
PALAVRA DO PAPA FRANCISCO NO NATAL DE 2023
Na vespera do Natal

A SOMBRA, A GENTILEZA DE DEUS!
ANGELUS
Piazza San Pietro Domingo, 24 dezembro 2023
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje, no quarto domingo do Advento, o Evangelho nos apresenta a cena da Anunciação (cf. Lc 1,26-38). O anjo, para explicar a Maria como ela conceberá Jesus, diz a ela: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra” (v. 35). Vamos nos deter um pouco nesta imagem, a sombra.
Em uma terra como a de Maria, perpetuamente ensolarada, uma nuvem de passagem, uma árvore que resiste à seca e oferece abrigo, uma tenda hospitaleira trazem alívio e proteção. A sombra é um presente que restaura, e o anjo descreve exatamente assim como o Espírito Santo desce sobre Maria, o modo de agir de Deus: Deus sempre age como um amor gentil que abraça, que fecunda, que guarda, sem exercer violência, sem ferir a liberdade. Assim é a maneira de agir de Deus.
A imagem da sombra que protege é recorrente na Bíblia. Pensemos na sombra que acompanha o povo de Deus no deserto (cf. Ex 13,21-22). Em resumo, a sombra fala da gentileza de Deus. É como se Ele dissesse, a Maria, mas também a todos nós hoje: “Estou aqui para você e me ofereço como seu refúgio e abrigo: venha sob a minha sombra, fique comigo”. Irmãos e irmãs, assim age o amor fecundo de Deus. E é algo que, de certa forma, podemos experimentar também entre nós, por exemplo, quando entre amigos, namorados, esposos, pais e filhos, somos delicados, respeitosos, cuidando uns dos outros com gentileza. Pensemos na gentileza de Deus!
Deus ama assim e também nos chama a fazer o mesmo: acolher, proteger, respeitar os outros. Pensemos em todos, pensem naqueles que estão marginalizados, naqueles que nestes dias estão longe da alegria do Natal. Pensemos em todos com a gentileza de Deus. Lembrem-se desta palavra: a gentileza de Deus. E perguntemo-nos então, na véspera do Natal: eu desejo me deixar envolver pela sombra do Espírito Santo, pela doçura e mansidão de Deus, pela gentileza de Deus, dando-lhe espaço em meu coração, me aproximando de seu perdão, da Eucaristia? E depois: para quais pessoas solitárias e necessitadas posso ser uma sombra que restaura, uma amizade que consola?
Maria nos ajude a sermos abertos, acolhedores à presença de Deus, que com mansidão vem nos salvar.
Depois do Angelus
Queridos irmãos e irmãs!
Saúdo todos vocês, romanos e peregrinos da Itália e de várias partes do mundo. Em particular, saúdo a delegação dos cidadãos italianos que vivem em territórios oficialmente reconhecidos como muito contaminados e que há muito esperam a descontaminação. Expresso solidariedade a essas populações e espero que suas vozes sejam ouvidas.
A todos vocês desejo um bom domingo e uma véspera de Natal na oração, no calor dos afetos e na sobriedade. Permitam-me um pedido: não confundamos a festa com o consumismo! Podemos – e como cristãos devemos – celebrar com simplicidade, sem desperdícios, compartilhando com aqueles que não têm o necessário ou falta de companhia.

Estamos próximos aos nossos irmãos e irmãs que sofrem com a guerra pensemos na Palestina, em Israel, na Ucrânia. Pensemos também naqueles que sofrem com a miséria, a fome, a escravidão. O Deus que tomou para si um coração humano infunda humanidade nos corações dos homens!
E por favor, não se esqueçam de rezar por mim. Bom almoço e Feliz Natal a todos! Até logo!
Caros amigos, as palavras do Papa estão sempre em consonância com as palavras de Nossa Senhora, nas suas mensagens contidas no “Livro Azul” do Movimento Sacerdotal Mariano.
Quando o Santo Padre nos explica a “Sombra de Deus”, que sempre protege o homem e o chama a fazer o mesmo: “acolher, proteger, respeitar os outros”, é impossível não recordar as palavras de Nossa Senhora em várias partes do “Livro Azul”, nos convidando a entrarmos no “Refúgio Seguro” do seu “Coração Imaculado” e nos chamando a levar, quanto nos for possível, as pessoas com as quais entrarmos em contato a também entrarem neste “Refúgio Seguro”, através da “Consagração ao Coração Imaculado de Maria. Gentileza de Deus! Maria Santíssima, a humilde Serva do Senhor, é a “Sua Sombra”, que Deus nos oferece para nos acolher e proteger.
“…Consagrai-vos ao meu Coração Imaculado.
Trecho da mensagem do dia 13.maio.1976, do livro: Aos Sacerdotes, filhos prediletos de Nossa Senhora.
A quem se consagra a Mim volto a prometer a salvação: a salvação do erro neste mundo e a salvação eterna. Obtê- la-eis graças a uma minha especial intervenção de Mãe. Impedirei, assim, que caiais nas seduções de satanás. Sereis protegidos e defendidos por Mim mesma; sereis consolados e fortalecidos por Mim…”
Na Noite de Natal

FAZEI, SENHOR, QUE ACREDITEMOS NO PODER DO VOSSO AMOR, TÃO DIVERSO DO PODER DO MUNDO. SENHOR, FAZEI QUE, À SEMELHANÇA DE MARIA, JOSÉ, OS PASTORES E OS MAGOS, NOS ESTREITEMOS AO VOSSO REDOR PARA VOS ADORAR
SANTA MISSA NA NOITE DE NATAL
HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
Basílica Vaticana
Domingo, 24 de dezembro de 2023
«O recenseamento de toda a terra» (Lc 2, 1): este é o contexto em que nasce Jesus e no qual se detém o Evangelho. Podia limitar-se a uma rápida alusão, mas ao contrário delonga-se cuidadosamente nele. E assim faz surgir um grande contraste: enquanto o imperador conta os habitantes do mundo, Deus entra nele quase às escondidas; enquanto quem manda procura colocar-se entre os grandes da história, o Rei da história escolhe o caminho da pequenez. Nenhum dos poderosos se dá conta d’Ele; apenas alguns pastores, postos à margem da vida social.
Mas o recenseamento diz-nos mais outra coisa. Na Bíblia, não deixara boas recordações. O rei David, cedendo à tentação dos grandes números e a uma insana pretensão de autossuficiência, cometera um grave pecado precisamente fazendo o recenseamento do povo. Queria saber a sua força recebendo, cerca de nove meses depois, o número de todos os que podiam manejar a espada (cf. 2 Sam 24, 1-9). O Senhor indignou-se e um flagelo feriu o povo. Diversamente nesta noite, o «Filho de David», Jesus, depois de passar nove meses no ventre de Maria, nasce em Belém, a cidade de David, e não pune o recenseamento, mas deixa-se humildemente registar: um, no meio de tantos. Não vemos um Deus irado que castiga, mas o Deus misericordioso que encarna, que entra, frágil, no mundo, precedido pelo anúncio «paz na terra aos homens» (Lc 2, 14). E, nesta noite, o nosso coração está em Belém, onde o Príncipe da paz continua a ser rejeitado pela lógica perdedora da guerra, com o estrondo das armas que ainda hoje O impede de encontrar hospedagem no mundo (cf. Lc 2, 7).
Em suma, o recenseamento de toda a terra manifesta, por um lado, a trama demasiado humana que atravessa a história: a trama dum mundo que procura o poder e a força, a fama e a glória, onde tudo se mede através dos sucessos e dos resultados, dos cálculos e dos números. É a obsessão das façanhas. Mas ao mesmo tempo, no recenseamento, sobressai o caminho de Jesus, que vem procurar-nos através da encarnação. Não é o deus das façanhas, mas o Deus da encarnação. Não subverte do alto as injustiças com a força, mas de baixo com o amor; não irrompe com um poder sem limites, mas desce até aos nossos limites; não evita as nossas fragilidades, mas adota-as.
Nesta noite, irmãos e irmãs, podemos perguntar-nos: Em que Deus acreditamos? No Deus da encarnação ou no das façanhas? Sim, porque há o risco de viver o Natal tendo na cabeça uma ideia pagã de Deus, como se fosse um patrão poderoso que está no céu; um deus que se alia com o poder, o sucesso mundano e a idolatria do consumismo. Sempre volta a imagem falsa dum deus alienado e melindroso, que se comporta bem com os bons e se irrita com os maus; um deus feito à nossa imagem, útil apenas para nos resolver os problemas e preservar dos males. Mas o Deus Menino não usa a varinha mágica, não é o deus comercial do «tudo e já»; não nos salva carregando num botão, mas faz-Se próximo para mudar a realidade a partir de dentro. E todavia como está radicada em nós a ideia mundana dum deus distante e controlador, rígido e poderoso, que ajuda os seus a prevalecerem contra os outros! Muitas vezes, trazemos radicada em nós esta imagem; mas não é assim: Ele nasceu para todos, durante o recenseamento de toda a terra.
Olhemos, pois, para o «Deus vivo e verdadeiro» (1 Tes 1, 9): Ele que está para além de todo o cálculo humano e, no entanto, deixa-Se recensear pelos nossos registros; Ele que revoluciona a história, habitando nela; Ele que nos respeita até ao ponto de nos permitir rejeitá-Lo; Ele que apaga o pecado assumindo a responsabilidade pelo mesmo, que não tira a dor, mas transforma-a, que não nos tira os problemas da vida, mas dá às nossas vidas uma esperança maior do que os problemas. Deseja tanto abraçar as nossas existências que, sendo infinito, por nós Se faz finito; grande, faz-Se pequeno; sendo justo, habita as nossas injustiças. Irmãos e irmãs, aqui está a maravilha do Natal: não uma mistura de sentimentos adocicados e confortos mundanos, mas a inaudita ternura de Deus que salva o mundo encarnando-Se. Fixemos o Menino, olhemos para a sua manjedoura, para o presépio, que os anjos chamam «o sinal» (Lc 2, 12): realmente constitui o sinal revelador do rosto de Deus, que é compaixão e misericórdia, onipotente sempre e só no amor. Avizinha-Se, torna-Se próximo, terno e compassivo… Este é o modo de ser de Deus: proximidade, compaixão, ternura.
Irmãs, irmãos, deixemo-nos surpreender por Ele Se ter feito carne (cf. Jo 1, 14). Carne! Uma palavra que evoca a nossa fragilidade e que o Evangelho utiliza para nos dizer como Deus entrou profundamente na nossa condição humana. Por que motivo foi Ele tão longe? – perguntamo-nos. Porque Lhe interessa tudo o que nos diz respeito, porque nos ama até ao ponto de nos considerar mais preciosos do que qualquer outra coisa. Irmão, irmã, para Deus, que mudou a história durante o recenseamento, tu não és um número, mas um rosto; o teu nome está escrito no seu coração. Entretanto, se olhares para o teu coração, para as façanhas que não sentes à altura, para o mundo que julga e não perdoa, poderás talvez viver mal este Natal, pensando que não caminhas justamente, provando um sentimento de inadequação e insatisfação pelas tuas fragilidades, quedas e problemas e pelos teus pecados. Mas hoje, por favor, deixa a iniciativa a Jesus, que te diz: «Por ti fiz-Me carne, por ti fiz-Me como tu». Por que motivo continuas na prisão das tuas tristezas? Como os pastores que deixaram os seus rebanhos, deixa o recinto das tuas melancolias e abraça a ternura do Deus Menino. Fá-lo sem máscaras, sem couraças, confia-Lhe as tuas canseiras, e Ele cuidará de ti (cf. Sal 55, 23): Ele, que Se fez carne, espera, não as tuas façanhas de sucesso, mas o teu coração aberto e confiado. E n’Ele descobrirás quem és: um filho amado de Deus, uma filha amada de Deus. Agora podes acreditar nisto, porque, nesta noite, o Senhor nasceu para iluminar a tua vida, e os olhos d’Ele brilham de amor por ti. Sentimos dificuldade em crer nisto: que os olhos de Deus brlham de amor por nós.
Sim, Cristo não olha para os números, mas para os rostos. E contudo quem é que olha para Ele, por entre as inúmeras coisas e as corridas loucas dum mundo sempre agitado e indiferente? Quem olha para Ele? Em Belém, enquanto muitas pessoas, preocupadas com o recenseamento, iam e vinham, enchiam as hospedarias e pousadas falando de tudo e de nada, houve alguns que estiveram junto de Jesus: Maria e José, os pastores e depois os magos. Aprendamos com eles. Ei-los com o olhar fixo em Jesus, com o coração voltado para Ele; não falam, mas adoram. Esta noite, irmãos e irmãs, é o tempo da adoração… Adorar.
A adoração é a forma de acolher a encarnação, porque é no silêncio que Jesus, Palavra do Pai, Se faz carne nas nossas vidas. Façamos nós também como se fez em Belém, que significa «casa do pão»: permaneçamos diante d’Ele, Pão de vida. Redescubramos a adoração, porque adorar não é perder tempo, mas permitir a Deus que habite o nosso tempo; é fazer florescer em nós a semente da encarnação, é colaborar na obra do Senhor, que, como o fermento, muda o mundo. Adorar é interceder, reparar, consentir a Deus que endireite a história. Um grande narrador de feitos épicos assim escrevia ao seu filho: «Ofereço-te a única coisa grande que se deve amar sobre a terra: o Santíssimo Sacramento. Lá encontrarás encanto, glória, honra, fidelidade e o verdadeiro caminho de todos os teus amores na terra» (J.R.R. Tolkien, Carta 43, março de 1941).
Irmãos e irmãs, nesta noite, o amor muda a história. Fazei, Senhor, que acreditemos no poder do vosso amor, tão diverso do poder do mundo. Senhor, fazei que, à semelhança de Maria, José, os pastores e os magos, nos estreitemos ao vosso redor para Vos adorar. Feitos por Vós mais semelhantes a Vós, poderemos testemunhar ao mundo a beleza do vosso rosto.
No dia de Natal

ALEGRA-TE, TU QUE TE VÊS FALHO DE CONFIANÇA E DE CERTEZAS, PORQUE NÃO ESTÁS SOZINHO, NÃO ESTÁS SOZINHA: CRISTO NASCEU PARA TI!
MENSAGEM URBI ET ORBI
DO PAPA FRANCISCO
NATAL 2023
Segunda-feira, 25 de dezembro de 2023
Queridos irmãos e irmãs, feliz Natal!
O olhar e o coração dos cristãos de todo o mundo estão voltados para Belém; lá, onde nestes dias reinam a dor e o silêncio, ressoou o anúncio esperado há séculos: «Nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2, 11). Trata-se das palavras do anjo no céu de Belém, que são dirigidas também a nós. Enche-nos de confiança e esperança saber que o Senhor nasceu para nós; que a Palavra eterna do Pai, o Deus infinito, fixou a sua morada entre nós. Fez-Se carne, veio «habitar connosco» (Jo 1, 14): esta é a notícia que muda o curso da história!
O anúncio de Belém é o anúncio duma «grande alegria» (Lc 2, 10). Qual alegria? Não a felicidade passageira do mundo, nem a alegria da diversão, mas uma alegria «grande» porque nos faz «grandes». De fato hoje nós, seres humanos, com as nossas limitações, abraçamos a certeza duma esperança inaudita: a esperança de termos nascido para o Céu. Sim, Jesus nosso irmão veio fazer do Seu Pai o nosso Pai: Menino frágil, revela-nos a ternura de Deus e muito mais… Ele, o Unigênito do Pai, dá aos homens o «poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12). Eis a alegria que consola o coração, renova a esperança e dá a paz: é a alegria do Espírito Santo, a alegria de ser filhos amados.
Irmãos e irmãs, hoje em Belém, por entre as trevas da terra, acendeu-se esta chama inextinguível; hoje, sobre as trevas do mundo, prevalece a luz de Deus, que «a todo o homem ilumina» (Jo 1, 9). Irmãos e irmãs, alegremo-nos por esta graça! Alegra-te, tu que te vês falho de confiança e de certezas, porque não estás sozinho, não estás sozinha: Cristo nasceu para ti! Alegra-te, tu que perdeste a esperança, porque Deus te estende a mão: não aponta o dedo contra ti, mas oferece-te a sua mãozinha de Menino para te libertar dos medos, aliviar-te das canseiras e mostrar-te que, aos olhos d’Ele, vales mais do que qualquer outra coisa. Alegra-te, tu que tens a paz no coração, porque se cumpriu para ti a antiga profecia de Isaías: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado (…) e o seu nome é: (…) Príncipe da paz» (9, 5). A Sagrada Escritura revela que a sua paz, o seu reino «não terá fim» (9, 6).
Na Bíblia, ao Príncipe da paz opõe-se o «príncipe deste mundo» (Jo 12, 31), que, semeando a morte, atua contra o Senhor, «amante da vida» (Sab 11, 26). Vemo-lo atuar em Belém, quando, depois do nascimento do Salvador, se verifica a matança dos inocentes. Quantas matanças de inocentes no mundo! No ventre materno, nas rotas dos desesperados à procura de esperança, nas vidas de muitas crianças cuja infância é devastada pela guerra. São os pequeninos Jesus de hoje, estas crianças cuja infância é devastada pela guerra, pelas guerras.
Deste modo dizer «sim» ao Príncipe da paz significa dizer «não» à guerra. E isto com coragem: dizer «não» à guerra, a toda a guerra, à própria lógica da guerra, que é viagem sem destino, derrota sem vencedores, loucura indesculpável. Isto é a guerra: viagem sem destino, derrota sem vencedores, loucura indesculpável. Mas, para dizer «não» à guerra, é preciso dizer «não» às armas. Com efeito, se o homem, cujo coração é instável e está ferido, encontrar instrumentos de morte nas mãos, mais cedo ou mais tarde usá-los-á. E como se pode falar de paz, se cresce a produção, a venda e o comércio das armas? Hoje, como no tempo de Herodes, as conspirações do mal, que se opõem à luz divina, movem-se à sombra da hipocrisia e do escondimento. Quantos massacres armados acontecem num silêncio ensurdecedor, ignorados de tantos! O povo, que não quer armas mas pão, que tem dificuldade em arcar com as despesas quotidianas, ignora quanto dinheiro público é destinado a armamentos. E, contudo, devia sabê-lo! Fale-se disto, escreva-se sobre isto, para que se conheçam os interesses e os lucros que movem os cordelinhos das guerras.
Isaías, que profetizara o Príncipe da paz, deixou escrito que virá um dia em que «uma nação não levantará a espada contra outra»; um dia em que os homens «não se adestrarão mais para a guerra», mas «transformarão as suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças em foices» (2, 4). Com a ajuda de Deus, esforcemo-nos para que se aproxime esse dia!
Aproxime-se em Israel e na Palestina, onde a guerra abala a vida daquelas populações. A todas abraço, em particular às comunidades cristãs de Gaza – à paróquia de Gaza – e de toda a Terra Santa. Trago no coração a dor pelas vítimas do execrável atentado de 7 de outubro passado, e renovo um premente apelo pela libertação de quantos se encontram ainda reféns. Suplico que cessem as operações militares, com o seu espaventoso rasto de vítimas civis inocentes, que se ponha remédio à desesperada situação humanitária, possibilitando a entrada das ajudas. Não se continue a alimentar violência e ódio, mas avance-se no sentido duma solução para a questão palestiniana, através dum diálogo sincero e perseverante entre as Partes, sustentado por uma forte vontade política e pelo apoio da comunidade internacional. Irmãos e irmãs, rezemos pela paz na Palestina e em Israel.
Depois o meu pensamento volta-se para a população da atribulada Síria, bem como para a do Iémen, mergulhada no sofrimento.
Penso no amado povo libanês e rezo para que possa em breve encontrar estabilidade política e social.
Com os olhos fixos no Menino Jesus, imploro a paz para a Ucrânia. Renovemos a nossa proximidade espiritual e humana ao seu martirizado povo, para que, graças ao apoio de cada um de nós, possa sentir o amor concreto de Deus.
Aproxime-se o dia da paz definitiva entre a Arménia e o Azerbaijão. Seja ela favorecida através da prossecução das iniciativas humanitárias, o regresso dos deslocados às suas casas na legalidade e em segurança, e o respeito mútuo pelas tradições religiosas e locais de culto de cada comunidade.
Não esqueçamos as tensões e os conflitos que transtornam a região do Sahel, o Corno da África, o Sudão, bem como os Camarões, a República Democrática do Congo e o Sudão do Sul.
Aproxime-se o dia em que serão reforçados os laços fraternos na península coreana, abrindo percursos de diálogo e reconciliação que possam criar as condições para uma paz duradoura.
O Filho de Deus, feito humilde Menino, inspire as autoridades políticas e todas as pessoas de boa vontade do continente americano para se encontrarem soluções idóneas a fim de superar os dissídios sociais e políticos, lutar contra as formas de pobreza que ofendem a dignidade das pessoas, aplanar as desigualdades e enfrentar o doloroso fenômeno das migrações.
Reclinado no presépio, o Menino pede-nos para sermos voz de quem não tem voz: a voz dos inocentes, que morreram por falta de água e pão; voz de quantos não conseguem encontrar emprego ou que o perderam; voz de quem é constrangido a abandonar a sua terra natal à procura dum futuro melhor, arriscando a vida em viagens extenuantes e à mercê de traficantes sem escrúpulos.
Irmãos e irmãs, aproxima-se o tempo de graça e esperança do Jubileu, que vai começar dentro de um ano. Que este período de preparação seja ocasião para converter o coração; para dizer «não» à guerra e «sim» à paz; responder com alegria ao convite do Senhor que nos chama, como profetizou Isaías, «para levar a boa-nova aos pobres, para curar os desesperados, para anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros» (61, 1).
Estas palavras cumpriram-se em Jesus (cf. Lc 4, 18), hoje nascido em Belém. Acolhamo-Lo, abramos o coração a Ele, o Salvador! Abramos o coração a Ele, o Salvador, que é o Príncipe da paz!
No dia 26 de dezembro de 2023

EU ME INTERESSO E REZO POR AQUELES QUE, EM VÁRIAS PARTES DO MUNDO, AINDA HOJE SOFREM E MORREM PELA FÉ?
FESTA DE SANTO ESTÊVÃO PROTOMÁRTIR
PAPA FRANCISCO
ANGELUS
Praça de São Pedro, terça-feira, 26 de dezembro de 2023
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje, logo após o Natal, celebramos Santo Estêvão, o primeiro mártir. Encontramos o relato de seu martírio nos Atos dos Apóstolos (cf. caps. 6-7), que o descrevem como um homem de boa reputação, que servia às mesas e administrava a caridade (cf. 6,3). E é precisamente por essa generosa integridade que ele não pode deixar de testemunhar o que tem de mais precioso: a fé em Jesus, o que desencadeia a ira de seus oponentes, que o apedrejam impiedosamente. E tudo acontece diante de um jovem, Saulo, um zeloso perseguidor dos cristãos, que atua como “garantidor” da execução (cf. 7,58).
Pensemos por um momento nessa cena: Saulo e Estêvão, o perseguidor e o perseguido. Entre eles parece haver um muro impenetrável, tão sólido quanto o fundamentalismo do jovem fariseu e as pedras lançadas contra o condenado à morte. No entanto, além das aparências, há algo mais forte que os une: através do testemunho de Estêvão, o Senhor já está preparando no coração de Saulo, sem ele saber, a conversão que o levará a ser um grande Apóstolo. Estêvão, seu serviço, sua oração e a fé que anuncia, sua coragem e, acima de tudo, seu perdão no momento da morte, não são em vão. Costumava-se dizer, nos tempos das perseguições – e ainda hoje é justo dizer – “o sangue dos mártires é semente de cristãos”. Parecem terminar no nada, mas na realidade o sacrifício deles lança uma semente que, correndo na direção oposta às pedras, se planta, de forma oculta, no peito de seu pior rival.
Hoje, dois mil anos depois, infelizmente vemos que a perseguição continua: há perseguição aos cristãos… Ainda há – e são muitos – aqueles que sofrem e morrem para testemunhar Jesus, assim como há aqueles que são penalizados em vários níveis por agir de forma coerente com o Evangelho, e aqueles que lutam todos os dias para permanecerem fiéis, sem alarde, aos seus deveres, enquanto o mundo ri e prega outra coisa. Também esses irmãos e irmãs podem parecer fracassados, mas hoje vemos que não é assim. Agora como naquela época, o semente de seus sacrifícios, que parece morrer, brota, frutifica, porque Deus através deles continua a realizar maravilhas (cf. At 18,9-10), a mudar os corações e a salvar os homens.
Perguntemo-nos então: eu me interesso e rezo por aqueles que, em várias partes do mundo, ainda hoje sofrem e morrem pela fé? Muitos são assassinados pela fé. E, por sua vez, busco testemunhar o Evangelho com coerência, mansidão e confiança? Acredito que a semente do bem dará frutos, mesmo que não veja resultados imediatos?
Maria, Rainha dos mártires, ajude-nos a testemunhar Jesus.
Depois do Angelus
Queridos irmãos e irmãs,
renovo a todos vocês os votos de paz e bem que brotam do Natal do Senhor. E aproveito esta oportunidade para agradecer a todos que me enviaram mensagens de felicitação de Roma e de tantas partes do mundo. Obrigado, especialmente por suas orações! E continuem rezando pelo Papa! É necessário.
Sob o sinal do testemunho de Santo Estêvão, estou próximo às comunidades cristãs que sofrem discriminações e as exorto a perseverar na caridade para com todos, lutando pacificamente pela justiça e pela liberdade religiosa.
À intercessão do primeiro Mártir confio também a invocação pela paz dos povos assolados pela guerra. A mídia nos mostra o que a guerra produz: vimos a Síria, vemos Gaza. Pensemos na martirizada Ucrânia. Um deserto de morte. É isso que queremos? Os povos querem a paz. Oremos pela paz. Lutemos pela paz.
Dirijo meu cumprimento a vocês, romanos e peregrinos, famílias, grupos paroquiais, comunidades religiosas, associações. Convido todos a contemplarem o grande Presépio da Praça de São Pedro, inspirado naquele que São Francisco fez em Greccio oitocentos anos atrás. Observando as estátuas, vocês verão nos rostos e nas atitudes um traço comum: o assombro. Verão um assombro que se torna adoração. Deixemo-nos atingir pelo assombro diante do nascimento do Senhor. Desejo a vocês que guardem isso dentro de vocês: o assombro que se torna adoração.
E obrigado a todos vocês, aos meninos da Imaculada, e a tantos que estão aqui na frente!
Feliz festa a todos! E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim. Bom almoço e até logo.






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