vários de seus membros retrataram-se e tornaram a fazer parte da Igreja. Condenou-se a Pragmática, e também foi decretada uma expedição contra os Turcos. Tratou-se igualmente da questão dos Monte-Pios e se decidiu que e licita sua instituição, e que se pode auferir um interesse módico pelo dinheiro que se empresta sobre penhores, pois, este interesse é necessário para compensar os gastos destes bancos. Para impedir os abusos da imprensa, que inventada no ano 1438, já começava desde então a ser um meio de difusão rápida de bons e maus escritos, foi proibido que se publicasse a Sagrada Escritura e todo livro que a interpretasse, ou contivesse coisas que sob qualquer respeito, tivessem relação com a Religião e a moral, se não fossem examinadas e aprovadas pela autoridade eclesiástica. Deve-se aqui notar que nem então, nem nunca a Igreja proibiu a publicação de livros bons e úteis à ciência, à religião e à moral muito ao contrário sempre a promoveu e difundiu por todos os meios a seu alcance; e somente proibiu se publicassem escritos nocivos à fé, ou perigosos para a moral.Até os próprios pagãos não deixavam a seus escritores a liberdade de publicar o que quisessem. Os gregos fizeram queimar em presença do povo os livros de Pitágoras, por irreligiosos, Roma, no tempo da república, proibiu e destruiu os livros das Bacantes em que se ensinavam práticas abomináveis; e César Augusto castigou com o desterro a Ovídio, um dos mais célebres poetas daquela época, por ter composto um poema licenciosoA Igreja, pois, que deve velar, não só pelo bem da Religião, como também pelo da sociedade civil, ao passo que concede plena liberdade à boa imprensa, tem o direito e o dever de por um freio à má. Todos os homens de inteligência e de coração devem, pois, agradecer-lhe o poderoso obstáculo que ela opõe à publicação dos maus escritos. 

Leis disciplinares da quarta época – No século décimo terceiro, Inocêncio III compôs, como comumente se pensa, o Stabat Mater dolorosa e o Veni Creator Spiritus; introduziu-se também o piedoso costume de tocar as Ave Marias pela manhã, ao meio dia e à noite para excitar os fiéis a avivarem sua fé no mistério da Encarnação e recorrer à augusta Mãe do Salvador nas principais horas do dia. Mitigou-se a lei do jejum, deu-se começo ao uso da consoadaisto é, pequena refeição da tarde, que se introduziu insensivelmente; também se tolerou o uso do peixe e vinho em tempo quaresmal, por quanto se crê que antes desta época os fiéis se abstinham de um e de outro. No século décimo quarto condenou-se o erro dos que negavam serem sete os Sacramentos da nova lei. Neste mesmo século foi instituída a festa da Visitação de Maria SS. a Santa Isabel. No século décimo quinto o Papa Paulo II deu aos cardeais, como distintivo, o hábito encarnado, isto é, a púrpura como já vimos. Calixto III mandou que no futuro se celebrasse com rito mais solene a Transfiguração do Senhor, em memória da assinalada vitória que se conseguiu no ano 1455 contra Maomé II, sob os muros de Belgrado.