I – FORMATO DO FUNDO DAS GARRAFAS

Meus caros amigos, certamente já notaram o formato peculiar dos fundos das garrafas de vinho, especialmente das garrafas de espumantes, e talvez já tenham ouvido diversas explicações sobre o motivo desse formato.

Eu, particularmente, já fui quase obcecado em buscar a verdadeira razão por trás desse charmoso “afundado”, especialmente, porque já ouvi diferentes explicações de pessoas sérias e entendidas.

A primeira vez que essa dúvida surgiu para mim foi quando eu era criança, por volta dos nove anos, durante um “experimento científico” no quintal. Eu estava descobrindo quanto tempo as formigas saúvas (Atta sexdens rubropilosa) levavam para se afogar em água doce da torneira, em condições normais de temperatura e pressão, dentro de uma garrafa transparente de espumante sem rótulo. Como um bom cientista, observei as formigas de todos os ângulos através da garrafa e foi aí que me encantei com o fundo afundado da garrafa e a pergunta surgiu: por que elas têm esse formato? Na primeira oportunidade, perguntei ao meu pai, uma espécie de precursor do “Prof. Google”, que sabia de tudo! O querido Eng. Barone me disse que aquele formato arqueado no fundo da garrafa era para aumentar a resistência à pressão dentro da garrafa de espumante, que era considerável (chega a 5 vezes e meia a mais que a pressão atmosférica na altitude do mar) evitando que a garrafa estourasse e para comprovar a resistência do arco, ele me desafiou a tentar quebrar um ovo cru pressionando-o pelas duas pontas, na vertical (se for tentar, certifique-se de pressionar só na direção das pontas! E pode meter força, mas cuidado! Se entortar só um pouquinho vai ser uma baita lambança). Achei incrível e a dúvida me abandonou por alguns anos.

Mais tarde, como estudante de engenharia, estagiando na White Martins, estava em um cliente tentando resfriar as facas de corte das garrafas de refrigerante, sopradas de um gigantesco forno de vidro, com nitrogênio líquido. Durante uma conversa com um mestre responsável pelo fornão, ele começou a falar sobre o sopro de garrafas de espumante e como se formava aquele fundo arqueado. Afirmei que era feito para aumentar a resistência à pressão, e ele respondeu: não! Sua função é facilitar o empilhamento dos engradados das garrafas fabricadas, umas sobre as outras. Pronto! Isso foi o suficiente para minha dúvida cruel retornar com força total.

Ao longo da vida, além do turismo e da engenharia, tive a oportunidade de trabalhar diretamente com vinhos por muitos anos. Fiz diversos cursos e trabalhei com especialistas em vinhos de várias nacionalidades, conhecendo vários produtores. Em muitas ocasiões, tive a chance de discutir sobre o “fundo das garrafas de vinhos”, especialmente dos espumantes, e as opiniões variavam, mas a razão sempre se enquadrava em um ou mais destes pontos:

1 – Melhorar a resistência da garrafa à pressão gerada pela segunda fermentação que gera gás carbônico;

2 – Orientar o posicionamento dos sedimentos resultantes do processo de produção do espumante;

3 – Facilitar o empilhamento das garrafas;

4 – Servir de apoio para os dedos, garantindo um posicionamento correto ao servir o vinho na taça (pura frescura, na verdade);

5 – Aumentar a estabilidade da garrafa na posição vertical, de pé.

Talvez um pouco de todos?

A resposta para minha dúvida veio definitivamente há poucos anos, em 2018, quando estava em Veneza acompanhando um grupo de turistas. Visitamos uma fábrica dos famosos Cristais Murano, como já havia ido lá algumas vezes, decidi passear pela fábrica. Em uma vitrine, um frasco bem antigo chamou minha atenção, não era destinado ao vinho, mas, mesmo assim, tinha um fundo tipo “puntina di spinta” (semelhante ao fundo de garrafa de espumante). Perguntei a um senhor idoso baixinho de cabelos bem brancos, possivelmente um dos proprietários da fábrica, e ele explicou que esse tipo de fundo era comum em garrafas sopradas, devido a uma peça que o artesão usava para apoiar o cristal que estava soprando. Essa peça deixava o fundo afundado, proporcionando estabilidade à peça, tanto para mantê-la em pé quanto para resistência estrutural, e mostrou-me não apenas outros tipos de frascos, mas também vasos para flores com esse tipo de fundo.

Perguntei ao “mio caro amico di capo bianco”: e as garrafas de vinho e espumantes, por que têm “puntina di spinta”? Ele respondeu rindo:

“Tradizione, caro amico! Più profondo il fondo della bottiglia, più costoso il vino!” Dei uma boa risada.

Pronto! Foram 50 anos, mas minha dúvida não existia mais!

II – AROMAS DO VINHO

Os aromas do vinho são uma parte essencial da experiência de degustação, contribuindo significativamente para a complexidade e o prazer sensorial da bebida. Esses aromas podem ser divididos em três categorias principais: aromas primários, secundários e terciários.

  1. Aromas Primários:
    • Frutas: Muitos vinhos apresentam aromas de frutas, que podem variar de frutas frescas a frutas mais maduras e secas. Exemplos incluem aromas de cereja, morango, maçã, pêssego, entre outros, dependendo da variedade da uva.
    • Florais: Algumas uvas e vinhos exibem aromas florais, como rosas, violetas ou flor de laranjeira. Este é um componente comum em vinhos brancos, como Gewürztraminer.
    • Herbáceos: Aromas herbáceos podem ser percebidos, muitas vezes associados a vinhos tintos. Notas de ervas frescas, como tomilho, manjericão ou menta, podem estar presentes.
  2. Aromas Secundários (ou Bouquet):
    • Fermentação e Envelhecimento: Aromas desenvolvidos durante o processo de fermentação e envelhecimento em barris. Exemplos incluem notas de baunilha, coco, tostado, devido ao contato com a madeira.
    • Fermentação Malolática: Algumas uvas passam por fermentação malolática, que pode contribuir com aromas de manteiga ou creme, especialmente em vinhos brancos.
    • Leveduras: Aromas associados às leveduras usadas durante a fermentação, como pão ou brioche.
  3. Aromas Terciários (ou Envelhecimento):
    • Envelhecimento em Garrafa: À medida que os vinhos envelhecem na garrafa, desenvolvem aromas terciários. Isso pode incluir características como couro, tabaco, notas de madeira mais sutis e complexidade aromática.
    • Evolução da Uva: Alguns vinhos, especialmente tintos robustos e encorpados, desenvolvem aromas terciários à medida que os taninos amaciam e os sabores se aprofundam.
    • Mineralidade: Embora não seja um aroma em si, a mineralidade é muitas vezes mencionada para descrever vinhos que exibem características como giz, pedra ou salinidade.

A capacidade de identificar esses aromas pode ser aprimorada com a prática e a exposição a diferentes tipos de vinhos. Algumas pessoas se tornam sommeliers especializados em identificar uma ampla gama de aromas em vinhos, contribuindo para a avaliação e apreciação da complexidade da bebida. A descrição e apreciação dos aromas são parte integrante da linguagem utilizada na degustação de vinhos, proporcionando uma experiência sensorial única a cada garrafa.

III – DIFERENTES TAÇAS PARA DIFERENTES VINHOS

A nossa língua portuguesa é extraordinariamente rica, proporcionando formas específicas para designar algo com aparentemente a mesma função. Palavras que são sinônimos, mas que muitas vezes têm nuances distintas, onde uma pode ter um significado mais amplo e outra uma designação mais específica.

Isso ocorre com “carro” e “automóvel”; “casa” e “residência”; “criança” e “infante”; “beber” e “ingerir”, e muitíssimas outras. “Taça” e “copo” são exemplos disso, mas quando falamos de vinhos, dê preferência à “taça” em vez de “copo”, aproveitando que o português nos proporciona, naturalmente, esse ajuste fino, que nem toda língua permite.

A palavra “taça” tem sua origem no latim vulgar. No latim, a palavra correspondente é “tālea”, que se referia a um tipo de vaso ou recipiente. Essa palavra evoluiu para “taça” em português, mantendo sua essência como um recipiente para líquidos, especialmente usado para servir bebidas como vinho.

Embora muitos defendam o uso da palavra “copo” no lugar de “taça” para designar os recipientes para beber vinho, alegando que a variedade de formas de copos é projetada para acomodar as características específicas de cada tipo de bebida e que, geralmente, as taças têm um formato mais aberto na parte superior, com a boca mais larga. Pessoalmente, acho mais adequado usar a palavra “taça”, já que na sua própria origem latina diz respeito ao recipiente usado para servir vinho. “Taça” é frequentemente associada ao serviço de bebidas finas, como vinho tranquilo e vinho espumante, e sua forma varia, é projetada para realçar as características aromáticas e gustativas de cada tipo de bebida, sendo geralmente confeccionada em cristal.

A escolha da taça correta para cada tipo de vinho é uma prática comum entre apreciadores de vinho e especialistas em enologia. A forma e o tamanho da taça podem influenciar a experiência de degustação, realçando certas características aromáticas e gustativas do vinho. Aqui estão algumas das taças mais comuns e suas respectivas características:

* Taça de Vinho Tinto:

* Características: Geralmente, uma taça de vinho tinto tem um bojo maior e mais largo para permitir uma maior oxigenação do vinho. Isso ajuda a liberar os aromas complexos e a suavizar os taninos. * Uso Recomendado: Para vinhos tintos encorpados, como Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah.

* Taça de Vinho Branco:

* Características: Uma taça de vinho branco, geralmente, tem um bojo menor e mais estreito em comparação com a taça de vinho tinto. Isso ajuda a manter a temperatura mais baixa e preservar os aromas delicados do vinho branco. * Uso Recomendado: Para vinhos brancos leves e frescos, como Sauvignon Blanc, Pinot Grigio e Chardonnay não amadeirado.

* Taça de Vinho Espumante:

* Características: A taça de espumante tem uma forma mais estreita e alongada para preservar as bolhas e concentrar os aromas. A tulipa é comum para champanhes e espumantes em geral. * Uso Recomendado: Para os diversos tipos de espumantes.

* Taça de Vinho Rosé:

* Características: Uma taça intermediária entre as taças de vinho tinto e branco, com um bojo moderado. * Uso Recomendado: Para vinhos rosés, oferecendo espaço suficiente para liberar aromas, mas mantendo a temperatura adequada. * Taça de Vinho de Sobremesa: * Características: Uma taça menor e mais estreita, frequentemente usada para vinhos de sobremesa, como Porto ou Vinho do Porto. * Uso Recomendado: Para vinhos de sobremesa mais doces e encorpados.

* Taça Bordeaux vs. Taça Borgonha:

Bordeaux

Borgogne

* Características: A taça Bordeaux é ligeiramente mais alta, com um bojo mais amplo, adequada para vinhos tintos robustos como Cabernet Sauvignon. A taça Borgonha tem um bojo maior e mais arredondado, adequado para vinhos tintos mais delicados como Pinot Noir. * Uso Recomendado: Bordeaux para vinhos mais encorpados e Borgonha para vinhos mais delicados.

As taças especializadas podem aprimorar a experiência de degustação, a paixão pelo vinho é muito pessoal, e muitos apreciadores podem optar por taças que se ajustem ao seu gosto individual. O mais importante é desfrutar do vinho da maneira que lhe traga maior prazer.

IV – VINHO FONTE DE VIDA

O vinho, há muito tempo, tem sido associado a celebrações, boa comida e momentos agradáveis. Além de ser uma bebida apreciada por seu sabor complexo, o vinho também tem sido objeto de estudos que sugerem benefícios à saúde quando consumido com moderação. Neste artigo, exploraremos os potenciais benefícios do vinho para a saúde, respaldados por pesquisas científicas, e destacaremos como a sua apreciação pode contribuir para uma alegria saudável.

1. Antioxidantes e Saúde Cardiovascular:

Estudos científicos apontam que o vinho, especialmente o tinto, é rico em antioxidantes, como os polifenóis, os quais têm propriedades benéficas para a saúde. Esses antioxidantes ajudam a combater os radicais livres no corpo, reduzindo o risco de doenças cardiovasculares. Pesquisas sugerem que o consumo moderado de vinho tinto pode contribuir para a melhoria da saúde do coração.

2. Benefícios para o Cérebro:

Alguns estudos indicam que o consumo moderado de vinho pode estar associado a benefícios cognitivos. Os antioxidantes presentes no vinho podem ajudar a proteger as células cerebrais, potencialmente reduzindo o risco de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. No entanto, é crucial ressaltar que mais pesquisas são necessárias para confirmar esses efeitos e entender completamente a relação entre vinho e saúde cerebral.

3. Controle da Glicose:

Pesquisas também exploraram a possível influência positiva do vinho na regulação dos níveis de glicose. Algumas descobertas sugerem que o consumo moderado de vinho, principalmente tinto, pode ajudar a melhorar a sensibilidade à insulina em algumas pessoas, o que pode ser benéfico para quem está em risco de diabetes tipo 2.

4. Alegria e Bem-Estar:

Além dos benefícios físicos, o vinho tem sido associado à promoção de momentos de alegria e relaxamento. Estudos sobre os efeitos psicológicos do consumo moderado de vinho destacam a sua capacidade de reduzir o estresse e promover uma sensação de bem-estar. Compartilhar uma taça de vinho em um ambiente agradável pode ser uma maneira eficaz de desfrutar de momentos sociais saudáveis e relaxantes.

5. Moderação é a Chave:

É crucial enfatizar que todos esses benefícios estão associados ao consumo moderado de vinho. O exagero pode levar a efeitos adversos à saúde, como problemas hepáticos, dependência e riscos para a saúde mental. A moderação, definida geralmente como uma taça por dia para mulheres e até duas taças por dia para homens, é a chave para aproveitar os benefícios potenciais do vinho para a saúde.

Conclusão:

O vinho, quando consumido com moderação, pode ser considerado mais do que uma simples bebida alcoólica. Sua riqueza em antioxidantes e os potenciais benefícios para a saúde cardiovascular, cerebral e metabólica fazem dele uma escolha interessante para quem aprecia uma vida saudável. Além disso, o vinho, compartilhado de maneira responsável, pode ser uma fonte de alegria e bem-estar, contribuindo para a promoção de uma vida equilibrada e saudável. No entanto, é sempre aconselhável consultar um profissional de saúde antes de fazer mudanças significativas nos hábitos alimentares, especialmente em relação ao consumo de álcool.