UT UNUM SINT

Caros amigos, a oração de Jesus pela unidade dos cristãos, registrada no Evangelho de João — “Pai, que todos sejam um, como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós, a fim de que o mundo creia que Tu Me enviaste” (Jo 17,21) — expressa o desejo profundo do coração de Cristo às vésperas da sua Paixão: que seus discípulos permaneçam unidos, na mesma comunhão que Ele vive com o Pai. Esta unidade não é apenas estratégica, funcional ou sociológica; é teológica, sacramental, trinitária. É o próprio testemunho da missão do Filho que está em jogo: “para que o mundo creia.”

Entretanto, a história da Igreja testemunhou dolorosas fraturas. A mais emblemática foi o cisma de 1054, quando as Igrejas do Ocidente (latinas) e do Oriente (bizantinas) romperam formalmente sua comunhão, marcando o nascimento das Igrejas Ortodoxas autocéfalas e da Igreja Católica Romana como realidades institucionalmente separadas. O rompimento culminou com excomunhões mútuas entre o Patriarca de Constantinopla, Miguel I Cerulário, e o legado papal enviado por Leão IX. Embora as causas fossem complexas — litúrgicas, culturais, políticas e doutrinais — o efeito foi devastador: a oração de Jesus parecia falhar diante da divisão visível entre os cristãos.

Por séculos, essas excomunhões foram mantidas como símbolo do distanciamento entre Roma e Constantinopla. Porém, após a terrível experiência das guerras mundiais e com o impulso renovador do Concílio Vaticano II, um sopro do Espírito reacendeu o desejo da unidade. Em 7 de dezembro de 1965, São Paulo VI e o Patriarca Atenágoras I assinaram uma declaração conjunta, removendo oficialmente da memória e da vida da Igreja as excomunhões de 1054. Ainda que a unidade plena não tenha sido restabelecida naquele momento, foi um gesto profético de reconciliação, marcado pela oração, o diálogo e a caridade.

Essa reaproximação fraterna continua rendendo frutos. O discurso do Papa Leão XIV, nesta quinta-feira, 17 de julho de 2025, diante de um grupo de peregrinos ecumênicos vindos dos Estados Unidos, liderados pelo Cardeal Joseph Tobin e pelo Metropolita Elpidophoros, é mais um elo dessa corrente de reconciliação. Reunidos em Castel Gandolfo, o Papa recordou o valor da peregrinação como retorno às raízes apostólicas — Pedro e Paulo em Roma, André em Constantinopla — e como gesto de comunhão espiritual em torno da fé dos primeiros cristãos, especialmente em um ano tão simbólico como o de 2025, quando celebramos os 1700 anos do Concílio de Niceia, o marco da profissão de fé comum entre Oriente e Ocidente.

Com espírito fraterno e esperançoso, o Papa Leão XIV pediu aos peregrinos que levassem sua saudação ao Patriarca Bartolomeu, relembrando sua presença na missa inaugural do atual pontificado. A mensagem do Papa ressoa como eco da oração de Jesus: reconhece os progressos já conquistados, mas insiste na necessidade de continuar implorando ao Espírito Santo a graça da unidade visível e da caridade fraterna.

A insistência de Leão XIV na esperança, tema do Jubileu em curso — Peregrinantes in spe — resgata a dimensão espiritual da busca ecumênica: não se trata apenas de resolver impasses teológicos ou superar feridas históricas, mas de testemunhar ao mundo, em tempos de sofrimento e fragmentação, que a reconciliação é possível, que o Evangelho é fonte de consolação e que a unidade dos cristãos é sinal profético de um Reino que já está presente.

Assim, os eventos de 1054 não são esquecidos, mas superados à luz da oração de Jesus e do perdão mútuo. A carta de 1965 removeu um obstáculo histórico; o discurso de 2025 amplia a ponte espiritual. Ambos são respostas concretas à prece do Senhor: “Ut unum sint” — “Para que todos sejam um.”

O Editor (PORTAL DUC IN ALTUM)

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One response to “CONHECENDO PARA AMAR”

  1. Muito boa ligação . Trouxe desde o início a história com fundamentos a luz da Palavra Deus.

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