DISCURSO DO SANTO PADRE, O PAPA FRANCISCO AOS PEREGRINOS DAS DIÓCESES DE CESENA-SARSINA, TIVOLI, SAVONA-NOLI E IMOLA, POR OCASIÃO DO BICENTENÁRIO DA MORTE DO SERVO DE DEUS PIO VII

Sala Paulo VI – Sábado, 20 de abril de 2024

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Saúdo o Cardeal, os Bispos presentes, os Abades, os monges e todos vocês, amigos das dioceses de Cesena-Sarsina, Savona, Imola e Tivoli. Em Cesena, eu estive.

Atividade eclesiástica
OrdemOrdem de São Bento
DioceseDiocese de Roma
Eleição14 de março de 1800
Entronização21 de março de 1800
Fim do pontificado20 de agosto de 1823
(23 anos, 159 dias)
PredecessorPio VI
SucessorLeão XII
Papa Pio VII

O Papa Chiaramonti foi e continua sendo para todos nós um grande exemplo de bom pastor que dá a vida por seu rebanho (cf. Jo 10,11). Era um homem de notável cultura e piedade, era piedoso. Monge, Abade, Bispo e Papa, em todos esses papéis, ele sempre manteve intacta, mesmo a custo de grandes sacrifícios, sua dedicação a Deus e à Igreja. Como no momento dramático de sua prisão, quando, diante daqueles que ofereciam uma via de fuga da prisão em troca de compromissos em relação às suas responsabilidades pastorais, ele respondia: “Non debemus, non possumus, non volumus” – “nós não devemos, não podemos, não queremos”, confirmando, mesmo à custa de sua liberdade pessoal, o que havia prometido fazer, com a ajuda de Deus, no dia de sua eleição (cf. Pio VII, Alloc. Ad supremum, 6).

Gostaria de destacar, pensando em sua vida, três valores fundamentais dos quais ele foi testemunha, essenciais também para nossos caminhos pessoais e comunitários: a comunhão, o testemunho e a misericórdia.

Primeiro: a comunhão. Papa Pio VII foi um firme defensor e promotor da comunhão em tempos de lutas e divisões ferozes. As desordens causadas pela revolução francesa e pelas invasões napoleônicas haviam produzido e continuavam a fomentar divisões dolorosas, tanto dentro do povo de Deus quanto em suas relações com o mundo ao redor: feridas sangrentas tanto morais quanto físicas. Até o Papa parecia estar prestes a ser subjugado por elas. No entanto, com sua pacífica e tenaz perseverança em defender a unidade, Pio VII soube transformar as pressões daqueles que queriam isolá-lo e afastá-lo, despojando-o publicamente de toda dignidade, em oportunidades para relançar uma mensagem de dedicação e amor à Igreja, à qual o povo de Deus respondeu com entusiasmo. O resultado foi uma comunidade materialmente mais pobre, mas moralmente mais unida, forte e credível. Seu exemplo nos instiga a ser, em nosso tempo, mesmo que isso implique renúncias, construtores de unidade na Igreja universal, na local, nas paróquias e nas famílias: a promover a comunhão, a favorecer a reconciliação, a promover a paz, fiéis à verdade na caridade!

Algo que ajuda muito na comunhão é saber falar bem. O que isso significa? Digo o contrário: falar mal, a fofoca, destrói a comunhão. Não sei se em suas dioceses há fofocas, acho que não, porque todos vocês têm uma aparência muito boa… Mas caso haja alguma fofoca, há um remédio muito bom: morder a língua. Quando você sentir vontade de falar mal ou “esfolar” o outro, morda a língua e estará fazendo um bom trabalho de comunidade, de unidade na comunidade.

E tudo isso – a comunhão, buscar a unidade da Igreja – nos leva ao segundo ponto: o testemunho. Homem de índole dócil, Papa Chiaramonti foi um corajoso anunciador do Evangelho, com palavras e vida. Ele dizia aos Cardeais eleitores no início de seu pontificado: “A Igreja […] precisa de nossos bons exemplos […] para que todos entendam que não […] na pompa […], mas sim no desprezo das riquezas, na humildade, na modéstia, na paciência, na caridade e enfim em cada dever sacerdotal está retratada a imagem de nosso Criador e é preservada a autêntica dimensão da Igreja” (ibid., 8-9). Ele dizia coisas lindas! E de fato ele realizou esse seu ideal de profecia cristã (cf. São Leão Magno, Sermo 21,3), vivendo-o e promovendo-o com dignidade nos momentos bons e ruins, tanto em nível pessoal quanto eclesial, mesmo quando isso o levou a confrontar os poderosos de seu tempo.

E chegamos finalmente ao último aspecto: a misericórdia. Apesar dos pesados obstáculos colocados em seu caminho pelos eventos napoleônicos, Papa Pio VII concretizou sua atenção aos necessitados destacando-se em algumas reformas e iniciativas sociais de grande alcance e inovação para sua época, como a revisão das relações de “vassalagem”, resultando na emancipação dos camponeses pobres, a abolição de muitos privilégios nobres, das “tirania”, das regalias, do uso da tortura (cf. Pio VII, Motu proprio Quando per ammirabile disposizione, 6 de julho de 1816) e a criação de uma cátedra de cirurgia na Universidade La Sapienza para melhorar a assistência médica e aumentar a pesquisa.

Ele era um homem muito inteligente, muito piedoso e sagaz. Sabia levar adiante até mesmo sua prisão com sagacidade. Às vezes, enviava mensagens escondidas nas roupas; assim, conseguia guiar a Igreja, através das roupas! E isso é bonito: é um homem inteligente, sagaz e que quer cumprir a tarefa de governar que o Senhor lhe havia dado, isso é bonito.

Ele também era um homem de caridade, como demonstrou depois, em um contexto diferente, em relação a seus perseguidores: embora denunciasse claramente seus erros e abusos, procurou manter aberto com eles um canal de diálogo e, acima de tudo, ofereceu sempre seu perdão. Chegando ao ponto de oferecer hospitalidade nos estados da Igreja, após a restauração, aos familiares daquele Napoleão que poucos anos antes o havia mandado para a prisão e pedindo por ele, agora derrotado, um tratamento ameno na prisão. Maravilhoso!

Caros irmãos e irmãs, são muitos os valores aos quais a memória do Servo de Deus Pio VII nos convoca: o amor pela verdade, a unidade, o diálogo, a atenção aos últimos, o perdão, a busca tenaz pela paz e aquela sagacidade evangélica que o Senhor nos recomenda. Será bom meditá-los, torná-los nossos e testemunhá-los, para que em nós e em nossas comunidades cresçam o estilo de mansidão e a disposição para o sacrifício. Mas isso não significa que somos tolos, não, isso não é mansidão. Mansidão sim, mas sagazes como o Senhor nos recomenda. Simples como a pomba, mas sagazes como a serpente.

Agradeço por terem vindo e os acompanho com minha oração. De coração abençoo todos vocês e suas famílias. E recomendo: não se esqueçam de rezar por mim. Obrigado!


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Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2024/april/documents/20240420-pellegrini-bicentenario-piovii.html

Tradução para o português do Brasil: PORTAL DUC IN ALTUM

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