História Eclesiástica de Dom Bosco

Dom Bosco, o santo fundador da Ordem Salesiana, foi agraciado por Deus com um carisma singular no trato com os jovens, uma devoção que permeou toda a sua existência. Entre os diversos escritos deixados por Dom Bosco, lamentavelmente pouco divulgados, inclusive pela Editora Salesiana, destaca-se a “História Eclesiástica“. Este trabalho, elaborado pelo santo com uma linguagem simples, direta e dinâmica, destinava-se a cativar o leitor jovem e, surpreendentemente, permanece atual em sua essência mesmo após mais de 160 anos.
Foi justamente a “História Eclesiástica de Dom Bosco” a obra escolhida para enriquecer a seção de “História da Igreja” no antigo site “Duc in altum!“. Essa escolha, no entanto, demandou paciência, pois foi necessário aguardar seis anos desde a fundação do site (2002) para finalmente encontrar um exemplar do livro de Dom Bosco, perdido em uma biblioteca.
Agora, ao completarmos 21 anos desde o lançamento original do site “Duc in altum!” e seu relançamento agora como um portal, o “PORTAL DUC IN ALTUM“, temos a satisfação de republicar a “História Eclesiástica de Dom Bosco“. Este gesto simboliza o compromisso contínuo do portal em preservar e compartilhar o legado significativo de Dom Bosco, mantendo viva sua influência atemporal na formação espiritual e intelectual dos jovens.
Querido pai Dom Bosco, pedimos vossa intercessão para que a transcrição da vossa “História Eclesiástica” possa, ainda hoje, servir de instrumento para instruir e inflamar os corações jovens, de todas as idades, ao amor à Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Amém. 8 de maio de 2008.
DOM BOSCO – HISTÓRIA ECLESIÁSTICA
APROVAÇÃO De s. Excia. Revma. o Sr. Arcebispo de Turim Tendo nós lido e atentamente examinado o “Compêndio de História Eclesiástica” escrito pelo muito Reverendo Padre João Bosco, fundador da Congregação de São Francisco de Sales, e tendo-o achado muito oportuno e apto para dar os conhecimentos suficientes de uma coisa tão necessária hoje em dia, como é a História de Jesus Cristo, a todos aqueles que por qualquer motivo não podem dedicar-se a um estudo mais profundo e vasto da mesma, não só o aprovamos, mas também ardorosamente o recomendamos a todas aquelas pessoas que têm zelo por nossa Santa Religião, e particularmente a todos os professores de escola, e a todos os que se dedicam a instruir de modo cristão a mocidade. Turim, Seminário São José, 1872. Lourenço Arcebispo
NOÇÕES PRELIMINARES 
História Eclesiástica e suas divisões – Igreja Católica – Hierarquia da Igreja: Papa, Cardeais, Bispos, Padres. Párocos – Concílios: gerais, nacionais, provinciais e diocesanos. 

I. Histórias Eclesiástica e suas divisões – História Eclesiástica é a narração dos fatos que tem relação com a Igreja Católica, fundada por nosso divino Redentor Jesus Cristo, acompanhada das razões que explicam esses mesmos fatos. A história se distingue da crônica; esta registra simplesmente os fatos segundo a ordem cronológica em que sucederam, aquela intercala a relação dos fatos com as observações que melhor os aclaram e explicam, para poder deste modo deduzir utilíssimos conhecimentos e ensinamentos práticos. A história se divide em seis idades, determinadas pelas épocas em que aconteceu algum fato extraordinário ou alguma mudança notável nos costumes. A primeira época data desde a fundação da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, e se estende até a conversão do Imperador Constantino o Grande, acontecida no ano 312 da era cristã. A segunda época começa com a conversão de Constantino e chega até a aparição do Maometismo no ano 622. A terceira época vai desde a aparição do Maometismo até o II concílio de Latrão em 1215. A quarta época inicia-se com a celebração deste Concílio e vai até a reforma de Lutero em 1517. A quinta época começa com a reforma de Lutero e chega até a morte de Pio VI em 1799. A sexta época começa com a morte de Pio VI e chega até o Concílio Vaticano I em 1869-70. 

II. Igreja Católica – A Igreja Católica é a congregação dos que professam  na íntegra a fé e a doutrina de Jesus Cristo, e respeitam a autoridade do Soberano Pontífice, constituído pelo mesmo Jesus Cristo como Vigário e supremo Chefe visível da Igreja. 

III. Hierarquia da Igreja – Nesta congregação de fiéis existe uma hierarquia eclesiástica, isto é, uma ordem de ministros sagrados estabelecidos para conservar, propagar e governar a mesma Igreja. Esta Hierarquia em parte foi instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo e completada pela Igreja, no exercício da faculdade que recebeu das mãos do mesmo. Nosso Senhor Jesus Cristo estabeleceu: 1º. O Papa, que é o Bispo dos Bispos. 2º. Os Bispos, que além do poder de consagrar o Corpo e Sangue do Redentor e perdoar os pecados, tem a faculdade de comunicar a outrem o mesmo poder, consagrando os Sacerdotes. 3º. Os Sacerdotes, que podem consagrar o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo e redimir os pecados, porém não podem transmitir a outrem este poder. 4º. Os Diáconos ou ministros, que devem ajudar os Bispos e os Sacerdotes no desempenho do seu sagrado ministério. A Igreja estabeleceu: 1º. Dividir em certa maneira, em várias ordens as atribuições dos diáconos, ajuntando os subdiáconos, acólitos, leitores, exorcistas e hostiários. 2º. Que entre os Sacerdotes, alguns tivessem o cuidado de alguma parte da Diocese; isto é, do rebanho confiado aos cuidados do Bispo, dando-lhes o nome e ofício de Párocos, dividindo assim a Diocese em Paróquias. 3º. Que os Bispos tivessem o governo de uma Diocese, e que as Dioceses fossem reunidas em Províncias, presididas por um Arcebispo, com jurisdição sobre os Bispos da mesma Província, chamados sulfragâneos. 4º. Que em alguns reinos e impérios houvesse, à frente de várias Províncias, um Bispo Primaz ou Patriarca, do qual depende os mesmos Arcebispos e as Províncias por eles governadas. 5º. Finalmente que os Bispos das cidades mais circunvizinhas de Roma, capital do Catolicismo, e os Sacerdotes e Diáconos adidos às principais Igrejas da Cidade Eterna formassem como o Senado do Soberano Pontífice, quanto ao privilégio de eleger o Papa, e ajudassem a este na administração da Igreja Universal. A estes foi dado o nome de Cardeais porque todos eles tomam o título de uma Igreja a cujo serviço se acham ligados como portas de um edifício a seus gonzos (em latim cardines). De modo que a Hierarquia instituída por Jesus Cristo e completada mais tarde pela Igreja, compõe-se:1º. do Papa;2º. dos Cardeais;3º. dos Patriarcas;4º. dos Arcebispos;5º. dos Bispos;6º. dos Sacerdotes (Presbíteros);7º. dos Diáconos;8º. dos Subdiáconos (extinto pelo Papa Paulo VI, através do Motu Proprio Ministeria Quaedam de 15 de agosto de 1972);

IV. Concílios – Os Concílios são assembléias de Bispos, convocadas para tratar das questões religiosas e falar sobre as mesmas. Os Concílios podem ser: Ecumênicos ou Gerais, Nacionais e Provinciais. Concílio Ecumênico é a reunião de todos, ou de uma grande parte dos Bispos da Igreja Católica, aos quais convoca e preside pessoalmente ou por delegação, o mesmo Sumo Pontífice. O Concílio Geral decide em última instância as controvérsias religiosas e ditas leis gerais para toda Igreja; porém, nem as sentenças, nem as leis do Concílios Gerais tem força alguma, antes de serem aprovadas pelo Papa; de modo que, o Concílio Geral legitimamente congregado representa toda a Igreja Universal; e suas sentenças, quando trazem a aprovação do Papa, sendo infalíveis, deverão ser tidas como artigos de fé. O Concílio Nacional é a reunião dos Bispos de uma nação ou de um reino, convocados pelo Patriarca ou pelo Primaz, ou mesmo por um Bispo da Província, nomeado para este efeito pelo Sumo Pontífice. O Concílio Provincial é a reunião dos Bispos de uma mesma Província, convocados pelo Metropolitano, isto é, pelo Arcebispo, ou mesmo por outro Bispo coprovinciano, delegado pelo Soberano Pontífice. Também existem os Concílios Diocesanos, que consistem na reunião de todos os Párocos e demais eclesiásticos eminentes de uma Diocese, convocados por seu Bispo. Advirta-se, entretanto, que toda autoridade destes Concílios em resolver questões religiosas, ou ditar sentenças relacionadas com elas, compete exclusivamente ao Bispo; em quanto que nos Concílios Gerais, Nacionais e Provinciais todos os Bispos congregados têm a faculdade de proferir um juízo deliberativo. Nos Concílios Diocesanos os Párocos são simples conselheiros, nos demais Concílios, os Bispos são juízes.
PRIMEIRA ÉPOCA
Desde a fundação da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, até a conversão de Constantino, o Grande. (ano 312 da era cristã).
CAPÍTULO I 
Maria Santíssima e São José – Nascimento do Salvador – Adoração dos Reis Magos – Degolação dos Inocentes – A Sagrada Família no Egito – Disputa com os Doutores – São João Batista – Batismo de Jesus. 

Maria Santíssima e São José – Aproximava-se o tempo para os quais os profetas tinham fixado a vinda do Salvador: todo o mundo esperava um mestre que, baixando do Céu, trouxesse à terra uma regra segura para discernir a verdade do erro e reformar assim os costumes depravados dos homens. Depois de 4.000 anos de contínuos suspiros, Deus decretou o cumprimento do mistério da Redenção. Uma Virgem chamada Maria, foi a mulher venturosa que Deus escolheu para ser mãe de seu Divino Filho. São Joaquim e Santa Ana, ambos descendentes da real estirpe de Davi, e da Tribo de Judá, foram os pais de Maria. Sendo já velhos, e faltando-lhes prole, dirigiram ao Céu suas orações, e o Senhor os ouviu, concedendo-lhes uma filha a que chamaram Maria. Aos três anos de idade foi esta apresentada ao Templo, para que, juntamente com as outras virgens, no exercício da piedade e do trabalho se preparasse desde então para ser digna mãe do Salvador do mundo. (São João Damasceno) Tendo chegado à idade de tomar estado, respondendo a uma voz celeste, foi desposada com São José, varão santíssimo, oriundo de Nazaré, o qual viveu com ela como se fosse uma irmã. Depois de breve tempo, o Arcanjo Gabriel foi enviado para anunciar a Maria a sublime dignidade de mãe de Deus. Certificada Maria que tudo era obra do Espírito Santo submeteu-se à Vontade do Altíssimo, dizendo ao Anjo: Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra. Nascimento do Salvador – Corria o ano 4.000 da criação do mundo e Herodes, chamado o Grande, reinava na Judéia. Maria Santíssima e São José, obedecendo às ordens do Imperador Romano,  César Augusto, se transportaram para Belém, pequena cidade da Judéia para inscreverem seus nomes nos registros do império. Estando as casas da Cidade cheias de forasteiros, tiveram de sair daí e alojar-se em uma gruta que servia de estábulo, onde se achavam dois animais. Em tão humilde local, à meia-noite de 25 de dezembro, nasceu o Senhor do Céu e da terra. Nesse mesmo instante, um anjo revestido de luz deslumbrante, anunciou a boa nova a uns pastores que velavam guardando seus rebanhos, enquanto que uma multidão de anjos fazia ressoar nos ares aquelas palavras celestiais: “Glória Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Os pastores cheios de admiração por tão insólitos portentos, correram pressurosos a Belém e encontraram ali o celestial Menino. Depois de o haverem adorado e reconhecido como seu verdadeiro Deus e Salvador, cheios de alegria voltaram a seus rebanhos bendizendo ao Altíssimo. Aos oito dias de seu nascimento o Menino foi circuncidado e foi lhe posto o adorável nome de Jesus, que quer dizer Salvador, como o tinha ordenado o anjo antes do seu nascimento. 

Adoração dos Reis Magos – Algum tempo depois, alguns sábios do Oriente, guiados por uma estrela prodigiosa, que então apareceu em suas regiões, dirigiram-se à Jerusalém para adorar o recém-nascido Messias. Chegando à Jerusalém perguntaram a Herodes onde havia nascido o rei dos Judeus. A tão estranha pergunta perturbou-se Herodes; reuniu em Concílio os Príncipes e Sacerdotes e os Doutores da Lei e lhes perguntou onde havia de nascer o Messias. A Assembléia declarou que devia nascer em Belém de Judá, segundo a profecia de Miquéias, que, falando do nascimento do Messias, disse: ” E tu, ó Belém de Judá, não és a menor entre as principais de Judá, porque de ti nascerá o chefe que governará meu povo de Israel.” Com tais informações saíram de Jerusalém os piedosos Reis e acompanhando o curso da estrela milagrosa chegaram onde se achava o divino Infante, e humildemente prostrados ofereceram-lhe ouro, incenso e mirra. Em seguida, avisados por um Anjo, regressaram por outro caminho a sua pátria. 

Degolação dos Inocentes e fuga para o Egito – Herodes ao despedir os Reis recomendou-lhes encarecidamente que passassem por seu palácio e o inteirassem de quanto se referia ao novo rei, com o fim, porém, de fazê-lo perecer, temendo que crescendo o despojasse do seu trono. Mas, tendo esperado inutilmente pela volta dos reis, e presumindo por ventura alguma coisa do acontecido no templo, agitado por mil suspeitas, lavrou um decreto em que ordenava a degolação de todos os meninos que não tendo chegado ainda aos dois anos de idade se achassem em Belém e suas circunvizinhaças. Deus, porém, enviou um anjo que comunicou em sonhos a José as brutais disposições de Herodes, pelo que José fugiu para o Egito com Maria e o Menino. Daí só voltou depois que o anjo anunciou a morte de Herodes. Havendo morrido Herodes, a Sagrada Família regressou a Nazaré, sua pátria, cumprindo-se assim a profecia de Oséias que havia dito em nome de Deus: Desde o Egito eu chamei meu filho. (Oséias, cap. 2) 

Disputa com os Doutores – José e Maria juntamente com Jesus, viviam tranquilos em sua pátria, ganhando o pão com o trabalho de suas mãos. Na idade de doze anos, tendo ido Jesus com seus pais a Jerusalém para celebrar a Páscoa, perdeu-se. José e Maria debulhados em pranto, procuraram-no por três dias com incrível ansiedade; finalmente puderam encontra-lo no templo enquanto disputava com os Doutores da lei aos quais causava grande admiração com suas sábias perguntas e respostas. Vendo-o Maria lhe disse: “Filho porque procedeste assim conosco? Vê como teu pai e eu angustiados te procurávamos”. Jesus lhe respondeu: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que nas coisas que são de meu pai me convém estar?” É este o último fato que nos narra o Evangelho da infância de Jesus, que depois de regressar a Nazaré, submisso e obediente a Maria e a São José, se ocupou nos humildes trabalhos de simples artesão, até aos 30 anos de idade. 

São João Batista – Quando o anjo anunciou a Maria a sublime dignidade de Mãe de Deus, disse-lhe também que sua prima Isabel, apesar de sua avançada idade, daria luz um filho destinado por Deus para preparar a receberem o Messias. Maria, sabedora, pela revelação de um anjo, das maravilhas que Deus estava obrando na pessoa de sua prima Isabel, foi logo a sua casa visitá-la e esteve com ela três meses. Seis meses antes do nascimento do Salvador, Isabel deu à luz o filho prometido que recebeu o nome de João ao qual se acrescentou mais tarde o apelido de Batista, porque batizava as multidões. Este menino foi o precursor do Messias. Para fugir aos tumultos do século, retirou-se, ainda muito criança à soledade do deserto onde levou uma vida angélica; seu alimento se compunha de gafanhotos e mel silvestre e não tinha outra vestimenta além da pele de um cameio e um cinturão de couro. Estava João pelos trinta anos de idade quando recebeu ordem do Senhor de ir às margens do Jordão para pregar a penitência e anunciar a chegada do Messias. Todos corriam para ouvir seus sermões e muitos recebiam o batismo. 

Batismo de Jesus – Jesus aos 30 anos de idade saiu de Nazaré para chegar às margens do Jordão, e receber também Ele o batismo. São João como nunca o tinha visto, não o conhecia ainda; entretanto iluminado pelo Espírito Santo, correu a seu encontro nas margens do Jordão, gritando para a multidão que o acompanhava: “Eis aqui o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”. Falando em seguida a Jesus, disse-lhe: “Tu queres que eu te batize, entretanto eu sou quem deveria ser batizado por ti”. Respondeu-lhe Jesus: “Deixa agora porque assim nos convém observar toda justiça”. Chegou São João e o batizou. Terminada a augusta cerimônia, abriram-se de repente os céus, e o Espírito Santo em forma de pomba, desceu sobre a cabeça de Jesus Cristo, fazendo ouvir ao mesmo tempo uma voz que disse: “Este é meu dileto filho, em quem pus as minhas complacências”. Deste modo, Jesus foi proclamado solenemente verdadeiro filho de Deus, enviado para salvar os homens.
CAPÍTULO II 
Vocação dos Apóstolos – Igreja de Jesus Cristo – São Pedro chefe da Igreja – Explicações – Portas do Inferno – Chaves do Paraíso – Primado de São Pedro e de seus sucessores – Infalibilidade dos Sumos Pontífices. 

Vocação dos Apóstolos – Na idade de trinta anos começou o Salvador a pregar sua doutrina. Seus estupendos milagres assombravam as turbas que pasmadas o seguiam por toda parte. Pra o êxito de seus fins sacrossantos escolheu Jesus, de entre seus adidos, doze homens aos quais chamou Apóstolos. Eis aqui seus nomes: Pedro e seu irmão André, Tiago – o maior, João – Evangelista, Filipe, Bartolomeu, Matheus, Thomé, Tiago – o menor, Simão – o zeloso, Judas Tadeu e Judas Iscariotes. Este último foi quem mais tarde traiu o seu divino Mestre. Estes Apóstolos eram uns pobres e simples pescadores, e Jesus Cristo lhes confiou o depósito da fé e os enviou a pregar o Evangelho por todo o mundo, afim de que, como observa Santo Ambrósio, a conversão do mundo não fosse atribuída à sabedoria ou ao poder ao poder dos homens, senão unicamente à divina virtude . (Santo Ambrósio in C. VI, Lucas) 

Igreja de Jesus Cristo – Por Igreja de Jesus Cristo se entende a congregação dos fiéis cristãos espalhados por toda a terra, que vivem debaixo da obediência do Papa, isto é, do Sumo Pontífice de Roma. Chama-se Igreja de Jesus Cristo, porque Ele mesmo a fundou durante sua peregrinação sobre a terra, e porque saiu de seu abrasado Coração e foi consagrada e santificada com seu Sangue; chama-se também assim porque todos os filhos da Igreja constituem uma só pessoa com Jesus Cristo por meio da fé, da esperança e da caridade. Jesus Cristo a encheu de seu Espírito Santo a quem enviou para que permanecesse com ela e lhe ensinasse toda a verdade até à consumação dos séculos. Os Apóstolos foram os primeiros mestres e propagadores da Igreja; e a todos eles, em diversas ocasiões, dirigiu Jesus estas palavras: “Não fostes vós quem me escolhestes; mas eu vos escolhi e vos coloquei para que vades e produzais frutos; e que vosso fruto permaneça. Foi-me dado todo o poder no Céu e na terra: assim como meu Pai celeste me enviou, assim também eu vos envio. O que desatardes na terra, será também desatado no Céu. Aos que perdoardes os pecados serão perdoados; e aos que os retiverdes, serão retidos… Quem vos ouve, a mim ouve, quem vos despreza, despreza a mim e a quem me enviou. Quando comparecerdes em presença dos reis e governadores, não vos preocupeis com o que deveis responder. O Consolador, o Espírito Santo que meu Pai enviará em meu nome, Ele vos ensinará todas as coisas. Ele vos dará ciência e saber a que não poderão resistir nem contradizer todos os vossos adversários. Ide pois, eu sou o que vos envia: pregai o Evangelho a toda criatura ensinando e batizando em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. O que crer e for batizado será salvo, porém o que não crer será condenado… Eu subo a meu Pai celeste, mas não vos deixo sós e permanecerei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”. Com estas palavras instituiu Jesus Cristo a grande Sociedade religiosa, ou a Igreja cuja administração, como se tem visto, confiou aos Apóstolos aos quais prometeu sua assistência contínua até o fim dos séculos. 

São Pedro chefe da Igreja – O Salvador para demonstrar a necessidade de uma autoridade suprema na Igreja, a comparou sucessivamente a um reino e a uma república bem administrados, à fazenda de um grande Senhor, e a uma númerosa família, coisas todas que não podem subsistir sem uma autoridade que governe e dite leis, vele sobre sua observância, reprima aos rebeldes e recompense aos que as observam. O mesmo se dá com a Igreja Católica: chefe absoluto, supremo e invisível da Igreja é Jesus Cristo, seu fundador: e chefe visível instituído pelo próprio Jesus Cristo é São Pedro. De entre os Apóstolos, disse São Jerônimo, escolheu Jesus a São Pedro para dar-lhe a preeminência  sobre todos os outros, afim de que a autoridade divinamente instituída, desvanecesse de antemão todo pretexto de discórdia e de cisma. Eis aqui como São Pedro foi instituído Chefe Supremo da Igreja: Estando Jesus Cristo certo dia nos confins de Cesárea de Felipe, depois de ter orado, por algum tempo, perguntou a seus Apóstolos: “Que dizem de mim os homens? Um Apóstolo respondeu dizendo: Alguns dizem que sois o Profeta Elias”. Outro replicou: “Disseram-me muito que éreis Jeremias ou João Batista ou algum dos profetas que tinha ressuscitado”. O Salvador torna a perguntar: “Porém vós, quem dizeis que eu sou?” Tomando então a palavra Simão Pedro disse: “Vós sois o Filho do Deus vivo que veio a este mundo”. Disse-lhe então Jesus: “És bem-aventurado, Simão, filho de João; porque o que disseste não te foi revelado pelos homens senão por meu Pai celeste; eu e de digo que és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. E a ti darei as chaves das portas do Céu e tudo o que ligares na terra será ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será também desligado no Céu”. (Mat. C. 16) 

Explicações – Estes fatos e estas palavras merecem alguma explicação. Pedro permaneceu silencioso enquanto Jesus não deu a conhecer senão o desejo de saber o que diziam os homens acerca de sua pessoa; mas quando convidou os Apóstolos para exporem seu modo de pensar, Pedro, no mesmo instante falou, como se falasse em nome de todos, porque ele já gozava de certa primazia ou superioridade sobre os demais companheiros. Pedro, pois, divinamente inspirado, disse: Vós sois o cristo: que era o mesmo de dizer: Vós sois o Messias prometido por Deus, que veio para salvar os homens. Filho de Deus vivo: ele aplica a Deus o epíteto de vivo, para diferenciá-lo das falsas divindades dos idólatras, que sendo fabricadas pelas mãos dos homens, não tem vida. Isto também equivalia a dizer: Vós sois o verdadeiro Filho de Deus, o Filho do Pai Eterno, e por isso sois com Ele Criador e Senhor absoluto de todas as coisas. Em seguida Jesus Cristo, com o fim de premiá-lo por sua fé, chamou-o de bem-aventurado, dando-lhe depois os motivos porque desde o dia que o havia seguido, lhe tinha mudado o nome de Simão pelo de Pedro, assim falando: “Tu és Pedro e sobre esta pedra, edificarei a minha Igreja”. Do mesmo modo Deus mudou o nome de Abrão para Abraão quando estabeleceu que ele seria o pai de todos os crentes; o de Sarai em Sara quando lhe prometeu o nascimento prodigioso de um filho; e o de Jacó em Israel quando lhe garantiu que de sua estirpe nasceria o Salvador. Jesus outrossim chamava bem-aventurado a São Pedro, porque tudo o que este tinha dito não lhe tinha sido revelado pelos homens, senão por seu Pai celeste. Aqui transluz a divina assistência à pessoa de São Pedro desde o mesmo instante em acabava de ser eleito o chefe da Igreja; assistência que continuou por toda a sua vida e que continuará nos romanos Pontífices até a consumação dos séculos. Jesus disse em seguida: “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Com estas palavras quis dizer: Tu, ó Pedro serás na Igreja o que nos edifícios são os alicerces; os alicerces constituem a parte principal, a mais indispensável de uma casa, visto sobre eles descansar todo o edifício; assim também tu, ó Pedro serás o fundamento da minha Igreja, isto é, exercerás nela a autoridade suprema que te outorgo, a Igreja se conserve, e permaneça firme e inabalável. Sobre ti, a quem eu chamei Pedro, como sobre uma rocha e uma pedra firmíssima, por minha virtude eterna, eu levanto o edifício eterno da minha Igreja, que descansando sobre ti, será forte e invencível contra todos os ataques de seus inimigos. assim como não há edifício sem base, assim também não há Igreja sem Pedro. Uma casa sem alicerce não pode ser erguida, e se o é, precipita-se ao primeiro impulso; assim também toda a Igreja que se quiser erigir sem Pedro não poderá erguer-se, e se o fizer cairá ao primeiro sopro. Nos edifícios as partes que não descansam sobre os alicerces desabam e caem, assim também na minha Igreja todo aquele que se separa de Pedro precipita-se no erro e se perde. 

Portas do Inferno – As portas do Inferno são constituídas pelo poder de Satanás e representam as perseguições, as heresias, os erros, os esforços e as artimanhas que emprega o demônio para deitar por terra a Igreja. Todas estas potências infernais, juntas ou separadas poderão, sim, declarar guerra aberta à Igreja, obriga-la a estar sempre sob as armas, e por no caminho da perdição os que não forem suficientemente humildes, mortificados e vigilantes na oração; mas nunca poderão vencê-la, antes com todos os seus esforços não conseguirão mais do que aumentar a glória da Esposa do Redentor. 

Chaves do Paraíso – Jesus Cristo disse finalmente: “Eu te darei as chaves do reino dos céus”. As chaves são o símbolo do poder. Quando o vendedor de uma casa entrega as chaves ao comprador dá-lhe com elas a posse plena e absoluta da mesma casa; assim também quando se apresentam a um Rei as chaves de uma cidade simboliza-se com isto que a cidade  o reconhece como Soberano; assim pois o haver entregue Nosso Senhor a Pedro as chaves do Reino dos Céus significa que ele foi feito dono, príncipe e governador supremo da Igreja. Por isso Nosso Senhor Jesus Cristo continuou dizendo a Pedro: “Tudo o que atares na terra será atado no Céu; e tudo o que desatares na terra também será desatado no Céu”. Estas palavras põem em manifesto a suprema autoridade que foi dada a São Pedro; autoridade que obriga a consciência dos homens com decretos e leis em ordem a seu bem espiritual e eterno; e por meio da qual se absolvem os pecados e as penas que impedem conseguir esse mesmo bem espiritual e eterno. É bom notar aqui que também os outros Apóstolos receberam de Jesus Cristo a faculdade de atar e desatar (Mt. c. 17). Mas esta faculdade não lhes foi conferida senão depois de terem sido ditas a São Pedro as palavras magníficas que precedem, para que compreendessem que sua autoridade devia permanecer subordinada à de São Pedro, que foi feito seu príncipe e seu chefe, o qual também fora encarregado de conservar a unidade da fé e da moral. Por isto os demais Apóstolos e todos os Bispos que lhes sucedem devem depender de Pedro e dos Papas que também lhe sucedem para assim permanecerem perpetuamente unidos a Jesus Cristo, que do Céu assistirá seu Vigário e toda a Igreja até o fim dos séculos. 

Primado de São Pedro e de seus sucessores – Tendo ressuscitado o Salvador, antes de subir ao Céu, entregou de fato a São Pedro a faculdade que lhe havia prometido. Aparecendo a seus discípulos no lago de Genesaré, depois de ter tomado com eles algum alimento para que melhor se assegurassem de sua ressurreição, dirigiu-se a Pedro e disse: “Simão filho de João, me amas tu?” “Senhor, respondeu Pedro, Vós bem sabeis que eu vos amo” Jesus lhe disse: “Apascenta meus cordeiros”. O Senhor tornou a perguntar: “Simão filho de João, me amas tu?” “Senhor, respondeu incontinente São Pedro, Vós bem o sabeis que vos amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta meus cordeiros”. Jesus lhe perguntou pela terceira vez: “Simão Pedro, me amas tu mais do que estes?” Pedro, vendo que o interrogava três vezes sobre o mesmo assunto, perturbou-se. Nesse momento lembrou-se das promessas que outra vez lhe tinha feito e a que tinha faltado, temeu por isto que Jesus Cristo não gostasse de seus protestos, como se quisesse predizer-lhe coisas futuras. assim, pois, com a maior humildade, afirmou: “Senhor, Vós sabeis tudo, meu coração vos é manifesto e por isso Vós também sabeis que vos amo.” São Pedro naquele momento, estava seguro da sinceridade de seus afetos, mas não o estava igualmente para o futuro. Jesus que bem sabia o desejo que São Pedro tinha de amá-lO, e a fraqueza de seus afetos, consolou-o dizendo: “Apascenta minhas ovelhas”. Com estas palavras Jesus Cristo constitui São Pedro príncipe dos Apóstolos, pastor universal da Igreja e de todos os cristãos; porque todos os fiéis cristãos, espalhados por todas as partes do mundo e simbolizados pelos cordeiros, devem estar sujeitos ao chefe da Igreja, como os cordeiros estão a seus pastores; e as ovelhas simbolizadas pelos Bispos e demais ministros sagrados, posto que dão alimento da doutrina celestial aos fiéis cristãos, devem fazê-lo estando sempre em boa harmonia, unidos e submissos ao Supremo Pontífice, Vigário de Jesus Cristo na terra. Apoiados nestas palavras de Jesus Cristo, os católicos têm acreditado como verdade de fé que São Pedro foi constituído por Jesus Cristo, seu Vigário na terra, e chefe supremo e visível da Igreja, e que recebeu d’Ele a plenitude da autoridade sobre os demais Apóstolos e sobre todos os fiéis. É claro, pois, que a autoridade de Pedro deve durar enquanto durar a Igreja, isto é, até o fim dos séculos, pois que é certo que os alicerces devem durar o mesmo tempo que dura o edifício que sobre ele descansa; e por isso, depois de Pedro, sua autoridade passará a seus sucessores, que são os Romanos Pontífices. Esta verdade se acha explicitamente exposta em centenas de documentos da antiguidade cristã, e, entre outros, encontra-se formalmente declarada no Concílio Florentino nas seguintes palavras: “Nós definimos que a anta Sé Apostólica, e o Romano Pontífice é o sucessor do Príncipe dos Apóstolos, o verdadeiro Vigário de Cristo, o chefe supremo de toda Igreja, o mestre e o pai de todos os cristãos: e que a ele, na pessoa do bem-aventurado Pedro, foi dado, por Nosso Senhor Jesus Cristo, pleno poder de apascentar, reger e governar a Igreja universal. 

Infalibilidade dos Sumos Pontífices – Querendo São Pedro corresponder a tantas provas de benevolência, e demonstrar ao mesmo tempo sua gratidão ao Divino Salvador, havia declarado várias vezes que estava pronto a dar sua vida por Ele. Não obstante isto, o Divino Mestre o advertiu que não confiasse em suas próprias forças, mas sim no auxílio da divindade. Disse-lhe em seguida que cairia por fraqueza, assegurando-lhe sem embargo que depois se levantaria; encarregou-o de cuidar de seus irmãos e de conservá-los firmes na fé: “Tenho pedido por ti, ó Pedro, disse-lhe Jesus, para que não falte tua fé; e tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos”. <<Rogavi pro te, Petre, ut non deficiat fides tua, et tu aliquando conversus confirma fratres tuos.>> (Luc. Cap. 22) Com estas palavras o divino Salvador prometeu uma particular assistência ao chefe da Igreja, em virtude da qual nunca faltará sua fé, antes ao contrário contribuirá para fortalecer aos demais pastores. Com elas assegurou a São Pedro o dom da infalibilidade, isto é, o preservou do perigo de errar nas coisas que concernem à fé e aos costumes; porque disse a São Pedro que tinha pedido para que nunca faltasse sua fé: assim sendo, quem poderá por em dúvida que a oração de Jesus Cristo tenha sido ouvida? E certamente nosso divino Salvador, assegurou a São Pedro que sua prece tinha sido plenamente escutada: por isso como legítima consequência o encarregou de confirmar na fé os demais Apóstolos. Não se pode, pois, por em dúvida a infalibilidade de Pedro e de seus sucessores, sem afirmar que não foi ouvida a oração do Salvador, absurdo que nunca poderá ser afirmado por um católico. Apoiados pois, os católicos de todos os tempos e de todos os lugares, nesta promessa de Jesus Cristo, sempre tem acreditado com muito poucas exceções, que o Romano Pontífice, como sucessor de São Pedro, é infalível nas sentenças que profere em matéria de fé e de moral. Esta verdade foi depois definida na sessão 11ª do Concílio do Vaticano (Vaticano I), como um artigo que devia necessariamente ser acreditado para se obter a salvação eterna. Eis as suas palavras: ” Nós definimos, que o Romano Pontífice quando fala ex cathedra, isto é, quando no exercício do cargo de pastor e mestre de todos os cristãos, por sua suprema autoridade apostólica, define alguma doutrina acerca da fé ou dos costumes para norma de toda a Igreja pela divina assistência que lhe foi prometida na pessoa do Bem-aventurado Pedro, goza da mesma infalibilidade, que o divino Redentor quis dar à Igreja nas definições das doutrinas acerca da fé ou dos costumes. Pelo que estas definições do Romano Pontífice são por si mesmas, e não pelo consentimento da Igreja, irreformáveis. Que se alguém ousar contradizer esta nossa definição, do que Deus nos guarde, seja excomungado”.
CAPÍTULO III 
Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo; os Apóstolos no Cenáculo – Vinda do Espírito Santo – Primeira pregação de São Pedro – Primeiro milagre de São Pedro – Primeiros Cristãos e primeiros diáconos – Perseguição em Jerusalém – Martírio de Santo Estevão e São Tiago Maior; São Pedro livre do cárcere. 

Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo; os Apóstolos no Cenáculo – O Salvador empregou os três últimos anos de sua vida mortal na pregação do Evangelho, observando rigorosamente todos os preceitos e conselhos que impunha aos outros, e confirmando sua doutrina com os maiores milagres. Dava vista aos cegos, ouvidos aos surdos, a palavra aos mudos, a saúde aos enfermos, e a vida aos mortos; porém a nação judaica correspondeu a tão assinalados benefícios com a mais negra ingratidão, e com suas ameaças e gritos impeliu Pilatos a condená-lo à morte, e morte de Cruz. Jesus permaneceu cerca de três dias no sepulcro, ao cabo dos quais ressuscitou glorioso e triunfante. Deteve-se ainda quarenta dias com seus Apóstolos para melhor os confirmar na fé e esclarecer-lhes as coisas tocantes ao Reino de Deus. Dando assim cabal cumprimento à obra de redenção do gênero humano, estando no cume do Monte das Oliveiras, subiu aos Céus, em presença dos Apóstolos e de sua querida Mãe. Os discípulos obedecendo às ordens que tinham recebido de seu divino Mestre, voltaram à Jerusalém e aí se retiraram para o Cenáculo: (chama-se assim um salão que servia de refeitório ao dono da casa, mas que por obra dos Apóstolos foi transformado no primeiro templo cristão.) Ali juntamente com Maria Santíssima e outros fiéis, cujo número chegava a aproximadamente 120, perseveravam na oração, esperando a vinda do Espírito Santo, como Jesus Cristo lhes havia prometido. Naquela santa comunidade São Pedro, pela primeira vez usou daquela suprema autoridade de que o havia investido Jesus quando o constituiu chefe da sua Igreja: dirigindo-se, pois, à multidão ali reunida disse: “Varões irmãos; era necessário que se cumprisse a Escritura que predisse o Espírito Santo pela boca de Davi acerca de Judas que foi o chefe dos que prenderam Jesus. Mas ele já recebeu recompensa de sua iniquidade: enforcando-se em uma árvore, rebentou pelo meio e se derramaram todas suas entranhas; porém como foi predito que outro devia substituí-lo no Apostolado, é mister que elejamos a um dos que permaneceram conosco durante todo tempo que o Senhor viveu em nossa companhia.”  Todos aprovaram unânimes a proposta do príncipe dos Apóstolos, e lhe apresentaram dois varões conhecidos por sua virtude e santidade: chamavam-se um Matias e outro Barnabé. Depois de ter pedido ao Senhor que desse conhecer qual dos dois havia escolhido para seu Apóstolo, deitaram a sorte e esta caiu sobre Matias que foi agregado aos Apóstolos. 

Vinda do Espírito Santo – Já haviam passado dez dias da Ascensão do Salvador, e então justamente a nação judaica celebrava a festa de Pentecostes, isto é, o dia quinquagésimo da saída do povo de Israel, do Egito. Os Apóstolos juntamente com os demais discípulos continuaram no seu retiro perseverando na oração; pelas nove horas da manhã, ouviu-se de repente um estrondo, assim como o sibilo de um vento impetuoso, e ao mesmo tempo apareceram chamas semelhantes a línguas de fogo, que foram pousar visivelmente sobre a cabeça de cada um deles. Desde esse momento todos ficaram cheios dos dons do Espírito Santo e começaram a falar diversas línguas que antes ignoravam, das quais se valeram para publicar as maravilhas neles operadas e ensinar as verdades do Evangelho. 

Primeira pregação de São Pedro – Achava-se então Jerusalém cheia de um grande número de judeus que tinham vindo para celebrar a festa de Pentecostes. Muitos dos que tinham ouvido o estrondo daquele vento impetuoso se dirigiam no mesmo instante para o Cenáculo, e ouvindo aos Apóstolos, antes homens rudes e ignorantes, falarem ao mesmo tempo idiomas de tantas nações, não sabiam compreender o que estavam vendo. São Pedro  conhecido até então como um pobre pescador, depois de recebido o Espírito Santo, sentiu-se cheio de tal força e valor, que não hesitou em apresentar-se ao público e pregar a divindade de Jesus Cristo aos mesmos que poucos dias antes a gritos o tinham condenado à morte. “Irmãos, lhes disse, ouvi com atenção minhas palavras. O que vedes é o cumprimento da profecia de Joel: sucederá nos dias futuros, disse o Senhor, que eu derramarei meu Espírito sobre todos os homens, e profetizarão vossos filhos e vossas filhas, e vossos jovens terão visões, e vossos anciãos terão sonhos. Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.Varões de Israel, ouvi! A Jesus Nazareno, varão provado por Deus no meio de vós, com virtudes e prodígios, e sinais que Deus obrou por Ele no meio de vós, como também vós o sabeis: a este que por determinado conselho e presciência de Deus vos foi entregue, matastes crucificando-o pelas mãos dos malvados. Deus porém o ressuscitou porque Davi disse dele: Não deixarás minha alma no sepulcro, nem permitirás que teu Santo veja a corrupção. Davi não falava de si próprio, porque morreu e foi enterrado, e seu sepulcro está no meio de nós até hoje. Sendo pois profeta, e sabendo que com juramento havia Deus jurado que um de sua estirpe se assentaria em seu trono, prevenindo-lhe falou da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não foi deixado no sepulcro, nem sua carne viu a corrupção. A este Jesus ressuscitou Deus, do que somos testemunhas todos nós. assim exaltado pela destra de Deus e tendo recebido de seu Pai a promessa do Espírito Santo, derramou este sobre nós, assim como vedes e ouvis. Saiba logo toda casa de Israel com maior certeza que Deus fez Senhor e Salvador de todos, a este Jesus, a quem vós crucificastes”. Este admirável discurso, fecundado pela graça de Deus, deu como resultado a conversão de umas três mil pessoas. 

Primeiro milagre de São Pedro –  Na tarde desse mesmo dia, São Pedro e São João se dirigiam ao templo para fazer oração. Chegando à porta da Casa do Senhor, reparou São Pedro num infeliz coxo de nascimento, que não podendo servir-se de suas pernas, para ali fazia-se levar todos os dias pra pedir esmola. São Pedro compadecido dele, o olhou e disse-lhe: ” Não tenho prata nem ouro, mas dou-te o que tenho: Em nome de Jesus Nazareno levanta-te e anda”. O coxo se levantou; no mesmo instante se consolidaram as pernas e cheio de alegria começo a caminhar. Em um momento correu pela cidade toda a fama de semelhante milagre, e o povo aglomerou-se ao redor de São Pedro para ouvi-lo falar, aproveitou-se da ocasião para pregar pela segunda vez, e o fez com tanta eficácia que mais de cinco mil pessoas, sem contar as mulheres e as crianças, decidiram-se a receber o batismo. Deste modo a Igreja, em breve tempo, pode reunir em seu seio mais de oito mil fiéis, número que foi crescendo desde aquele dia. (Ano 30). 

Primeiros Cristãos e primeiros diáconos – Maravilhosa era a vida que levavam os primeiros cristãos. Achavam-se estes de tal sorte unidos entre si, que conforme expressão da Sagrada Escritura, formavam um só coração e uma só alma. Não havia nobres entre eles, porque os ricos vendiam suas propriedades e entregavam o dinheiro aos Apóstolos para que repartissem conforme as necessidades de cada um; escutavam com grande cuidado a Palavra de Deus; eram perseverantes na oração e assistiam com muita frequência à fração do pão, isto é, à participação da Sagrada Eucaristia. assim era com esses homens, há pouco intemperantes, ambiciosos, avarentos e voluptuosos, ao conhecerem as verdades do Evangelho, confortados pela graça divina, se tornavam humildes e mansos de coração, castos, mortificados, desprendidos dos bens terrestres e dispostos a dar a vida pelo nome de Jesus. Aumentando em seguida prodigiosamente o número dos crentes, os Apóstolos já não podiam atender as todas as necessidades que reclamava a sociedade nascente. Por isso determinaram nomear, conforme as instruções que tinham recebido do Divino Mestre, sete diáconos ou ministros auxiliares, escolhendo-os entre os que se sobressaiam em virtude e graça do Espírito Santo. Repartir as esmolas, cuidar das viúvas e dos órfãos, assistir aos ágapes, eram atribuições dos Diáconos, que em certas circunstâncias também podiam administrar o Sacramento do Batismo, e distribuir a Santa Eucaristia; mais tarde se lhes confiou igualmente a pregação da Palavra divina. 

Perseguição em Jerusalém – Conquanto os Apóstolos pregassem a religião mais pura e santa que jamais viram os séculos, não obstante, desde o princípio da sua pregação, tiveram de lutar com gravíssimas dificuldades, suscitadas especialmente por parte dos judeus. O povo em massa abraçava a fé e também muitíssimos magnatas; porém os chefes da Sinagoga e os Fariseus, insensíveis aos milagres, à inocência de vida, e à santidade da doutrina dos Apóstolos e seus discípulos, declararam contra eles a mais encarniçada perseguição. Começaram por atacar os Apóstolos; mas vencidos por eles, os denunciaram às autoridades que os mandaram açoitar cruelmente e lhes proibiram a pregação da doutrina de Jesus Cristo. Os Apóstolos responderam com sossego e valor: “É mister obedecer a Deus antes que aos homens”. Contentes porque foram julgados dignos de padecer por seu Mestre, adquiriram novas forças; os mesmos açoites lhes inspiravam novos brios e valor.  

Martírio de Santo Estevão e São Tiago Maior; São Pedro livre do cárcere – Santo Estevão, um dos sete diáconos, foi a primeira vítima desta perseguição, sendo ao mesmo tempo o primeiro mártir da fé. Distinguia-se dentre os outros, pelos muitos milagres que fazia entre o povo e por seu extraordinário saber. Os judeus queriam disputar com ele sobre o Evangelho, porém sempre ficavam confundidos porque ninguém podia resistir ao Espírito Santo que falava por sua boca. Por isto se irritaram tanto seus inimigos que o arrastaram fora da cidade e o apedrejaram. Enquanto caia sobre ele uma chuva de pedras, imitando seu Divino Mestre, orava pelos que o apedrejavam dizendo: “Ó Senhor Jesus, perdoa-lhes este pecado”, e assim falando, dormiu no Senhor. Chama-se Protomártir, porque foi o primeiro mártir da Igreja que deu a vida por amor a Jesus Cristo. Pouco depois por ordem de Herodes cortaram a cabeça de São Tiago. Vendo esse rei que perseguindo os cristãos agradava aos judeus, também mandou por em prisão São Pedro, para dar-lhe a morte depois das solenidades da Páscoa; porém um anjo enviado por Deus o livrou milagrosamente na noite que precedia o dia do suplício. assim ficaram burlados os planos de Herodes. O primeiro perseguidor dos Cristãos sobreviveu pouco tempo aos mártires que havia sacrificado. Acometido de agudíssimas dores intestinais, deixou de existir no mesmo momento em que vis aduladores proclamavam suas glórias chegando a ponto de o chamarem deus.
CAPÍTULO IV 
São Paulo e sua conversão – Santa Tecla – Cornélio o Centurião abraça a fé – Simão Mago. 

São Paulo e sua conversão – Com a morte de Herodes cessou por algum tempo a perseguição de Jerusalém. Por este mesmo tempo realizou-se a conversão de São Paulo m dos mais cruéis perseguidores dos cristãos, conhecido até então pelo nome Saulo. Era ele natural de Tarso, capital da Cilícia; seus pais eram judeus da tribo de Benjamin. Dotado de engenho preclaro e de um caráter ardente e empreendedor, foi enviado a Jerusalém para seguir seus estudos sob a direção de um célebre doutor da lei chamado Gamaliel. Este era Fariseu, isto é, pertencia àquela seita de judeus que se dedicavam especialmente à observância e ao estudo profundo da lei, enquanto que sua piedade não era mais do que uma simples exterioridade.São Paulo teve parte na morte de Santo Estevão, pois que ele guardava as roupas dos que o apedrejavam; por isto, como observa Santo Agostinho, era de certo modo tão culpável quanto os que apedrejaram. Mas Santo Estevão morrendo rogara por ele, e Deus, que é dono dos corações, e querendo pode transformar um Tigre feroz num mansíssimo cordeiro, ouviu a oração do primeiro mártir e obrou aquele grande milagre da conversão de Saulo. Eis como se realizou: com o fim de perseguir os cristãos com maior autoridade e com maior êxito, Saulo conseguira cartas do grande Sacerdote de Jerusalém, em que era autorizado a se por à frente de certo número de soldados para ir em busca dos cristãos na cidade de Damasco e levá-los a Jerusalém atados com cordas. Cheio de ódio e furor já havia percorrido a maior parte da viagem, quando de repente viu-se rodeado de uma luz mais brilhante que a do Sol e ouviu uma voz que lhe disse: ” Saulo, Saulo, porque me persegues”? Saulo ferido por aquelas palavras como por um raio, caiu por terra e com voz trêmula, respondeu: “Quem sois vós, Senhor?” A voz continuou: ” Eu sou Jesus a quem tu persegues. É duro para ti recalcitrares contra o aguilhão”. “Que quereis que eu faça, Senhor?” Perguntou Saulo. “Levanta-te, acrescentou a voz, entra em Damasco, e ali ser-te-á dito o que hás de fazer”. Saulo levantou-se e abrindo os olhos conheceu que estava cego, de modo que teve que fazer-se levar à cidade por seus companheiros. Ali recebeu o Batismo das mãos de um discípulo chamado Ananias. Enquanto se lhe administrava este Sacramento, caíram de seus olhos umas como escamas e tornou a ver como dantes; então cheio de gratidão para com Deus, começou a pregar com grande zelo o Evangelho. Os que tinham conhecido o furor de Paulo em perseguir os cristãos ficaram admirados à vista daquela mudança tão repentina; porém ele, vencendo todo respeito humano, não prestava ouvido ao que dizia o povo e discutia com os judeus, provando-lhes com a Sagrada Escritura e com os milagres, que Jesus Cristo era o Messias prometido pelos profetas, enviado por Deus para salvar os homens. A Igreja Católica comemora anualmente a 25 de janeiro o portentoso acontecimento da conversão de São Paulo. 

Santa Tecla – Entre os primeiros frutos da pregação de São Paulo conta-se a conversão de Santa Tecla, que sofreu grandes e atrozes tormentos por confessar sua fé. Conquanto por virtude divina, eles não lhe causassem a morte, considera-se entretanto, como a primeira mulher que ganhou a palma do martírio. Nasceu em Icônio, de pais nobres; na idade de 18 anos foi prometida a um jovem rico daquela cidade; porém ouvindo ela os sermões de São Paulo enamorou-se de tal modo da virtude da virgindade, que renunciou de bom grado àquela vantajosa oferta. O jovem que pretendia a sua mão empregou todos os meios a seu alcance para fazê-la mudar de propósito; mas em vão. Vendo-se enganado transformou seu amor puramente sensual em ódio, e conseguiu fazer padecer à Santa virgem os mais cruéis tormentos porque ela professava a fé cristã. Foi atirada à fogueira ardente; porém fazendo o sinal da Cruz caiu do céu uma prodigiosa chuva que apagou o fogo. Atiraram-na depois aos touros, às feras e, por virtude divina sempre saiu intacta de todos os tormentos. Depois disto ainda viveu em paz por muitos anos, em sua pátria, até que cheia de méritos subiu ao seu Esposo Celeste na idade de noventa anos. 

Cornélio o Centurião abraça a fé – A maior parte dos que até então tinham abraçado a fé eram judeus, ou gentios que já tinham começado a pertencer ao povo judeu submetendo-se à circuncisão. Mas, querendo Deus chamar todas as nações ao conhecimento da verdadeira religião segundo as divinas promessas, começou por derramar suas bênçãos sobre a família de um Centurião romano chamado Cornélio. Morava ele em Cesaréia, cidade marítima do Mediterrâneo; era amado de todos por sua probidade, temia a Deus, fazia abundantes esmolas, e orava frequentemente. Um dia enquanto estava em oração, apareceu-lhe um anjo e lhe disse: “Tuas orações e tuas esmolas subiram até o Trono de Deus. Eis o que deves fazer: manda alguém à cidade de Jope em busca de Simão apelidado Pedro. Ele te ensinará o que deves fazer para salvar-te”. assim que acabou de ouvir estas palavras, Cornélio enviou três de seus servos a Jope. Já estavam eles perto da cidade quando Deus por meio de uma visão fez conhecer a Pedro que tanto os judeus como os gentios eram chamados a seguir o Evangelho; por isto o Príncipe dos Apóstolos partiu sem hesitar no outro dia com eles. Durante esse tempo o piedoso Cornélio reunira em sua casa os amigos e conhecidos para receber o Santo Apóstolo; e apenas o viu, ajoelhou-se humildemente em sua presença. Pedro o levantou, entrou com ele em sua casa e começou a instruir na fé todos os que se achavam ali reunidos. Aida estava falando, quando o Espírito Santo baixou em forma sensível sobre seus ouvintes e lhes comunicou o dom das línguas, do mesmo modo que havia acontecido no Cenáculo de Jerusalém. Por este motivo, Pedro incontinente os batizou e foram estes os primeiros gentios batizados sem ter sido antes circuncidados. 

Simão Mago – Acredita-se que o primeiro que começou a difundir erros contra a fé cristã, foi um samaritano chamado Simão, e apelidado de Mago pelos sortilégios que operava para enganar o povo. Fingindo-se sequaz do Evangelho, conseguiu ser batizado; em seguida apresentou-se a São Pedro para comprar com dinheiro o poder de fazer milagres do mesmo modo que ele os fazia. Negou-se Pedro horrorizado e lhe respondeu: “teu dinheiro pereça contigo, porque com ele acreditaste poder comprar os dons do Espírito Santo”. Por isso declarou-se inimigo dos cristãos e empregou toda espécie de artes e engano para opor-se aos progressos da fé. Também foi a Roma para semear seus erros entre aquele povo mergulhado ainda na idolatria; mas querendo dar provas de seu poder elevando-se no ar sustentado visivelmente pelos demônios, São Pedro e São Paulo fizeram oração a Deus, e o infeliz Simão caiu vertiginosamente em terra e se fez em pedaços pondo-se em manifesto a impostura.
CAPÍTULO V 
Separação dos Apóstolos e seu Símbolo de Fé – Livros do Novo Testamento – Morte de Maria Santíssima – Milagres de São Pedro – Concílio de Jerusalém – Perseguição de Nero – Martírio de São Pedro e São Paulo.  

Separação dos Apóstolos e seu Símbolo de Fé – Os Apóstolos começaram a pregar o Evangelho na Judéia, não separando-se muito uns dos outros; porém quando reconheceram que tinha chegado o tempo de levar a luz da verdade a todas as nações, determinaram, separar-se, repartindo-se o mundo, por assim dizer, escolhendo uma parte cada um para exercer o ministério apostólico. antes porém de fazê-lo, reuniram-se e de comum acordo fizeram um compêndio da Religião cristã, que chegou até nós sob o nome de Símbolo dos Apóstolos e se chama comumente o CREDO. Depois de feito isto, separaram-se para levar o Evangelho a todas as nações. São Pedro ficou cerca de três anos em Jerusalém, e obrigado pela perseguição, transladou-se para a Antioquia, que era então a capital do Oriente. Nesta cidade cresceu tanto o número dos fiéis, que para distingui-los dos outros começaram a chamá-los cristãos, que quer dizer sequazes de Jesus Cristo. Desde Antioquia São Pedro ia pregar nas cidades e povoações vizinhas e depois de sete anos, isto é, no ano 42 da era cristã, foi a Roma. São Paulo levou a fé à Arábia, Ásia Menor, à Macedônia e à Grécia, e depois foi unir-se a São Pedro na capital do Império Romano. São Tomé pregou em Jerusalém, entre os Partos e nas Índias; São João Evangelista deteve-se especialmente na Ásia Menor; Santo André evangelizou os Citas e obteve a Palma do martírio em Patras cidade da Grécia; São Felipe foi a Ásia Menor; São Bartolomeu à Armênia, onde padeceu um martírio atroz, sendo esfolado vivo; São Matheus trabalhou muito para a conversão dos Etíopes e foi coroar seu apostolado com o martírio na Pérsia. São Tiago, o maior, evangelizou a Judéia e também a Espanha. São Judas Tadeu pregou a fé na Arábia, na Mesopotâmia e na Armênia. assim depois de trinta anos da primeira pregação do Evangelho por São Pedro em Jerusalém, o verdadeiro Deus tinha adoradores em todas as partes do mundo até então conhecido. 

Livros do Novo Testamento – Nosso Senhor Jesus Cristo, depois de haver pregado de viva voz sua doutrina, subiu aos Céus sem deixá-la escrita nem reunida em livro algum ditado por Ele. Por que o fez assim? Para nos ensinar que Ele tinha feito depositários de sua doutrina os Apóstolos, isto é, a Igreja que devia depois explicá-la aos fiéis: ensinando-nos também que o principal instrumento da sua palavra devia ser a viva voz da sua Igreja. Com efeito, nos primeiros tempos, durante o curso de não poucos anos, o santo Evangelho foi conservado, ensinado e professado tão somente por meio da palavra viva dos Apóstolos e dos primeiros crentes.  Nosso Senhor Jesus Cristo querendo, por outra parte, que ao menos uma grande parte da sua doutrina fosse confiada à palavra escrita, por inspiração divina moveu alguns dos Apóstolos e primeiros discípulos a por escrito sua vida e doutrina; e os livros por eles escritos formam juntos o que nós chamamos de Novo Testamento. Foram estes escritos: os quatro Evangelhos, escritos por São Matheus, São Marcos, São Lucas e São João; os Atos dos Apóstolos; as quatorze epístolas de São Paulo, duas de São Pedro, uma de São Tiago, uma de São Judas, e finalmente, três epístolas e o Apocalipse de São João. Estes livros sempre têm sido conservados em grande veneração por todos os cristãos, pois que foram inspirados por Deus. Sem embargo, como já foi dito, não se acham neles todos os feitos da vida de Jesus Cristo, nem todas as verdades ensinadas por Ele. As verdades não escritas foram ensinadas e transmitidas pelos Apóstolos e seus sucessores como um sagrado depósito que se chama Tradição divino-apostólica. A Tradição divino-apostólica contém as verdades que não se encontram escritas nos livros sagrados, a interpretação destes mesmos livros: por isso, quando a Igreja define um artigo de fé que não está manifesto na sagrada Escritura, o tira desse depósito chamado Tradição. Daí se tirou o dogma da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria e da infalibilidade Pontifícia. 

Morte de Maria Santíssima – O Doutor da Igreja São João Damasceno narra nestes ou semelhantes termos a morte ou assunção de Maria Santíssima desta vida mortal para a glória do Céu, que se acredita tenha-se dado aos 62 anos de sua idade e doze depois da Ascensão do seu divino Filho. Tendo chegado o tempo em que Deus queria livrar deste desterro a Rainha dos Anjos, os Apóstolos que se achavam dispersos em diversas partes do mundo pregando o Evangelho, por virtude angélica encontraram-se todos reunidos em Jerusalém ao redor do leito de Maria juntamente com São Dionísio, bispo de Atenas e de São Timóteo, bispo de Éfeso. Maria exalou seu último suspiro, não de dor, mas de puro amor de Deus, à semelhança de quem docemente adormece. No mesmo instante ouviu-se naquela habitação uma salmodia celestial, cujos ecos ressoaram por três dias e ainda continuaram enquanto se levava em procissão seu corpo para o horto de Getsêmani para ser enterrado. São Tomé não se achava presente quando se deu a preciosa morte de Maria, e tendo chegado ao terceiro dia, pediu  por favor, já que não podia vê-la viva, que ao menos se lhe permitisse, por uma vez mais venerar seu santo corpo. Com este fim se dirigiu com os outros Apóstolos ao sepulcro: quando chegaram, já tinham cessado os cânticos celestiais; abriram-no, olharam-no, porém não viram ali o corpo de Maria, mas somente os panos em que o tinham envolvido, os quais ainda exalavam perfumado odor. Cheios de admiração não puderam acreditar noutra coisa senão que o Deus Verbo, o Senhor da glória, o mesmo que setinha comprazido de encarnar-se na própria pessoa da Virgem Maria, e tinha-se feito homem conservando intacta a virgindade de sua Mãe, também se tinha comprazido em honrar o seu corpo imaculado depois de sua morte, conservando-o incorrupto e transportando-o para o Céu antes da ressurreição comum e universal. A Santa Igreja celebra todos os anos, no dia 15 de agosto, a Solenidade desta maravilhosa Assunção de Maria.  

Milagres de São Pedro – Os meios principais de que se serviam os Apóstolos para confirmar a doutrina que pregavam era a santidade de vida e os milagres. Os que faziam São Pedro eram tantos e tão ruidosos que não só no número como em grandeza excediam aos do próprio Redentor: curava os enfermos de toda a classe, que a ele levavam em tão grande número que quase se tornava impossível aproximar-se dele. Por conseguinte nas praças e nas ruas e em qualquer parte por onde passava levavam-lhe grande número de enfermos, afim de ao menos os tocasse sua sombra, pois era suficiente para curá-los. Entre outros é maravilhoso o milagre que operou em Jope ressuscitando uma Santa matrona anciã, chamada Tabita, comumente conhecida pelo nome de mãe dos pobres. Tendo enviuvado, empregou suas grandes riquezas em socorrer os necessitados. Aflitos estes por terem perdido nela a sua mãe, foram à procura de São Pedro para que viesse ressuscitá-la. Este acudiu logo, e ao chegar à casa da defunta, viu-se rodeado por uma multidão de pobres, mergulhados na mais profunda dor, os quais lhe mostravam os vestidos e os calçados que Tabita lhes tinha dado para se cobrirem. Pedro chorou com eles e, cheio de confiança em Deus, aproximou-se do cadáver e disse em voz alta: ” Tabita levanta-te!”. No mesmo instante Tabita abriu os olhos e sentou-se. Quando se divulgou a notícia deste milagre, muitos daqueles cidadãos converteram-se à verdadeira fé.  

Concílio de Jerusalém  Desde o tempo dos Apóstolos quando suscitavam-se questões concernentes à religião, apelava-se para o Chefe da Igreja. Este, nos assuntos de maior importância e quando achava conveniente, reunia os demais Apóstolos e também os principais eclesiásticos para que lhe ajudassem a conhecer a vontade do Senhor ou a promulgar e por imediatamente em execução as resoluções que se tomavam. a Sagrada Escritura recorda três reuniões especiais dos Apóstolos em Jerusalém, celebradas com o fim de tratar de alguns assuntos concernentes ao bem dos fiéis: a primeira vez se reuniram afim de prepararem-se para receber o Espírito Santo, e eleger a São Matias em lugar do traidor Judas; a segunda para escolher os sete Diáconos; e a terceira, que foi a que se chamou propriamente Concílio, e que serviu de certo modo de modelo aos Concílios que foram celebrados posteriormente  pela Igreja, foi convocado para se decidir se já tinha chegado o tempo de suprir as cerimônias da lei mosaica, entre as quais se acham a circuncisão e a abstinência de carne de certos animais. Suscitou-se a questão na cidade de Antioquia, cujo fiéis delegaram a São Paulo e São Barnabé para que fosse consultar a São Pedro, que se achava então em Jerusalém. São Pedro para definir mais formalmente o ponto, convocou os demais Apóstolos e Eclesiásticos que se achavam em Jerusalém; e tendo se reunido, ele como chefe, pastor supremo e vigário de Jesus Cristo na terra, propôs a questão, falou acerca do que devia estabelecer-se, e depois de um longo e animado discurso pronunciou a sentença à qual todos aderiram começando por São Tiago o Menor. Em seguida foi formulado o decreto que devia ser enviado a todos os fiéis, e que é do teor seguinte: “Aprouve ao Espírito Santo e a nós outros, que não vos se impusesse mais carga do que a necessária, que vos abstenhais do sacrificado aos ídolos, do sangue, do sufocado, da fornicação, das das quais coisas abstendo-vos, obrareis bem”. Convém notar aqui que sendo a fornicação um pecado gravíssimo, proibido pela própria lei natural e pelo sexto preceito do decálogo, parece que não era necessário renovar a proibição: porém, acreditou-se necessário proibi-la novamente de maneira mais explícita e clara porque os gentios que abraçavam a fé, antes de receberem as luzes do Santo Evangelho acreditavam que a fornicação não era pecado: tanto se lhes tinha ofuscado a luz da razão! Depois deste discurso já não teve vigor o preceito da antiga lei (ano 51).

Perseguição de Nero –  No reinado dos imperadores romanos dos três primeiros séculos, desencadearam-se cruéis e sangrentas perseguições contra os cristãos, com o fim de impedir os progressos do Evangelho; as principais chegam ao número de dez. Para compreender as causas das perseguições é mister advertir, que no império romano era rigorosamente proibido pregar ou professar novas crenças que não fossem aprovadas pelo Estado: por conseguinte todos os que pregavam ou professavam o Evangelho, nos países submetidos aos Romanos, expunham-se a um evidente perigo de morte. outra causa destas perseguições era também a freqüente confusão que havia entre cristãos e judeus, pois a estes últimos queriam destruir. Mas o principal pretexto era constituído pelas graves calúnias com que os pagãos, e especialmente os sacerdotes dos ídolos acusavam os cristãos para torná-los odiosos diante das autoridades civis. Por estas razões foi perseguida a fé com encarniçamento logo que começou a ser pregada em Roma. Nero, chamado na História o verdugo do gênero humano, fez incendiar Roma somente pelo prazer de vê-la arder. Este fato, como é de supor-se, excitou contra ele grande indignação, e este para se ver livre de semelhante crime, culpou aos cristãos e os condenou à morte. Em muito concorreu para que aumentasse sempre mais o ódio contra os sequazes de Jesus Cristo, o ter as orações de São Pedro e São Paulo causado a ruína de Simão o Mago, e obtido a conversão de muitos do próprio palácio imperial. Irritado contra eles, o imperador, como leão furioso contra um rebanho de cordeiros, inventou os mais cruéis suplícios para os atormentar, e chegou a tal ponto sua crueldade, que os próprios pagãos, compadecidos dos cristãos, censuravam seus atos. Com efeito, por um excesso de crueldade, até então desconhecida, fez cobrir alguns com peles de feras para arrojá-los depois a cães esfaimados e a outros os fez envolver em trapos, coberto de piche e enxofre e atados depois a postes os fazia acender durante a noite para servirem de luminárias nos jogos dos circos.

Martírio de São Pedro e São Paulo – Os dois mártires mais insígnes da perseguição de Nero foram os príncipes dos Apóstolos, São Pedro e São Paulo. Conhecendo a violência da perseguição, correram a Roma para administrar os consolos da religião e assistir aos que se achavam em perigo de perder a fé. Acreditando Nero que com a morte dos chefes dos cristãos eles se dispersariam e já não se falaria deles no mundo, mandou buscá-los e encarcera-los na prisão Mamertina, a mais escura de Roma, que se achava ao pé do Capitólio. Apesar de metidos em algemas não deixaram os Apóstolos de trabalhar para a salvação das almas, por meio dos sermões converteram os dois carcereiros Processo e Martiniano e mais quarenta e cinco companheiros seus.Estes receberam o batismo com água que, a mandado de São Pedro, brotou milagrosamente num canto da prisão, e que ainda em nossos dias continua brotando; todos eles morreram mártires. Sabedor destas novas, irritou-se ainda mais Nero; ordenou que se desse a morte aos dois Apóstolos, mandando que São Pedro fosse crucificado e São Paulo decapitado. São Pedro, por humildade, pediu que o crucificassem de cabeça para baixo, e ganhou a palma do martírio no ano 67 da era vulgar, na idade de 86 anos. Sepultaram-no no Vaticano, no mesmo lugar onde,depois, Constantino edificou a grande Basílica de São Pedro. No mesmo dia em que são Pedro subiu ao Céu, São Paulo foi levado a três milhas de Roma para um lugar denominado Águas Sálvias, onde lhe cortaram a cabeça. Esta caindo por terra, deu três saltos, e em cada um dos lugares onde tocou, brotaram outras tantas fontes que existem ainda hoje.
CAPÍTULO VI 
São Lino Papa – Morte de Nero – Ruína de Jerusalém e dispersão dos Judeus – Trabalhos e martírio de São Lino. 

São Lino Papa – Devendo a Igreja de Jesus Cristo durar até a consumação dos séculos e receber em seu seio materno todos os que quisessem se abrigar nele, também devia ter em todos os tempos um chefe visível que visivelmente a governasse, por isso alguém devia substituir São Pedro no governo da Igreja Universal! O primeiro sucessor de São Pedro foi São Lino, de Volterra, cidade da Toscana. Enviado a Roma por seus pais para cultivar os estudos, teve a felicidade de ouvir São Pedro que nesse tempo tinha começado a pregar o Evangelho naquela cidade. instruído na fé por mestre tão distinto, tornou-se muito depressa fervoroso cristão. A virtude, a ciência e o zelo do discípulo influíram para que São Pedro o consagrasse sacerdote e o escolhesse para companheiro nas suas apostólicas peregrinações. Acredita-se que quando São Pedro foi ao Concílio de Jerusalém, sagrou bispo a São Lino e o nomeou seu vigário em Roma, enquanto durava sua ausência. à sua volta confiou-lhe uma importante missão na Gália, que ainda se achava mergulhada na idolatria. Chegando este a Besançon, encontrou próximo às portas da cidade um tribuno chamado Arnósio o qual lhe falou do seguinte modo: “- Quem és tu e donde vens? – Venho de Itália, respondeu Lino. E para onde vais? – Vim aqui para pregar a religião de Jesus Cristo. – Que religião é essa?” Lino começou então a falar-lhe da verdadeira fé; desejando porém o tribuno que sua família também ouvisse o novo missionário, levou-o à sua casa. Ouvindo-o, todos se converteram e a casa de Arnósio se transformou em Igreja. Rebentando pouco depois a perseguição de Nero, Lino voltou a Roma para ajudar a São Pedro a quem efetivamente acompanhou no cumprimento dos deveres do santo ministério e depois governou a Igreja, durante a prisão dos Príncipes dos Apóstolos. Também acompanhou ao martírio o seu querido mestre, e depois de sua morte, com a cooperação de São Marcelo e outros fiéis, entre os quais se faz menção de um chamado Apuleio, o sepultou aos pés do monte Vaticano, junto ao circo de Nero, como lugar mais seguro. Isto prova que entre os comensais deste perseguidor havia cristãos ocultos, muito fervorosos e poderosos. Acreditasse que São Pedro receando que a Igreja, naqueles tempos calamitosos, ficasse sem pastor, nomeou aos santos Lino, Cleto, Clemente, e Anacleto para que sucessivamente fizessem suas vezes no pontificado; de acordo com isto São Lino sucedeu a São Pedro no ano 67 da nossa era. Durante seu pontificado deram-se muitos acontecimentos, entre os quais os mais notáveis são a morte de Nero e a destruição de Jerusalém. 

Morte de Nero – Este tirano depois de ter posto em jogo toda sorte de crueldades contra os cristãos, caiu no desprezo dos seus súditos, que se rebelaram contra ele e proclamaram outro imperador chamado Galba. Esta nova causou tal espanto a Nero que fora de si arrojou à terra a mesa sobre que comia, quebrou em mil pedaços os vasos de grande valor, e deu com a cabeça contra as paredes da casa. Quando lhe foi levada mais tarde, a notícia de que o Senado o tinha condenado à morte, fugiu de seu palácio durante a noite, começou a correr pela cidade implorando o socorro dos seus amigos; porém estes o rechaçaram, porque os malvados não têm verdadeiros amigos. Buscando ainda algum meio de salvação, cobriu-se de um grande manto, e montado em um cavalo passou despercebido entre seus inimigos, ao mesmo tempo em que por todas as partes ouvia-se o grito de “morte a Nero!”. Chegando à casa de campo de seu criado chamado Fauno, tratou de esconder-se; porém vendo que ali estava rodeado de soldados, não sabendo o que fazer para não morrer em público, suicidou-se atravessando a garganta com um punhal. assim morreu esse monstro, cruel entre os mais cruéis tiranos, e autor da primeira das dez grandes perseguições suscitadas pela política romana contra os cristãos (ano 71 da nossa era). 

Ruína de Jerusalém e dispersão dos Judeus  A destruição de Jerusalém é um dos acontecimentos mais terríveis que se registram nas páginas da história. Os profetas tinham predito, com muitos séculos de antecipação, que os Judeus, por sua obstinação por desprezar o Evangelho, e como castigo do deicídio que tinham cometido na pessoa do Salvador, seriam expulsos dos seus países e viveriam dispersos por todo o mundo, sem rei, sem templos e sem sacerdotes, Jesus em termos ainda mais claros, também tinha vaticinado que os judeus seriam sitiados em Jerusalém e reduzidos a uma penúria inaudita; que se destruiria sua cidade, se incendiaria seu templo, e que se dispersaria seu povo; e acrescentou ainda que todas essas coisas se cumpririam antes que morresse aquela geração a que ele falava. Deus, infinitamente, misericordioso, quis avisar mais uma vez aquele povo por meio da pregação, das admoestações dos Apóstolos, e de muitos sinais espantosos que nos narram vários historiadores entre eles alguns judeus. José Flavio, por exemplo, judeu douto, que teve grande parte naqueles desastres, conta, entre outras coisas, que no dia de Pentecostes se fez ouvir uma voz no templo, que sem se saber de onde saia, fazia ressoar estas palavras: “saiamos daqui, saiamos daqui”. Um homem chamado Anano que tinha ido da roça a Jerusalém para assistir à festa dos Tabernáculos, ainda antes de que se falasse da guerra, começou a gritar de improviso pelos ângulos da cidade: “Ai do Templo, ai de Jerusalém! voz do oriente, voz do ocidente, voz dos quatro ventos; ai do Templo, ai de Jerusalém!” Foi preso, encarcerado, e açoitado quase até a morte; porém nem assim deixou de gritar pela cidade em voz alta as mesmas palavras durante três anos, até que um dia correndo sobre os muros, enquanto gritava: “Ai de mim mesmo!” foi ferido por uma pedra e morreu. Certa vez, pelas nove da noite resplandeceu ao redor do templo e do altar uma luz tão viva, que pelo espaço de meia hora pareceu estar em pleno dia; outra vez uma porta do templo, de bronze tão pesada que para move-la eram precisos vinte homens, achou-se aberta por si, e sem que ninguém a tocasse. Alguns dias depois, em todas as povoações circunvizinhas viram-se no ar, ao redor de Jerusalém, exércitos em ordem de batalha, que cercavam e davam sinais de querer tomá-la de assalto. Apareceu também um cometa que dardejava chamas com raios, e uma estrela em forma de espada que permaneceu um ano no mesmo lugar, tendo sempre a ponta voltada para a cidade. Estes sinais pressagiaram que deviam cair sobre Jerusalém graves e iminentes desastres. Com efeito, os romanos sob o mando sucessivo de Vespasiano e de Tito foram, sem saber, os instrumentos de que se valeu a ira de Deus para cumprir seus desígnios. A Nero, como já foi dito, sucedeu um imperador chamado Galba e a este, outro chamado Vitélio; ambos foram despojados do trono por seus próprios vícios e sua tirania, e se proclamou em seu lugar a um grande general chamado Vespasiano, Este amava a justiça, quanto podia amá-la um imperador idólatra, e era querido por todos por sua afabilidade e valor. O próprio Nero já o havia enviado para combater os judeus; porém quando o elegeram imperador, ele deixou seu filho sob os muros de Jerusalém para que continuasse a guerra, enquanto voltava à Roma. Ainda viviam muitos dos que se achavam presentes à morte do Salvador, quando os exércitos romanos foram sitiar Jerusalém. Como o sítio começasse naqueles mesmos dias em que se achavam ali reunidos um grande número de judeus que tinham acudido de toda a Palestina e dos países limítrofes para celebrar as festas da Páscoa, aconteceu que achando-se aquela desgraçada cidade cheia de gente, de pronto começassem a faltar alimentos, chegando a tal extremo a fome que seus habitantes arrancavam-se uns aos outros das mãos as coisas mais imundas para não morrer. Houve mães que naquele estado de desespero, (coisa horrível!) chegaram a alimentar-se de seus próprios filhos. Tomada de assalto a cidade, foram mortos um milhão e cem mil judeus, e outros tantos foram reduzidos à escravidão. Estes como não fossem vendidos, por não haver compradores para tão grande número de escravos, foram em parte doados e outros mortos porque não havia quem os quisesse nem de graça. Destruídas em grande parte as casas e queimado o templo, todo o povo que se pode salvar da morte ou da escravidão dispersou-se pelas demais cidades; contudo a total dispersão dos judeus não se realizou até princípios do segundo século. O Papa São Lino pode ver os infelizes judeus escravizados por Tito, chegarem a Roma aos montões, par serem condenados a penosíssimos trabalhos, entre outros o de erigir um arco do triunfo a seu vencedor. Ainda vê-se presentemente o candelabro com sete braços, tirado do templo de Jerusalém e o magnífico anfiteatro chamado de Flávio Tito, cujas ruínas admiráveis ainda existem em Roma, e é conhecido sob o nome de Coliseu. São Lino valeu-se deste terrível acontecimento para confirmar na fé os judeus, que se tinham convertido e para atrair a ela os menos obstinados no erro. 

Trabalhos e martírio de São Lino – São Lino durante dez anos de seu pontificado, além do que trabalho na pregação e propagação do Evangelho, aplicou-se com zelo em combater os erros de Menandro, Corinto e seus sectários, declarando que não pertencia à Igreja de Jesus Cristo aquele que seguisse seus erros monstruosos. Ainda que tenham sido aqueles tempos de muito fervor, havia alguns que iam à Igreja vestidos como para ir ao teatro; São Lino em vista disto, renovou o preceito de São Paulo, e estabeleceu que todos deviam ir à Igreja com modéstia, e as mulheres com a cabeça coberta. O zelo e doutrina deste Pontífice enchiam todos de admiração; o seu nome só, fazia emudecer os demônios,  e com o sinal da Cruz curava frequentemente obstinadas enfermidades. Um homem que havia ocupado o consulado tinha uma filha perturbada pelo espírito maligno e outros males; recorreu ao nosso santo, e este a curou com o Sinal da Cruz; porém como os sacerdotes dos ídolos diziam que este milagre injuriava aos deuses, obrigaram ao tímido Saturnino, assim chamava-se o pai da menina, a condenar à morte o santo Pontífice. Este depois de ficar algum tempo no cárcere, foi decapitado a 23 de setembro do ano 80.
CAPÍTULO VII 
São Cleto, Segunda Perseguição – São Clemente e o Cisma de Corinto – Terceira Perseguição – Desterro e martírio de São Clemente.  

São Cleto, Segunda Perseguição – Os cristãos gozavam de alguma tranqüilidade no reinado de Tito e de Vespasiano, posto que ainda não tivessem sido revogados os sangrentos decretos de Nero pelos quais todo aquele que tinha alguma autoridade podia perseguir, a seu capricho, os fiéis de Jesus Cristo. Domiciano, a quem a história apelida de segundo Nero, ordenou que vigorassem novamente, e com maior rigor as leis de perseguição. No seu reinado São Cleto governou a Igreja doze anos. Este Pontífice nasceu em Roma, e ali o instruiu São Pedro na fé; trabalhou muito durante o pontificado deste e o de São Lino. Entre as obras que se lhe atribuem, acha-se a divisão da cidade de Roma em 25 quartéis ou secções; em cada uma das secções estabeleceu um sacerdote ou na sua falta um diácono, para que cuidasse das necessidades espirituais e temporais dos fiéis. Achava-se ocupado em propagar o Evangelho dentro e fora da cidade de Roma, quando Domiciano ordenou que se buscasse o chefe dos cristãos e que se lhe desse a morte. A impaciência do tirano em dar-lhe a morte poupo-lhe muitos e grandes suplícios; martirizaram-no no ano de 93. Autores dignos de fé dizem que São Cleto foi o primeiro que usou a fórmula: <<Saúde e benção apostólica>>, com que os Papas soem começar suas cartas. 

São Clemente e o Cisma de Corinto – O quarto Pontífice é São Clemente; este era filho de um Senador romano chamado Faustino. Foi eleito para governar a Igreja depois do martírio de São Cleto. Entre as belas instituições deste Pontífice conta-se a dos notários ou escreventes, que se encarregavam de escrever com o maior cuidado a ordem dos sofrimentos dos mártires, e de todas as coisas que eles diziam ou faziam em presença dos juizes ou dos imperadores: esses escritos chamavam-se “Atas dos mártires”. Causou-lhe muitos trabalhos e sofrimentos o cisma de Corinto, onde as discórdias intestinas tinham chegado a tal ponto que muitos dos fiéis, negando-se a acatar a autoridade da igreja, pretendiam eleger e consagrar sacerdotes à sua vontade. Crescendo o mal, pensou-se em apelar para a Igreja de Roma, mãe e mestra de todas as outras Igrejas, por uma extensa carta dirigida ao Sumo Pontífice. São Clemente depois de ter lido, respondeu aos Coríntios outra que constitui um importante documento da antiguidade cristã, e que como tal convém seja conhecida em seus pontos principais: ” À Igreja de Deus que está em Roma, à de Corinto e aos chefes que são chamados e santificados pela vontade de Deus em Nosso Senhor Jesus Cristo. Que a graça do Senhor onipotente se aumente sempre em vós.” Fala-lhes em seguida da paciência, da doçura e dos benefícios de Deus criador, e continua da maneira seguinte: ” Se considerarmos quanto Deus está próximo de nós, e como nenhum pensamento pode ficar-lhe oculto, devemos certamente tratar de não fazer o que é contrário à sua Divina Vontade, e sujeitarmo-nos ao que Ele colocou sobre nós: devemos refrear nossa língua e dominá-la com o amor do silêncio.” Segue recomendando-lhes que fujam do ócio e da moleza porque somente quem trabalha tem direito à vida, e continua assim: “Portanto devemos fazer com zelo todo o bem que pudermos, porque Deus Criador se compraz em nossas obras. Cada um permaneça na ordem e no grau em que Deus por sua bondade o colocou. O fraco respeite o mais forte, o rico socorra o pobre, e o pobre bendiga a Deus pelo modo com que o provê. O sábio faça conhecer a sua sabedoria não por palavras, porém por boas obras. O humilde não fale com jactância de si mesmo, nem faça alarde de suas ações. Quem for casto não se orgulhe, pois o dom da castidade não provém dele. Os grandes não podem existir sem os pequenos, nem os pequenos sem os grandes. No corpo humano a cabeça nada pode sem os pés, nem os pés sem a cabeça. O corpo não pode passar sem o serviço dos mais pequenos membros”. Expõe em seguida as virtudes e as obrigações próprias de todo o cristão para conservar mutuamente a caridade, e passa a fazer-lhes esta doce admoestação. “Porque há entre vós divisões e rixas? Acaso não temos todos igualmente o mesmo Deus, o mesmo Jesus Cristo, o mesmo Espírito de graça derramado sobre nós, a mesma vocação em Jesus Cristo? Porque pois sendo seus membros fazemos guerra ao nosso próprio corpo? Somos tão insensatos que esquecemos que uns somos membros dos outros? Vossa divisão, ó fiéis! Tem desanimado alguns, pervertido muitos e nos tem mergulhado a todos na aflição. Cesse depressa este escândalo, prostremo-nos aos pés do Senhor; supliquemo-lhe com abundantes lágrimas, que nos perdoe e restabeleça a caridade fraterna.” Os Coríntios tinham mandado à Roma um fervoroso cristão chamado Fortunato, para que expusesse à Santa Sé a triste divisão daquela cidade. São Clemente encarregou o mesmo mensageiro e mais quatro pessoas que levavam a carta, recomendando-lhes que voltassem logo. Concluía a carta dizendo: “Mandai-nos o quanto antes, em paz com alegria Claudia, Efebo, Valério e Vitão, que vos enviamos com Fortunato para que nos tragam quanto antes a notícia da tão desejada, e por nós tão suspirada, paz e concórdia; deste modo nós também, mais prontamente gozaremos de vossa tranqüilidade.” A carta impressionou tanto o ânimo dos Coríntios , que arrependendo-se de suas faltas, reconciliaram-se com seus pastores, pediram perdão e veneraram todos as palavras do Vigário de Jesus Cristo que se achava em Roma. 

Terceira Perseguição – o imperador Trajano, embora elogiado por alguns historiadores, como príncipe sábio e clemente, foi o autor da terceira perseguição. Estamos certos disto por sua resposta a Plínio, o moço, governador da Bitínia. Escrevera-lhe este uma carta, consultando-o qual a conduta que deveria ter para com os cristãos, Toda a sua culpa, lhe dizia, consiste em cantar hinos em honra de Cristo; são eles númerosíssimos e os há de idade e condição, nas cidades e nos campos, de forma que os templos de nossos deuses têm ficado quase desertos. Por outra parte sua conduta é pura e inocente; porém sua pertinácia em não querem acatar as ordens do imperador no que diz respeito à religião, é bastante para fazê-los dignos do maior castigo. Tal é testemunho que dava um perseguidor dos cristãos do seu número e de sua santidade, Trajano lhe respondeu que não era necessário pena de morte, segundo a lei, toda vez que fossem acusados ou conhecidos; resposta absurda, porque se os cristãos eram culpados, porque não se devia persegui-los? E se eram inocentes, porque deviam ser castigados com pena de morte? 

Desterro e martírio de São Clemente – Entre os mártires que padeceram o martírio no reinado de Trajano, conta-se o Pontífice São Clemente. Como pertencia ele a família nobre, o imperador quis ter para com ele algumas condescendências; aduziu razões, promessas e ameaças para induzi-lo a abandonar a fé, porém tudo foi em vão. Irritado o imperador o condenou às minas de Quersoneso Táurico, chamado hoje Criméia. Depois de uma viagem longa e penosíssima, chegou o santo Pontífice ao lugar de seu desterro, e foi obrigado a trabalhar com uma turma de malfeitores. Muito o consolou a nova de que no meio dos condenados àqueles trabalhos achavam-se cerca de dois mil cristãos, somente culpados de publicamente terem professado sua fé, os quais desejavam ter entre si um ministro sagrado da Religião. O Pontífice ocupou-se logo de ajudá-los e de prodigalizar-lhe os auxílios da religião, e mitigou não pouco os seus sofrimentos com o seguinte milagre: como não havia água naqueles lugares, deviam transportá-la com grande trabalho de mais de uma milha de distância. À vista disto, São Clemente rogou a Deus por eles e no mesmo instante, como nos tempos de Moisés, brotou ali mesmo uma fonte perene de água cristalina, que satisfez as necessidades dos cristãos e dos pagãos. Semelhante milagre operado em presença de tão grande multidão, comoveu aqueles infelizes desterrados, e um grande número de infiéis abraçou a fé. O imperador, inteirado deste fato, escreveu ao governador do Quersoneso, ordenando-lhe que reprimisse e fizesse voltar à idolatria os recém-convertidos; porém eles preferiram perder a vida antes de abandonar sua fé. Ao mesmo Pontífice, que era seu chefe, ataram uma barra de ferro ao pescoço e o atiraram ao Mar Negro. assim concluiu gloriosamente sua vida o quarto Pontífice., depois de ter governado a Igreja durante nove anos (anos 100). Conta lenda antiga, que as águas do mar, depois da morte de São Clemente, se retiraram três milhas para dentro, deixando ver aos fiéis na praia um pequeno templo de mármore que encerrava o corpo do santo mártir. Confirma esta tradição uma pintura antiqüíssima descoberta há anos em Roma, no subterrâneo da Igreja de São Clemente. (V. s. Efrem Siro).
CAPÍTULO VIII 
Santo Anacleto – São Simeão de Jerusalém – Santo Inácio de Antioquia.  

Santo Anacleto – No pontificado de Santo Anacleto sucessor de São Clemente, continuavam os estragos da perseguição. O imperador, muito ligado à idolatria, ocupava-se ele próprio, de vez em quando a interrogar os cristãos, com o fim de confundi-los, e os ameaçava com os mais horríveis tormentos e com a morte mais dolorosa para faze-los prevaricar. Em tão difíceis circunstâncias São Anacleto empregou os maiores esforços já para que permanecessem firmes na fé os condenados ao martírio, já para refutar as heresias e preparar missionários para enviar em propaganda do Evangelho. Entre as coisas que fez, conta-se a de ter escolhido um lugar particular no Vaticano, perto do túmulo de São Pedro, que destinou para sepultura dos Papas, fez além disso edificar uma capela sobre o túmulo dos Príncipe dos Apóstolos com esta inscrição: In memoriam Beati Petri construxit. Esta pequena Igreja, ampliada mais tarde, é o famoso templo de São Pedro no Vaticano. Santo Anacleto depois de doze anos de pontificado, terminou seus dias com o martírio. Cortaram-lhe a cabeça por ter ficado firme na fé, no ano 112. 

São Simeão de Jerusalém – Poucos anos depois de Santo Anacleto concluía também sua carreira mortal São Simeão, bispo de Jerusalém. Durante vários dias fizeram-lhe padecer horríveis tormentos; porém sendo vão todos esforços que faziam, Trajano o condenou a ser crucificado, tendo 120 anos de idade. assim a última das testemunhas de vista de nosso Redentor padeceu um mesmo gênero de morte. (ano 114). 

Santo Inácio de Antioquia – Santo Inácio, bispo de Antioquia era, havia 40 anos, a admiração da grei, que com grandes cuidados conservava na fé no meio das mais sangrentas perseguições. Trajano que se achava então no Oriente, quis discutir com ele sobre a Religião, porém ficando confundido, ordenou que o prendessem e o conduzissem à Roma afim de servir no anfiteatro de Flávio, de espetáculo público ao povo, e ser depois pasto das feras. Ouviu Inácio sua sentença com transporte de alegria, porque ardia de desejo de morrer por Jesus; porém temendo que os fiéis de Roma, por meio de suas orações, obtivessem de Deus a graça que as feras não o devorassem, escreveu-lhes uma carta muito comovedora, pedindo-lhes que não se opusessem a que ele fosse esmagado quanto antes entre os dentes das feras, como o trigo na roda do moinho, para que pudesse assim ser digno de reunir-se o mais depressa, qual alvo pão, a Jesus Cristo por todos os séculos. Esta carta que contém palavra as mais honrosas para a Igreja de Roma assim principia: “Inácio, chamado também Teóforo, à Igreja que conseguiu misericórdia na magnificência do Pai Altíssimo, e de Jesus seu Filho unigênito; à Igreja querida e iluminada pela vontade d’Aquele que quer todas as coisas segundo a caridade de Jesus Cristo nosso Deus; a qual também preside no lugar das regiões dos Romanos; digna de Deus, digna por decoro, digna de ser chamada bem-aventurada, digna de louvor, digna de obter tudo o que deseja, castamente digna,que preside à ordem universal da caridade, adornada com o nome de Cristo e do Pai que eu também saúdo em nome de Jesus Cristo Filho do Pai; aos que, segundo a carne e o espírito, estão unidos em todos os seus mandamentos, cheios da graça de Deus indivisivelmente, e limpos de toda cor estranha, desejo abundantíssima e incontaminada saúde em Jesus Cristo nosso Deus.” Além desta escreveu outras seis cartas cheias de máximas de fé e de caridade; que formam um dos mais preciosos documentos da antiguidade cristã. Chegando à Roma foi conduzido para o anfiteatro e atirado às feras, que o dilaceraram logo, não deixando dele mais do que alguns ossos.Estes restos de seu corpo precioso foram levados para Antioquia e depois devolvidos para Roma onde hoje se veneram na Igreja de São clemente. Seu martírio teve lugar no ano 107. Depois de conhecido isto quem se atreverá a elogiar a |Trajano, como filósofo justo e clemente? E quem não o colocará antes no catálogo destes tiranos cruéis, violadores dos mais sagrados direitos da justiça?
CAPÍTULO IX 
Santo Alexandre 1º em presença de Aureliano – Interrogatório de Santo Alexandre – Martírio de Santo Alexandre e seus companheiros. 

Santo Alexandre 1º em presença de Aureliano – A Santo Anacleto sucedeu o Papa São Evaristo, natural de Belém, que ocupou o trono pontifício cerca de nove anos, sendo martirizado no ano de 121. A este sucedeu Santo Alexandre que, ainda muito jovem, pregava com tal eficácia que chegou a converter o prefeito de Roma, chamado Hermetes, sua família e 1250 criados seus. Chegada a notícia aos ouvidos do imperador, este irritou-se muitíssimo com ele, e desde a cidade de Selêucia, onde se achava então, mandou a Roma o conde Aureliano para que condenasse à morte todos os cristãos que descobrisse. Os primeiros encarcerados foram o prefeito e o Pontífice. Fizeram-lhes minuciosíssimos, longos e violentos interrogatórios; experimentou-se o cárcere, a fome, a sede, o ferro e o fogo, porém em vão; antes a pregação e os milagres que em todas as partes fazia o santo Pontífice contribuíam para trazer novas almas à fé. 

Interrogatório de Santo Alexandre – “Eu quisera, lhe disse Aureliano, que me fizesses conhecer os mistérios de tua religião, e o prêmio pelo qual deixas tirar a vida com tanta indiferença.Alexandre respondeu: “O que queres saber é coisa santa, e Jesus nos proíbe falar das verdades da fé aos que desejam saber não para acreditar nelas, porém para escarnecê-las. Não é conveniente, dizia o Salvador, dar as coisas santas aos cães e atirar as pedras preciosas aos porcos.”    – Como sou eu um cão? Replicou Aureliano encolerizado.    – Tua sorte é inferior à dos brutos, respondeu Alexandre; pois estes, sendo irracionais, não podem venerar as verdades da fé que eles não conhecem, ao passo que o homem, feito à imagem e semelhança de Deus, se recusa conhecê-las ou as despreza, ofende ao Criador, e pagará sua culpa não só com as penas desta vida, mas também com as chamas eternas do inferno.    – Responde ao que te pergunto: se assim não o fizeres condeno-te aos tormentos.    – Aquele que quer instruir-se na Religião de Jesus cristo deve fazê-lo com humildade e não com ameaças.    – Responde ao que te pergunto, e lembra-te que te achas em presença de um Juiz cujo poder é temido em todo o mundo.    – Aquele que se jacta de seu poder, está perto de perdê-lo.    – Infeliz! Tuas palavras e tua audácia serão castigadas com atrozes tormentos.    – Nada fazes de novo fazendo-me atormentar. Porque, qual homem inocente que pode sair com vida de tuas mãos? Junto de ti, unicamente vivem tranqüilos os que renegam a Nosso Senhor Jesus Cristo; eu que espero morrer e padecer por Ele, certamente serei atormentado e morto, como o foram o glorioso Hermete e o intrépido Quirino, e todos aqueles que passaram com valor por meio de tormentos para chegar por eles à vida eterna.    – Qual a razão que te impele à extravagância de deixar-te matar antes que obedecer às minhas ordens?    – Já to disse e repito: não é lícito dar aos cães as coisas santas.    – Voltas a me chamar de cão? Basta já de palavras; passemos aos tormentos.    – Não temo os tormentos que passam, porém sim aqueles que tu não temes, isto é, os tormentos do inferno que não se acabarão jamais. Compreendeu então Aureliano que falava inutilmente; por isso ordenou que despissem Alexandre e que o estendessem sobre o ecúleo (instrumento de tortura). Açoitaram-no com varas e o dilaceraram com unhas de ferro. Enquanto suas carnes caiam em pedaços, punham tochas acesas debaixo de suas chagas; pareciam no entanto que aqueles agudos e penosos sofrimentos não serviam senão para aumentar as ânsias que o santo Pontífice tinha de padecer.    – Porque não te queixas? Perguntou-lhe admirado Aureliano. Qual a razão do teu silêncio?    – Quando o cristão reza, fala com Deus, e quando pensa n’Ele esquece tudo que aqui em baixo se padece.    – Responde a tudo que te pergunto e farei suspender teus tormentos.    – Estulto! Faze o que queres; não temo tua crueldade.    – Considera ao menos tua idade, ainda não tem 30 anos, e já queres privar-te da vida?    – Tem antes mais compaixão de tua alma; pois se eu perco o corpo, salvo a alma, porém se tu perdes a alma, com ela tudo perderás par sempre. 

Martírio de Santo Alexandre e seus companheiros – Depois de ameaças, interrogatórios e tormentos inúteis, Aureliano ordenou se acendesse uma fogueira. Quando as chamas chagaram à sua maior intensidade, mandou que atassem juntos Alexandre e Evêncio, e os atirassem nas chamas. Quis também o imperador que um sacerdote chamado Teódulo se achasse presente ao suplício de seus companheiros para atemorizá-lo. Alexandre vendo-o triste, gritou em alta voz: “irmão Teódulo, vem aqui tu também, porque o quarto companheiro, isto é, aquele anjo que apareceu aos três meninos judeus no forno da Babilônia, se acha também conosco.” Então Teódulo se atirou à fogueira. Deus operou então o mesmo milagre que fizera no tempo de Nabucodonosor, pois o fogo perdeu seu poder e não fez dano algum àqueles campeões de fé. Eles vendo-se tão prodigiosamente defendidos, puseram-se a cantar: “Ó Senhor, tu nos hás provado com fogo, e tendo-nos purificado de nossos pecados com tua misericórdia, já não encontraste em nós nenhuma iniqüidade”. Furiosamente encolerizado, Aureliano ordenou que tirassem da fogueira Evêncio e Teódulo e que se lhes cortasse logo a cabeça e a Alexandre fez introduzir tantas pontas de ferro no corpo que em pouco tempo exalou o último suspiro. Este martírio teve lugar a 3 de maio de 132.
CAPÍTULO X 
Quarta perseguição – São Policarpo em Roma – Santa Felicidade e seus filhos – Heresia de Montano. 

Quarta perseguição – Esta perseguição se atribui em grande parte às calúnias que se espalharam contra os cristãos. Cometeram-se nela tais violências que muitas vezes os próprios verdugos se horrorizavam da atrocidade dos tormentos com que os martirizavam, e com grande repugnância cumpriam o bárbaro ofício que se lhes confiava. Governava então a Igreja Pio I que, depois de ter empregado os nove anos do seu pontificado em combater as heresias, em animar os mártires e promover as necessidades da cristandade, fez-se credor da palma do martírio. Cortaram-lhe a cabeça no ano 167. Conta-se entre os mais célebres mártires desta perseguição um jovenzinho chamado Germânico que animava os outros com o seu exemplo. Antes de expô-lo às feras tentou o juiz seduzi-lo; porém o magnânimo menino disse que preferia antes perder mil vidas, que conservar uma à custa de sua inocência; e dirigindo-se para um leão que se arrojava contra ele, terminou sua vida na boca daquele furioso animal apressurando-se a sair deste mundo para chegar o quanto antes ao Céu. 

São Policarpo em Roma  Chegando ao conhecimento de São Policarpo, discípulo de São João Evangelista e bispo de Smirna, a notícia do grande número de hereges que tinham ido à Roma, dirigiu-se ele também para esta cidade no pontificado de São Aniceto, sucessor de São Pio I com o fim de dissipar seus erros. Sua ida à Roma foi muito oportuna, porque tendo sido ele um dos que conversaram com os Apóstolos, gozava sobre todos de uma grande autoridade, e como disse Santo Irineu, muitos dos que se tinham deixado seduzir pelos erros de Valentim e de Marcião voltaram para a Igreja de Jesus Cristo, mediante a eficácia de sua palavra. Persuadido o herege Marcião de que alcançaria uma grande vitória podendo contar o santo bispo como um de seus sectários, tratou de ganha-lo; e com este fim se lhe apresentou um dia e lhe disse com audácia: “Cognoscis nos?” Conhece-me, sabes quem eu sou? “Sim, respondeu-lhe incontinente Policarpo, conheço-te muito bem, e sei quem és Marcião, primogênito de Satanás”. Um dos principais pontos a que se dirigia o zelo de Policarpo, era o de segregar os católicos dos hereges para que permanecesse pura a fé dos primeiros. Eusébio de Cesárea acrescenta que São Policarpo foi a Roma também para  conferenciar com o Sumo Pontífice sobre algumas coisas concernentes ao bem da Igreja, conferências que terminaram com caridade de ambas as partes. Também foi à Cidade Eterna para determinar com o Papa, se devia se celebrar o dia da Páscoa no primeiro domingo, depois da lua cheia de março, como se tinha celebrado desde o tempo dos Apóstolos, ou antes do mesmo dia da lua de março, como se fazia em algumas Igrejas da Ásia. Aniceto, ainda que desejasse uniformidade em toda Igreja, julgou oportuno não desgostar aos bispos da Ásia, e tolerou que naqueles países se celebrasse a Páscoa no dito Plenilúnio. Essa tolerância tinha por fim contentar aos judeus recém-convertidos à fé. (Euseb. liv. 4.º). Aniceto deu prova de grande veneração à santidade e doutrina de São Policarpo, pois permitiu-lhe que celebrasse a Santa Missa vestido de pontifical e administrasse do mesmo modo a comunhão aos fiéis. Durante sua estada em Roma, soube Policarpo que a perseguição tinha tornado a recrudescer em sua diocese; por isso apressou-se em voltar ao seu rebanho. Pouco tempo depois de ter chegado, foi preso pelos perseguidores e levado ao cárcere. Às  palavras do juiz que o exortava a que renegasse Jesus Cristo e o amaldiçoasse, respondeu: “Há 86 que me consagrei a sue divino serviço e nunca recebi dele injúria alguma. Como queres tu que maldiga meu Rei e Salvador?” Depois de muitos sofrimentos foi condenado às chamas em que consumou seu heróico sacrifício. 

Santa Felicidade e seus filhos – Santa Felicidade verdadeiro modelo das mães cristãs, pertencia a uma das principais famílias de Roma. Enviuvando resolveu dedicar-se unicamente à sua santificação e à seus filhos. Acusada como cristã foi conduzida perante o prefeito público, que lançou mão de toda sorte de indústrias para fazê-la prevaricar. “O Espírito de Deus, respondia a santa, me faz superior a todo engano e sedução, e enquanto viva não poderás vencer-me, porque se tu me tiras a vida, morrendo eu será muito mais gloriosa a minha vitória. No dia seguinte o prefeito fez conduzir Felicidade e seus filhos a seu tribunal, e disse à mãe: “Se a ti não importa a vida, compadece-te ao menos de teus filhos”; porém ela respondeu-lhe: “A compaixão que tu pedes seria atroz crueldade”. Voltando-se logo a seus filhos e mostrando-lhes o céu, disse-lhes: “Vede lá em cima, lá vos espera Jesus Cristo com seus santos, que vos têm aberto o caminho. Mostrai-vos agradecidos a tão magnânimo remunerador, e combatei com um valor digno do prêmio que se vos promete”. O prefeito a fez esbofetear, chamou em seguida seus sete filhos, que, depois de confessar Jesus Cristo com firmeza heróica, morreram um depois do outro em horríveis tormentos. A mãe assistiu com intrepidez a seu martírio, animando-os a perseverar na fé. Por último cortaram-lhe também a cabeça e misturou assim seu sangue com o de seus filhos na terra, para ir reunir-se com eles na glória do Céu. Pouco depois o Papa Aniceto também sofreu o martírio. Cortaram-lhe a cabeça no ano de 175. 

Heresia de Montano – Montano começou a propagar sua heresia no pontificado de Santo Aniceto. Nascido na Frigia e educado na religião cristã foi tomado do espírito da vaidade, e desejou ardentemente ser Bispo; porém como se lhe negasse esta dignidade por sua má conduta, rebelou-se contra a Igreja e começou a pregar mil torpezas. Suas extravagâncias chegaram a tal ponto que se vendeu ao demônio, o qual o possuía realmente. Acompanhava-o duas mulheres dissolutas e endemoniadas como ele; uma se chamava Prisca e outra Maximila. Convocou-se na Ásia uma reunião de Bispos e Sacerdotes que depois de um maduro exame, condenou como herege Montano e seus sectários. Então o astuto Montano dirigiu-se a Roma com suas falsas profetizas e conseguiu seduzir vários cristãos incautos; foi tão audaz que se apresentou ao próprio Aniceto para se fazer agregar ao Clero Romano. Conhecendo o Pontífice a sua hipocrisia, excomungou-o como já o tinham feito os Bispos da Ásia. Depois disto Montano e suas profetizas, cedendo ao espírito maligno, se estrangularam por suas próprias mãos.
CAPÍTULO XI 
Legião fulminante – São Fotino – Heresia de Marcos e a confissão dos pecados. 

Legião fulminante – A São Aniceto sucedeu São Sotero que se distinguiu muito pelos benefícios que fez aos romanos e a todos os fiéis da cristandade. Durante seu pontificado, fez Deus um milagre que foi causa de que o imperador Marco Aurélio olhasse com melhores vistas aos cristãos. Achava-se este príncipe em guerra com uns povos bárbaros, quando estes o cercaram entre as áridas montanhas da Boêmia; seu exército estava rodeado de todas as partes e a falta de água punha seus soldados em iminente perigo de morrer de sede. Afortunadamente achavam-se naquele exército muito cristãos, que sabendo que o Evangelho diz, que se deve recorrer a Deus em todas as necessidades da vida, puseram-se a rezar na presença do inimigo. Este, vendo-os como em um estado de imobilidade enquanto rezavam, pensou que chegara o momento oportuno para atacar; porém no mesmo instante cobriu-se o Céu de nuvens e caiu uma chuva abundantíssima ali onde estavam os romanos, ao mesmo tempo que uma espantosa chuva de pedras acompanhada de freqüentes raios caiu sobre os bárbaros e os dispersou deixando um grande números de mortos e a vitória aos romanos. Estes já estavam a ponto de render-se pela grande sede que sofriam; mas sentindo chover, levantaram seus olhos para o céu afim de dar graças a Deus, e conjuntamente com a água receberam novas forças e valor. Narram este acontecimento todos os escritores cristãos e gentios daquele tempo. (V Capitolino, Decio, Tertuliano). O imperador reconheceu que este favor foi devido às orações dos cristãos, e para conservar sua memória fez esculpir o fato em baixo relevo em uma coluna de mármore que se levantou em Roma, e que ainda existe e se conhece com o nome de Coluna Antonina. Também escreveu uma carta ao senado, participando-lhe o acontecimento e proibiu ao mesmo tempo que se perseguissem os cristãos; porém depressa esqueceu o imperador o favor que recebera. 

São Fotino – Alguns anos mais tarde se atiçou novamente a perseguição, e muitos cristãos receberam a coroa do martírio. Entre estes distingue-se São Fotino, Bispo de Lion. Este fora enviado pelo Papa às Galias juntamente com outros eclesiásticos, para pregar o Evangelho. Havia já quarenta anos que ocupava aquela sede, quando seus zelo e os progressos que fazia a palavra de Deus, atraiam para ele a inveja e o ódio dos idólatras. Ainda que enfermo e sem forças arrastaram-no ao tribunal do prefeito e depois de ter sustentado com heróica firmeza um penoso interrogatório, conseguiu a palma do martírio aos 90 anos de idade. 

Heresia de Marcos e a confissão dos pecados – Entre os mais famosos sectários de Valentim, já citados mais atrás, distingue-se o herege Marcos, homem muito astuto e prático na arte de enganar. Jatava-se de possuir o poder de Deus, e também ao de conceder aos outros o poder de fazer milagres, e conhecer o futuro. Levando uma vida devota em aparência, ganhou a estima de muitos que se deixaram arrastar a cometer os maiores excessos de impiedade e libertinagem. Alguns dos enganados tendo mais tarde conhecido o mal em que haviam caído, renunciaram a Marcos e voltaram para a Igreja Católica. “Marcos, disse São Irineu, adotou certas artes para acender as paixões e fascinar… algumas mulheres, que voltando mais tarde para Igreja de Deus o confessaram…, de modo que, certa pessoa da Ásia também caiu nesta desgraça… porque sua mulher… tendo sido pervertida por este mágico… depois tendo se convertido, não cessou de confessar entre lágrimas e gemidos durante o resto de sua vida, o pecado cometido”. (Santo Irineu, lib. 1, c. 13). Este é um dos fatos da Igreja primitiva, que nos dá a conhecer como já existia então a prática da confissão sacramental e a crença de que esta tinha sido instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, em virtude da capacidade que tinha dado aos Apóstolos de perdoar os pecados. (São João, 20). Dão-nos outra prova desta santa prática as multidões de fiéis que, a contar do tempo dos Apóstolos, iam desde Éfeso ajoelhar-se aos pés dos sagrados ministros, confessando e declarando seus feitos. (Atos dos Apóstolos, 19).
CAPÍTULO XII 
Santo Eleutério e os mártires de Lion – São Irineu em Roma – Fim de Marcião e de outros hereges – Conversão dos Bretões ao cristianismo. 

Santo Eleutério e os mártires de Lion – Depois do martírio de São Sotero foi eleito para governar a Igreja São Eleutério de Nicópolis, cidade da Grécia. No princípio de seu pontificado, os cristãos de Lion que se achavam presos e carregados de cadeias por confessar sua fé, escreveram-lhe uma carta, e para que fosse mais aceita ao pontífice, enviaram-na por Santo Irineu, discípulo de Policarpo a quem este tinha enviado às Galias para que ajudasse São Fotino na pregação do Evangelho. O fim da carta era pedir ao Papa que se dignasse interpor seus bons ofícios para restituir a paz à Igreja, que então se achava dividida por Montano e seus sectários, dando assim conhecer que os cristãos de Lion reconheciam a eficácia da autoridade do Romano Pontífice sobre toda a Igreja. Nela também se recomendava São Irineu como um sacerdote adornado de preclaras virtudes pois assim dizia: “desejamos que tu, ó Padre Eleutério, sempre e em todas as coisas te portes bem no Senhor. Temos exortado o nosso colega e irmão Irineu para que te levasse esta carta, e te rogamos que nos permitas que to recomendemos como zelador da lei de Cristo. Se nós opinássemos que o grau augenta a santidade, to recomendaríamos como sacerdote da Igreja, pois que ocupa esse cargo”. (Euseb. H. Ecl., 5. c. 4). 

São Irineu em Roma – A estada de Irineu em Roma não ficou sem resultado. Pouco tempo antes de sua chegada, o pontífice tinha deposto a dois sacerdotes da Igreja romana, chamados Blasto e Florino, por terem caído na heresia de Simão Mágico, que ensinava que Deus é autor do mal. Santo Irineu teve ocasião de falar com eles e empregou todos os meios que estavam ao seu alcance para trazê-los a melhores sentimentos. Escreveu mais tarde uma carta em forma de livro, na qual refutando seus erros, demonstrava que Deus, fonte de toda a santidade, não pode absolutamente ser autor do mal, conforme aquelas palavras da Escritura: “Não sois um Deus que ama a iniqüidade. (Salmo, 5). À vista das recomendações e dos louvores que o clero e o povo de Lion faziam da santidade e zelo de Santo Irineu, o Sumo Pontífice o consagrou Bispo daquela cidade. Ali se ocupou com a maior solicitude, em difundir o Evangelho por palavra e por escrito.  Um de seus escritos, intitulado “Contra as heresias” chegou até nós. O Santo Bispo afirma nele a necessidade que temos de estar unidos com a Igreja Romana, se quisermos ser católicos; e diz ainda, que para saber a verdade, conviria recorrer às igrejas fundadas e governadas pelos Apóstolos; porém sendo muito árdua esta tarefa de consultá-las uma por uma, é suficiente recorrer por todas à Igreja maior, mais antiga, e mais conhecida no mundo, isto é, à igreja fundada em Roma pelos gloriosos Apóstolos São Pedro e São Paulo, pois conserva a tradição recebida de seus fundadores e tem chegado até nós por uma sucessão não interrompida. Com isso confundimos a todos que abraçam o erro por amor próprio, por vanglória, por cegueira ou por qualquer outra causa: é pois necessário que toda a Igreja, isto é, os fiéis de todos os lugares, se dirijam a esta igreja, pois que por motivo de sua principal preeminência, nela sempre conservou-se a tradição que deriva dos Apóstolos. 

Fim de Marcião e de outros hereges – Marcião, como todos os outros chefes de heresias, era de uma conduta inexplicável. Tão pronto se arrependia de suas torpezas como se manchava com elas difundindo seus erros; por isso São Eleutério o expulsou definitivamente da comunidade dos fiéis. Passado algum tempo, fingiu novamente voltar ao seio da Igreja, e fez uma exomologese pública, isto é, uma confissão de seus crimes; porém em lugar de apresentar ao pontífice almas convertidas, julgou mais conveniente levar-lhe a soma de 25 mil francos, como um castigo e resgate de seus pecados, acreditando seduzi-lo e atraí-lo a seu partido; mas o santo pontífice, verdadeiro discípulo de São Pedro, recusou o dinheiro, e o rechaçou dizendo-lhe: “Eu quero almas e não riquezas”, e não levantou-lhe a excomunhão. A morte não tardou muito a arrebatar deste mundo a Marcião obrigando-o a apresentar-se perante o tribunal de Deus. A mesma excomunhão caiu também sobre Valentim e Cerdão que terminaram miseravelmente seus dias. Ainda estão em Roma os sectários de Montano, que na confiança de poder enganar o povo com excessos de penitência exterior, tinham introduzido a prática das três quaresmas, juntando-lhes fins supersticiosos. Santo Eleutério, para ter de sobre-aviso os fiéis, confirmou a condenação que tinha pronunciado Santo Anacleto contra eles e definiu que todos os alimentos, em si, eram lícitos, porque todos foram criados por Deus em benefício do homem. Esse decreto em forma de carta, se dirigia especialmente aos fiéis da Galia que mandaram a Roma Santo Irineu para consultar sobre as citadas sobreditas dúvidas. (Barc. sec. 2). 

Conversão dos Bretões ao cristianismo – Durante o pontificado de Santo Eleutério, no reinado de Cômodo, a Igreja de Jesus Cristo gozou de suficiente paz. Este imperador, ainda que inimigo dos cristãos, ocupou-se de outros assuntos relativos a seus estados, sem imiscuir-se na religião; por isso a fé cristã pode dilatar-se e levar seu influxo benéfico até os mais longínquos paises. A ilha da Grã-Bretanha (que como veremos, chamou-se depois Inglaterra), recebeu neste tempo o Evangelho. Acredita-se que os primeiros germens do cristianismo foram levados à aqueles habitantes por José de Arimatéia que para ali fora com o fim de pregar com alguns companheiros; porém as superstições pagãs e as longas guerras os sufocaram de tal modo que quase não deixaram fruto algum. Existiu porém, neste tempo um rei daquela nação chamado Lúcio, que tinha sido deixado ali pelos romanos como príncipe tributário, e que resolveu-se fazer-se cristão, admirado da santidade de alguns cristãos que foram àqueles países, e recordando o que seus antecessores haviam dito, ou quiçá deixado escrito sobre a religião católica. Neste objetivo mandou ao Papa Santo Eleutério dois embaixadores com uma carta, em que pedia-lhe mandasse alguns missionários, para que pregassem o Santo Evangelho a seu povo. O Sumo Pontífice recebeu com bondade os embaixadores, e correspondeu aos desejos do rei enviando-lhe como apóstolos os sacerdotes Fugácio e Damião. Lúcio os recebeu com transportes de alegria; instruíram-no estes na fé conjuntamente com a rainha, a família real e muitos do povo, e deram-lhes o batismo, estabelecendo assim o cristianismo naquela ilha. (V. Gildas e o veneravel Beda, hist. C. 1) Não sobreviveu muito Santo Eleutério à conversão dos Bretões. Consumido pela idade, e pelos sofrimentos anexos a seu ministério, foi gozar da verdadeira felicidade no ano 193 depois de um pontificado de mais de quinze anos.
CAPÍTULO XIII 
São Vitor e Tertuliano – Os dois Teódotos – Septimio Severo e quinta perseguição – Martírio de São Vitor, Irineu, Felicidade e Perpétua – São Zeferino e o herege Natal. 

São Vitor e Tertuliano – São Vitor I, Áfricano, sucedeu a São Eleutério no ano de 193. Em princípios de seu pontificado foi a Roma Tertuliano, homem de grande engenho, conhecido já pelos seus escritos cheios de profunda doutrina, benemérito da religião cristã por tê-la defendido vigorosamente contra os idólatras e os hereges, e por ter cientificamente exposto algumas de suas doutrinas. Porém quer porque São Vitor não lhe desse o bispado de Cartago, que segundo parece ele desejava, quer porque o mesmo romano pontífice condenasse, a heresia de Montano, para o qual ele já começava a inclinar-se, o certo é que saiu de Roma irritado, e voltando  à sua pátria declarou-se abertamente contra  a Igreja. Tremamos  pela queda de Tertuliano, e nos persuadamos de que não é a ciência que faz os santos, porém sua humildade e submissão aos nossos legítimos superiores, especialmente ao vigário de Jesus Cristo. Achando-se Tertuliano despido destas duas virtudes, caiu em heresia e morreu, quanto é possível conjeturar, sem dar sinais de arrependimento.                       

Os dois Teódotos – Dois hereges, ambos chamados Teódoto, deram muito trabalho ao novo pontífice. Um deles se apelidava Teódoto. Nascera em Bizâncio, cidade que mais tarde chamou-se Constantinopla. Ainda que dedicado aos misteres de seu ofício, comerciante de peles, era, contudo, muito instruído nas Sagradas Escrituras. Tendo sido acusado como cristão na perseguição de Marco Aurélio, ofereceu-se denodadamente a sofrer o martírio; porém infelizmente não sentiu-se com ânimo bastante para sustentar com fatos o que afirmava com palavras, e negando sua fé, perdeu a coroa com que foram cingidos seus companheiros. Para fugir ao opróbrio em que tinha caído, foi a Roma, pensando que viveria ali desconhecido; porém o badão de sua ignomínia nunca abandono o culpado; reconhecido pelos romanos, todos fugiam e ninguém queria participar com ele nas coisas sagradas. Irritadíssimo por isto Teódoto, começou a pregar claramente o erro, ensinando que Jesus Cristo não era Deus, o que equivalia a negar o Evangelho e a todas as verdades. Uniu-se a este outro herege igualmente chamado Teódoto, ourives de profissão. Como é de supor-se, ó leitor, dois operários, peleiro um, e outro ourives, deviam ter poucos sectários! Porém não foi assim, porque a novidade, quando afaga as paixões, sempre atrai aos incautos e aos ignorantes; por isso foram muitos os sectários dos dois Teódotos, que se chamaram depois Teodocianos, devido ao nome de seus autores.  São Vitor dirigiu suas solicitudes contra eles; condenou sua heresia, excomungou seus autores, e declarou que já não pertenciam à Igreja de Jesus Cristo todos os que seguissem os erros desses dois desgraçados. Desta maneira a Igreja Católica triunfava da heresia e dava a conhecer ao mundo a verdade daquelas palavras que dirigiu Jesus Cristo a São Pedro, nele a  todos seus sucessores: Roguei por ti, ó Pedro, para que não desfaleças na fé! (V. Eusébio, lib. 5). 

Septimio Severo e a quinta perseguição – A perseguição de Septimio Severo, que é a quinta contra os cristãos, começou no ano de 202. Atribui-se sua origem ao terem os cristãos se recusado a tomar parte em certa festa dos deuses, pelo que os pagãos os acusaram ao imperador, dizendo-lhe que eram eles seus maiores inimigos. Este, demasiado crédulo em os escutar, ordenou que todos os cristãos deviam jurar pelo nome do imperador e oferecer-lhe honras divinas. Negando os cristãos a obedecer-lhe, foi declarada aberta a perseguição. Tertuliano afirma que as cruzes, o ferro e o fogo, a água fervendo, as espadas e as feras se achavam todos os dias em exercício contra os cristãos para fazê-los apostatar ou dar-lhes a morte, caso permanecessem firmes na fé. 

Martírio de São Vitor, Irineu, Felicidade e Perpétua – No meio de tantos males, São Vitor trabalhou sem descanso, até que abatido pelas fadigas e pela idade depois de um pontificado de mais de dez anos, ganhou a palma do martírio no ano de 203 a 28 de julho. A perseguição estendeu-se também nas Galias principalmente em Lion, onde São Irineu selou com seu sangue seu trabalhoso ministério. Sabendo o Imperador que a cidade permanecia firme na fé por obra de seu zeloso pastor, ordenou que fosse cercada de soldados e que se matassem os cidadãos. A matança foi geral, e uma inscrição antiga que ainda existe em Lion, nos diz que o número dos mártires subiu aos dezenove mil, sem contar as mulheres e as crianças. Não foi menos violenta a perseguição em Cartago, onde Santa Perpétua e Santa Felicidade, acompanhadas de um grande número de mártires, foram morrer com tanta alegria que só pode ser inspirada por aquele Deus por cujo amor davam sua vida.  

São Zeferino e o herege Natal – São Zeferino, sucessor de São Vitor, teve o consolo de se conciliar com a Igreja o herege Natal. Este já tinha confessado valorosamente sua fé em presença dos juízes; porém posto em liberdade, deixou-se seduzir por uma soma considerável de dinheiro que lhe ofereceram os Teodocianos, dos quais se havia feito chefe. Porém Jesus Cristo para não permitir que já tinha confessado sua fé, apareceu-lhe repetidas vezes em sonho, repreendendo-o do seu enorme crime. Não fazendo Natal muito caso destas aparições, uma noite foi bruscamente açoitado por mão invisível. Este prodigioso castigo trocou-se para ele em medicina saudável, pois que na manhã seguinte se vestiu com um saco, cobriu a cabeça de cinza e foi ajoelhar-se aos pés do Papa, e derramando lágrimas confessou todos os seus pecados. Em seguida, abraçando os joelhos de quantos que se achavam presentes, clérigos e leigos, mostrou-lhes os sinais dos açoites com que tinha castigado e as cicatrizes das chagas recebidas por confessar o nome de Jesus, e pediu com grande humildade a clemência da Igreja e a misericórdia divina. Semelhante prodígio, que, que se tivesse tido lugar em Sodoma, disse Eusébio de Cesaréia, teria levado a fazer penitência todos os habitantes daquela infeliz cidade, comoveu todos os circunstantes. O Pontífice recebeu com carinho a Natal, absolveu-o da excomunhão e o admitiu  novamente à comunhão dos fiéis. Este fato nos demonstra claramente, como desde os primeiros tempos da Igreja se acreditou que aquele que apostatava caindo na heresia, se arrependia-se de sua falta e desejava entrar novamente para Igreja devia ir a Roma para reconciliar-se com o Chefe supremo da religião e receber a absolvição do delito. O Papa São Zeferino morreu pela fé no ano 220 depois de quase dezoito anos de glorioso pontificado.
CAPÍTULO XIV 
Igreja de Santa Maria em além do Tevere – Cemitérios e túmulos – Catacumbas Criptas- Martírio do Papa São Calixto. 

Igreja de Santa Maria em além do Tevere – Três coisas especialmente fazem glorioso o pontificado de São Calixto, sucessor de São Zeferino: a basílica de Santa Maria, o cemitério chamado de São Calixto e seu martírio. Comecemos pela basílica Transtiberina.  Conta uma antiga tradição, que em uma parte de Roma no dia do nascimento do Salvador, brotou prodigiosamente uma fonte de azeite, que continuou saindo todo aquele dla. Os cristãos que conservavam viva a lembrança daquele prodígio, costumavam reunir-se ali para fazer suas práticas de piedade; porém alguns homens maus em seguida levantaram naquele lugar uma casa de dissolução. Abriram também algumas tavemas, e para chamar o povo exerciam ali toda sorte de especulações. Os pagãos faziam isto com tanto maior ousadia, por quanto os fiéis eram ainda o alvo dos insultos de todos. Porém tendo morrido a imperador Heliogábalo, por felicidade sucedeu­lhe outro chamado Alexandre Severo que não os perseguiu, antes porém em princípio de seu reinado os favoreceu de diferentes modos. Amava sua religião; ate mandou colocar uma imagem de Jesus Cristo em seu palácio, e alguns pensam que reconheceu e professou ocultamente a fé.  Os cristãos, depois de terem pedido repetidas vezes àqueles tabemeiros que não continuassem molestando-os, contando com o favor do imperador, apresentaram-lhe mais queixa: o mesmo fizeram os pagãos. Ambos os partidos pretendiam que o imperador decidisse a quem deles devia entregar aquele lugar: os cristãos na defesa de sua religião, e os tabemeiros em proveito de seus interesses.  O imperador ouviu com atenção uns e outros e depois perguntou: “Que Deus é que ali se quer adorar?” Responderam-lhe: “é o Deus dos cristãos.” O imperador tomou: “é melhor que esse lugar seja destinado ao culto de qualquer Deus, do que ficar em mãos de tabemeiros.” Por causa destas palavras os tabemeiros retiraram-se e deixaram livres os cristãos. Esta nova consolou muito a São Calixto, que para demonstrar sua gratidão para com Deus por tão grande benefício, animou os fiéis a levantar naquele mesmo lugar uma Igreja que foi a primeira que se construiu publicamente em Roma em honra da Bemaventurada Virgem Maria: e para conservar a memória do milagre do azeite, quis que se dedicasse ao nascimento de Jesus para honrar assim o nome de Jesus, o qual, a semelhança do azeite, comunica suas graças e benção aos nossos corações. Esta Igreja se considerou em seguida como uma das primeiras basílicas de Roma, próximo do altar mór ainda se vê um pequeno furo revestido de mármore, que mostra o lugar do prodígio. (V. Baronio ano 224 Boll. 14 de Outubro.) 

Cemetérios e Túmulos – A memória dos mortos sempre foi considerada sagrada por todos os povos antigos e modernos, quer bárbaros quer civilizados. Esse afã em respeitar e fazer respeitar as cinzas dos defuntos nasce da convicção que todos temos de que depois da morte aguarda à alma uma eternidade feliz ou desgraçada, conforme seu mérito, tendo também o corpo de ressuscitar um dia, para voltar a reunir-se à alma para juntos gozarem ou padecerem eternamente. Antigamente havia uma lei, entre os Romanos, que proibia sepultar os cadáveres dentro da cidade; por isso os sepultavam no campo e mata, às vezes depois de terem sido queimados ou reduzidos a cinza. Os cristãos, que sempre abominaram este desumano costume de queimar com fogo os corpos de seus semelhantes, especialmente se eram seus irmãos pelo batismo, prepararam lugares nos arredores da cidade, que se chamaram cemitérios, túmulos, catacumbas criptas onde sepultavam os cadáveres dos fiéis. A palavra cemitério deriva-se do grego e significa dormitório: com este nome os cristãos dão a conhecer de uma maneira muito sensível sua fé na ressurreição universal de todos os corpos, no fim do mundo, para ir gozar de uma nova vida. Por isso eles não consideravam os cadáveres sepultados em tais lugares como mortos para sempre, porém tão somente como dormindo, devendo despertar um dia, ao som da trombeta dos anjos. Quão doce, quão consoladora e sublime é esta palavra cemitério, nome que damos ao lugar onde se sepultam os que morrem na paz de Jesus Cristo! Só esta palavra basta para mostrar a diferença que há entre a Igreja do Salvador, na qual tudo é vida e esperança de vida, e o paganismo e o protestantismo nos quais tudo é morte. Com a palavra túmulo, tão frequentemente usada na antiguidade, costumavam-se indicar os lugares onde se colocavam os corpos dos mártires, para os quais se faziam escavações particulares.  

Catacumbas Criptas – Catacumba também é uma palavra grega que entre nós quer dizer perto dos subterrâneos, porque os sepulcros dos cristãos em alguns lugares, e especialmente em Roma, foram estabelecidos em caminhos feitos de baixo da terra com o fim de receberem os corpos dos fiéis. Como frequentemente se faziam estas escavações próximas de certos lugares donde se extraia uma qualidade de areia, chamada porcelana, que servia para a composição do cimento, às vezes as catacumbas e os cemitérios chamavam-se também arenários. As catacumbas, porém ainda que estivessem por baixo ou por cima das escavações, contudo eram coisas mui diversas. A catacumba chamada de São Calixto, tomou o nome deste Papa pelas muitas obras que nela fez executar. Sobre uma lápide de mármore colocada na entrada deste cemitério lê-se o seguinte: “este é o cemitério do inclito pontífice São Calixto Papa e mártir. Todo aquele que confessado e arrependido de seus pecados entrar nele obterá inteira remissão de seus pecados; e isto pelos méritos dos cento e setenta mil gloriosos mártires, e quarenta e seis Pontífices cujos corpos aqui em paz descansam. Eles, sofrendo grandes tribulações neste mundo, fizeram-se herdeiros da glória do Senhor, em cujo nome aceitaram a morte.” (Boll. do dia 14 Outubro.)  Nestes subterrâneos encontram-se aposentos aos quais se dá o nome de Criptas, outra palavra grega que significa escondidas. Esses eram os oratórios dos primeiros cristãos, quando, por causa das perseguições, não podiam-se reunir publicamente, e eram obrigados a esconder-se. Em certos dias e horas marcadas reuniam-se ali para assistir a santa Missa, ouvir a palavra de Deus, receber o sacramento da penitência, receber a sagrada Eucaristia e fazer as demais práticas religiosas. 0 santo sacríficio oferecia-se geralmente sobre o túmulo de um mártir que fazia pouca tempo tinha morrido pela fé.  

Martírio de São Calixto – Durante o pontificado de São Calixto a Igreja não teve de sofrer nenhuma perseguição geral, porque  imperador Alexandre Severo se mostrava benévolo para com os cristãos. Segundo parece venerava a Jesus Cristo, como digno de honras divinas, e conservava sua imagem em um pequeno templo que tinha em seu palácio, e teria feito edificar um templo público ao Deus dos cristãos, se os pagãos não lhe tivessem feito observar que assim fazendo, ficariam desertos os templos dos deuses. Não obstante achando-se ele fora de Roma, pereceram muitos cristãos, entre os quais se conta São Calixto vítima de uma insurreição popular. Posto em prisão, como chefe dos cristãos, foi açoitado com varas, quase até receber a morte; atiraram-no depois por uma janela e com uma pedra ao pescoço afundaram-no em um poço. Este martírio teve lugar pelo ano de 227. Próximo da basílica de Santa Maria em além do Tevere, acha-se ainda o poço em que atiraram o nosso santo (V. Artaud em S Cal.)
CAPÍTULO XV 
São Urbano Santa Cecilia – Seu martírio. 

São Urbano Santa Cecilia – A São Calixto sucedeu São Urbano que pertencia a uma rica e nobre família romana. Desde simples sacerdote tinha trabalhado com zelo pela fé durante o pontificado de seus três antecessores. Acusaram-no várias vezes como cnstão; levaram-no ao cárcere e perante os juizes; porém sempre venceu todos os sofrimentos, confessando intrepidamente a Jesus Cristo. Sua eleição para o pontificado teve lugar no ano 227. Enquanto se achava empenhado em ordenar a disciplina da Igreja, voltou a tomar vulto a persiguição de Alexandre Severo. Urbano prevendo o grave perigo que corria se continuasse cumprindo publicamente o sagrado ministério, escondeu-se nas catacumbas onde viveu ignorado dos perseguidores, porém conhecido dos Cristãos, que podiam recorrer a ele em todas as suas necessldades. Entre os que instruiu na fé achava-se uma dama romana, chamada Cecilia, que desde o momento em que recebeu o Batismo, concebeu tal amor à virtude, que fez voto a Deus de sua virgindade. Para guardar dignamente esta virtude, recomendava-se com frequência ao seu Anjo da Guarda que muitas vezes aparecia-lhe visivelmente. Na idade de vinte anos, seus pais quiseram obrigá-la a casar-se com um jovem muito rico chamado Valeriano; porém chegando o dia das bodas, Cecilia chamou ao jovem a quem tinha sido prometida e disse-lhe: 
– Valeriano; eu tenho um anjo que zela por meu corpo, porque está consagrado a Deus; ai de ti se te atreves a profaná-lo!               
Valeriano que desejava ver o anjo, respondeu-lhe: 
– Só acredito no que me dizes, se eu vir o anjo de que me falas.                            
– Para ver este anjo tens de puriflcar-te, e acreditar que há um só Deus vivo e verdadeiro. 
– 0 que devo fazer para purificar-me? 
– Há um homem que sabe punflcar os outros fazê-los capazes de ver os anjos. Vai à via Apia a três milhas desta cidade, ali encontraras uma reunião de pobres, pergunta-lhes onde vive o velho Urbano; ele te purificará por meio de uma água misteriosa, e depois verás o anjo.                
Valeriano foi no mesmo instante procurar São Urbano e lhe expos tudo o que Cecilia lhe dissera. O Pontífice o recebeu com bondade, e deu graças a Deus com as seguintes palavras: “ó Senhor Jesus, verdadeiro Pastor e Redentor das almas! Abençoai vossa serva Cecilia que, qual abelha industriosa trabalha para vos servir, pois que seu prometido de leão furioso transformou-se em manso cordeiro. Agora dignai-vos, Senhor, completar vossa obra e fazer que seu coração se abra à graça, e Vos conheça a vós sumo Criador, renuncie ao demônio, às pompas e aos ídolos.”  Enquanto o Papa assim falava, apareceu São Paulo Apóstolo sob o aspecto de um venerando ancião, e disse a Valeriano: “lê o livro que te entrego e se tiveres fé serás purificado e verás o anjo de que te falou Cecilia.” Valeriano abriu o livro tremendo e leu estas palavras: “Há um só Deus Pai de todas as coisas, Senhor de tudo, que a todos nós govema.” – Acreditas no que leste? Perguntou-lhe São Paulo.
– Sim, e o creio firmemente. Dizendo estas palavras, desapareceu o ancião. Então Urbano animou Valeriano, instruiu-o nos mistérios da Religião, administrou-lhe em seguida o batismo, e depois de ter passado com ele a noite em oração, disse-lhe que voltasse para ver Cecilia. Foi Valeriano e a encontrou rezando, tendo a seu lado o anjo do Senhor em forma humana. Trazia em suas maos duas coroas entrelaçadas com rosas e assucenas, pôs uma delas sobre a cabeça de Cecilia e a outra sobre de Valeriano, dizendo-lhes: 
– Trabalhai, jovens, para conservar estas coroas com pureza de coração e santidade de vida. Trouxe-as do jardim do Paraiso: estas flores jamais murcharão. Agora, Valeriano, venho da parte de Jesus para te conceder tudo o que pedires. 
– Anjo de Deus! Exclamou Valeriano, não te peço mais do que a conversão de meu irmão Tibúrcio. – Ser-te-a concedido o que pedes, respondeu­lhe o anjo; da mesma maneira que Cecilia te con­verteu a fé, tu converterás teu irmão Tibúrcio e ambos alcançareis a palma do martírio; e assim di­zendo, desapareceu.  Valeriano contou a seu irmão Tibúrcio as maravilhas que tinha visto, e depois o conduziuao Papa Urbano que o instruiu na fé e administrou-lhe batismo.  

Martírio de Santa Cecilia de seus companheiros – Quando chegaram aos ouvidos de Almáquio, prefeito de Roma, as novas da conversão e do zelo de Valeriano e Tibúrcio, chamou-os a sua presenga e fez-lhes um sem número de perguntas; porém, confundido com suas sabias respostas e não sabendo que partido tomar, disse-lhe um de seus acessores para tira-lo das dificuldades. “Condenai-os ambos à morte e ficai com seus bens.” Seguindo este conselho, Almáquio os mandou levar ao templo de Júpiter, para serem ali decapitados se não oferecessem incenso a uma divindade. Maximo, secretário do prefelto, acompanhava-os ao lugar do suplício com uma escolta de soldados; contemplando, porém, aqueles nobres jovens indo à morte como se fossem para um grande festim, sentiu-se também ele com desejos de abraçar a fé. Com o fim, pois, de que o instruissem na Religião, levou-os à sua casa, onde a graça de Deus o venceu de tal modo que ele, sua família e outros acreditaram em Jesus Cristo. Tendo ido ali durante a noite o Papa Urbano com outros sacerdotes e Santa Cecilia, e encontrando-os suficientemente instruídos, lhes administrou logo o batismo. Poucos minutos depois chegou o verdugo, que com transporte de furor cortou a cabeça aos dois irmãos Valeriano e Tlburcio, cujas almas voaram a habitar etemamente o Céu. Nesse mesmo dia recebia Máximo a coroa do maríirio.  o prefeito, não encontrando dinheiro algum na casa de Tiburcio e Valeriano, voltou seu furor contra Urbano e Cecilia; e não podendo encontrar Urbano, enviou seus esbirros à casa de Cecilia.  Esta, porém, que se tinha transformado em apóstola de Jesus Cristo, falou-lhes de tal modo, que os converteu a fé: em seguida mandou chamar Urbano que lhes administrou os sacramentos do batismo e da confirmação. Quase chega a quatrocentos o número das pessoas que se batizaram nessa ocasião, entre soldados e outra gente. Ao chegar ao conhecimento de Almáquio a conversão dos seus próprios emissários, mandou que conduzissem Cecilia ao seu tribunal, e começou por convida-la a que não se obstinasse, a Santa, porém, respondeu-lhe:  – Eu me considero ditosa em confessar Jesus Cristo em qualquer lugar e a despeito de todos os perigos: não tenho medo de poder algum contrário as leis do meu Deus .  – Ignoras acaso que nossos invictos imperadores e nossas leis castigam com a morte aos que se declaram cristãos, ao passo que premiam com muita liberalidade aos que renegam sua Religião?  – Vós e vossos imperadores cometeis um erro indizível; e a lei que proclamais não prova mais do que uma só coisa, é e que vós sois cruéis e nós inocentes, porque se o nome do cristão fosse um crime, nós mesmos fariamos o que pudessemos para nega-lo.  – Vamos, donzela miserável, não sabes que nossos invictos príncipes puseram em minhas mãos o poder de vida e morte? Como te atreves a falar­me com tanta arrogância?  – Falei-te com firmeza e não com arrogância; além disso disseste que teus príncipes deram­te o poder da vida e morte; isto é falso. Tu não tens mais do que o poder de dar a morte; podes tirar a vida aos vivos, porém não a podes dar aos mortos. – Acaba; deixa teu atrevimento; sacrifica aos deuses e salva tua vida. Ali tens no pretório as estatuas que deves incensar.  – Como é isto, prefeito? Até falta-te o sentido da vista? Eu não vejo aqui mais do que pedras, bronzes e algum outro metal; estes por certo são divindades. Apalpa essas estátuas se e que as ves, e sentirás que são corpos, porém não espíritos, que não merecem mais honra do que a de serem atiradas ao fogo. Quanta a mim, creio que somente Jesus Cristo é o que pode livrar minha alma do fogo etemo.  Almáquio para evitar tumúltos no povo que amava muito Cecilia por suas obras de caridade, mandou que se the desse a morte ocultamente em sua casa. Os verdugos atiram-na dentro de uma estufa, que era uma espécie de aposento para tomar banhos a vapor, e aqueceram-na bastante para faze-la morrer sufocada; Cecilia, porém, não só saiu ilesa se não que Deus a confortou com sua prodigiosa presença como ja o tinha feito com os três meninos no fomo de Babilônia. Ao saber isto, Almáquio ordenou que imediatamente lhe cortassem a cabeça; porém, como não pudesse o verdugo nem ao terceiro golpe separa-la do tronco ficou ali Cecilia três dias agonizando e nadando em seu proprio sangue. Os pobres que tinham gozado de seus beneficios, com muitos outros cristãos, sem se importarem com o perigo a que se expunham iam valorosamente visita-la, e ela os exortava a que fossem constantes na fé. São Urbano também correu pressuroso a assisti-la durante aqueles prolongados sofrimentos, e ela vendo junto a si o Vigário deo Jesus Cristo exclamou: “Beatíssimo Padre, dou graças a Deus, que em sua grande misericórdia dignou-se ouvir minha oração. Eu lhe tinha pedido que me desse ainda três dias de vida para que pudesse ser consolada com vossa presença e recomendar-vos ao mesmo tempo algumas coisas. Peço-vos, pois, que cuideis de meus pobrezinhos, dai-lhes tudo que encontrardes em minha casa; esta transformai em Igreja para que possa servir para sempre aos fiéis, que ali se queiram reunir para cantar as glórias do Senhor.” Dizendo estas palavras, sua alma voou ao céu a 22 de Novembro do ano 232, poucos meses antes da morte de São Urbano. A casa de Cecilia converteu-se realmente em capela, onde se ve ainda a estufa dentro da qual se queria sufocar esta santa virgem.  

Martírio de São Urbano e de seus companheiros – Depois do martlrio de Santa Cecilia, São Urbano voltou as catacumbas; mas tendo sido descoberto pelos perseguidores, foi conduzido também ao tribunal de Almáquio, juntamente com três diáconos e dois sacerdotes. Sendo vãos todos os esforços que aquele fez para convence-los a incensar Júpiter, ordenou que os metessem em um escuro calabouço. Tiraram-os dai quatro vezes para os levar ante o tribunal do prefeito, onde foram interrogados e atormentados. 0 carcereiro Anolino, comovido pela firmeza de Urbano em suportar os tormentos, converteu-se, recebeu o batismo das mãos de São Urbano e pouco depois cortaram-lhe a cabeça.  Cansado, Almáquio disse a Carpásio seu emissário: “Conduzam estes pela última vez ao templo de Júpiter e se não oferecerem incenso, corte-se-lhes logo a cabeça.” 0 mesmo quis acompanha-los com uma multidão de soldados. Os santos confessores, para manifestar a alegria que inundava seus corações, puseram-se a cantar: “Ó Senhor! Temos sido inundados de consolação confessando publicamente vossa santa lei; nossos corações estãos cheios de alegria qual não estariam gozando de todas as riquezas do mundo.”  assim que Urbano viu a estátua de Júpiter, apoderou-se dele uma dor profunda, pelas abominações que diante dela se cometiam, e disse em voz alta: “Destrua-te o poder de nosso Deus”; e ao pronunciar estas palavras, caiu por terra a estátua, como ferida por um raio, e se reduziu a pó. Ao mesmo tempo cairam mortos os sacerdotes, que em número de vinte e dois, ministravam o fogo para o sacrifício. Ao ver esse espetáculo, fugiram os soldados, e o próprio Almáquio espantado foi esconder-se em sua casa. Depois de algum tempo, ao considerar o fato, não sabia dar-se-lhe a razão de como sua ciência, com seu poder, com suas ameaças e suplícios não tinha podido induzir Urbano a que oferecesse incenso aos deuses. Para isso mandou-os trazer pela última vez ante seu tribunal e lhes disse: – Ate quando abusarei de minha paciência, seguindo essa arte mágica? Acreditais talvez que ela sirva para vos livrar de minhas mãos?  Eles responderam-lhe: Sabemos que nosso Deus é poderoso. Se Ele quiser, pode livrar-nos de ti como livrou os meninos hebreus das mãos de Nabucodonosor e do fomo ardente. E se nos acha dignos d’Ele, e não quer nos livrar, garantimos-te que para nós será uma glória o dar a vida pelo nosso Criador; porém nunca obedeceremos as tuas ordens injustas. Tendo perdido Almáquio toda esperança de os poder persuadir, mandou que os estendessem por’ terra e os açoitassem por muito tempo. Foi tão cruel este castigo que um dos diáconos morreu entre os tormentos. São Urbano os animava e exortava a que não se assustassem com as penas passageiras, pois ver-se-lam livres das penas do infemo que nunca acabam e ganhariam a glória etema do céu. Vendo Almáquio que os açoites não produziam efeito algum, ordenou que os esfolassem com afiados garfos de ferros, de modo que suas cames caiam em pedaços. Entretanto os verdugos tiraram com tal furor do tribunal a dias depois Almáquio mandou levar Urbano e seu clero ao templo de Diana, para que fossem ali decapitados. Conhecendo que finalmente iam terminar seus sofrimentos, disse a seus companheiros: – Coragem, meus filhos, o Senhor nos chama dizendo-nos: “Vinde a mim todos os que estais atribulados e oprimidos, que eu vos aliviarei.” Até agora nós o temos visto somente como num espelho, porém já estamos próximos de ve-lo face a face.  Ao chegar ao lugar do suplício, estando impacientes para sofrer o martírio, disseram todos a uma voz aos seus verdugos: “Fazei logo o que quiserdes.” 0 santo Pontífice deu-lhes a benção apostólica, e depois de terem feito todos o sinal da cruz, ofereceram a Deus suas vidas rogando desta maneira: “ó Senhor dignai-vos receber-nos segundo vossas promessas, para que possamos viver por Vós, e com vosso adjuntório possamos chegar à posse daquela glória que em vosso reino se goza por todos os séculos.” Dizendo estas palavras, ajoelharam-se e lhes foi cortada a cabeça. Este fato teve lugar a 25 de Maio do ano 233. 
CAPÍTULO XVI 
Sexta perseguição – São Ponciano, São Antero e Santa Barbara – Morte de Maximino – Sétima perseguição e São Fabiano – Fim da sétima perseguição – São Gregório Taumaturgo – São Paulo, primeiro eremita.  

Sexta perseguição – A tolerância de Alexandre para com os cristãos, foi um motivo para que Maximino, seu assassino e sucessor, os odiasse com mais encarniçamento. Com o fim de ter um pretexto para persegui-los, lhes atribuia a derrota de seus exércitos, a peste, a carestia, os terremotos e outras coisas que naqueles tempos desolavam o império romano, como se esses males fossem o efeito da cólera dos deuses pela toleâancia que se tinha para com os fiéis de Cristo.  Porém o fato que mais excitou a indignação do imperador, foi o santo valor de um de seus soldados. Quando Maximino foi proclamado imperador fez, conforme se costumava então alguns presentes a seus soldados. Todos os homens que compunham o exército, deviam aparecer perante ele, para receber aqueles dons, com uma coroa de louro na cabeça; mas um dos soldados, suspeitando que essa prática, naquelas circunstâncias, importava um sinal de idolatria, levou a coroa na mãos. Perguntando-lhe um oficial a razão daque  singularidade, respondeu-lhe: “Sou cristão e minha religião me proibe levar na cabeça vossa coroa se fazendo, assim pudesse, eu parecer Idólatra.” Tiraram-lhe no mesmo instante o uniforme militar e levaram-no preso. Alguns fiéis pensavam que se podia levar tal coroa como sinal de festa civica sem incorrer em culpa alguma. Nesta ocasião Tertuliano escreveu um livro intitulado: Da coroa do soldado; nele demonstra que naquele caso tal cerimônia era um ato de idolatria, e como tal ilícito, pois é fora de dúvida que muitas vezes, a moralidade das ações depende da interpretação exterior que lhes dão os homens.  
São Ponciano, São Antéro e Santa Barbara – Maximino decretou no mesmo instante uma perseguição contra todos os cristãos. Quando porém soube que estes constituiam uma grande parte de seus suditos, limitou-se a proibir que se abraçasse a religião que eles professavam, e ao mesmo tempo deu ordens para que se desse morte particularmente aos Bispos, pois que eles eram os autores dos progressos do cristianismo. A vtima principal do furor de Maximino foi São Ponciano. Desterraram-no para a pequena ilha de Tavolara na Sardenha, e depois de dois anos de cadeia e sofrimentos, condenaram-no a morrer a pauladas. Sua morte teve lugar no ano 238. Sucedeu-lhe Santo Antero, ao qual cortaram a cabeça depois de um mês de pontificado. Santa Barbara foi primeiramente provada com cruéis tormentos da parte de seu desnaturado pai e mais tarde condenada a morte na cidade de Nicomedia. A perseguição teria sido muito mais longa se Deus não tivesse tirado do mundo  seu autor. Achava-se ele sitiando a cidade da Aquila que tinha rebelado e lhe havia fechado as portas. Tendo-o levado o assalto várias vezes, porém em vão, atribuia a seu soldados os seus infelizes insucessos, e deixando-se levar pelo seu furor, entregava-se a atos brutais contra os mesmos. Alguns deles, cansados de tanto maus tratos, atiraram-se sobre ele e o assassinaram em sua tenda.  

Sétima perseguição e São Fabiano – A sétima perseguição suscitada pelo imperador Décio, foi uma das mais sanguinolentas. Êmulo de seus predecessores, Décio publicou um edito que foi executado com o maior rigor. Os açoites, os garfos de ferro, o fogo, as feras, a pez fervente, as tenazes incandescentes, tudo foi posto em obra para atormentar os confessores da fé.  É tão grande o número dos que padeceram o martírio nesta perseguição, que seria impossível numera-los. Distinguiam-se especialmente São Poliuto na Armênia, Santo Alexandre bispo da Capadócia, o magnanimo São. Piônio, sacerdote da Igreja de Smirna, Santa Águeda de Catânia, Santa Vitória de Toscana e São Fabiano. Este Pontífice trabalhou muito pela fé, até que finalmente o denunciaram como chefe dos cristãos. Depois de longos e graves padecimentos, cortaram-lhe a cabeça a 20 de Janeiro do ano 253; governou a Igreja cerca de 13 anos.  São Cipriano, tendo recebido do clero de Roma a relação da morte de São Fabiano, ao responder­lhe, expressou nestes termos: “Já havia corrido entre nós a notícia de que o Pontífice Fabiano tinha morrido; e, enquanto vagava incerta esta nova, recebi uma carta que me dá todas as minúcias de sua gloriosa morte. Muito me regozijei em meu coração por ter ele coroado tão gloriosamente as fadigas de seu apostólico ministério. Vós também deveis por esse motivo vos alegrar muito comigo. Desse modo a memória gloriosa do vosso bispo, será de glória para vós, e para nós um belíssimo exemplo de constância na fé e na virtude.” (s. Cip., Ep. 4).  A perseguição de Décio cessou tão somente com sua morte. Enquanto combatia contra os bárbaros do Danubio, tendo por segura a vitória, intenou-se inconsideradamente em um pantano para ter melhor a sua vista os inimigos; porém oprimido pelo furor dos combatentes, pereceu miseravelmente afogado naquele pantano. Ano 253.  

São Gregório Taumaturgo – Enquanto os mártires, sacrificando sua vida no meio de tormentos atrocíssimos, davam testemunho da verdade de sua fé, outras maravilhas eram operadas por outros heróis do cristianismo pela prática da virtude e por grandes prodígios. Entre estes sobressai São Gregório, chamado Taumaturgo, isto é, fazedor de milagres. Era sua patria Neo-Cesareia, no Ponto, e descendia de familia nobre. Na morte de seus pais desprezou os cargos honrosos que se lhe ofereciam, distribuiu sua fortuna aos pobres e, não confiando senão na Providência, retirou-se para a solidão afim de ai terminar seus dias num retiro. Mas suas preclaras virtudes atraiam-lhe as admirações do publico, que queria proclama-lo bispo, porém ele, espantado em presenc;a so da idéia de tão alta dignidade, mudou de moradia e andou errante de deserto em deserto. Encontraram-no sem embargo e, apesar da sua repugnância foi eleito bispo de sua patria (Ano 250).   É impossível narrar aqui tudo o que fez o santo Bispo em prol do rebanho que lhe foi confiado.  Os Sahtos Padres comparam-no a Moisés e aos profetas pelo dom de profecia e de milagres, e aos apostólos pela virtude, zelo e trabalhos, e especialmente pela multidão de prodígios operados por ele. Com uma oração livrou seu povo de uma mortandade que horrivelmente o dizimava; com uma ordem dada mudou para outro lugar um monte que estorvava a ereção de uma Igreja, e servindo­se do mesmo recurso secou um pantano que era causa de uma discordia fraterna. Um rio inundava e devastava os campos causando grandíssimos estragos; corre o Santo para  lugar do desastre, finca na margem do rio o bastão em que se apoia, o qual logo transforma-se numa árvore verde e frondosa que serve de limite ao rio.  Estando proximo a morte, perguntou quantos infieés ainda existiam em Neo-Cesareia, e como se lhe respondesse que ainda havia dezessete, disse: “Graças sejam dadas a Deus; pois esse era justamente o número de fiéis quando fui eleito bispo.” Morreu no ano 268. 

São Paulo, primeiro eremita – Os estragos que a perseguição causou entre os cristãos foram, causa de que muitos deles seguissem o conselho do Salvador e fugissem das povoações onde a perseguição tomava maior incremento, para ir buscar um asilo nas vastas solidões que se estendem naquela parte do Alto Egito, chamada Tebaida, na Palestina e na Siria. o primeiro eremita, isto é,  primeiro que foi , conhecido entre aqueles solitários, foi São Paulo. Este nasceu perto de Tebas no ano 229. Ali vivia levando uma vida cristã. Sua juventude, suas riquezas e seu nascimento não foram capazes de seduzi-lo, pois só amava a virtude; porém sua humildade que lhe fazia temer expor-se aos tormentos, induziu-o primeiramente a esconder-se numa casa de campo, e depois a retirar-se para as partes mais remotas do deserto (Ano 250). Deus que o guiava, fez-lhe encontrar uma rocha em que a natureza tinha formado uma espécie de aposento, belamente iluminado por uma abertura na parte superior. Do alto da montanha brotava uma fonte de água cristalina, que alimentava um claro regato que tornava mais amena aquela solidão. Nutria-se o Santo com os frutos de uma palmeira que sombreava a entrada da gruta, até que o Senhor, servindo-se de um corvo,  fez chegar a suas mãos meio pão cotidiano, alimento mais próprio para sua avançada idade. Ali viveu Paulo noventa e dois anos, sem outra companhia do que a das feras e quase desdeconhecido dos homens. Pouco tempo antes de sua morte, Deus lhe fez conhecer o grande Abade Santo Antão, que havia levado, igualmente, durante muitos anos uma vida solitária em outra parte daquele deserto. Sua morte teve lugar aos 113 anos de idade e no ano 342 de nossa era. 
CAPÍTULO XVII 
Origenes – Sede romana vacante ­ Lapsos – Sacrificados – Turificados – Idólatras – Libeláticos – Mártires – Confessores ­ Imigrado – Professores  

Origenes – 0 célebre Origenes nasceu em Alexandria do Egito. Leonidas seu pai, cristão muito fervoroso, o educou com solicitude no santo temor de Deus, e desde a mais tenra idade o iniciou no estudo das divinas Escrituras. Tinha talvez dezessete anos quando seu pai, no imperio de Sétimio Severo, foi preso pela fé. Sabendo-o Origenes, queria a todo o custo ir ao martírio com ele, e era tal seu ardor, que sua mãe para impedir viu-se obrigada a esconder suas roupas, pondo-o assim na necessidade de desistir de seu propósito. Escreveu, não obstante, a seu pai uma carta formosíssima exortando-o a dar de bom grado sua vida pela fé, sem se deixar intimidar nem afligir-se por coisa alguma. Morto Leonidas, foram confiscados seus bens conforme costume, deixando sua família na miséria. Então Origenes, jovem como era, começou a dar lições de gramática e de literatura, para sustentar sua mãe e seus irmãos. Mais tarde o bispo de Alexandria ofereceu um campo vasto ao seu grande engenho, confiando-lhe a cadeira de Catequista naquela famosa escola do cristianismo, contando ele apenas dezoito anos. Desejoso de compreender quanto melhor pudesse a doutrina de Jesus Cristo, fez uma viajem , a Roma, no ano 221, para observar atentamento os ensinos e costumes daquela Igreja, que ele chamava principal e mestra das outras Igrejas. De volta a sua patria, continuou a dar lições e fez tais progressos nas ciências, que, conforme narra, a história, parece-nos um portento. Não se compreende, por exemplo, como pudesse um só homem ditar, durante várias horas consecutivas de dia e de noite, para sete copistas ao mesmo tempo, coisas diversas e da mais alta e sublime teologia; nem como pudesse compor tantos livros de erudicão bíblica e eclesiastica, enquanto conferenciava ao mesmo tempo com uma turba de doutos e literatos, que recorriam a ele pedindo luzes e conselhos. Sua fama se tinha estendldo tanto, que ninguém ia a Alexandria, cristão ou pagão, sem que fosse visitá-lo. Os bispos o convldavam, e posto que não estivesse investido do caráter sacerdotal, faziam-no pregar; finalmente o bispo de Jerusalém o ordenou sacerdote. Maméia, mãe de Alexandre Severo, que se pensa ter recebido o batismo, serviu-se muito de seus conselhos e de suas luzes. 0 imperador Filipe e sua esposa Severa tliveram relações com Origenes, que dirigiu a cada um deles uma carta cheia de conselhos sublimes e de sentimentos de piedade.  

Fim de Origenes – Não obstante estar no fim da vida, teve de padecer graves tribulações, motivadas por certas doutrinas erroneas, que lhe escaparam talvez inadvertidamente ao ditar suas obras.  Tais são: os Comentários sobre as Santas Escrituras, os livros contra o filósofo Celso, e muito especialmente o que tem por título Periárcon, isto é, dos Princípios. Por outra parte quase não se pode por em dúvida que os hereges tlvessem falsificado aqui e acolá alguns pontos dos seus escritos, e que a falsificação teve lugar ainda em vida de Origenes, pois que ele mesmo se queixava disto. O certo é que ele entendia viver e morrer como católico, e que por isso dirigiu uma carta ao Papa São Fabiano, a qual não chegou até nós; porém sabemos conforme o testemunho de São Jerônimo (Ep. 74) que ainda a pode ler, que nela dava a conhecer seu arrependimento pelos erros em que tinha caído. Quanto aos dogmas da Unidade e Trmdade de Deus, da Encanação de nosso dIvino Salvador, do sacrifício da santa Missa, do sacramento da Confissão, da invocacão dos Santos, e da hierarquia da Igreja. Origenes foi um testemunho de muita importância para a doutrina cristã no terceiro século. Este insígne doutor sofreu muito na perseguição de Décio em que foi carregado de cadeias, encerrado em um cárcere, e sujeito a graves tormentos. Mas mesmo no cárcere não cessava de escrever cartas a seus discípulos, recomendando-lhes que perseverassem na fé. Morreu na cidade de Tiro aos 69 anos de idade no ano 253. Alguns bispos, ainda em vida de Origenes; iniciaram contra ele uma perseguição, por que se deixara ordenar pelo bispo de Jerusalém sem ter conseguido antes licença do seu próprio bispo, que era o de Alexandria; e também porque tinha compreendido e práticado mal as palavras de Jesus Cristo relativamente à castidade perfeita (Sao Mat., cap. 19.). São Jerônimo, conquanto combata acerbamente os erros de Origenes, fala muito sobre suas virtudes, e deixa entrever grande esperança em relação a sua etema salvação.  

Sede romana vacante – 0 assanhamento contra os cristãos durante a perseguição de Décio, foi a dolorosa causa de não se poder eleger o novo Papa senão dezesseis meses depois da morte de São Fabiano; e isso porque o jmperador preferia, conforme diz São Cipriano, ter antes um competidor no império, do que ter em Roma um sacerdote de Deus. Isto nos demonstra como já conhecia Décio quão grande era a autoridade que tinha o bispo de Roma sobre toda a Igreja. Esse espaço de tempo chamou-se Sede vacante,porque não havia nenhum Papa. Quase se pode dizer que é o tempo mais longo da história eclesiástica, durante o qual faltou Pontífice à Santa Sé. Representava então o Chefe visível da Igreja o clero romano, que, como observa São Cipriano, tomou temporariamente as rédeas do govemo; e com efeito os diversos paises da cristandade, em suas graves necessidades espirituais, continuaram a recorrer a Igreja de Roma, ainda em tempo de Sede vacante.  Os inauditos tormentos que se puseram em prática durante esta perseguição fizeram prevaricar muitos fiéis, e São Cipriano nos diz os motivos dessas deploráveis defeções. Muitos fiéis eram demasiado apegados aos bens da terra e as riquezas lhes ataram de tal modo os pés, que quando chegou o tempo de correr valorosamente para o martírio, acharam-se enlaçados e calram miseravelmente negando a Jesus Cristo.  

Lapsos – Aos que prevaricavam davam-se vários nomes. Chamavam-se lapsos em geral os que de qualquer maneira tivessem negado a fé, porque do estado de filhos de Deus, a que tinham sido elevados pelo batismo, tinham caido miseravelmente para ser escravos de satanás, perdendo todo o direito a felicidade do céu. 

Sacrificados – Os lapsos costumavam chamar-se sacrificados, quando tinham sacrificado aos ídolos, ou comido alguma coisa oferecida aos mesmos; pois que naquele infortunado tempo de prevaricação somente o comer essas coisas era considerado pelos gentios como sinal de ter negada a fé.  

Turijicados – Chamavam-se os que para fugir os tormentos, consentiam em queimar incenso aos idolos ainda que sem fazer ato algum de idolatria. 
 
Idólatras – Eram os que por meio de sacrifícios ou de palavra declaravam ter renegado a fé católica para adorar os deuses.  

Libeláticos – Compreendiam-se debaixo deste nome aqueles que tinham em seu poder uma carta dos magistrados; bastando-lhes mostrá-la para que fossem postos em liberdade. Os libeláticos se dividiam em duas classes: uns eram os que, entregando certa quantia de dinheiro, conseguiam uma carta em que se declarava que tinham sacrificado aos ídolos, ainda que não fosse verdade; e os outros eram os que pagavam para obter um certificado em que nada se dizia do que tinham feito ou dito e somente se notificava aos soldados e juízes que não os incomodassem. A conduta dos libeláticos da primeira classe foi altamente reprovada pela Igreja, pois ainda que fosse verdade que eles nada dissessem ou fizessem contrário a fé, contudo fazia crer aos pagãos que a haviam negado. Tinham feito escrever além disso naquela carta uma mentira injuriosa a Nosso Senhor Jesus Cristo, que disse: “Aquele que se envergonhar de confessar-me diante dos homens, me envergonharei eu de confessá-lo diante de meu Pai celeste”. (Luc., 9-26). Mas os da segunda categoria não foram condenados pela Igreja, porque não faziam mais do que comprar com dinheiro o privilégio de não se lhes molestar.  

Mártires – assim como aos que abandonaram a fé davam-se vários nomes que indicavam sua fraqueza e culpa, também aos que com animo varonil padeciam por Jesus Cristo davam-se títulos gloriosos, conforme o modo e o tempo em que confessavam a fé, e suportavam os trabalhos das perseguições. Chamavam-se mártires os que constantemente toleravam os suplícios pela fé ainda que não morressem nos tormentos. Por isto costuma-se chamar mártir a São Joao Evangelista, porque, para confessar sua fé, foi arrojado, em Roma, numa caldeira de azeite fervendo, da qual saiu milagrosamente intato. Morreu muitos anos depois na paz do Senhor. Do mesmo modo chama-se mártir a Santa Técia pelos muitos e atrozes suplícios que padeceu por Jesus, ainda que não morresse neles; pois terminou sua vida pacificamente. Também merece o nome de mártir aquele que padece pela fé, ainda que não morra no suplício; porque a palavra mártir significa testemunha e os mártires, confessando fé entre os sofrimentos do cárcere, das cadeias e dos suplícios, dão público testemunho da verdade da religião católica.  

Confessores – Chamavam-se assim os que confessavam em presença dos juízes seu caráter de cristãos, com perigo próximo de serem atormentados e mandados à morte, ainda que às vezes não sofressem mais do que o cárcere.  

Extorres – Extorres é uma palavra latina que slgnifica imigrado, nome que se dava aos que temendo não suportar os tormentos abandonavam suas riquezas, sua pátria, seus pais e amigos e iam estabelecer-se em paises estrangeiros. Estes davam testemunho de sua fé antes com fatos do que com palavras, seguindo o conselho de Jesus Cristo que disse: “Quando fordes perseguidos numa cldade, fugi para outra”.  assim o fizeram São Paulo, primeiro eremita, São Atanasio bispo de Alexandria e outros. 

Professores – Eram estes os que levados pelo amor de Deus animados pelo desejo de morrer pela fé, ofereciam-se espontaneamente aos verdugos e arrostavam todo genero de tormentos. Entre estes tão somente são dignos de admiração e glória os que chegavam a este excesso de heroísmo, guiados por uma graça especial do Espírito Santo; porém os que o fizeram levados unicamente por certo entusiasmo, ou por tal ímpeto da natureza, tonaram-se culpados; pelo que a Igreja mais os reprovou como audazes, de que os louvou como fervorosos.
CAPÍTULO XVIII
Cisma de Novaciano – Primeiro anti-Papa – Interrogatório de São Cornélio – Prisão e martírio de São Cornélio.

Cisma de Novaciano – 0 autor do primeiro cisma ou, o que significa a mesma coisa primeiro rompimento da unidade da Igreja Católica, foi Novaciano. Um tal Novato de Cartago, tinha semeado a discordia naquela Igreja, enquanto São Cipriano se achava desterrado pelas perseguições. Cioso de gloria, Novato dirigiu-se a Roma para espalhar seus erros; ali se encontrou com Novaciano que desejava ser Papa em lugar de São Cornélio. Novaciano durante sua mocidade, sendo ainda idólatra, tinha sido possesso pelo demonio; porém livre já dele pelos exorcismos, determinou abraçar a fé. Enquanto era catecumeno e se fazia instruir no Evangelho, enfermou e se lhe administrou o Batismo estando na cama. Tendo melhorado, não recebeu  sacramento da Confirmação, nem as demais cerimônias do Batismo, que tinham sido postergadas porque parecia muito inconstante na Religião. Conseguiu não obstante, fazer-se ordenar sacerdote, contra o costume de então de não ordenar aos que tinham sido batizados na cama por motivo de grave enfermidade. Sobrevindo a perseguição, Novaciano ficou encerrado em sua casa. Os diáconos o convidavam para que saisse assistir a seus irmãos que perigavam, porém ele deixando-se arrastar pela cólera, separou-se deles dizendo que já não queria ser sacerdote. Novato, que não desejava mais do que encontrar um homem turbulento, juntou-se com ele e começou a ensinar o contrário do que até então tinha ensinado. Em Cartago tinha sustentado que se deviaa absolver aos apóstatas e agora em Roma se doia da demasiada facilidade com que se lhes permitia fazer penitência. 

Primeiro anti-Papa – Cornélio foi eleito Papa a despeito das dificuldades de Novato e de seus amigos. Novaciano vendo burladas suas esperanças, protestou que não tinha ambicionado o pontificado; porém suas obras, prontamente, desmentiram sua asserção. Quando viu Cornélio na posse da Santa Sé, associou-se a Novato com o fim de excitar tumúltos.Querendo ser Papa a todo custo, reunio em Roma alguns bispos, e tendo conseguido encerrá-los em sua casa, a altas horas da noite, com ameaças os obrigou a consagrá-lo, como se a Sede Romana se achasse vaga. Deste modo se efetuou a ordenação de Noviciano, primeiro anti-Papa e primeiro chefe do cisma, na Igreja Católica.Ao cisma juntou a heresia, afirmando que a Igreja não podia dar a paz nem absolver aos que tinham caido em tempo de perseguição, ainda que fizessem penitência de seu pecado e suplicassem à Igreja que lhes perdoasse em nome de Jesus Cristo. Condenava também as segundas núpcias, motivo pelo qual seus discípulos foram chamados cátaros, isto é, puros ou puritanos, porque vestiam­se de branco, afetando observar a virtude da continência, a qual por outra parte ultrajavam escandalosamente. Novaciano para ligar mais seus setários no cisma, ao administrar-lhes a santa Eucaristia, tomava-os pelas duas mãos e os fazia jurar nestes termos: “Jura-me pelo corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo não abandonar-me jamais para voltar a Cornélio”; e tão somente aos desgraçados que respondiam: “Não voltarei a Cornélio”, dava sacrilegamente a santa hóstia e lhes permitia enguli-la.  

Interrogatório de São Cornélio – A perseguição, que ainda continuava fazendo estragos, e as turbulencias suscitadas por Noviciano, obrigaram ao Pontífice Cornélio a retirar-se de Roma e refugiar-se em Civitaveccia; onde eram tantas as cartas que diariamente escrevia, e a afluência de gente que de todas as partes a ele acudia, que parecia ter-se translalado Roma para ali. Foi este o motivo pelo qual o imperador mandou voltar Cornélio a capital afim de pedir-lhe contas das desordens que, seguindo dizia ele, diariamente suscitava. Mandou que comparecesse a sua presença durante a noite e 0 interrogava da maneira seguinte:- Padece-te, ó Cornélio, que fazes o que deves? Qual a razão que te leva a não respeitar nossos deuses, e a não temer minhas ameaças, escrevendo, ao contrário cartas aos inimigos da república, em prejuízo da mesma? Cornélio lhe respondeu com calma: – As cartas que tenho escrito, e as respostas que recebi, em nada afetam os interesses da república; tão somente falam de Jesus Cristo meu Deus. Posso garantir-te que tudo o que tenho dito e feito não tem outro fim se não a salvação das almas. O imperador mandou que se tirasse o Papa de sua presença e que se açoitasse seu rosto com um manojo de cordas, em cujas extremidades se haviam atado bolinhas de chumbo: ut os ejus plumbatis coederetur. (Acta mart. s. Com.). 

Prisão e martírio de São Cornélio – Logo mandou o imperador que conduzissem Cornélio ao cárcere, onde a divina Providência dispos que convertesse a fé o seu carcereiro chamado Cereal. Movido este pela santidade que o Vigário de Jesus Cristo manifestava em suas palavras e em suas obras pediu-lhe que fosse a sua casa para visitar sua mulher Salústia, que havia quinze anos jazia parAlitica no leito. Consentiu Cornélio e foi a sua casa, acompanhado de seus sacerdotes e um leitor; e levantando os olhos para o céu, rezou da seguinte maneira: “Senhor Deus, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, vós que em vossa grande misericordia tendes baixado do céu à terra para nos salvar a todos miseráveis pecadores, restitui sua primeira saúde a esta serva enferma, e tende miserlcórdia dela como tivestes do cego de nascimento de que nos fala oEvangelho, para dar a conhecer vossa glória e exaltar vosso santo nome”. Em seguida tomando-a pela mão lhe disse: “Em nome de Jesus Nazareno levanta-te e caminha”; e assim como o cego de nascimento obteve a vista às palavras do Salvador, assim também Salústia, perfeitamente curada, se levantou exclamando em alta voz: “Verdadeiramente Jesus Cristo é Deus e Filho de Deus”. E iluminada pela graça do Senhor, disse a São Cornélio: “Peço-te por amor a Jesus Cristo que nos administres o batismo”; e dizendo isto, foi buscar água e a deu ao Pontífice para que a batizasse, dando então os primeiros passos depois de quinze anos de parAlitica. Muitos soldados e os mesmos carcereiros, testemunhas deste milagre, pediram que se lhes administrasse o batismo. assim o fez Cornélio depois de te-los iniciado suficientemente. e para agradecer dignamente ao Senhbr, ofereceu por eles o sacrificium laudis, isto é, o santo sacrifício da Missa, e todos eles participaram do corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tendo noticia o Imperador de tudo que tinha acontecido em casa de Cereal, encheu-se de indignação, e ordenou que se levassem todos aqueles cristãos à via Apia, para que fizessem um sacrifício a Marte sob pena de morte ao que se negasse fazê-lo.  Durante o caminho, encontrou São Cornélio o Arcediago Estevão e lhe recomendou que distribuisse aos pobres o pouco dinheiro que ainda ficava à disposição da Igreja. Ao chegar ao lugar designado, os guardas vendo que eram inúteis todos os seus esforços, cumpriram as ordens recebidas. Ao santo Pontífice cortaram a cabeça a 14 de setembro do ano 255, depois de ter governado a santa Sé cerca de dois anos. Cereal, Salústia e mais outros vinte, foram martirizados na mesma ocasião. 
CAPÍTULO XIX 
São Xisto II e os Sabelianos – Oitava perseguição; São Xisto São Lourenço – Martírio de São Cipriano – O jovenzinho Cirilo – Morte de Valeriano. – Aureliano e a nona perseguição – Heresia de Manes.  

São Xisto II e os Sabelianos – A São Cornélio sucedeu São Lúcio que ocupou a santa Sé somente dezesseis meses, pois caiu sobre ele a espada da perseguição. À sua morte foi eleito São Estevão que também sofreu o martírio depois de três anos de pontificado. Sucedeu-lhe no trona de São Pedro Xisto II, ateniense, que permaneceu nele um ano somente. o que mais ocupou seu zelo foi a heresia dos Sabelianos, chamada assim por Sabélio, que foi seu autor.  Nasceu este em Tolemaida e começou a espalhar seus erros no ano 250. Entre outras extravagâncias dizia que não havia distinção real entre as três pessoas da Santísslma Trindade, e que o Pai era a mesma pessoa que o Filho e o Espírito Santo.                                                     
São Dionisio, bispo de Alexandria, foi  primeiro a declarar-se contra os novos erros. A princípio os combateu energicamente com palavras, porém mais tarde pos por escrito a doutrina dos Sabelianos e sua refutação, e a enviou ao mesmo Sumo Pontífice em forma de carta. São Dionisio escreveu também outra carta a São Xisto para consulta-lo sobre algumas questões difíceis. “Apresentou-se-me um caso, disse-lhe, sobre  qual não me atrevo a pronunciar um juízo definitivo, pois tenho medo de enganar-me. Consilium quaero, tuamque vehementer exposco sententiam. Peço conselho e com vivas instâncias solicito que deis vossa sentença a respeito”.  O Pontífice examinou o caso e conheceu que as razões expostas davam lugar a verdadeiras dúvidas sobre a validade do batismo administrado por certos hereges, atendendo ao modo pelo qual o adminlstravam; por isso respondeu que se devia renovar esse Sacramento debaixo de condição, não porque o tivesse administrado um herege, porém porque parecia terem-se omitido coisas essenciais.(V. Bor.).  É esta a regra que ainda segue a Igreja católica, quando recebe em seu gremio aos que foram batizados quando professavam a heresia. Posto que ela considere válido o batismo administrado como o instituiu Jesus Cristo, contudo, quando há dúvidas razoáveis de que esse procedimento não tem sido observado, então temendo a Igreja que esse batismo tenha sido invalidamente administrado o faz administrar novamente debaixo de condição.  

Oitava perseguição; São Xisto São Lourenço – A oitava perseguição nasceu da estulta promessa que fizeram a Valeriano os sacerdotes dos ídolos, em que lhe asseguravam uma grande vitória sempre que aniquilasse o cristianismo.  Entre os mártires mais ilustres desta perseguição conta-se São Xisto II Papa, e São Lourenço. Aquele denodado Pontífice, depois de ter sido preso e insultado, e ter sofrido fome e sede, e depois de ter mostrado grande flrmeza em presença dos juízes e do próprio imperador, foi finalmente condenado à morte. Enquanto o conduziam para o suplício, seu diacono São Lourenço o acompanhava soluçando: “Para onde ides, Santo Padre, lhe dizia, sem o vosso ministro … ?” Ele lhe respondeu: “Tem coragem; daqui a três dias me seguirás. A mim que sou velho, convém uma luta menos dura, porém a ti que és jovem, esta se preparando um combate mais atroz. Reparte entretanto com os pobres as riquezas que te foram confiadas”. Coroou seus trabalhos sendo decapitado no ano 264.  O que predissera o Papa em relação a seu diácono verificou-se pontualmente. Tendo ordenado o prefeito de Roma a São Lourenço que lhe entregasse naquele instante os tesouros da Igreja, o santo diácono respondeu-lhe que estes já não estavam em seu poder, pois tinham sido distribuídos entre os pobreSão Indignado o tirano ao receber esta resposta, fez-lhe padecer horríveis tormentos, e para acabar com ele, fe-lo deitar sobre uma grelha incandescente o valoroso mártir parecia insensível a dor, pois passado algum tempo disse ao tirano: “Se queres, faz-me virar do outro lado pois ja estou bastante assado deste”; e depois que o voltaram acrescentou: “Ja estão minhas carnes bastante cozidas; se gostas, podes comer delas” e ficou nesta firmeza até o último suspiro. Seu martírio causou tal impressão que vários senadores romanos consideravam-se muito honrados em levar o cadáver sobre seus ombros até o cemitério de Ciríaco no Campo Verano. Ali foi sepultado, e nesse mesmo lugar Constantino lhe erigiu mais tarde uma basílica que ainda existe.  

Martírio de São Cipriano – São Cipriano também foi um dos mártires da oitava perseguição. Nascldo em Cartago de pais ricos, porém pagãos, por divina disposição encontrou um amigo que lhe fez conhecer as verdades da fé. Reconheceu-as Clpriano e recebeu o batismo; vendeu logo todos os seus bens, dlstribuiu seu valor aos pobres, e retirou-se do mundo. Conhecida sua santidade e engenho, apesar de sua resistência, foi elevado com aplauso geraJ à cadeira episcopal de sua pátria. É impossível dlzer tudo o que fez para propagar o Evangelho, refutar de viva voz, com escritos e com milagres aos hereges, e animar ao martírio. Acusado como cristão e chefe dos cristãos, foi condenado a morte. Ao saber da noticia exclamou: “Graças a Deus, que se dignou livrar­me do cárcere do meu corpo”. Chegando ao lugar do suplício, despiu-se com tanta serenidade de seu manto e hábitos eplscopais, que o verdugo vacilava em cumprir seu sagrento ofício. O mártir o animou ordenando que lhe pagassem vinte e cinco moedas e ele mesmo ajudou vendar os próprios olhos. Cortaram-lhe a cabeça a 14 de Setembro do ano 258, exatamente no dia, em que um ano antes tiha predlto que seria mártirizado. 

jovenzinho Cirilo – O jovenzinho Cirilo também gloriflcou publicamente em Cesareia da Capadócia o nome de Jesus Cristo. Ainda que expulso da casa paterna e privado de tudo, permaneceu firme na fé; o juiz o chamou a seu tribunal e tratou de convencê-lo com lisonjas oferecendo-se como mediador entre ele e seus pais. “Eu experlmento um verdadeiro prazer, respondeu o menino com valor, em sofrer desprezos e desdem, expulso de minha casa, sei que me espera outra infinitamente melhor; e a morte que tu encaras como o mais terrível dos males, é para mim a porta que me conduzirá à glória”. o juiz para assustá-lo fingiu faze-lo atormentar; porém longe de subir-lhe as cores ao rosto, ele mesmo dirigiu-se para o fogo no qual o queriam atirar. Quando o tiraram dai e tornaram a levá-lo a presença do juiz, lhe disse: “Tirano, tu me injuriaste tirando-me a morte. Ferro e fogo, eis todos os dons que te peço”, Os que se achavam presentes choravam ao ouvi-lo assim falar; porém ele lhes disse: “Em vez de chorar deverieis alegrar-vos comigo e participar do meu triunfo. Vós ignorais que reino se me há preparado; e que felicidade me espera”: e ficou firme nestas admiráveis disposições até a morte.  

Morte de Valeriano – A promessa dos sacerdotes idólatras a Valeriano, de que alçaria uma assinalada vitória contra os Persas, não se viu realizada; antes, sofreu ele uma derrota em que caiu nas mãos de Sapor, rei daquela nação, o feroz persa fe-lo carregar de cadeias, depondo-lhe as vestimentas imperiais, e quando montava a cavalo, obrigava-o a prostrar-se diante dele, e pisava-lhe o pescoço para que servisse de estribo. Finalmente ordenou que o esfolassem vivo: e que seu corpo esfolado e sua pele tingida de vermelho se conservasse como opróbio desse perseguídor dos cristãos. Deus quis manifestar assim sua justiça. A maldição divina caiu também sobre toda a descendêncla de Valeriano, pois seu filho, aclamado imperador após sua morte, foi morto pelo exército de Ilíria. Sucedeu-lhe Galiena que também foi assassinado; e o filho de Galieno e seu irmão foram precipitados do alto do Capitólio. assim extinguiu-se completamente a estirpe daquele tirano.  

Aureliano e a nona perseguição – Atribue­se a Aureliano a nona das grandes perseguições suscitadas contra a fé de Jesus Cristo. Este imperador, a princípio se mostrou favorável aos cristãos, e nos dá provas disso o seguinte fato: Paulo de Samosata, que tinha sido deposto de sua sede em Antioquia, recusava-se a entregar a seu sucessor o palácio episcopal. Depois de inúteis instâncias, os católicos apresentaram suas queixas a Aureliano, que tendo examinado a questão, deu a respeito desta memorável sentença: “Entregue-se a casa episcopal ao designado para ocupa-la pelos prelados itaianos de religião cristã, e pelo pontífice romano”, isto é, o bispo de Roma e seu clero, Esta sentença nos dá a conhecer duas coisas de suma importância: a saber, que a veneração dos fiéis para com o Pontífice romano, como chefe supremo, era tão notória naqueles tempos que nem os próprios gentios a desconheciam; pois Aureliano viu que para fazer justiça aos cristãos de Antioquia, em coisas concernentes a seus interesses religiosos, era o caminho mais curto remiti-las ao juízo do Papa, prometendo fazer executar sua sentença, e também nos demonstra o erro em que se achavam os que pretendiam que a Igreja não possuia nos pnmeiros tempos bens de raízes. Instigado este imperador pelos pagãos, achava-se a ponto de firmar um terrível decreto contra os cristãos, porém aterrorizado por um raio caido a seus pés, suspendeu por momentos semelhante edito, ainda que o firmou pouco depois. Passado algum tempo, foi Aureliano assassinado por seu secretário, e assim concluiu a perseguição. Ano 275.  

Heresia de Manes – A heresia dos maniqueus é assim chamada por causa do seu autor, Manes. Nascido escravo na Persia, resgatou-o uma viúva cuidadosa, que não tendo filhos, o adotou e nomeou herdeiro de suas grandes riquezas. Entre as demais coisas que herdou, encontrou Manes um livro de que tirou as estravagâncias mais infames. Acreditando com isto ter-se tornado um homem divino, chamava-se paraclito, isto é, luz do genero humano; ensinava que existem dois deuses, um born e autor do bern, e outro mau e autor do mal.  Proscrevia a esmola, os Sacramentos, o culto das santas imagens e negava a Encarnação de Jesus Cristo. Tendo a cabeça cheia de ridicularias, pretendeu também fazer milagres, e se ofereceu para curar o filho de seu rei perigosamente enfermo; porém o menino morreu e o impostor foi preso. Tendo conseguído iludir a vigilância de seus carcereiros, fugiu do cárcere, retirou-se do reino e para dar crédito a seus erros foi disputar com o bispo de Cesareia, e mais tarde com São Trifônio; porém ambos o confundiram e o cubriram de vergonha. O povo, irritado por suas blasfemias, ameaçou apedrejá-lo; então ele fugiu e voltou a Persia, onde caiu em mãos do rei, que ordenou que o esfolassem vivo. Seu corpo foi atirado as feras, e sua pele foi colocada em uma porta da cidade. (277). Mas desgraçadamente não morreu com ele o sistema de suas absurdas doutrinas; e a seita dos maniqueus se propagou de tal modo, que dez séculos mais tarde, ainda causou grandíssimos trabalhos à Igreja. 
CAPÍTULO XX 
São Caio e a décima perseguição – São Marcelino e a legião tebana – Martírio da mesma – Era dos mártires – Decreto de Diocleciano – Fim desgraçado desse príncipe. 

São Caio e a décima perseguição – A São Xisto II sucedeu São Dionisio que governou a Igreja onze anos e três meses. A este sucedeu São Felix, que ocupou cerca de três anos a sede de São Pedro Em sua morte subiu ao trono pontifício Santo Eutiquiano, que o ocupou durante oito anos e dez meses; ambos morreram mártires. Depois do martírio de Santo Eustaquiano, elegeram Papa a São Caio, sobrinho do Imperador Diocleciano. Nascera em Solona cidade marítima do Adriático, de pais nobres e ricos; foi enviado a Roma para cursar seus estudos. Tendo tido ali ocasião de conhecer o Evangelho se fez cristão e mais tarde abraçou o estado eclesiástico. Trabalhou muito nos pontificados de São FelIx e de Santo Eutiquiano, e quando este último ganhou a palma do martírio, o elegeram para para lhe suceder, no ano 283. Durante o segundo ano de seul pontificado (284) rebentou a perseguição de Diocleciano, que foi a mais sanguinolenta de todas as que a precederam. São Caio, como, sobrinho do imperador, não dleixou de o repreender vivamente; porém em vão, porque o imperador, para captar as simpatias dos pagãos, renovou o decreto imperial, no qual declarava que a idolatria era a única religião do império. Acrescentava-se nesse decreto que não podia se fazer compra nem venda, sem primeiro oferecer incenso aos ídolos. Para este fim foram colocadas pequenas estatuas, representando idolos, em todas as esquinas dos palacios, das ruas, das praças, perto dos poços, das fontes e dos negócios de comestíveis, e nada podia se comprar sem sacrificar antes àquele pequeno idolo. Caio, durante o curso dos quatro primeiros anos de seu pontificado, pode permanecer com suficiente segurança em casa de Gabinio, seu irmão; porém quando tomou incrementos a perseguição, ele também teve de esconder-se nas grutas e nas catacumbas, para poder cumprir os ofícios de seu sagrado ministério. Saia dali com muita frequencia para socorrer os que perigavam na fé. Ainda que Diocleciano desejasse acabar com os cristãos, repugnava-lhe contudo condenar Caio, pois, sendo seu parente, dele cuidara durante sua infância. Via além disso em Caio um homem de grandes virtudes e como tal sempre o tinha amado e venerado; mas, tão grande era o ódio que concentrava contra a religião cristã que finalmente decidiu-se a pronunciar também contra ele a sentença de morte. Para salvar ao menos as aparências e não passar por verdugo de sua familia, mandou que se executasse a sentença ocultamente e de noite. assim foi mártirizado São Caio, depois de mais de doze anos de pontificado, no ano 29ó. 

São Marcelino e a legião tebana – Tendo morrido São Caio, sepultou seu precioso cadáver um sacerdote chamado Marcelino, o mesmo que lhe sucedeu no pontificado. Em principios de seu pontificado foram a Roma os soldados da legião tebana sob o comando de São Maurício. Chama-se assim essa legião, porque os soldados que a compunham costumavam se convocar e reunir em Tebas, célebre cidade do Egito. Devendo dar-se começo a uma guerra perigosa contra os Bagáudos, povos da Galia, Maximiano, que tinha sido criado por Diocleciano seu colega no império, chamou do oriente essa legião, que se distinguia no exército romano por seu valor e fidelidade. Ao ir a Italia aqueles soldados passaram por Jerusalém, onde muitos deles que eram catecumenos receberam o batismo administrado por São Lambda, bispo daquela cidade. (V. Bar. An. 297).  Chegando a Roma se apresentaram ao Papa, e pediram que administrasse a confirmação aos que ainda não a tinham recebido. O santo pontífice depois de certificado que se achavam suficientemente instruídos, administrou-lhes esse Sacramento e, ao concluir a sagrada cerimônia, lhes falou do seguinte modo: “Meus filhos, ide, e para onde fordes, dai-vos a conhecer por verdadeiros soldados de Jesus Cristoprontos a morrerr em qualquer tempo, antes que manchar a pureza dessa fé que há pouco acabais de receber”. (Bar. luqar citado) .  

Martírio da legião tebana – Saindo de Roma, atravessaram a Italia, e passando os Alpes Apeninos, ali onde se levanta agora o grande São Bernardo, foram unir-se com Maximiano, que com o resto do exército os estava esperando nas planícies de Valés, perto de uma cidade chamada então Otoduro e hoje Martigny. Vendo Maximiano que naquela região havia muitos cristãos, quis que todos os seus soldados o ajudassem a persegui-los e a dar-lhes a morte, e entretanto participassem dos sacrifícios que por sua ordem se ofereciam as divindades do império. Três coisas exigia pois incontinente Maximiano: que todo o exército fizesse um sacrifício aos deuses; que jurasse fidelidade ao Imperador, invocando seus ídolos e finalmente que todos prometessem ir em busca dos cristãos para os condenar a morte como inimigos dos deuses do império. Os soldados idólatras obedeceram sem demora, porém assim não se deu relativamente aos valentes tebanos. Quando chegou aos ouvidos de Maurício, seu chefe esta resolução, resolveu juntamente com todos os seus soldados, resistir a estas ordens injustas. Ele com sua legião se achava a umas dez milhas do lugar onde estava Maximiano Augusto, em lugar chamado Agauno, hoje São  Mauricio, perto do grande São Bernardo. Informado Maximiano de sua resistência, ordenou que a legiãoo tebana fosse a primeira a executar sua ordem, ameaçando com os efeitos de sua cólera aos que desobedecessem. Todos os tebanos responderam a uma voz: Christiana religione impedimur; a religião cristã no-lo proibe. Enraivecido o imperador por tão desdenhosa resposta, mandou que fosse dizimada a legião isto é, que de dez se sorteasse um para lhe dar a morte. A legião foi dizimada, mas os que ficaram vivos não perderam a coragem; por isso Maximiano mandou-a dizimar pela segunda vez. E aqueles heróis, longe de se oporem, submeteram­se com alegria a tão cruel carnificina; e até os que sobreviviam invejavam a sorte de seus companheiros mortos pela fé. Como todos, porém, permanecessem firmes nela o imperador ordenou luma matança geral; em cumprimento de suas órdens o exército rodeou a legião que se compunha de uns óóóó soldados e os passou pelas armas. Este fato deu-se aos 22 de Setembro do ano 297. São Avito, bispo de Viena em França, fazendo o panegírico dessa legião de soldados, disse que nenhum deles se condenou porque todos morreram por Jesus Cristo. 

Era dos mártires – Havia já dezoito anos que Diocleciano governava o império, e ainda que durante esse espaço de tempo, sempre tivessem sido perseguídos os cristãos, contudo a perseguição se achava muito longe de ter chegado àquele espantoso estado de crueldade que alcançou durante os últimos anos do reinado de Diocleciano. Ao findar o ano 302 achava-se este em Nicomedia com Galério, que já tinha sido criado Cesar do império do Oriente. Animado este por um ódio implacável contra a religião de Cristo, dizia ao jmperador: “Ja é tempo de acabarmos com esses miseráveis cristãos; é gente obstinada, e enquanto houver um deles sobre a terra, existirá uma semente de desventura para o império”. Diocleciano de idade já avançada, posto que detestasse os cristãos, tivera não obstante de admirar muitas vezes a sua fidelidade e virtude heróica. Representavam-se­lhe as belas qualidades de seu irmo São Gabinio, de seus sobrinhos São Caio Papa, Cláudio, Máximo e outros muitos companheiros seus que ele mesmo tinha condenado a morte. Recordava além disso as virtudes de Cromácio, prefeito de Roma, de Sebastião, general de seus exércitos, e de outros muitos heróis mortos pela fé. Ainda era recente o fato da legião tebana, mártirizada por seu colega Maximiano. Tão pouco ignorava ele imperador que sua consorte Serena, Valéria sua filha e outros da corte, muito queridos dele, eram cristãos. Por todas essas razões, respondia a Galério, que não era prudente voltar a perturbar a paz do império e derramar rios de sangue. Por outra parte, acrescentava, com os suplícios não conseguiremos nada, porque os cristãos nada mais desejam do que morrer. Galério consultou a opinião dos ministros do Estado, que, para não lhe desagradarem, votaram pela perseguição. Hesitando ainda o imperador, quis que se consultasse o oráculo de Apolo. Este respondeu: “Os justos espalhados sabre a terra me impedem de falar”. Perguntou-se aos sacerdotes dos ídolos quem eram os justos, e estes disseram que com esse nome se designavam os cristãos. 

Novo decreto contra os cristãos – Em vista disto, Diocleciano firmou o fatal decreto de extermínio universal de todos os cristãos, com a data de 23 de Fevereiro de 303. Entre outras iniquidades, ordenou o seguinte: “Sejam arrasadas as igrejas dos cristãos, queimados os seus livros; qualquer de nossos súditos reconhecido como cristão, seja despojado imediatamente de suas riquezas, de suas dignidades e seja condenado a morte. Também poderá ser ele citado e apresentado perante os tribunais, mas ele não poderá citar nem chamar a juízo; nem terá direito de pedir que se lhe restitua o roubado, nem de pedir satisfaçãoo por injúrias ou por ultraje. Os escravos que obtiveram liberdade, se forem cristãos, voltarão a ser cativos”. Em força deste edito infernal, os cristãos, estavam fora da lei; isto é, já não podiam gozar do apoio da autoridade civil; de modo que qualquer pessoa podia impunemente insultá-los, desprezá­los, despojá-los, roubá-los, sem que eles de modo algum pudessem defender-se. Um decreto especial mandava que se atirassem as chamas todos os seus livros, e havia pena de morte para aquele em cuja casa ou pessoa se encontrasse um livro da religião cristã. Um terceiro decreto, dirigido especialmente contra os bispos e sacerdotes, dizia que estes deviam ser procurados com preferência para serem condenados a morte. Maximiano confirmou no Ocidente tudo o que o seu colega estabelecera na parte oriental do império. 

Efeitos dessa perseguição – Essa perseguição não conseguiu o resultado que esperavam os idólatras, e o que alcançaram com ela unicamente, foi dar a conhecer mais e mais a divindade de nossa santa religião, pois que os cristãos de todo o império preferiram sofrer todos os tormentas e derramar seu sangue, antes que renunciar a sua fé. O Céu se povoou de santos mártires, a Igreja resplandeceu pela virtude heróica de seus filhos, e os que por temor dos sofrimentos apostataram, ao terminar a perseguição, fazendo sincera penitência, voltaram ao seio de sua mãe, a Igreja; de modo que os esforços de Satanás para destruir a religião de Jesus Cristo não serviram senão para tornar mais brilhante o seu triunfo. Nesses supremos momentos o Papa Marcelino se rodeou de varões peritos em pregar com zelo e integridadea as verdades do Evangelho, e com eles trabalhou heroicamente até que lhe cortaram a cabeça, a 26 de Abril do ano 304. 

Fim de Diocleciano – Tendo firmado Diocleciano, o sanguinolento decreto transcrito anteriormente, começaram a cair sobre ele várias desgraças. Galério que o tinha instigado a perseguir os cristãos, rebelou-se, ameaçando-o com a morte se não abdicasse. Diocleciano fatigado pela idade e pelos trabalhos, cedendo as ameaçadoras instancias de seu filho adotivo, renunciou ao trono e se retirou para Solona, sua pátria. Mas a mão de Deus que pesava sobre ele, o acompanhou por todas as partes; perdeu quase completamente a uso da razão, e restaram-lhe tão somente as luzes suficientes para sentir todo o peso de seu envelhecimento. Apoderou-se dele um humor acre, que o foi consumindo pouco a pouco; languído, triste, continuamente agitado, já não tomava quase alimento; tornava-se-lhe impossível descansar de dia e dormir de noite. Frequentemente se encontrava chorando como uma criança. Oprimido pelos seus sofrimentos e pelos açoites da vinganga divina, entregou-se aos mais violentos arrebatamentos, e cego por sua cólera, se golpeava, ou se atirava ao chão, dando horrorosos gritos. Finalmente não podendo mais carregar uma vida tao miserável, terminou-a com um último crime, deixando-se morrer de fome. Ano 313. 
CAPÍTULO XXI 
São Marcelo – Morte de Galério – Princípios de paz no Oriente – Disciplina eclesiástica desta Primeira Época – Século primeiro – Século segundo – Século terceiro. 

São Marcelo – Foi eleito este Papa para suceder a São Marcelino, e governou com muito zelo a Igreja, durante cinco anos. Sagrou varios bispos, entre os quais figura São Emígdio, a quem enviou a pregar em Ascoli, Piceno, e foi o primeiro bispo daquela cidade, onde coroou seu apostolado com o martírio. Maxêncio, filho de Maximiano, que estava de acordo com Galério para perseguir os cristãos, logo que soube que Marcelo era seu chefe, o mandou prender, e o ameaçou com a morte se não renunciasse a sua dignidade e não sacrificasse aos ídolos. Recusando-se com grande constância a obedecer foi Marcelo condenado a servir nas cavalariças imperiais; porém o homem de Deus, ainda no desempenho de tão baixo ofício, não deixava de prover a manutenção da fé. Depois de nove meses de cárcere, foram de noite seus clerigos, e tirando-o daquele lugar, o conduziram a uma casa dos cristãos onde havia um oratório secreto. Achava-se este oratório em Roma, no lugar onde se levanta hoje a formosa Igreja de São Marcelo. Ao saber disto, Maxêneio transformou a Igreja em estrebaria e tendo feito levar ali vários animais, condenou o Papa a servi-los. Ali, consumido pelos trabalhos e sofrimentos, morreu pela fé no ano 309.  

Morte de Galério – Galério morava glorioso na cidade de Sardes, quando, pouco depois do martírio de São Marcelo, cobriu todo seu corpo uma dolorosa chaga, aplicaram-lhe remédios, porém o mal se resolveu numa vergonhosa gangrena. Chamaram-se médicos, e puseram-se em prática todos os recursos da medicina, mas sem chegar a resultado algum. Enfurecido com isto, condenava a morte os próprios médicos. Ninguém podia se aproximar dele pelo cheiro desagradável que exalavam seus membros; finalmente um médico cristãoo teve bastante coragem para falar-lhe nestes termos: “Recorda-te, ó principe, de tudo quanto fizeste contra os cristãos, e procura o remédio para teus males no que foi sua causa”. Vencido pelo excesso de suas doenças, aquele principe soberbo confessou como verdadeiro o Deus dos cristãos, reconheceu a santidade de sua religião, que tinha até então sido odiada pelos imperadores romanos; e em seguida fez publicar um decreto que já não se devia perseguir os cristãos. Como porém não fazia isto por se achar arrependido do mal que tinha feito, mas apenas pela atrocidade de suas dores, a mão do Senhor continuou pesando sobre ele e depois de um ano de horrorosa enfermidade, morreu miseravelmente, caindo-lhe as carnes aos pedaços. (V. Bar. ano 311).  

Princípios de paz no Oriente – Ainda que Galério o tivesse promulgado contra a vontade, aquele famoso decreto não deixou de produzir bons resultados. Ao ser promulgado nas províncias do Oriente, foi como a primeira lei das autoridades romanas, que proibia perseguir os cristãos. E impossível significar com quanta alegria foi recebido pelos fiéis, que puderam assim professar publicamente sua religião. Os desterrados voltaram a sua pátria, os presos saíram dos cárceres, os que tinham sido despojados de seus bens, foram reintegrados em todos ou em parte, restituiram-se os cargos aos empregados, e deixaram-se todos em plena liberdade de levantar igrejas e participar dos ritos públicos da religião.  Mas na Italia e especialmente em Roma onde governava Maxêncio, continuou a perseguição até que aprouve a divina Providência dar paz a sua Igreja e fazê-la resplandecer e triunfar por meio de Constantino o Grande. É este o primeiro imperador romano que publicamente se declarou cristão e que com suas leis civis promoveu o estabelecimento e a autoridade de nossa santa religião. Este acontecimento glorioso abre a Segunda Época da história eclesiástica.  

Disciplina da Primeira Época – Século primeiro– No Concílio de Jerusalém aboliu-se a circuncisão e as demais cerimônias da lei mosaíca. Os fiéis de Jesus Cristo começaram a chamar-se cristãos na cidade de Antioquia. Atribue-se a São Pedro a instituição da tonsura clerical; porém esta ainda não se usava nos três primeiros séculos, pois sendo perseguídos os eclesiásticos, ela os teria descoberto. Esta instituicão não se pode generalizar até os tempos de Constantino. A observancia do domingo, em vez do sábado, e das festas do Natal, da Epifania, da Páscoa, da Ascensão, e de Pentecostes; o jejum da Quaresma, e das quatro temporas, o uso da água benta, o sinal da cruz, os ágapes ou banquetes comuns de caridade, tudo isto foi atribuído a São Pedro. São Lino renovou o preceito de São Paulo, ordenando que as mulheres entrassem na igreja com a cabeça coberta. Diz-se que o Papa São Cleto instituiu a fórmula Saúde benção apostólica, Pax obis e o Dominus vobiscum, na santa Missa. São Clemente dividiu a cidade de Roma em sete seções ou paróquias, e em cada uma delas estabeleceu um notário ou escrivão encarregado de recolher as atas dos mártires. Também atribue-se­lhe o Canon da Missa, isto é, as regras que a Igreja romana observa nas orações e cerimônias do Santo Sacrifício, bem como a benção dos frutos da terra.

Século segundo – o Papa São Vitor estabeleceu que somente se administrasse o Batismo nas solenidades da Páscoa e de Pentecostes, e com água expressamente benta. Ordenou também várias orações e o jejum das sextas-feiras em honra da paixão do Salvador.  São Urbano, Papa, declarou que só os bispos são ministros ordinários do sacramento da confirmação, e que os bens eclesiásticos são de propriedade da Igreja por direito divino. O Papa São Ponciano estabeleceu que se cantassem os salmos na Igreja e que se rezasse o Confiteor no princípio da Missa. O Papa São Fabiano designou um diácono em cada uma das sete paróquias de Roma para o cuidado dos pobres, e instituiu outros tantos subdiáconos para recolher as atas dos mártires redigidas pelos notários de que já se fez menção, os quais assistiam aos interrogatórios e a morte dos campeões da fé. 

Século terceiro – O Papa São Calixto estabeleceu três dias de jejum durante cada uma das quatro estações do ano, chamadas quatro têmporas.O Papa São Lúcio introduziu o costume de vestir a dalmática e a tunicela durante os ofícios divinoSão Declarou excomungados os que usurpavam ou delapidavam os bens da Igreja; decreto que confirmaram outros Pontífices e o Concílio de Trento. O Papa São Estevão decretou que se benzessem, antes de usá-los, os sagrados hábitos e proibiu aos leigos o uso deles.São Felix estabeleceu que, em quanto fosse possível, se celebrasse o santo sacrificio da Missa sobre os sepulcros e as relíquias dos mártires. Conserva-se ainda este costume; pois põe-se sempre alguma relíquia dentro da pedra sagrada sobre a qual se celebra o santo sacrifício. O Papa São Eutiquiano ordenou que se fizesse o Ofertório na Missa; e a benção do trigo, dos legumes e dos comestíveis. Também decretou que os cadáveres dos mártires se enfeitassem melhor que fosse possível com um vestido chamado colóbio, ou dalmática de cor encarnada.