Caros amigos, nesta videomensagem do Santo Padre a seus irmãos agostinianos, o Papa Leão XIV nos ensina através das palavras de Santo Agostinho a arte de escutar:

<<…Num de seus discursos, Santo Agostinho incentivava os que o ouviam: «Não vos limiteis à atenção do ouvido, mas tende a atenção do coração»…Que devemos fazer para exercitar a escuta com a atenção do coração?…Como comunidade de fé, procurando construir uma relação com o Senhor, podemos tentar filtrar o ruído, as vozes divisivas em nossas mentes e corações, e abrir-nos aos convites diários para conhecer melhor a Deus e o seu amor. Quando ouvimos a voz amorosa e reconfortante do Senhor, podemos compartilhá-la com o mundo enquanto buscamos tornar-nos um só n’Ele.”>>

Leiamos a transcrição do texto da videomensagem, com o coração atento.

Videomensagem do Santo Padre Leão XIV à Província Agostiniana de São Tomás de Villanova (Estados Unidos da América)

Boa noite, e que Deus abençoe todos vós que participais deste extraordinário evento.

Na solenidade do nosso santo Pai, Santo Agostinho, estou comovido e profundamente honrado por receber a Medalha de Santo Agostinho da Província de São Tomás de Villanova. Enquanto gravo esta mensagem, estou longe do calor de Roma e passo algum tempo em Castel Gandolfo para rezar, refletir e descansar um pouco. Alegra-vos saber que a igreja paroquial desta cidadezinha fora de Roma é dedicada a São Tomás de Villanova, conhecido como pai dos pobres, um frade e bispo agostiniano extraordinariamente dotado que dedicou a própria vida ao serviço dos pobres.

Como agostinianos, procuramos cada dia estar à altura do exemplo do nosso pai espiritual, Santo Agostinho. Ser reconhecido como agostiniano é uma honra muito sentida. Devo muito do que sou ao espírito e aos ensinamentos de Santo Agostinho, e sou grato a todos vós pelos muitos modos com que vossas vidas demonstram um profundo compromisso com os valores de veritas, unitas, caritas.

Santo Agostinho, como sabeis, foi um dos grandes fundadores do monaquismo, bispo, teólogo, pregador, escritor e doutor da Igreja. Mas isso não aconteceu da noite para o dia. Sua vida foi cheia de tentativas e erros, assim como as nossas. Contudo, pela graça de Deus, pelas orações de sua mãe, Mônica, e da comunidade de boas pessoas ao seu redor, Agostinho conseguiu encontrar o caminho da paz para o seu coração inquieto.

A vida de Santo Agostinho e sua vocação de guiar servindo recordam a todos nós que possuímos dons e talentos concedidos por Deus e que o nosso objetivo, a nossa realização e a nossa alegria provêm de os restituirmos no serviço amoroso a Deus e ao próximo.

É belo estar convosco esta noite, enquanto vos reunis na histórica Filadélfia, sede da igreja de Santo Agostinho, uma das mais antigas comunidades de fé dos Estados Unidos. Somos sustentados pelo exemplo de frades agostinianos como o padre Matthew Carr e o padre John Rossiter, cujo espírito missionário os impulsionou, no final do século XVIII, a levar a boa nova do Evangelho no serviço aos imigrantes irlandeses e alemães, em busca de uma vida melhor e de tolerância religiosa.

Ainda hoje somos chamados a levar adiante essa herança de serviço amoroso a todo o povo de Deus. No Evangelho, Jesus nos recorda de amar o próximo, e isso nos desafia, agora mais que nunca, a lembrar-nos de ver hoje o próximo com os olhos de Cristo, que todos nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus, por meio da amizade, das relações, do diálogo e do respeito mútuo. Podemos ver além das nossas diferenças e descobrir a nossa verdadeira identidade de irmãos e irmãs em Cristo.

Como comunidade de crentes, inspirados pelo carisma dos agostinianos, somos chamados a avançar para ser construtores de paz na nossa família e no nosso ambiente, e a reconhecer verdadeiramente a presença de Deus uns nos outros. A paz começa pelo que dizemos e fazemos e pelo modo como o dizemos e fazemos.

Santo Agostinho lembra-nos de que, antes de falar, devemos escutar, e, como Igreja sinodal, somos encorajados a renovar o compromisso com a arte de escutar por meio da oração, do silêncio, do discernimento e da reflexão. Temos a oportunidade e a responsabilidade de escutar o Espírito Santo; de escutarmo-nos uns aos outros; de escutar as vozes dos pobres e das pessoas à margem, cujas vozes precisam ser ouvidas. Santo Agostinho exorta-nos a prestar atenção e a ouvir o Mestre interior, a voz que fala dentro de cada um de nós. É nos nossos corações que Deus nos fala.

Num de seus discursos, Santo Agostinho incentivava os que o ouviam: «Não vos limiteis à atenção do ouvido, mas tende a atenção do coração».

Que devemos fazer para exercitar a escuta com a atenção do coração? O mundo está cheio de ruídos, e as nossas mentes e os nossos corações podem ser submersos por diferentes tipos de mensagens. Essas mensagens podem alimentar a nossa inquietação e roubar a nossa alegria. Como comunidade de fé, procurando construir uma relação com o Senhor, podemos tentar filtrar o ruído, as vozes divisivas em nossas mentes e corações, e abrir-nos aos convites diários para conhecer melhor a Deus e o seu amor. Quando ouvimos a voz amorosa e reconfortante do Senhor, podemos compartilhá-la com o mundo enquanto buscamos tornar-nos um só n’Ele.

Sou grato por esta honra e, especialmente, pelas missas e orações em meu favor celebradas esta noite e em outras ocasiões, enquanto procuro servir com humildade.

Por favor, continuai a rezar por mim, pelas intenções de todo o povo de Deus em todo o mundo. Asseguro as minhas orações a todos vós que vos reunistes aqui esta noite: meus Irmãos agostinianos, os companheiros missionários de Villanova, passados, presentes e futuros, os idosos e os jovens, os ricos e os pobres, todos os nossos queridos amigos da Ordem. Como Agostinho, reunimo-nos com os nossos momentos de ansiedade, de escuridão e de dúvida e, tal como Agostinho, pela graça de Deus, podemos descobrir que o amor de Deus verdadeiramente cura. Procuremos construir uma comunidade em que esse amor seja tornado visível.

Que possamos continuar a fortalecer a nossa missão comum, como Igreja e comunidade, de promover a paz, viver na esperança e refletir a luz e o amor de Deus no mundo! É na nossa unidade em Cristo e na nossa comunhão recíproca que a luz crescerá e se tornará mais luminosa no nosso mundo.

Sob a guia e a proteção da Virgem Maria, nossa Mãe do Bom Conselho, não esqueçamos jamais os dons que Ela nos deu com o “sim” cheio de fé que pronunciou ao aceitar o que Deus tinha previsto para Ela.

Deus abençoe todos vós e leve paz aos vossos corações inquietos, e vos ajude a continuar a construir uma comunidade de amor, unida na mente e no coração, voltada para Deus. E que a bênção de Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós e convosco permaneça sempre. Obrigado.

Padre Robert P. Hagan, Prior provincial, na entrega da Medalha:

Santidade, Papa Leão, em nome da Província de São Tomás de Villanova, da comunidade agostiniana mais ampla e de todos os fiéis cheios de fé, agradecemos por ter aceitado esta honraria da Medalha de Santo Agostinho por sua liderança no serviço, pelo seu compromisso de toda a vida em favor dos pobres, pelo seu testemunho dos valores agostinianos e, agora, como nosso Pastor universal, pelo exemplo que dá a todos nós para nos aproximarmos do Senhor e uns dos outros, e para que todos possamos ser construtores de paz. Asseguramos-lhe as nossas orações, para que tenha a graça e a força enquanto continua a assumir esta responsabilidade por todos nós. Que Deus o abençoe.

Leão XIV:

Obrigado! De fato, mais uma vez é uma grande honra recebê-la. Obrigado pelas suas palavras, pelo apoio dos agostinianos, da sua Província. Sabei que, muitos, muitos anos atrás, quando éramos estudantes na Universidade Villanova, participávamos de tantos aspectos da grande família agostiniana e da família de Villanova. É bom saber que a comunidade continua a ser uma parte importante de nossas vidas. Obrigado por esta honraria e que Deus abençoe a senhora e todo o seu povo.

(Tradução: PORTAL DUC IN ALTUM)

L’Osservatore Romano, Edição Cotidiana, Ano CLXV n. 198, sexta-feira, 29 de agosto de 2025, p. 2

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