
“PRECISAMOS REDESCOBRIR A ORAÇÃO COMO EXPERIÊNCIA DE ESTAR NA PRESENÇA DO SENHOR, DE NOS SENTIRMOS COMPREENDIDOS, ACOLHIDOS E AMADOS POR ELE. COMO JESUS NOS ENSINOU, NÃO SE TRATA DE MULTIPLICAR NOSSAS PALAVRAS, MAS SIM DE DAR ESPAÇO AO SILÊNCIO PARA OUVIR SUA PALAVRA E ACOLHÊ-LA EM NOSSA VIDA (CF. MT 6,5-9). VAMOS COMEÇAR, IRMÃOS E IRMÃS, A REZAR MAIS, A REZAR MELHOR, NA ESCOLA DE MARIA, DOS SANTOS E DAS SANTAS”
DISCURSO DO SANTO PADRE FRANCISCO AOS PARTICIPANTES DA PLENÁRIA DO DICASTÉRIO PARA A EVANGELIZAÇÃO (SEÇÃO PARA AS QUESTÕES FUNDAMENTAIS DA EVANGELIZAÇÃO NO MUNDO)
Sala do Consistório Sexta-feira, 15 de março de 2024
Queridos irmãos e irmãs!
Estou feliz em dar as boas-vindas a vocês, Superiores, Membros e Consultores do Dicastério para a Evangelização – Seção para as questões fundamentais no mundo, reunidos em assembleia plenária. É um momento importante para o debate sobre os problemas da evangelização, especialmente quando olhamos para as diferentes regiões do mundo, tão diversas em cultura e tradição.
O primeiro pensamento vai para a situação de várias Igrejas locais onde o secularismo das décadas passadas criou enormes dificuldades: desde a perda do senso de pertença à comunidade cristã, até a indiferença em relação à fé e seus conteúdos. São problemas sérios com os quais muitos irmãos têm que lidar todos os dias, mas não devemos perder o ânimo. O secularismo foi estudado e foram escritas muitas páginas a respeito. Conhecemos os efeitos negativos que ele produziu, mas este é o tempo favorável para compreender qual resposta eficaz somos chamados a dar às jovens gerações para que possam recuperar o sentido da vida. O apelo à autonomia da pessoa, avançado como uma das reivindicações do secularismo, não pode ser teorizado como independência de Deus, pois é Deus quem garante a liberdade na ação pessoal. E em relação à nova cultura digital, que apresenta muitos aspectos interessantes para o progresso da humanidade – pensemos na medicina e na preservação do meio ambiente -, ela também traz consigo uma visão do homem que parece problemática quando relacionada à necessidade de verdade que habita em cada pessoa, juntamente com a necessidade de liberdade nos relacionamentos interpessoais e sociais.
Portanto, a grande questão que está diante de nós é compreender como superar a ruptura que se estabeleceu na transmissão da fé. Para esse fim, é urgente recuperar uma relação eficaz com as famílias e os centros de formação. A fé no Senhor ressuscitado, que é o coração da evangelização, para ser transmitida, requer uma experiência significativa vivida na família e na comunidade cristã como um encontro com Jesus Cristo que muda a vida. Sem este encontro, real e existencial, estaremos sempre tentados a fazer da fé uma teoria e não um testemunho de vida.
Falando ainda sobre a questão prioritária da transmissão da fé, agradeço pelo serviço que vocês prestam no campo da catequese. E vocês o fazem também utilizando o novo Diretório, elaborado por vocês em 2020. É uma ferramenta valiosa e pode ser eficaz não apenas para a renovação da metodologia catequética, mas especialmente para o envolvimento da comunidade cristã como um todo. Nesta missão, um papel específico é confiado àqueles que receberam e receberão o ministério de Catequista, para serem fortalecidos em seu compromisso com o serviço da evangelização. Desejo que os Bispos saibam nutrir e acompanhar as vocações para este ministério, especialmente entre os jovens, para que a lacuna entre as gerações seja reduzida e a transmissão da fé não pareça ser uma tarefa apenas para os mais idosos. Neste sentido, encorajo vocês a encontrar formas para que o Catecismo da Igreja Católica continue sendo conhecido, estudado, valorizado, de modo que dele possam ser extraídas respostas para as novas necessidades que surgem com o passar das décadas.
Um segundo tema que desejo compartilhar com vocês é a espiritualidade da misericórdia, como conteúdo fundamental no trabalho de evangelização. A misericórdia de Deus nunca falha e somos chamados a testemunhá-la e a fazê-la, por assim dizer, circular nas veias do corpo da Igreja. Deus é misericórdia: esta mensagem perene foi relançada com força e de forma renovada por São João Paulo II para a Igreja e a humanidade no início do terceiro milênio. A pastoral dos Santuários, que é de sua competência, precisa ser impregnada de misericórdia, para que aqueles que chegam nesses lugares possam encontrar oásis de paz e serenidade. Os Missionários da misericórdia, com seu generoso serviço no Sacramento da Reconciliação, oferecem um testemunho que deveria ajudar todos os sacerdotes a redescobrir a graça e a alegria de serem ministros de um Deus que perdoa sempre e sem limites. Ministros de um Deus que não só espera, mas vai ao encontro, busca, porque é um Pai misericordioso, não um senhor, é um Bom Pastor, não um mercenário, e se alegra ao poder acolher uma pessoa que retorna, ou a encontra enquanto está perdida em seus labirintos (cf. Jo 10; Lc 15). Quando a evangelização é realizada com a unção e o estilo da misericórdia, encontra maior receptividade, e o coração se abre mais prontamente para a conversão. Estamos tocando, de fato, naquilo que sentimos mais necessidade, ou seja, o amor puro, gratuito, que é fonte de nova vida.
O terceiro tema que desejo apresentar é a preparação para o Jubileu Ordinário do próximo ano. Será um Jubileu em que a força da esperança deverá emergir. Em algumas semanas, tornarei pública a Carta Apostólica para sua indição oficial: espero que essas páginas possam ajudar muitos a refletir e, principalmente, a viver concretamente a esperança. Esta virtude teologal tem sido poeticamente vista como a “irmã mais nova” entre as outras duas, fé e caridade, mas sem a qual essas duas não avançam, não se expressam da melhor forma. O povo santo de Deus precisa muito dela! Conheço o grande empenho que o Dicastério está colocando diariamente na organização do próximo Jubileu. Agradeço a vocês e estou certo de que tanto esforço dará seus frutos. A acolhida dos peregrinos, no entanto, precisa se expressar não apenas nas obras estruturais e culturais necessárias, mas também em permitir-lhes viver a experiência da fé, da conversão e do perdão, encontrando uma comunidade viva que testemunha isso com alegria e convicção.
E não nos esqueçamos de que este ano que antecede o Jubileu é dedicado à oração. Precisamos redescobrir a oração como experiência de estar na presença do Senhor, de nos sentirmos compreendidos, acolhidos e amados por Ele. Como Jesus nos ensinou, não se trata de multiplicar nossas palavras, mas sim de dar espaço ao silêncio para ouvir Sua Palavra e acolhê-la em nossa vida (cf. Mt 6,5-9). Vamos começar, irmãos e irmãs, a rezar mais, a rezar melhor, na escola de Maria, dos santos e das santas.
Agradeço pelo trabalho de vocês nesses dias e pelo serviço à Igreja. Abençoo vocês de coração e rezo por vocês. E também peço que rezem por mim. Obrigado!
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Tradução do original italiano – PORTAL DUC INI ALTUM






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